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APÓS UM SÉCULO DE DOMÍNIO COLONIAL

O Panamá recupera seu canal

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Faltam poucos dias para que os EUA restituam o canal aberto entre 1903 e 1914 e deixem uma zona de 1474 quilômetros quadrados onde exerciam total soberania. Mas a presença estrangeira (agora também chinesa…) no Panamá continua enorme, e Washington mantém amplas prerrogativas militares sobre o país que criou artificialmente, no início do século.

Maurice Lemoine - (01/12/1999)

Curioso país. De certo modo, a capital parece com Miami. Os bancos acotovelam-se, o World Trade Center não ficaria mal na foto de família dos notáveis das finanças internacionais, o dinheiro corre a rodos.

Todas as noites, a extensa Avenida Balboa, que margeia a baía da Cidade do Panamá, enfeita-se com um falso ar de Monte Carlo. Ao volante de automóveis de 50 mil dólares, a juventude dourada dedica-se a corridas infernais, sem que a polícia diga palavra. Enquanto isto, as escolas caem aos pedaços; não há algodão nem álcool nos hospitais. Os seguranças acantonados à frente dos centros comerciais recebem 180 dólares por mês. Uma vendedora recebe menos de 250 dólares, assim como mais de metade das pessoas que têm emprego. Em San Miguelito, na periferia da capital, reencontra-se a América Central. É ainda pior em Colón, na costa caribe, a segunda cidade do país. Casas em madeira, vagamente coloniais, totalmente arruinadas. Roupas floreadas nos balcões, vielas nauseabundas entre os blocos de apartamentos, odores de indigência e de urina, montes de sujeira jamais recolhida. Delinqüência endêmica, atmosfera de armadilha tropical. Uma cidade inteira deixada ao abandono.

Regresso a Panama City, a um edifício luxuoso. Face a uma larga vitrina fosca, um homem maciço contempla a baía que se estende até ao quarteirão da alta finança. Desvia os olhos e dá, sobre a direita, ao longe, com a silhueta arrojada da Ponte das Américas, equilibrada sobre a entrada do canal. Uma mímica enervante. O homem é americano. Sem receio do pleonasmo, apresenta-se como republicano e... conservador. E este canal, que vai ser necessário entregar no final do ano, fica-lhe atravessado na garganta. "Em 1977, foi um terrível erro estratégico os Estados Unidos terem aceitado a transferência". O homem encolhe os ombros. Com o ar de quem não lhes pode tocar, deixa transparecer todo o mal que pensa dos panamenhos. Em seguida, volta-se para o canal. "É triste, é agridoce ver levar a bandeira desta obra fantástica. E isto não é colonialismo. A prova é que a única parte desenvolvida do país é precisamente a zona americana...".

Desde que, a 15 de Agosto de 1914, um barco a vapor de 100 toneladas, o SS Ancon, efetuou a primeira travessia do Atlântico para o Pacífico, o Panamá é, antes de tudo, um canal. E quase um protetorado. Foi uma "rebelião espontânea" protegida pelos navios de guerra de Theodore Roosevelt que fez desta província colombiana um Estado independente, criado, com todas as suas peças, a 4 de Novembro de 1903. Duas semanas após a secessão, e uma troca de 10 milhões de dólares, o tratado de Hay-Brunau-Varilla concedia aos Estados Unidos uso perpétuo de um canal ainda a abrir e de uma zona de oito quilômetros em cada uma das suas margens, bem como a "total soberania" neste conjunto.

Uma tutela inaceitável

O que se seguiu é sabido (nem sempre muito bem). Este Estado dentro do Estado que constitui a Canal Zone ofende o sentimento nacional. Mais ainda porque é irritante a arrogância dos habitantes da Canal Zone, os mestres coloniais que ali se instalaram. Suas 53 igrejas e templos, suas confortáveis residências brancas rodeadas de relva bem tratada e de campos de golfe a perder de vista, os clubes de churrasco e os automóveis resplandecentes ofendem em demasia as ruínas piolhentas dos bairros que as envolvem. Como suportar os gringos que lavam seus filhos com água mineral, quando se vê os seus morrer de desidratação nos pardieiros do bairro curiosamente denominado Hollywood, emaranhado viscoso de casas de madeira, que tresanda a temperos e a suor, situado no limite da zona?

