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ARÁBIA SAUDITA

Modernização à moda do príncipe

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Jovens, de túnica branca tradicional, com seus telefones celulares num cibercafé. O petróleo entregue outra vez aos estrangeiros e as fortunas da elite sempre no exterior. Sem romper com o atraso, e sem democracia, o novo monarca saudita que ser global...

Alain Gresh - (12/04/2000)

Dia após dia, Riad engole algumas trilhas de areia. Suas largas avenidas, quase auto-estradas, espalham-se em todas as direções: "Aqui, há cinco anos, não havia nada", explicam no coração de um bairro ultramoderno, cópia do modelo norte-americano, com seus centros comerciais monumentais, suas lojas de luxo, seu café cibernético, seus McDonald’s. Em algumas dezenas de anos, os preços dos terrenos multiplicaram-se por vinte, trinta, cinqüenta. São raras as construções muito elevadas: os que podem, e são muitos, preferem o espaço das mansões às grades dos apartamentos. Ninguém abandona facilmente suas origens beduínas. Apenas as mesquitas lançam seus minaretes de assalto ao céu. Nenhuma estátua de um "dirigente imortal" ou "salvador supremo" rompe a simetria dos quarteirões: aqui, só se adora Deus.

A cada dia, mil novas pessoas se agregam à capital do reino — são quatro milhões este ano, serão seis milhões em 2007. Em 1970, um quarto dos habitantes da Arábia Saudita vivia nas cidades; trinta anos mais tarde, são 85%. Em duas gerações, a urbanização mudou o rosto desta península dos árabes, quatro vezes maior que a França, e transformou seus nômades, aqueles mesmos que fascinavam Lawrence da Arábia, em sedentários do século 21. Entretanto, o "reino do deserto" sobrevive, não somente nas lembranças dos aventureiros e dos exploradores ocidentais, mas na nostalgia desses citadinos noviços, atraídos por essas imensidões desnudadas, no espaço de um fim de semana, ao volante de suas 4Xnao-reagente4 com ar condicionado.

A fachada e as rachaduras

Todas as manhãs, as avenidas regurgitam de potentes automóveis, dirigidos sem regras nem leis. O sonho norte-americano do automóvel toma as cores japonesas e a Toyota suplantou a Ford. Riad desdenha os pedestres, a travessia de suas largas artérias é uma aventura, os transportes coletivos são praticamente inexistentes, os trajetos intermináveis. A cidade surgiu toda montada pelos cérebros dos urbanistas bêbados de petróleo, fascinados pelas miragens do além-Atlântico. A primeira capital saudita, Dar’iya, destruída pelas tropas egípcias de Mohammed Ali em 1819, é um campo de ruínas mal restauradas. Os poucos bairros antigos foram arrasados. Por que se voltar para o passado, quando o futuro parecia tão luminoso? Nos anos 80, nenhuma estrela parecia fora de alcance — o primeiro astronauta saudita alça vôo —, nenhuma loucura parecia utópica demais — o deserto se transformava em jardim e o país se tornava um importante exportador de trigo...

No entanto, na fachada da opulências se desenhavam as primeiras rachaduras. Tal como um grande hospital, reluzindo de novo, que fica vazio por falta de verbas para o funcionamento. