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GLOBALIZAÇÃO E EQUILÍBRIO ECOLÓGICO

O sacrifício da Natureza

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Desaparelhados e seduzidos pela idéia de exportar a qualquer preço, para completar o "ajuste estrutural" os Estados latino-americanos abrem seus países à voracidade predadora das transnacionais

Jaime Massardo - (12/02/2000)

Nesta parte da América que, após a segunda metade do século XIX, chama-se "latina", a natureza há muito tempo marca o ritmo da vida social. Sem cairmos numa visão idílica das civilizações pré-colombianas, é um fato que o meio ambiente se situava no centro da economia política e da sua visão do mundo.

Este equilíbrio entre homem e natureza foi destruído pela invasão espanhola e portuguesa. Sustentada pela força do seu poder militar e religioso, a conquista introduziu ritmos de trabalho e tecnologias que permitiram a exploração das riquezas naturais sem outro limite a não ser a voracidade do mercado, cujo preço pode vir a ser a quase exterminação do homem latino americano.

A independência das metrópoles não modificou essa tendência. Ela transformou os descendentes europeus nascidos na América Latina em uma nova oligarquia que, a partir de 1860, tentou alargar sua participação no comércio internacional ao fornecer alimentos e matérias-primas para a revolução industrial. Desde então, a ideologia da civilização, da modernização, do progresso, legitimou também uma visão do mundo apoiada sobre o controle da natureza, concepção que implica de maneira tácita que esta é inesgotável. [1] Iniciando seu desenvolvimento durante o conflito mundial dos anos 1914-1918, a industrialização virá reforçar esta tendência ao introduzir uma determinada noção de desenvolvimento.

Nova paisagem urbana

A população da América Latina, aproximadamente 100 milhões de habitantes em1930, dobrou por volta dos anos 60 e, nesse mesmo período, o peso de sua composição urbana passa de 30% a 50% do total. Nos anos 1950-1960 este aumento da população urbana coincide com os investimentos portadores de novas tecnologias, que impedem a absorção da força de trabalho liberada de maneira crescente pela modernização do campo. A paisagem urbana começa a mudar gradativamente, e a cidade passa a conhecer os problemas cada vez mais graves da poluição industrial, da redução dos espaços verdes, de moradia, de saúde pública, de higiene, de transporte. Eles vão afetar essencialmente as camadas mais desfavorecidas, mostrando de passagem, por meio de uma dinâmica de dupla velocidade, não existir relação entre o homem e a natureza que não comporte uma dimensão social concreta.

Na América Latina dos anos 60, esta problemática será um fator de crescimento do movimento social. Em países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai, esta ebulição dinamiza a sociedade, produz ricas experiências culturais e provoca uma radicalização política. Esta se choca rapidamente com os mecanismos de manutenção do sistema, os quais impõem a solução militar.

São estes governos militares que vão dar os passos prévios, politicamente indispensáveis do ponto de vista do capital, para a chegada da globalização, desarticulando as organizações de trabalhadores, destruindo suas expressões políticas e liquidando ou cooptando um novo membro de suas elites [2]. Cumprida esta tarefa, o caminho está livre para aplicar as medidas de liberalização, privatização desregulamentada. Convictos de que a sociedade não passa de um jogo de monopólio, vão oferecer ao capital financeiro mão-de-obra barata.

Na ausência de condições democráticas, a organização da produção é gerada, de fato, por uma estreita minoria ligada aos interesses econômicos e financeiros. Ela conduz a mutação que, orientada para a satisfação de uma demanda sempre crescente, obriga a um aumento constante da produtividade.

Em um continente onde quase a totalidade das exportações é de matérias-primas e de produtos agrícolas, o equilíbrio ecológico é particularmente atingido por este crescimento, que se torna ainda mais significativo quando, na maior parte dos casos, deve compensar a queda dos preços do mercado internacional.

Desmatamento maciço

Os complexos agroindustriais, que substituíram as explorações tradicionais para satisfazer o aumento da demanda mundial de alimentos, vão estender, dentro de alguns anos, a fronteira da zona agrícola para fazer face ao aumento do volume das exportações [3].

