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DEPOIS DA BATALHA DE SEATTLE

Outra chance para a esquerda americana

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As manifestações contra a Rodada do Milênio rearticularam, no país mais poderoso do mundo, uma antiga aliança entre os movimentos que resistem. Mas será que esta união, que ainda é muito branca, tem futuro?

Bárbara Ehrenreich - (12/03/2000)

A semana de manifestações que assinalou a reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) na cidade de Seattle, em novembro-dezembro de 1999, representou um dos momentos mais estimulantes das últimas décadas para a esquerda norte-americana. Após um prolongado declínio, ela poderá — se a aliança entre sindicatos, juventude radicalizada e entidades de defesa do meio-ambiete e dos direitos humanos for consolidada — afirmar sua existência em meio a um movimento amplo de defesa da democracia contra os atentados das empresas multinacionais.

Mas para que tal perspectiva se concretize, seria necessário, de saída, que a aliança surgida em Seattle abrangesse hispânicos e afro-americanos, que são marginalizados. O perigo seria que cada uma dessas distintas componentes da aliança progressista retomasse o seu próprio caminho em vez de construir o movimento surgido, de forma assistemática, no decorrer do ano passado. No início, a mobilização de Seattle foi, na realidade, o resultado de ações isoladas lançadas por organizações distintas com base em seus objetivos específicos. A ação repressiva da polícia contra o conjunto dos manifestantes transformou uma aliança circunstancial num movimento aparentemente unido. Será que essa união tem futuro?

Duas novidades estimulantes

No contexto da política norte-americana, o agrupamento da militância verificado no ano passado apresentava duas novidades estimulantes. Em primeiro lugar, o poder absoluto do mercado era questionado. O objetivo declarado da mobilização era impedir que a OMC impusesse uma nova rodada de liberalização comercial. Porém, os manifestantes dispararam, de forma mais genérica (e implícita) contra as empresas multinacionais, das quais a OMC é o procurador.

Acontece que a luta contra o poder do capital representa uma prioridade nova por parte da esquerda norte-americana. As ações militantes da década de 60 foram fundamentalmente dirigidas contra o Estado: o movimento dos direitos civis, exigindo a garantia dos direitos dos negros; o movimento pacifista, exigindo o fim das operações de guerra na Indochina; e os militantes radicais, denunciando os estreitos vínculos existentes entre a poder público e as grandes empresas. Como o poder parecia monopolizado pelo Partido Democrata (os governos de John Kennedy e Lyndon Johnson, de 1961 a 1969, e a maioria democrata no Congresso, de 1954 a 1980), os movimentos radicais dos anos 60 avaliaram que o Estado de Bem-estar Social apenas servia para legitimar os atos das potências que eles desafiavam. À medida que o poder dessas empresas cresceu — a ponto de limitar consideravelmente o do Estado — esse tipo de radicalismo acabou perdendo a sua relevância. A atual disposição da esquerda norte-americana de criticar os principais protagonistas (privados) da economia mundial é uma tradução lógica dessa nova orientação.

Para a esquerda norte-americana, a união contra a OMC também demonstrou outra transformação importante. A aliança entre o mundo do trabalho e os grupos progressistas e radicais deu um caráter militante à mobilização de Seattle. A última vez em que esses dois elementos se encontraram foi na década de 30, quando o movimento operário contava com os comunistas para atrair para os sindicatos os trabalhadores não-organizados e, à esquerda, democratas e movimento sindical trabalhavam de mãos dadas para que a New Deal abrangesse um temário social amplo, assim como uma legislação trabalhista significativa.

Após a Segunda Guerra Mundial, essa aliança se despedaçou. Os sindicatos e os democratas passaram a defender a política da guerra fria e as práticas macartistas (Comissão de Atividades Anti-americanas), enquanto a esquerda, que se opunha à guerra fria, tornou-se o alvo dessa caça às bruxas. Na década de 60, essa divisão ampliou-se: os principais sindicatos apoiaram a guerra do Vietnã (em 1972, a central AFL-CIO chegou a recusar o apoio a George McGovern, o candidato democrata que se opunha ao presidente republicano Richard Nixon, e que teve a audácia de exigir a paz na Indochina) e não manifestaram qualquer disposição de apoiar a mobilização dos negros (Martin Luther King, Malcolm X) ou de se associar aos movimentos contestadores brancos (estudantes, feministas, homossexuais, ecologistas). Naquela época, entretanto, essa ausência de apoio por parte do movimento sindical não constituía um obstáculo insuperável. A oposição à guerra do Vietnã e a crítica do racismo e do sexismo bastavam para mobilizar massas importantes. [1]

A esquerda sairá do gueto cultural?

