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"DIPLÔ" X FINANCIAL TIMES

Contra o jornalismo de mercado, incentivar a dissidência

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Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmoronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos nos ensinaram alguma coisa, não foi a necessidade de outro totalitarismo e outra tirania — a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.

Serge Halimi - (12/12/1999)

Jornalistas e intelectuais, que fazer num mundo onde 358 bilionários detêm mais da metade de toda a riqueza da população do planeta? Um mundo em que um país, Moçambique, onde a quarta parte das crianças morre de doenças infecciosas antes de atingir a idade de cinco anos, gasta duas vezes mais com o pagamento da dívida externa do que com saúde e educação? Um mundo onde, segundo o gerente do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, "se a tendência atual se mantiver, as disparidades econômicas entre países industrializados e países em vias de desenvolvimento passarão do estágio injusto ao desumano"? Um mundo em que, no próprio âmago dos países democráticos, o dinheiro domina o sistema político a ponto de ambos se confundirem, as leis são feitas por quem assina os cheques e os cidadãos sentem tal nojo que acham melhor deixar o direito de votar apenas para os investidores?

Jornalistas e intelectuais, como podemos denunciar esta situação e propor soluções quando esses bilionários, os Bill Gates, os Rupert Murdochs, os Jean-Luc Lagardères, os Ted Turners, ou os Conrad Blacks da vida, possuem os jornais e as editoras para quem escrevemos, as emissoras de rádio em que falamos, as redes de televisão onde aparecemos? O que fazer quando a informação e a cultura disseminadas nas nações em vias de desenvolvimento provêm basicamente dos países industrializados, e quando tão pouco da informação e cultura difundida nos países industrializados provém das nações em vias de desenvolvimento? O que fazer quando os que assinam os cheques, os que redigem as leis, os que investem, os que reestruturam, os que demitem, são também os nossos patrões, os nossos anunciantes, os nossos distribuidores, os nossos interlocutores, são, enfim, quem decide?

Jornalistas e intelectuais na classe dominante

Em outros termos, neste mundo globalizado e totalitário, no atual universo globalitário, poderemos ainda nós, jornalistas e intelectuais, desempenhar o papel do contra-poder, de voz dos sem-voz? Reconfortar os que vivem preocupados e preocupar os que vivem no conforto? Como fazer isso, e mais ainda, quando alguns de nós — quase sempre os que têm mais poder e gozam de mais tempo nas emissoras — já pertencem à classe dominante tanto ou mais do que as próprias elites do mundo dos negócios?

As questões são necessárias, a resposta, inevitável: é cada vez mais difícil que façamos aquilo que devemos fazer. Conscientemente ou não, nós somos quase sempre os arautos da ordem e os ventríloquos da injustiça. E também isso é uma das consequências da globalização. É claro que ela não é inevitável: a história nos dá exemplos daqueles que derrubaram o inderrubável. Mas os grandes meios de comunicação de massa, instrumentos de exercício do poder pelos que o ocupam, tentam por toda e qualquer forma convencer-nos do caráter "incontornável" da grande transformação capitalista deste fim de século. E ainda persuadir-nos que, de resto, essa transformação é desejável. No entanto, não serão os jornalistas e os intelectuais que irão deixar passar despercebido o impacto de uma ideologia disseminada 24 horas por dia num mundo sem sono nem fronteiras.

Há dois anos e meio, Le Monde diplomatique cunhou a expressão "pensamento único". A expressão "pegou" tão rapidamente que, em apenas algumas semanas, o candidato Jacques Chirac utilizou-se dela como instrumento para tentar relançar sua anêmica campanha à presidência da França. Três meses depois, ele se tornaria presidente da República. Seria desnecessário dizer que o sentido da expressão perdeu um pouco do seu significado à medida que a popularidade do candidato crescia...

E o que é, afinal — ou melhor, o que era, afinal —, o pensamento único? É a tradução ideológica dos interesses do capital mundial, a partitura das prioridades dos mercados financeiros. É a propagação através dos principais órgãos de imprensa das políticas neoliberais recomendadas pelas grandes organizações econômicas internacionais que usam e abusam do crédito, das estatísticas e da autoridade que ainda lhes é conferida: a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Banco Mundial (Bird) o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os 100 mil analfabetos que fazem os mercados

Fácil de assimilar, com uma divulgação dócil garantida pelos "partidos do governo", seus clones repetidos em mais de cem idiomas devido ao fenômeno da globalização, esta nova ortodoxia procura submeter todos os governos do planeta à "única política possível": a que tem o aval dos ricos.