Entre 1970 e 1980 — a globalização ainda estava sendo introduzida na região —, a área das terras destinadas ao cultivo foi ampliada de 98 para 117 milhões de hectares, o que significa que 19 milhões de hectares foram incorporados a áreas produtivas. Durante o decênio seguinte, entre 1981 e 1989, a área agrícola total explorada da América Latina era de 128 milhões de hectares. Se tomarmos como base de comparação os anos 1989-1991 (1989-1991=100), o volume físico da produção agrícola cresceu, na região, de 60 em 1970 a 81 em 1980, e a 111 em 1995. Este crescimento vertiginoso não poupa nenhum país.

Este aumento da produção realiza-se sob a pressão da busca do lucro em curto prazo. Levados pela concorrência mundial, os complexos agroindustriais, devem utilizar cada vez mais, para se tornar rentáveis, os fertilizantes químicos, os pesticidas e as novas tecnologias. As 2.883.000 toneladas de fertilizantes utilizadas em 1970 passam a 7.484.000 em 1980 e atingem 9.263.000 toneladas em 1994. A exploração da terra dentro das condições de concorrência geradas pela globalização comporta um alto custo para o meio-ambiente.

Isso se expressa a princípio por um desmatamento maciço. De 998 milhões de hectares de florestas em 1970, restam 958 milhões em 1980, 919 em 1990 e 913 em 1994. Isto representa mais de 60% da quantidade cortada em todo o planeta. O fenômeno assume uma dimensão especial no Brasil, que passa de uma participação de 2,20% nas exportações mundiais de madeira dura (hardwood) em 1989 para 8,05% em 1995.

Estima-se a destruição da floresta amazônica em 5,8 milhões de hectares por ano. A destruição progride de ano a ano, e os estudos científicos não garantem o ciclo de 25 a 30 anos necessário para sua regeneração.

A esses estragos juntam-se aqueles que provoca a erosão. Nos anos 60, 210 milhões de hectares, ou seja, 10% do total do território latino-americano, eram vítimas da erosão. Apesar da evidência do problema, os dados relativos a esse tema são raros. Nicolo Gligo, um dos pesquisadores que trabalharam de maneira minuciosa o meio-ambiente na América Latina, escreveu que "os estudos sobre a erosão são cada vez mais escassos, talvez para que não se encare as cifras catastróficas [4]". Na Argentina, um estudo, relativo a 80% da área total do país, mostra que a erosão atingiu 31% da terra. No México, 85% do território nacional foi atingido.

Mundo rural ameaçado

Além disso, o desgaste químico da terra já afetava 68,2 milhões de hectares no início dos anos 90, enquanto a salinidade da terra e a sedimentação das águas (cursos e nichos das águas) tocam aproximadamente 40% das terras irrigadas, ou seja, 11% das áreas cultivadas.

A pesca atinge 10,5 milhões de toneladas, o que começa a atingir as reservas. Os crustáceos e moluscos também estão em perigo. O Equador, para ficar num único exemplo, obtém 15% de suas divisas através da exportação de camarão. Existe, enfim, um outro efeito da globalização: a destruição da biodiversidade. Na América Latina, a biodiversidade é particularmente rica [5]. Mais de 120 mil espécies foram catalogadas, e se acrescentarmos os musgos, samambaias e líquens, chegamos a 180 mil. Este número tem diminuído; aqui, também, os estudos são raros.

Independentemente do desastre social já constatado nesta região do mundo, estamos no direito de nos interrogar sobre a viabilidade de um sistema tão predador. Cavalo de batalha de Wall Street e de seus setores políticos e econômicos latino-americanos que estão intimamente ligados, em particular no que se refere ao Mercosul [6], contra a "fortaleza Europa". A explosão dos negócios, em particular no setor agrícola, não ameaça apenas a sobrevivência do campesinato do Velho Mundo [7], freqüentemente taxado de protecionista.

Esta liberalização em todas as direções se faz igualmente em detrimento de uma região (a América Latina) incapaz, aliás, por causa da escolha em favor do "tudo pela exportação", de garantir a segurança alimentar de sua própria população. A prioridade das prioridades não é, portanto, que o consumidor europeu possa encontrar carne Argentina sobre o balcão de todos os açougues...

