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ALMODÓVAR, O FRANQUISMO E A DEMOCRACIA

Por que a direita vence na Espanha

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O Partido Popular, de direita, obteve maioria absoluta nas eleições de 12 de março, na Espanha. Como poderia um partido historicamente ligado à ditadura e seu herdeiro direto ter uma vitória tão estrondosa? A análise dos filmes de Pedro Almodóvar ajuda a responder a estas perguntas

José Vidal Beneyto - (12/04/2000)

A vitória da direita nas eleições legislativas espanholas do dia 12 de março explica-se, em primeiro lugar, por uma conjuntura econômica positiva, eficientemente gerenciada pelo Partido Popular (PP) desde sua ascensão ao poder em 1996. Este fato conferiu a José María Aznar e a seu governo a imagem de excelentes administradores, argumento que eles souberam explorar muito bem durante a campanha eleitoral.

Quanto à derrota da esquerda, esta se explica pela pesada herança de ilegalidades e corrupção deixada pelo Partido Socialista Operário da Espanha (PSOE), depois de catorze anos no poder (1982-1996); e pela ruptura entre a direção do partido e os militantes, aos quais foi imposto o candidato Joaquin Almunia, que havia sido rejeitado pelas bases na consulta de 1998. Além disso, porque a união da esquerda (comunista e socialista), improvisada à última hora, foi vista como uma manobra eleitoreira, incapaz de despertar uma campanha apática, sem ímpeto nem projeto.

A reeleição de Aznar mostra principalmente que o passado franquista da direita não é visto na Espanha como uma mancha que deva ser apagada. O enterro da memória política durante a transição (1975-1982) traduziu-se, num primeiro momento, por uma banalizaçao da ditadura e, finalmente, por uma assimilação do franquismo como algo natural. Hoje em dia, é voz corrente que o regime autoritário do general Franco (1936-1975) teria sido "necessário" para por fim ao caos da República (1931-1939), para salvar os cidadãos do comunismo, integrá-los à Europa e oferecer-lhes um rei democrata.

Franco e seus generais ainda são nome de rua

De outra forma, como explicar que, vinte e cinco anos depois da morte do ditador (quatorze dos quais de governos socialistas), seu nome, os de seus principais generais e o do fundador do Partido Fascista Espanhol (a Falange) sirvam ainda de nomes a numerosas praças e ruas da Espanha? Como foi possível uma tal perversão da memória democrática? Em outras palavras, como conciliar uma persistente concepção de esquerda, impertinente quanto ao cotidiano e aos costumes (tão bem expressa pelo termo movida) com a virada radical à direita do dia 12 de março?

Na maioria dos países desenvolvidos, a década de 80 foi de desencanto: desmobilização dos cidadãos, ruptura dos laços sociais, refúgio na esfera privada, dualização da sociedade, rejeição do Estado e desinteresse do político. A democracia clássica desmoronava por todos os lados. Ora, se nas três primeiras décadas do século XX a passagem da democracia das minorias para a democracia de massa precisou pagar um pesado tributo aos fascismos, a prática atual da democracia numa sociedade de comunicação de massa retira a eficiência e o significado de elementos essenciais do modelo democrático: opinião pública, representação pública, debate político, participação e pluralismo.

A política é reservada aos profissionais

A estes graves defeitos acrescenta-se a "fagocitose" do Estado e da sociedade pelos partidos políticos: a política é reservada unicamente aos profissionais recrutados e formados por eles. O abandono da vida política pelos cidadãos é, em grande parte, uma reação a esta exclusão programada, que não decorre do esgotamento dos princípios e dos valores democráticos (mais em alta do que nunca) mas da bancarrota de um modelo e de instituições incapazes de governar nossas sociedades complexas e responder às expectativas do conjunto da população.

A governabilidade torna-se o principal problema do sistema e todas as propostas para enfrentar a crise da democracia procuram resolvê-la. A democracia passa a se impor como instrumento de legitimação e de controle. Ela limita a participação e o pluralismo e faz do consenso e da negociação direta entre grupos os novos pilares da vida política.

É neste contexto que ocorre, por volta da metade dos anos 70, a passagem à democracia da Grécia, Portugal e Espanha, seguidos, mais tarde, por países da Europa Central e Oriental. Todas estas transições obedecem à concepção da democracia controlada. Elas sempre se fazem de cima para baixo e seus atores principais são os partidos e as grandes instituições que marginalizam as forças populares, motor da mudança. O esquecimento do passado autoritário e a tutela das potências ocidentais, completam o quadro.