Veja-se esta explicação de um ensaísta francês: "O totalitarismo dos mercados financeiros não me alegra. Mas eu sei que ele existe e gostaria que todas as elites o soubessem. Não sei se é correta a maneira de pensar dos mercados, mas sei que não se pode pensar contra os mercados. Sou como um camponês que não gosta da geada mas aprende a conviver com ela. Os 100 mil analfabetos que fazem os mercados podem mandar para o espaço a economia de um país, se não for respeitado um certo número de cânones tão rigorosos quanto os cânones da igreja. Os peritos, pelo menos propagam esta realidade." Quando Alain Minc, o autor desta análise, se referia aos "peritos", ele estava por certo pensando nos jornalistas e ensaístas. E se aproveitou bem... Mas se aceitarmos sua amostra quimicamente pura de meteorologia mercantil, se aceitarmos a legitimação adulatória de uma nova ditadura, dentro em breve a política não será mais que o palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão das pequenas diferenças que os distinguem para melhor dissimular a enormidade das submissões e proibições que os unem. E o desencanto eleitoral será, logicamente, a resposta a este não-debate.

E isso já ocorre. Nos Estados Unidos, onde interesses "de fora" financiaram os posteriormente famosos "aperitivos" da Casa Branca — tornando um pouco mais porosa a fronteira entre política interna e comércio mundial —, apenas 48% dos eleitores potenciais compareceram às urnas para votar em novembro de 1996, o que constitui o índice mais baixo desde 1924. A um nível dessa magnitude, a indiferença popular assume praticamente as proporções de um ato de desobediência civil.

"Democracia" sem diferenças

Um outro exemplo, menos badalado, ilustra o tipo de redação automática comum entre aqueles que praticam o que Le Monde Diplomatique chamou o "jornalismo de mercado". No mês de dezembro de 1996, camponeses gregos bloqueiam as estradas em protesto contra as medidas de austeridade tomadas pelo seu governo. E um deles explica: "O único direito que nós temos é o de votar e isso não leva a gente a lugar algum." Uma eleição recente levara ao poder um Partido Socialista próximo aos meios financeiros. O comentário adocicado do Washington Post fora o seguinte: "Esta foi a primeira eleição realmente moderna da história do país onde nasceu a democracia. (...) No fundamental, os dois partidos estão de acordo com relação a um conjunto de questões importantes." Como podemos nós, jornalistas e intelectuais, aceitar a idéia de que uma democracia "realmente moderna" é aquela onde as grandes forças eleitorais não diferem basicamente em nada, já que "100 mil analfabetos" decidem a parada sozinhos? E se a aceitarmos, em nome de quê e com que cara vamos lançar impropérios contra o "extremismo" e o "populismo" que acabam sendo manifestações de uma cólera legítima, diante das conivências de um debate fictício que tem como pano de fundo uma sociedade polarizada? Em vez de zombar do "politicamente correto" que caracterizaria uma parte da esquerda norte-americana, talvez fosse o caso de tomarmos cuidado com o "economicamente correto" em que ficamos atolados toda vez que nos transformamos em brigada de aclamação dos mercados financeiros.

Um slogan vem martelando a cabeça de todo mundo: "Dentro de três anos, o ano 2.000." A definição da modernidade e de seu antônimo constituem, na realidade, o palco de uma guerra ideológica quotidiana. E o jornalismo de mercado associa automaticamente a "modernidade" à livre-iniciativa ("abertura"), à moeda única ("força"), à desregulamentação ("flexibilidade"), às privatizações ("concorrência"), à comunicação (exceto para os "sem-rede"), à "Europa" (da livre-iniciativa, da moeda única, da desregulamentação, das privatizações e da comunicação).

Condenados a um destino?