Aparece inesperadamente o general Omar Torrijos. Chegado ao poder em 1968, através de um golpe de Estado que destronou a oligarquia, nacionalista intransigente inspirado pelo coronel Gamal Abdel Nasser (que tinha sabido nacionalizar o canal de Suez), abastecido por Fidel Castro com conselhos de prudência, o general lançou-se num combate tenaz para pôr fim ao estatuto colonial imposto sobre uma parte do seu país. A quem quer ouvi-lo, gosta de repetir: "Não quero entrar na História, quero entrar na zona do canal" [1].

Perante o Congresso dos Estados Unidos, Henry Kissinger toma nota desta determinação: "Um bloqueio das negociações com o Estado panamenho conduzirá, fatalmente, ao surgimento de uma guerra de guerrilha face à qual a via marítima será muito vulnerável". Apesar da gritaria do senador Ronald Reagan — que, durante a campanha eleitoral de 1976, tinha vituperado: "Construímos o canal, pagamos por ele e vamos guardá-lo!" —, o presidente Jimmy Carter, assinou com Torrijos, em 7 de Setembro de 1977, os acordos que ficarão com os nomes dos dois estadistas: "Carter-Torrijos". Celebrou-se a transferência ao Panamá da soberania sobre o canal, a 31 de dezembro de 1999. Acertou-se também o abandono progressivo das bases militares americanas instaladas na zona de proteção.

Os Estados Unidos conservam duas prerrogativas até a expiração do tratado: o direito de fazer funcionar o canal, dispondo das águas e das terras necessárias, e a responsabilidade primeira da sua defesa. A administração da via interoceânica e das suas instalações foi confiada à Comissão do Canal do Panamá, estabelecimento público norte-americano, regido pela legislação dos Estados Unidos e dirigido por nove membros: cinco americanos e quatro panamenhos. Todos são nomeados pelas autoridades dos Estados Unidos, que dispõem, assim, do poder de os destituir. A 31 de Dezembro próximo, depois da meia-noite, esta comissão será substituída pela Autoridade do Canal do Panamá, a partir de então totalmente panamenha. Para os panamenhos será uma data simbólica: a emancipação de quase um século de tutela imposta pelo Tio Sam.

O sol já rompeu o céu quando, às 7h30 precisas, um carro branco da Comissão do Canal pára nas proximidades dos hangares do porto de Cristobal (costa atlântica). Dele saem três homens, que sobem para uma embarcação e se dirigem para as 55 mil toneladas de um petroleiro. Zarpado da Venezuela, este tem por destino a Califórnia. Às 8h15, os três pilotos, já a bordo, saúdam o comandante do "tanker". Avisam o coordenador do porto de que vão se lançar ao mar. A enorme massa agita-se. Às 8h50, os rebocadores Harding e Mehaffey entram em cena. Como cães de guarda colocados à popa e à proa a estibordo, dirigem lentamente o navio para o primeiro jogo de eclusas, o de Gatun. [2] Como os 13 mil barcos que transitam todos os anos (37 por dia, em média), em 12 horas e 80 quilômetros o petroleiro chegará ao outro oceano, evitando um formidável desvio de 14 800 quilômetros ao longo das costas do continente sul-americano e o perigoso estreito de Magalhães.

A "enorme responsabilidade"

Canal Zone. Balboa. Uma cidade como nenhuma outra na região. Em volta dos edifícios públicos — Liceu de Balboa, posto dos correios, estação de ferro (desativada e transformada em centro comercial) e quartel dos bombeiros — estão os bairros das pequenas casas brancas de um ou dois andares, sob telhados vermelhos. Ruas largas, gramados traçados a régua e esquadro, calma inusitada, tudo sugere a ordem e a precisão. No cimo de uma colina, o imponente prédio da administração do canal domina o conjunto. Por mais alguns meses, o estandarte estrelado ladeia a bandeira panamenha.

