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DOSSIÊ INTERNET — MILAGRE EM WALL STREET

E o caçador virou caça...

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Em matéria de faturamento, de lucros e de número de empregados, a Time Warner é respectivamente cinco, duas e meia e seis vezes mais importante que a AOL. Como um gigante deixou-se engolir por um anão?

Ibrahim Warde - (12/02/2000)

Anunciada no dia 10 de janeiro de 2000, a "fusão" entre as empresas America Online e Time Warner constituiu a maior união de empresas jamais realizada até então. A aliança — que abala as relações entre as indústrias de telecomunicações, os meios de comunicação e a Internet — marca, sobretudo, o início de uma nova era no que se refere aos vínculos entre a economia tradicional e a nova economia, bem como entre a economia virtual e a economia real.

Na realidade, e apesar das precauções utilizadas com a linguagem (o comunicado de imprensa anunciava uma "fusão entre iguais"), trata-se da absorção da Time Warner pela AOL. Isso, embora em matéria de faturamento, de lucros e de número de empregados a Time Warner seja respectivamente cinco vezes (26,6 bilhões contra 5,2 bilhões de dólares), duas vezes e meia (1,2 bilhão contra 500 milhões de dólares) e seis vezes (70 mil contra 12.100 empregados) mais importante que a America Online. Como foi possível, então, que um gigante se fizesse engolir por um anão? A resposta é simples: neste tipo de operação somente leva-se em conta a capitalização no mercado de capitais. E, na véspera da "fusão", o peso que a America Online tinha na bolsa era de 143 bilhões de dólares, contra 111 bilhões da Time Warner.

Essa relação de forças será refletida na nova companhia, que passará a ter o nome de AOL Time Warner: os acionistas da AOL terão a fatia majoritária de 55%; o símbolo, na bolsa, será "AOL"; e o cacique da AOL, Steve Case, de 42 anos, será o presidente da nova empresa, enquanto Gerald Levin, de 60 anos e atual dono da Time Warner, será apenas diretor-geral.

O desprezo de Bill Gates

O contraste entre as componentes do novo grupo é gritante. A AOL é uma sociedade jovem, cuja história se fez navegando à deriva, entre crises e reviravoltas espetaculares (ler o artigo de Dan Schiller nesta edição). Muitas vezes, a empresa andou beirando a catástrofe. Em 1993, Bill Gates, o dono da Microsoft, chegou a anunciar a Steve Case que compraria ou esmagaria a sua empresa com o lançamento de sua própria concorrente, a MSN. Inúmeros incidentes de ordem técnica (provocados pela incapacidade de gerir o crescimento excessivamente rápido do número de assinantes) foram superados com a maior dificuldade.

Há apenas dois anos, a Time Warner, onipresente no reino dos meios de comunicação, teria sem dúvida podido acrescentar a America Online aos seus troféus de caça. Em dezembro de 1999, porém, o grupo — a exemplo de concorrentes como Disney, que se associou ao site Infoseek — criou um fundo de meio bilhão de dólares para investir na Internet. A mais cobiçada das jóias dos meios de comunicação tradicionais não tinha levado em consideração a bolha especulativa do mercado de capitais nem a nova ética financeira. E foi assim que o caçador se tornou caça.

Na realidade, em matéria de valorização do mercado de capitais, uma revolução ocorrera — acidentalmente — em 1995, com a introdução da Netscape na Bolsa de Valores. Até então, uma lei implacável impedia que uma sociedade entrasse no mercado de capitais até ter provado que era viável. O rigoroso mínimo exigido consistia em apresentar quatro trimestres consecutivos de lucros. Mas Jim Clark, o fundador da Netscape, era um homem apressado procurando financiamento para a construção do maior iate do mundo inteiramente informatizado: quando lançou seu apelo aos fundos públicos, a empresa não tinha senão um ano de idade — e acumulava perdas. Foi um êxito extraordinário: no próprio dia de sua introdução na Bolsa de Valores, a ação da Netscape passou de 6 para 24 dólares. Alguns meses mais tarde, a empresa continuava deficitária mas o valor da ação, apesar de tudo, passara a ser de 140 dólares.

A última das últimas novidades

Numa biografia de Clark, o jornalista Michael Lewis descreve a busca tresloucada pela "última das últimas novidades" ("the new new thing") convocada a transformar o mundo. Paradoxalmente, num mundo regido por financistas que pregam rigor junto aos Estados e aos cidadãos particulares, as empresas mais desejáveis não são as que garantem lucros estáveis, e sim as que "trabalham um conceito". A mensagem que essas empresas enviam ao mercado é a seguinte: "O futuro nada terá em comum com o mundo de hoje; portanto, você não poderá determinar o nosso valor olhando o presente. Você tem que fechar os olhos e imaginar um mundo novo." Na nova economia, "o ceticismo não é sinal de inteligência; é um pecado [1]".