Por outro lado, é preciso notar que, conseqüência das novas tecnologias, a expulsão dos camponeses latino-americanos em direção às cidades, que começou durante os anos 1950-1960, tem se acelerado. Em 1990, 70% dos 450 milhões de habitantes já habitavam os grandes centros urbanos e, segundo os últimos censos, que estimam sua população em 450 milhões de habitantes, esta tendência tem se aprofundado.

O rápido crescimento das exportações agrícolas vai encontrar também um complemento no mercado interno, mas essa mesma velocidade de crescimento urbano, unida a uma extrema polarização da estrutura de consumo e a ausência de regras eficazes tributárias da concepção liberal do Estado reduzido somente a suas funções repressivas, vão multiplicar os problemas do meio ambiente, e sobretudo da ecologia urbana.

Estados impotentes

O mais evidente entre eles é a poluição do ar, com dois fatores determinantes: o crescimento da atividade industrial e o aumento do número dos veículos automotores. No México, a taxa de ozônio é a mais elevada do planeta; São Paulo detém a mais alta taxa de monóxido de carbono. Em Santiago do Chile, durante os quinze últimos anos, o número de carros foi multiplicado por três. Estas três cidades concentram quase 45 milhões de habitantes. Mas Bogotá, Caracas e Buenos Aires apresentam um panorama igualmente alarmante. À poluição do ar é preciso somar a das águas. Em Buenos Aires e no México, a água potável para o consumo regular da população é obtida pelos lençóis superficiais, e estima-se que estejam poluídos em sua quase totalidade. No Brasil, nos anos 80, de 25,2 milhões de habitações, somente 14 milhões tinham água potável e menos de 7 milhões dispunham de rede de esgoto [8].

Some-se a este quadro inquietante a poluição provocada pelo lixo e por produtos tóxicos. Trata-se aqui das dificuldades que as administrações locais encontram para gerenciar o acúmulo de dejetos industriais, lixos hospitalares e residenciais, dificuldades estreitamente ligadas ao desmantelamento das funções sociais do Estado. A gestão dos detritos industriais — assim como a da saúde pública, ou a da educação das crianças das classes sociais baixas, ou a dos serviços públicos nas zonas consideradas marginais — não sendo rentável, deve ser abandonada à "mão invisível" do fantasma de Adam Smith. "Mão invisível" que permite aos Estados mais fortes resolverem seus próprios problemas mandando seus detritos para outros territórios.

A maior parte dos detritos perigosos é introduzida na região através de acordos entre os Estados Unidos e o México; em 1988, este último já havia aceitado 30.000 toneladas de lixo americano. Restam ainda os problemas derivados da destruição da camada de ozônio. Também a taxa de câncer de pele dos chilenos de Punta Arenas, na Terra do Fogo não cessa de aumentar... Em resumo, as vantagens comparativas oferecidas por uma mão-de-obra barata e pelos recursos naturais subvalorizados que oferecem os Estados enfraquecidos por políticas neoliberais levam diretamente à destruição do equilíbrio ecológico. Deve-se lembrar que a construção possível de relações equânimes entre o homem e a natureza não é um problema técnico nem econômico — mas fundamentalmente político.

Traduzido por Jussara Gonçalves



[1] Cf. Nicolo Gligo, "Situación y perspectiva ambientales en América latina", em Revista da Cepal (Comission économique pour l’Amérique latine), n° 55, Santiago (Chile), abril 1995, p. 117.

[2] Evidentemente, outras transições se fazem através de formas civis: o México e a Venezuela são talvez os exemplos os mais evidentes.

[3] Cf. Statistical Yearbook for Latin Americ and the Caribbean, Cepal, 1998, planilha 87 "Latin América and the Caribbean: exports of the ten leading products by their percentage share each year", p. 116.

[4] Nicolo Gligo, "Situación y perspectiva ambientales em América latina", op.cit., p. 108.

[5] Cf. Anamaría Varea (coord..), Biodiversidade Bioprospección y bioseguridad, ILDIS, Quito, Equador, 1997.

[6] Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai.

[7] Não estamos falando aqui da Federação Nacional dos Sindicatos de Exportadores Agrícolas (FNSEA) e de cereais franceses, que se inscrevem na mesma lógica. Ler José Bové, "Pour une agriculture paysanne", Le Monde Diplomatique, outubro 1999.

[8] Cf. Nicolo Gligo, "Situación y perspectiva ambientales en América latina", op. cit.


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