No interior, no seu gabinete espaçoso, Jaime Bocanegra, gerente do gabinete de administração da transição, está consciente da dimensão da tarefa que aguarda os seus concidadãos. Todo o comércio mundial seria afetado por um mau funcionamento do canal. Até agora, uma eficácia toda americana presidiu à sua gestão. Tão pouco sensível aos grandes debates geopolíticos como à soberania nacional panamenha, a comunidade marítima e comercial quase não esconde que teme a era pós-gringos. "O canal é uma grande responsabilidade para o Panamá", admite Bocanegra. Pouco adepto das meias palavras, precisa o seu pensamento: "Temos um pouco de medo. Isto pode comparar-se ao dia do casamento. Estamos felizes por casar, mas, ao tempo, existe um receio face a esta nova vida...".

No entanto, o otimismo tem encontro marcado com a História: "Vivemos o fato como um desafio. Vamos demonstrar que estamos à altura".

No domínio técnico, as inquietações são, sem dúvida, vãs. Em 1979, 60% a 65% dos trabalhadores do canal eram panamenhos, sendo os cargos de responsabilidade ocupados pelos americanos. Vinte anos depois, o administrador (a mais alta autoridade) é panamenho, bem como quase toda a estrutura executiva, administrativa e técnica. Todos os quadros de um certo nível foram formados nos Estados Unidos. Entre 7929 trabalhadores, apenas 6,8%, em 1998, ainda eram americanos — no final de 1999, serão apenas entre 2% e 3%.

Mas os políticos locais não inspiram uma confiança exagerada. Depois da detenção do general Noriega, em Dezembro de 1989, são os próprios panamenhos que brincam: "Os gringos apanharam Ali Babá, mas nos deixaram os 40 ladrões!"

Continuará o canal a funcionar com a mesma eficácia, ou irá tornar-se uma teta da vaca, refém das lutas e apetites políticos, em prejuízo da sua manutenção [3]?

Jóia do exército norte-americano

É certo que, em maio de 1996, durante uma reunião promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), as organizações políticas e sociais panamenhas prometeram manter a via interoceânica à margem dos interesses partidários e corporativos. Também aqui, Bocanegra mostra-se tranqüilizador: "A lei prevê que, na Junta Diretiva da Autoridade do Canal, apenas duas pessoas tenham um laço político direto: o presidente, que tem a equivalência a um ministro de Estado e é nomeado pelo presidente da República; e um membro designado pela Assembléia Legislativa. Os outros nove são nomeados por nove anos. É uma garantia de independência, a sua posição está assegurada".

Contudo, não escapou a ninguém que, ao anunciar a escolha dos diretores que vão gerir o canal a partir de 1 de Janeiro de 2000, o presidente da República, Pérez Balladares, nomeou, entre os 11 membros, quatro pessoas da sua família e da sua mulher. "Diferentemente de Estados onde a administração pública e os negócios estão separados" — trejeita Juan Materno —, "aqui eles se confundem. Quem vai dirigir o canal? Os políticos? Não é precisamente o melhor método. Daqui vão resultar as nossas dificuldades".

O homem não é um opositor "primário". Fundador, com o general Torrijos, do Partido Revolucionário Democrático (PRD) no poder, demitiu-se dele durante o período de Noriega. Desde então, não reintegrou o partido, contaminado pela corrupção e pelo desvio neoliberal.

Até ao último instante, a extrema direita conservadora americana, que goza de um importante apoio no Congresso, particularmente através do senador republicano Jesse Helms, bateu-se para impedir a restituição. Causa perdida.