A ruptura que nunca houve

Também no sul da Europa trata-se de mudar o regime político e manter o sistema social. Existe, entretanto, uma diferença: Grécia e Portugal rompem radicalmente com o regime precedente e condenam seus quadros políticos à aposentadoria. Na Espanha, entretanto, os partidos de esquerda, únicos que poderiam realizar essa ruptura, não a executam. Para justificar sua atitude, dirão que pregar a ruptura teria provocado um choque frontal com as Forças Armadas, correndo o risco de uma regressão às formas mais brutais de ditadura.

Esta hipótese de uma intervenção militar não é defensável à luz de documentos oficiais norte-americanos, agora acessíveis. Os contatos mantidos com o ditador Franco e os generais franquistas por Vernon Walters, personagem-chave da Central Intelligence Agency (CIA) e mensageiro especial do presidente Richard Nixon, tinham por meta assegurar a manutenção da Espanha na órbita ocidental após o desaparecimento de Franco. Assim, quando este afirma que a estabilidade do país está garantida ("tudo está amarrado, e bem amarrado"), provavelmente estava pensando na garantia dada por Washington.

Não é, então, por medo do Exército que se abandona a idéia de ruptura com a ditadura, substituída por uma reforma pactuada. Graças a esta, a transição torna-se a máscara e o álibi da auto-transformação do franquismo. Graças a ela, todos, do chefe de Estado (o rei) ao chefe do governo, a quase totalidade da estrutura de poder da ditadura, inclusive a sua polícia política, adquirem uma nova legitimidade que lhes permite compartilhar a paternidade da democracia.

Entre a movida e o triunfo da direita

A partir daí, a resistência ao franquismo é extinta, dissolvida numa transição que concede a todos, franquistas e anti-franquistas, o mesmo estatuto de autores da transformação. A ruptura anunciada vê-se rapidamente reduzida ao papel de simples engenharia institucional e funciona como o mecanismo mais apropriado para a confirmação da estrutura social do franquismo: grupos econômicos, grandes famílias, altas esferas profissionais, executivos da administração pública e a elite acadêmica. Estavam todos lá e, com alguns retoques e acréscimos, continuam lá. Nesta perspectiva, a transição espanhola foi realmente exemplar.

Mas a crônica fiel dos fatos não correspondia nem às expectativas dos grandes centros mundiais, que reivindicavam uma Espanha pós-franquista isenta de qualquer mancha, nem à urgência ética das democracias ocidentais. Pois estas últimas, depois de se culparem por terem abandonado a República espanhola em 1936, precisavam acreditar que, em alguns meses, sem tiros nem traumatismos, Franco e os franquistas tinham desaparecido, e que o país só contava com verdadeiros democratas. Um milagre e, sobretudo, um modelo excepcional, merecedor de elogio e imitação.

Na garupa da movida

Entretanto, para muitos estrangeiros, esta Espanha banalizada era incompatível com a outra Espanha: a de Goya e Mérimée que, no imaginário dos europeus, encarnava o insólito e o pitoresco que muitos guardavam com nostalgia. O cineasta Pedro Almodóvar, montado em seus filmes e na movida, veio satisfazer esta frustrada expectativa.

A França, a Europa e os Estados Unidos acolheram triunfalmente Almodóvar. Seu último filme, "Tudo sobre minha mãe", parece particularmente destinado a conseguir a unanimidade. Obteve, nos últimos onze meses, os principais prêmios cinematográficos ocidentais, desde Cannes, em maio de 1999, até o Oscar de melhor filme estrangeiro, em março de 2000. O mais notável desta apoteose é que ela leva em consideração não apenas a crítica social, indissociavelmente presente no universo cinematográfico de Almodóvar, mas também sua ligação evidente com o anti-franquismo.

Todos os defensores de Almodóvar afirmam mais ou menos o seguinte: "Durante quarenta anos, a Espanha dormiu um sono de chumbo, sob efeito de três poderosos soníferos: a polícia, a censura e a Igreja. A passagem à democracia, em 1975, não pode acabar com esta realidade letárgica. Só a movida chegou lá, e Pedro Almodóvar permanece o homem desta revolução suave e radical..."

A provocação como arma de combate

Como Almodóvar pode, além da incontestável qualidade cinematográfica de sua obra, tornar-se o símbolo da ruptura com Franco? Identificou-se com uma opção de caráter dominante e efetuou um implacável desmantelamento do franquismo no cotidiano. Qual é esta opção? A da pós-modernidade que, montada na onda liberal, rejeita os valores sociais públicos em benefício dos valores sociais privados: a prioridade do indivíduo e de suas relações — interpessoais: casal e tribos —, misturada a seus temas prediletos, da religião do ego, do fim das certezas, do culto do sucesso, da glorificação da indiferença, da dogmática do prazer etc.