Nas duas décadas seguintes, a divisão existente entre o movimento operário e a esquerda acabou prejudicando a ambas as partes, permitindo que a direita dominasse o debate público e questionasse um número considerável de valores igualitários. A ausência de vínculos entre o movimento progressista e os trabalhadores contribuiu para o enfraquecimento de um sindicalismo ainda preso a uma representação obsoleta de assalariado (masculino demais, branco demais e industrial demais). O divórcio entre as camadas populares e a esquerda isolava esta última num gueto cultural burguês no qual ela estava condenada a se atrofiar. [2] Agora, porém, a aliança que se esboçou nas ruas de Seattle poderia ser o esqueleto de um movimento capaz de se dirigir à maioria do povo norte-americano.

A mobilização sindical deu ao movimento a sua legitimidade. Provou que a ira contra o poder das grandes empresas se propagou como um enxame pelas vísceras da nação norte-americana. Deu ao protesto — em parte devido aos vínculos existentes entre a AFL-CIO e o Partido Democrata — uma força política que de outra forma ela não teria tido. Antes das manifestações, o presidente Clinton, que esperava consolidar o apoio por parte da central sindical à candidatura de Albert Gore à Casa Branca, tinha censurado o caráter secreto das deliberações da OMC e tinha proposto que essa organização criasse um grupo de estudos com o objetivo de elaborar um código de trabalho mínimo, aplicável a todos os seus membros. Esse grupo de estudos dificilmente teria tido poder suficiente para fazer cumprir suas recomendações, mas para o presidente norte-americano o importante era apresentar-se como aliado dos sindicatos.

No entanto, quando a mobilização contra a OMC atingia o seu apogeu, Clinton foi ainda mais longe, afirmando ao Seattle Post-Intelligence que os Estados Unidos exigiriam a adoção daquele código de trabalho, assim como sanções contra os Estados que o desobedecessem. Os seus assessores tiveram que se empenhar em desmentir os termos da entrevista, mas o "mal" estava feito: inúmeros representantes de países do terceiro mundo que, para obter a sua integração à economia mundial, se mostravam totalmente dispostos — para não dizer empenhados — a oferecer às empresas multinacionais a mão-de-obra barata que elas procuravam, escandalizaram-se com as palavras do presidente dos Estados Unidos, contribuindo para o fracasso da reunião de cúpula. Marginalizada desde o início da década de 80, [3]a AFL-CIO podia agora fazer a avaliação legítima de que tinha tido peso nos acontecimentos.

As relações entre o Partido Democrata e a direção sindical podem, no entanto, inicitar esta última à prudência, no que se refere a vínculos mais estreitos com a esquerda. Durante décadas, o movimento operário norte-americano evitou associar-se a movimentos militantes que pudessem lançar sobre ele a suspeita de radicalismo. A eleição de John Sweeney para a presidência da AFL-CIO permitiu, de certa forma, que fossem estabelecidos contatos regulares no âmbito de campanhas comuns contra a superexploração do trabalho — principalmente o dos imigrantes — e contra a liberalização do comércio. Entretanto, Sweeney, que mesmo antes da primeira eleição "primária" dos democratas já se engajara no apoio à candidatura de Albert Gore e que é partidário ferrenho do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (Nafta) [4]desde 1993, preferiria que o sindicalismo norte-americano conservasse uma certa distância em relação a um movimento anti-OMC, que incluía uma vanguarda de jovens militantes radicais.

Dificuldades nas eleições e ausência dos negros

De certa maneira, a ausência absoluta de um candidato capaz de transmitir valores de esquerda dentro do Partido Democrata (em 1984 e 1988, Jesse Jackson obteve vitórias consideráveis nas "primárias") mostra a importância do caminho pela frente. E talvez convide cada uma das partes a preferir o diálogo ao anátema. Na verdade, todos os (quatro) principais candidatos à Casa Branca apóiam as políticas comerciais questionadas em Seatlle, em novembro-dezembro do ano passado. A candidatura de Ralph Nader, se não for apenas simbólica e quase invisível como ocorreu em 1996, poderá talvez abrir um (pequeno) espaço eleitoral à crítica da globalização.