A 1º de Abril de 1999, perto da entrada atlântica do canal, a bandeira estrelada foi lentamente deslocada para uma das jóias da US Army: Fort Sherman. Único centro de treino do exército americano em combate na selva, a sua extensão autorizava as manobras de batalhões de 500 homens. Permitiu a formação de cerca de 100 mil soldados, que participaram, entre outras, na frente do Pacífico da II Guerra Mundial, no conflito do Vietnã, na Guerra do Golfo e na... invasão do Panamá! A 8 de Janeiro de 1998, acontecimento também simbólico, o embaixador dos Estados Unidos remeteu ao ministro dos Negócios Estrangeiros panamenho, Ricardo Arias, a chave de Quary Heights, quartel-general do Southern Command (Comando Sul), sede de todas as operações militares de Washington na América Latina.

Catorze bases, mais de dez mil soldados em 1979. Para defender o canal? Certamente que não. "A presença dos Estados Unidos no nosso território sempre teve por objetivo projetar o seu poder militar em todo o continente", explica, calmamente — mas sem simpatia excessiva —, Daniel Delgado, antigo oficial da força de defesa panamenha, dissolvida pelos Estados Unidos depois da operação "Justa Causa", em 1989. Howard e Albrook (bases aéreas), Rodman (Marinha), Fort Amador e Fort Kobb (Brigada de Infantaria 193), ilha de Galeta (centro de espionagem continental)... Durante décadas, sob pretexto de proteger o canal, estas instalações serviram de centros de ensaios de armas e de tecnologias militares [4], de bases de apoio aos golpes de Estado, a operações de contra-insurreição, a intervenções secretas ou não na Colômbia, na Bolívia, em Granada, na América Central...

A alguns meses de 31 de dezembro, permaneciam no Panamá 3.600 soldados americanos. E alguns problemas não resolvidos nos polígonos de tiro de Emperador (2.556 hectares), Balboa Oeste (3.727 ha) e Pina (2.556 ha). Na véspera da retirada, e à revelia do artigo IV dos acordos, que obriga a "eliminar tudo o que constitua uma ameaça para a vida, a saúde e a segurança humanas", quase um terço das áreas (3.280 ha) continuavam entupidas de munições e de explosivos não desativados [5]. O tenente-coronel Reynold Hoover, encarregado da neutralização do material explosivo, afirma que uma tentativa para limpar completamente esta zona poderia causar danos irreparáveis à flora, à fauna e à vida da floresta.

As bombas que ficam

Daniel Delgado, atualmente secretário-geral no ministério dos Negócios Estrangeiros, explode: "Eles falam do meio ambiente e dizem que é necessário proteger esta magnífica floresta, mas, durante 80 anos, lançaram-lhe em cima as suas granadas e bombas! Isto não é aceitável. Estas zonas devem ser limpas. Constituem uma ameaça para as pessoas e uma limitação aos projetos que queremos lá executar no futuro".

Washington faz ouvidos moucos. A limpeza em questão custaria 150 milhões de dólares. Estamos no Panamá, não na Califórnia. Lá, após o fechamento (iniciado em 1988) de 22 bases, diz a publicação El Panama-America, ninguém fez má cara para pagar os 2,5 bilhões de dólares necessários para a mesma operação.

O país prepara-se para receber 23 074 hectares, 870 instalações de todas as espécies e os últimos quatro mil alojamentos abandonados pelos militares e técnicos americanos. No fim do ano, o último soldado do "império" terá deixado o Panamá. "Será uma grande festa" — alegra-se desta vez Daniel Delgado. "Será a festa de Bolívar, de José Marti, de Omar Torrijos, de todos os patriotas latino-americanos". Nesse caso, como explicar o desencantamento espelhado na cara de tantos panamenhos?