Clarividentes, ou simplesmente crédulos, os investidores passam então a projetar as sociedades virtuais para as alturas. É assim que a Amazon tem hoje um valor superior ao de todas as grandes cadeias de livrarias norte-americanas reunidas. Outro exemplo: no dia seguinte ao da sua introdução no mercado de capitais, a empresa Priceline.com, que oferece um serviço de venda de passagens de avião a baixo custo, tinha o valor de 11,7 bilhões de dólares, ou seja, mais que qualquer companhia aérea [2]. Empresas muito jovens passam, portanto, a ter condições de praticar a fagocitose (destruição e absorção de uma partícula sólida por um microorganismo) contra negócios bem estabelecidos e lucrativos que, no entanto, não gozam do interesse do mercado.

As distorções são ampliadas por um outro fenômeno recente: são vários os setores da economia global que passaram a ser regidos pelo princípio segundo o qual "o ganhador leva tudo" (winner-take-all). A velha receita que dizia que na maré alta todos os barcos bóiam não é mais válida. Os aspirantes ao status de superstar são numerosos, mas a maioria dos concorrentes fica pelo caminho [3].

Com respeito a este assunto, a alta fenomenal dos índices das bolsas norte-americanas mascara a desigualdade dos desempenhos. Durante o ano de 1999, as ações da maioria das empresas cotadas na Bolsa foram deficitárias. É verdade que o índice Nasdaq dos valores tecnológicos subiu 85% em um ano, porém mais de 65% dos títulos cotados naquele mercado acusaram uma baixa de 30% ou mais [4]. A explicação é simples: esses índices são supostamente representativos, mas também — e sobretudo — são uma vitrine onde ficam expostos os principais títulos-estrela.

Prejuízos e valorização fantástica

Esta lógica permite aos pretendentes ao status de superstar — que buscam o seu lugar ao sol — beneficiarem-se de um efeito "bola de neve": quanto mais sobre o seu valor na bolsa, melhor é a sua posição frente às empresas concorrentes, pois o "valor criado" permite-lhes efetuar investimentos maciços (em matéria de publicidade, por exemplo)... e atrair, por seu "desempenho", novos investidores.

Isso explica o sucesso da Amazon (cujo fundador, Jeff Bezos, foi eleito "homem do ano 1999" pela revista Time...). O acúmulo de perdas do livreiro virtual não abala visivelmente os investidores, cuja avaliação é a de que, num certo prazo, graças aos seus investimentos (e portanto às suas perdas), a empresa já terá vários corpos de dianteira à frente de seus concorrentes e será dona absoluta do pedaço no mercado eletrônico.

As grandes questões da economia política clássica (1. O que constitui o "valor" ou a "mais-valia"?; e 2. A quem pertence esse "valor"?) encontram-se, portanto, implícitas, se não resolvidas (Respostas: 1. O que decidir o mercado; e 2. Aos acionistas). Daí se conclui que os movimentos de vaivém da bolsa, ainda que se afastando da economia real, têm condições de reestruturá-la.

Não é de estranhar, portanto, que a partir do dia 10 de janeiro o valor do grupo AOL-Time Warner tenha conhecido flutuações vertiginosas. Por ocasião do anúncio da "fusão", o valor da transação era calculado pelos dirigentes dos dois grupos em 350 bilhões de dólares. No decorrer daquele mesmo dia, o valor combinado das ações não ultrapassava a casa dos 280 bilhões de dólares. Dois dias depois, a capitalização dos dois títulos havia perdido a bagatela de 35 bilhões de dólares no mercado de capitais (ou seja, a capitalização total da IBM no mercado de capitais em 1975, quando ela era a primeira empresa do mundo).

Quanto vale uma ação da AOL-Time Warner? Segundo os peritos, o valor correto se situaria entre 34 e 114 dólares. Um intervalo um tanto largo. O tipo de intervalo que, no festim que é a economia real, jamais deixará de aguçar os apetites dos jovens lobos da nova economia.

Traduzido por Jô Amado



[1] Michael Lewis, The New New Thing: A Silicon Valley Story, ed. W.W. Norton, Nova York, 1999.

[2] Ler Ibrahim Warde, "Dow Jones: Plus dure sera la chute", Le Monde diplomatique, outubro de 1999.

[3] Robert H. Frank e Philip J. Cook, The Winner-Take-All Society, ed. Free Press, Nova York, 1995 (ver matéria sobre o assunto na edição de setembro de 1996 de Le Monde diplomatique).

[4] The Washington Post National Weekly Edition, 3 de janeiro de 2000.


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