A aliança que se formou em Seattle incluiu gerações distintas, mas seus participantes eram quase exclusivamente brancos. O movimento negro, que sempre foi uma variável fundamental em todas as alianças progressistas dos últimos anos, fez-se notar pela sua ausência, muito embora nem o movimento operário, nem o movimento ecologista, sejam mono-raciais. Mas seus segmentos mais atuantes contra a OMC — os sindicatos como de metalúrgicos, maquinistas, caminhoneiros, estivadores —, que receiam o deslocamento de seus empregos e os ecologistas, principalmente preocupados com os efeitos do comércio internacional sobre o meio-ambiente — não mobilizam a população negra norte-americana. Justamente por isso, o movimento pela justiça ecológica — que se preocupa e denuncia a implantação de fábricas poluentes em bairros e regiões dos Estados Unidos onde vivem minorias étnico-raciais [5] e por isso interessa a uma clientela menos burguesa e menos branca que a ecologia de defesa da fauna e da flora- esteve pouco presente em Seattle.

Os grupos que defendem a ação direta são também quase inteiramente compostos de brancos. Seus militantes, jovens, criticam o capitalismo e a sociedade de consumo. Devido à sua recusa em se tornarem executivos do sistema, trabalham, muitas vezes, em empregos mal pagos. O fato de que essa tradição radical esteja aparecendo (ou reaparecendo) constitui, definitivamente, uma ótima notícia. Mas essa recusa em integrar a economia capitalista atrai muito menos os jovens negros e hispânicos, pouco interessados em negar as poucas ocasiões de ascensão social que lhes são apresentadas. E, quando o fazem, são menos dispostos a submeter suas ações ao acordo geral de um movimento que lhes parece quase só branco.

Num futuro imediato, a aliança surgida em Seattle ainda terá que sanar outras divergências internas. As perspectivas sobre o que deverá ser o futuro da OMC e da ordem econômica internacional que ela sustenta variam. Vão da recusa radical de uma e outra à exigência, expressa pelos sindicatos e pela maioria das organizações ecologistas, de regras e códigos que imponham às empresas e aos Estados, via OMC, sanções em matéria de direito trabalhista, direitos humanos e proteção ao meio-ambiente. Isto explica, em parte, o fato dos grupos mais militantes terem tomado por alvo o Banco Mundial e o FMI, num momento em que a prioridade para o sindicalismo norte-americano é a oposição à entrada da China na OMC, e à atribuição da cláusula de nação mais favorecida (o regime comercial normal) a esse país. Essas divergências, no entanto, são menos destrutivas que as da década de 60: nenhum grupo ou sindicato reivindica hoje a infalibilidade quando se trata de esboçar o que poderia vir a ser uma organização econômica em ruptura com o atual modelo.

Por enquanto, fortes — porém minoritários

Resta ainda dizer que a mobilização de Seattle não contribuiu apenas para o fracasso de uma nova rodada de liberalização comercial. Estabeleceu também que as exigências relativas a direitos trabalhistas e de proteção ao meio-ambiente, longe de se excluírem, tornaram-se complementares. E também permitiu que sindicalistas e jovens radicais se reencontrassem e trabalhassem juntos, demonstrando dessa maneira que a nova ordem econômica internacional acaba promovendo oposições reais. Ninguém pode garantir quanto durará esse reencontro; não existe qualquer situação de urgência, tipo guerra do Vietnã, que ajude a manter unida essa aliança progressista.

Numa hora em que o crescimento econômico bate recordes, não é qualquer crise que conseguirá questionar a confiança que a maioria da população norte-americana continua a depositar no atual modelo regulador econômico e social. Os rumos da economia mundial — que se acomoda numa posição em que cresce a distância que separa os ricos dos outros — provocam situações insuportáveis. Mas a maioria continua esperançosa de que, com um pouco mais de trabalho e sorte, também poderá chegar ao grupo eleitos. Até que essa fé seja abalada, o movimento de luta contra o poder supremo das empresas continuará promissor — mas minoritário.

Traduzido por Jô Amado.



[1] Serge Halimi, "Les guerres de trente ans d’un journaliste militant", Le Monde Diplomatique, novembro de 1995.

[2] Eric Alterman, "Intellectuels et syndicalistes américains se redécouvrent", Le Monde Diplomatique, dezembro de 1997.

[3] Tony Daley, "Nouvel espoir pour les sydicats aux États-Unis", Le Monde Diplomatique, novembro de 1993.

[4] Concluído na noite de 11 para 12 de agosto de 1992, ratificado pelo governo norte-americano em 17 de novembro de 1993 e em vigor desde 1º de janeiro de 1994, o Nafta reúne Estados Unidos, México e Canadá.

[5] Barbara Epstein, "The environmental justice/toxics movement: Politics of race and gender", na publicação Capitalism, nature, socialism, de setembro de 1997. Ler também Eric Klinenberg, "La gauche américaine découvre la justice écologique", Le Monde Diplomatique, fevereiro de 1998.


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