O homem mora num bairro modesto mas nada miserável. Uma ligeira amargura deprime-lhe os lábios. "Trabalhava como cozinheiro, por 500 dólares mensais, numa cantina militar dos gringos. Quando a base fechou, perdi o meu emprego. Encontrei outro, por sorte, na famosa cadeia de restaurantes Niko Café. Mas não ganho mais que 220 dólares. Já não posso pagar o aluguel do meu apartamento". Muitos tiveram de largar os seus trabalhos nas bases — empregados, jardineiros, lavadeiras — sem terem podido ainda se reintegrar. A retirada dos "boys" significa, além disso, a perda de uma população que se beneficiava de bons salários e que gastava sem fazer contas. Os gerentes dos supermercados e os vendedores de automóveis mostram a sua angústia, os comerciantes de bens de primeira necessidade põem as mãos na cabeça: se um apartamento num bairro agradável se aluga por 750 dólares, para um oficial gringo ficava por 1500.

Hotéis e restaurantes lamentam o desaparecimento de turistas de um gênero um pouco particular: esses americanos que vinham visitar os seus amigos militares nas margens deste canal exótico. Mais que os outros, os taxistas soltam a sua infâmia, privados de gorjetas generosas... Desde 1995, o mal estar tornou-se perceptível. "Houve bastantes estudos", lembra-se Fernando Kant, militante do Movimento Popular Papa Egoro [6], "e eles afirmam todos que os panamenhos não desejavam a retirada das bases". Com um sorriso um pouco enfadado na cara, reflete em voz alta. "Talvez seja porque fomos habituados, durante toda a nossa vida republicana, a viver sob o guarda-chuva americano...". Criando 22 mil empregos e injetando 350 milhões de dólares na economia, 8800 soldados americanos encontravam-se ainda na zona este ano [7]. Ligado ao sindicato americano AFL-CIO, o Local 907, sindicato representativo dos 3.200 assalariados panamenhos das bases militares, organiza virulentas campanhas sobre as "dramáticas" conseqüências da retirada das tropas norte-americanas. De repente, o Panamá hesita, incapaz de definir se deseja ser totalmente independente ou continuar uma colônia. Como em outras partes, "independentistas" e "colaboradores" se enfrentam.

A ocasião é demasiado bela. Desde a operação "Justa Causa", o tema da permanência da presença militar americana após o ano 2000 era recorrente. O governo de Balladares, apesar de saído do PRD, um partido de tradição anti-imperialista, veria com bons olhos os Estados Unidos manterem algumas instalações (na condição de não serem demasiado visíveis!). Por seu lado, e apesar de as condições geopolíticas terem mudado — as guerrilhas da América Central transformaram-se em partidos social-democratas e estão sediadas nas respectivas Assembléias —, o Pentágono gostaria de conservar algumas instalações destinadas ao treino de combate na selva, para o qual a topografia e a flora do Panamá são perfeitas. Além do mais, mesmo que já não seja indispensável, esta implantação facilita o seu raio de ação e as suas capacidades operacionais na região.

A trama que não funcionou

Nascidas de um acordo informal entre o ministro dos Negócios Estrangeiros panamenho, Gabriel Lewis Galindo, e o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, William J. Hughes, as conversações começaram quando da visita de Pérez Balladares a Washington, em Setembro de 1995. Em clara violação dos acordos Carter-Torrijos, continuaram durante dois anos. No maior dos segredos. Em troca de uma renda anual e da entrada no Acordo de Comércio Livre Norte-Americano (ALCA), o governo panamenho está pronto a permitir que os Estados Unidos conservem as bases de Howard, Sherman, Rodman e da ilha de Galeta. A 23 de Dezembro de 1997, os dois governos admitiram que um acordo fora concluído e que apenas lhe faltavam as assinaturas. Para encobrir a operação, vai ser criado um Centro Multilateral Antidroga (CMA), centro civil de 2000... militares, a que terão acesso outros países latino-americanos (México, Colômbia, Brasil, Peru, etc...).

"Pelo que pudemos apurar" — relata John Evans com a extrema circunspecção de um diretor executivo no Ministério dos Negócios Estrangeiros (panamenho) —, "as conversações foram suspensas. Qualquer processo desta natureza implica esforços das duas partes, e parecia que esta vontade não existia". O presidente Balladares tem de enfrentar a virulenta oposição dos que não renegaram Torrijos. Sofreu uma pesada derrota no referendo organizado a 30 de Agosto de 1998 para reformar a Constituição, o que impede a sua reeleição imediata para um segundo mandato. Por seu lado, e apesar de todo o seu interesse na operação, os Estados Unidos têm um rancor tenaz.