Pedro Almodóvar faz sua esta opção, radicaliza suas posições e usa como arma de combate a provocação que, colocada em moda pela publicidade, invadiu todos os campos da comunicação. Em suas mãos, o tratamento provocante torna-se escárnio dos valores da Espanha franquista, zombaria das instituições públicas e privadas da ditadura, sarcasmo das formas sociais e de sua classe dominante.

Em De Salto Alto, Almodóvar ridiculariza a magistratura, apresentando o juiz de Instrução ao mesmo tempo como um dedo-duro e um travesti de cabaré. Ele zomba da religião toda vez que ela aparece e se aproveita da vida nos conventos para ajustar definitivamente suas contas com seus mais qualificados representantes: monges e padres. Em Maus Hábitos, Julieta, a madre superiora das Redentoras Humilhadas, é lésbica e toxicômana.

Em Carne Trêmula, ele destrói inexoravelmente a polícia em todas as suas aparições e a transforma em protagonista da contra-epopéia da ordem. A pátria e as monarquias são seus alvos em Labirinto de Paixões. A família tradicional nos é apresentada como um instrumento ultrapassado que, em O que eu fiz para merecer isto ou em Tudo sobre minha mãe, merece ser jogado fora.

Mas Pedro Almodóvar realiza esta demolição dos costumes da ditadura mais na forma que no conteúdo. Ele inverte radicalmente as formas franquistas. Diante da alergia à vulgaridade e a veneração à distinção, máximas da burguesia franquista, Almodóvar exibe sua preferência pela grosseria e pelas condutas lascivas. Para impô-las, ele se associa à causa do politicamente correto, ultrapassando-a em seu tratamento. Ele reivindica em seus filmes, além da simples rebelião das minorias, a vocação dos grupos minoritários para criar valores. Nao é suficiente a Almodóvar conceder às minorias étnicas, sexuais, aos marginais da sociedade, o total reconhecimento de seu direito à existência. O que ele quer é a exaltação da qualidade moral dos comportamentos sem norma, conferindo assim ao horizonte simbólico dos desvios o valor de excelência.

Escândalos muito inocentes

No universo de Pedro Almodóvar, os bons, os redentores do mal deste mundo são travestis, toxicômanos, excluídos da sociedade, as más mães. Mas para que eles se tornem a expressão majoritária da sociedade, é essencial que os valores da minoria marginal sejam reconhecidos publicamente. A aceitação pública e coletiva é a unica capaz de os constituir em referência dominante.

É por esta razão que os conteúdos de ruptura da movida madrilenha — em si mesmos desprezíveis, na medida em que são simples cópias de comportamentos mais radicais que os antecederam — só alcançaram força de referência quando o poder político se apropriou deles. Os escândalos da movida, se comparados com as ações lúdicas de contestação social nos anos 60 e 70, foram de uma grande inocência. O mais significativo da movida não estava na intensidade da fratura social que ela podia produzir, mas na eficiência de sua recuperação institucional. Ela permitiu a passagem da dissidência cultural, muito minoritária no final do franquismo, à adoção, pública e social, da contracultura urbana de maio de 68 como expressão da liberdade sem limites.

Almodóvar aperfeiçoa esta oficialização da ruptura entre o social e o privado com o franquismo, reforçando o apelo popular de seus filmes, exibindo bons sentimentos e happy ends, adotando o modelo da fotonovela, onde tudo é governado pelo amor.

"Ama e faz o que queres"

Os Romeus e Julietas da vida sem normas são a advogada Maria Cardenal e o toureiro Diego Montes, de Matador, para quem o orgasmo é indissociável do ato de matar. O fato de morrer de amor, único destino possível, se realiza na ação conjunta de amar e morrer. A máxima de Santo Augostinho, Ama et fac quod vis ("Ama e faz o que queres") poderia ser a dos filmes de Almodóvar.

Combinando a subversão marginal e o politicamente correto, Pedro Almodóvar pôs fim ao franquismo diário. Mas seu triunfo, que serviu de certo modo de revanche aos perdedores da guerra civil, não teria servido, por sua vez, de álibi para perpetuar a hierarquia social e os poderes econômicos herdados da ditadura? A aceitação quase unânime, em todos os países, das últimas modalidades de sua contestação social, a conquista de prêmios cinematográficos, não seriam reveladoras desta ambigüidade básica, sobre a qual se funda a recuperação, por parte do sistema, dos elementos de fratura que sua obra comporta?

O binômio ruptura social-privada / conformismo social-público deixa sem resposta uma pergunta: de que lado acabará pesando a balança? Neste sentido, a vitória absoluta da direita e de José Maria Aznar, em 12 de março passado, poderia tornar-se um sinal premonitório. E preocupante.

Traduzido por Anelise Storck.




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