É claro que o "arcaísmo", ou o "atraso", seriam inversamente personificados pelo Estado de bem-estar social, ou simplesmente pelo Estado (a menos, naturalmente, que este se desdobre nas funções de braço armado da segurança e da propriedade), pelos sindicatos (que não teriam senão uma "representatividade corporativa"), pela nação (ante-câmara do "nacionalismo") e pelo povo (sempre embriagado de "populismo").

Para nós, jornalistas e intelectuais, o exercício da reflexão, o esquecimento momentâneo dos reflexos e da postura do burocrático escriba, podem nos levar à conclusão de que esta é uma modernidade destruidora e que os arcaísmos são necessários. Refletir significa se opor a este tipo de globalização e imaginar outro. Significa, antes de tudo, combater a crença de que vivemos o único destino que nos é permitido.

Os dois jornais em que escrevemos deveriam aliar-se nesta tarefa de desmistificação. Como podemos deixar de compartilhar da penetrante análise feita há dois anos por Martin Wolf num editorial do Financial Times intitulado "O mito da economia global"? "A integração econômica mundial", escreveu Wolf, "não tem nada de irresistível. Os Estados optaram por baixar suas barreiras comerciais e eliminar o controle aduaneiro. E podem acabar com essas políticas se e quando o quiserem." E deveriam fazê-lo. E nós deveríamos ajudá-los.

Mas a opinião que Martin Wolf expressa nestas colunas não é a sua. O discurso dos apóstolos da globalização e dos mercados chama a atenção acima de tudo pelo seu extremismo, por sua tendência a esquecer o valor da dúvida, pela analogia que inevitavelmente sugere com a doxa stalinista dos anos 50.

Após a leitura dos textos sugeridos pelos apóstolos da globalização, quem ainda teria o direito de pôr em dúvida que os mercados representam um modelo perfeitamente adaptado à felicidade do ser humano? E que a globalização arrasta com ela a realização universal e suprema dessa felicidade? E no entanto, as coisas nem sempre correm como fora prometido pelos pregadores do capitalismo total. Aí, vem a explicação: "Tem que esperar um pouquinho mais..."; "Só faltam alguns degraus..."; "Toda mudança é dolorosa..."; "Você só viu um rascunho..."; "Se pelo menos o povo fosse um pouco mais empreendedor, mais flexível, os resultados teriam sido resplandescentes!"

Desigualdades sociais? Neguemos sua existência e celebremos a sua "eficiência". Ou, melhor ainda, afirmemos que elas são o produto de um-pouco-demais-de-Estado e de um-pouco-de-menos-de-mercados. Por isso é que ainda não existem tíquetes que permitam "escolher" a escola ou o hospital que se deseja. São poucas, ainda, as zonas francas nos guetos. Ainda é insuficiente o número de isenções fiscais para atrair os "empresários". Ainda é insuficiente o número de fundos de pensão. E a concorrência ainda é insuficiente no próprio coração dos serviços públicos.

Um novo stalinismo

A coisa lembra um pouco os stalinistas com o comunismo: toda vez que alguém estrebucha e cai no caminho de uma sociedade de mercado pura, radiante e florescente, os tropeços são atribuídos a quem vai puxando a marcha, e nunca à direção louca que ela tomou. E, também como faziam os stalinistas, os apóstolos da globalização atribuem a seus críticos tamanha dose de irracionalidade que seria plenamente justificável um programa de reeducação.

E se, pelo contrário, o mercado fosse um modelo que não desse certo para a maioria dos habitantes do planeta? E se os mercados, que decididamente podem ser uma máquina formidável de criar riquezas, não soubessem construir uma sociedade humana, justa e decente? Qual o preço que deveremos pagar antes de tirar as lições necessárias? Quantas pessoas abandonadas ao seu destino e à pobreza? Quantas mantidas à margem daquilo que o sr. Greenspan, presidente do banco central norte-americano, chamou de "exuberância irracional dos mercados"? Quantas traumatizadas por horas de vigília, longe das "comunidades" privadas dos ricos? Quantos norte-americanos atrás das grades de uma cela de prisão? Quantas áreas subterrâneas destruídas e quantas revoltas sociais? Qual o número de cidadãos convencidos que a democracia não foi feita para eles?

Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmoronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos serviram para nos ensinar alguma coisa, não foi certamente a necessidade de outro totalitarismo, de uma outra tirania — a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.

Publicado em junho de 97. Traduzido por Jô Amado.




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