Depois de anos de pressão panamenha para os forçar a retirar, está fora de questão, para as bases futuras, o pagamento de qualquer aluguel: a presença do CMA será, por si só, uma contribuição econômica suficiente.

A trama naufraga definitivamente quando é tornado público o artigo A do tratado em negociação: prevê a utilização de bases para combater os "delitos conexos". Trata-se, de fato, de poder realizar ações de contra-insurreição. Na mais pura tradição! "Isto não podia ser aceito" — deixou escapar, a posteriori, Eduardo Morgan, antigo embaixador do Panamá em Washington — "nem por nós nem pelos outros países da região. Tratava-se de uma base disfarçada". De resto, confirma um observador bem informado, nem Washington nem o Panamá jamais receberam o apoio dos países supostos de integrar o CMA (à exceção do Peru): "Os mexicanos disseram: já sofremos bastante com o intervencionismo dos americanos; os brasileiros, a mesma coisa; a Colômbia teria aceito na condição de ser igualmente controlado o tráfico de armas...". O presidente americano, Bill Clinton, não insiste. Não tem nada a ganhar em aparecer como "aquele que põe em causa os tratados".

Legalmente, os Estados Unidos são tidos por respeitar a sua palavra, e o cenário modificou-se o suficiente para que possam renunciar a esta presença, ao sul do Rio Grande, sem correrem grandes riscos [8]. As negociações foram interrompidas em Setembro de 1998. Os gringos vão embora. Os panamenhos sonhavam com um recuo grandioso, com uma retomada magnífica, com o povo em festa na zona finalmente sua. Assistem à sua privatização urgente, sob a batuta de uma entidade autônoma do Estado, a Autoridade da Região Interoceânica (ARI).

No entanto, num primeiro momento, quem ousaria estragar o seu prazer? Aqui, nas margens do lago Gatun, num dilúvio de marteladas e de rangidos de betoneiras, a tristemente célebre Escola das Américas — que formou gerações de torturadores e dezenas de milhares de oficiais latino-americanos na luta anti-subversiva — transforma-se num hotel (espanhol) de 250 quartos, dotado de três restaurantes, várias piscinas e uma marina. Ali, o canteiro de demolição de Fort Amador dará lugar ao complexo hoteleiro de um consórcio americano-coreano. Na antiga base de Albrook vão se instalar brevemente reformados americanos que decidiram passar a terceira idade nos 146 apartamentos adquiridos pela comunidade dos reformados do canal por seis milhões de dólares...

Em Setembro de 1998, Nicolas Ardito Barletta, diretor da ARI (igualmente ex-vice-presidente do Banco Mundial e ex-presidente da República), estimava que cerca de 7 mil edifícios e outras instalações, de um valor calculado em quatro bilhões de dólares, seriam vendidos a interesses privados, majoritariamente estrangeiros.

Um grande centro marítmo?

O Panamá possui todos os trunfos para se tornar num grande centro de transbordo. Dispõe de uma clientela fixa de 13 mil navios de grande tonelagem, que atravessam o canal e demoram, em média, 24 horas nas suas água. No setor atlântico, próximo da Zona Franca de Colon (ZLC), o Manzanillo International Terminal (MIT) foi inaugurado sobre as antigas instalações da US Navy em Coco Solo. O grupo americano Stevedoring Services of the America (SSA) investiu ali 210 milhões de dólares. Em Agosto de 1996, a companhia de Hong Kong Hutchison Port Holding (HPH) recebeu a concessão dos dois portos mais importantes, Cristobal e Balboa, cada um situado numa extremidade do canal. O terminal de containers de Colon, entregue à companhia de Taiwan Evergreen e a um associado local, começou as suas operações em outubro de 97. O conjunto Balboa-Cristobal-Manzanillo, outrora condicionado pela presença das bases marítimas americanas, pode receber mais de um milhão de containers por ano e espera dobrar esse número em 2000. Que quer o povo?

"Existe uma grande frustração" — responde indiretamente Magaly Castillo, da organização Justiça e Paz, à sombra (no sentido próprio e figurado) da Igreja Católica. "Continuamos a não poder pisar esta zona do canal pela qual tanto lutamos. Observe o monte Ancon (em Balboa). É agora um enclave de diplomatas, de estrangeiros e de membros das classes privilegiadas, no qual não se pode entrar. Nunca um membro da classe média poderá se instalar ali. Imagine então as camadas populares...". O preço médio de venda dos alojamentos individuais recuperados oscila entre 30 e 35 mil dólares. Só uma elite preocupada em abandonar a capital congestionada ocupa este novo (e antigo) bairro residencial. Nas mais belas das residências, e através de concessões diretas e muito pouco legais, membros do governo estabeleceram os seus redutos.

Quanto ao modelo de desenvolvimento adotado [9], ninguém apostará que é confiável. A começar pelo turismo, que ocupa o primeiro lugar com dezenas de projetos ambiciosos. Os mais confiantes entusiasmam-se: "Passam pelo canal dezenas de cruzeiros que não páram. É um turismo ao nosso alcance. Eles podem fazer escala aqui. Conhece os adeptos deste tipo de cruzeiro: são, em 90%, americanos que comem "pop-corn" e sorvetes durante todo o dia; que desembarcam e vão comprar "t-shirts" ou jogar no casino. Existe um projeto em Colon, eles poderiam visitar a zona livre, fazer compras isentas de taxas, passar uma noite num novo hotel ecológico, ir ver os passarinhos...".

Os céticos balançam os ombros, resignados: "Quem faz estas viagens traz tudo consigo, até água mineral! Na baía do Panamá, existem 300 mil litros de detritos humanos! Acha que estas pessoas tomarão banho nestas águas? Não os imagino descendo do barco para comprar objetos dos índios. O ecoturismo em Gamboa? Este público não gosta de dormir numa rede e de tocar nos animais. E vá lá fazer um campo de golfe de 18 buracos com este calor!...".

As reservas são as mesmas diante da anunciada ambição de fazer do Panamá um centro marítimo de importância mundial e de apostar tudo no desenvolvimento das trocas comerciais e na mundialização. Apesar de não ter tido efeitos dramáticos no Panamá, a recente crise asiática semeou perturbações. Os produtos made in Asia continuaram a chegar ao país, mas a reexportação enfrenta problemas, pelo fato de grandes países como a Colômbia, a Venezuela e o Brasil terem reduzido drasticamente as suas compras.

Quanto ao terceiro plano da reconversão, faz cerrar os dentes dos que pensam que os poderes públicos pretendem fazer do país a Cingapura das Américas. Quando foi anunciado que os 20 mil empregos previstos a médio prazo substituirão largamente os que foram perdidos com o fechamento das bases, ninguém pôde evitar a pergunta: "Quais serão os salários? Se são ’maquiladoras’ [10], isso só vai aumentar a exploração e a pobreza!". Foram as "maquiladoras" asiáticas que investiram na antiga base de Davis. Uma dezena de empresas de Taiwan do mesmo tipo são esperadas em três futuros parques industriais. Enquanto isto, definitivamente excluído desta valsa de milhões, o resto do país continua ao abandono.

De novo o "perigo vermelho"

O "Tio Tchang" toma o lugar do "Tio Sam"! E o canal está nas mãos dos "vermelhos"! Os dois importantes portos de Cristobal e Balboa não foram entregues a uma empresa de Hong Kong? Hong Kong, ela própria, também já não entrou na esfera da China? Não foi preciso esperar muito tempo para os ultraconservadores americanos passarem à ofensiva. A Hutchison está ligada à China comunista, Pequim procura fazer com o Panamá o que a União Soviética fez com Cuba! Esta posição econômica poderia, um dia, transformar-se em posição militar...

Relação de causa-efeito? Apenas algumas semanas depois da eleição para a presidência da República da candidata da oposição, Mireya Moscoso (em 2 de maio de 1999) [11], o general Charles Wilheilm, chefe do Southern Command, colocou publicamente em dúvida a capacidade do Panamá em garantir a segurança do canal (e com razão: foram os Estados Unidos que, após a intervenção de 1989, dissolveram o exército panamenho!). A 22 de junho, o general explica em Washington, perante a comissão das relações externas do Senado, que a força pública panamenha "não está nem equipada nem organizada" para defrontar as incursões dos "grupos irregulares colombianos" (leia-se, a guerrilha) que operam junto à fronteira, e que o funcionamento do canal pode ser afetado depois da retirada dos últimos três mil soldados americanos.

Evidentemente, não se deixou de ouvir falar na necessidade de bases americanas no Panamá. Fala-se menos do tratado de neutralidade assinado pelos dois países ao mesmo tempo dos acordos Carter-Torrijos. O que permite aos Estados Unidos intervir unilateralmente, após 1999, se considerarem que a neutralidade do canal está em perigo. Quem disse que, a 31 de dezembro próximo, o Panamá retomará a sua soberania?

Publicado em agosto de 99. Traduzido pelos editores do "Diplô" em Portugal.



[1] Relatado por Graham Greene, "A la rencontre du général", Robert Laffont, Paris, 1984.

[2] As eclusas de Gatun permitem elevar os barcos 26,5 metros acima do nível das águas do mar. As de Miraflores, na costa do Pacífico, fazem, em 15 minutos, elevar os navios mais de nove metros.

[3] Atualmente, além de uma renda anual de 109 milhões de dólares ao Estado panamenho, as taxas cobradas dos navios (750 milhões de dólares) asseguram o equilíbrio do orçamento do canal. A partir do ano 2000, o Panamá será livre para gerir o orçamento global como bem entender e de fazer negócio com as operações.

[4] Em 1993, a base de Rodman acolhia 70 projéteis em urânio enfraquecido para os submeter a uma avaliação em clima tropical.

[5] Estas áreas comportam polígonos de tiro (armas de baixo calibre e espingardas), campos de tiro (morteiros e canhões) e zonas de bombardeamento a partir de aviões.

[6] Representante dos setores populares, indígenas, ecologistas, fundado em 1995 pelo cantor de salsa Rubén Blades.

[7] Em 1998, as bases militares empregavam ainda 2 mil panamenhos e as suas compras de bens e de serviços representavam 140 milhões de dólares. Se se considerarem os efeitos multiplicadores, ressalta que a retirada americana poderá custar 350 milhões de dólares, ou seja, um montante compreendido entre 3% e 4% do Produto Interno Bruto (Nord-Sud Export, Paris, 29 Maio de 1999).

[8] O centro antidroga poderia ser instalado no Equador, nas Honduras, nas ilhas caribenhas de Aruba ou Curaçao, em Guantanamo (Cuba) ou na base naval Roosevelt’s Road, em Porto Rico.

[9] Coube a um consórcio americano-panamenho (Intercarib SA/Nathan Associates Inc.), em que os interesses americanos eram maioritários, formular para a ARI o plano geral e o plano regional desta reconversão.

[10] Fábricas de subempreitada que se apóiam — através de incentivos fiscais e da suspensão das leis trabalhistas — na exploração intensiva (para não dizer escandalosa) da mão-de-obra. Ler "Les travailleurs centraméricains otages des maquilas", Le Monde Diplomatique, Março de 1998.

[11] Mireya Moscoso (Partido Arnulfista) foi eleita com 44% dos votos, à frente de Martin Torrijos, filho do general (PRD), com 38%, e do banqueiro Alberto Vallarino, com 17%.


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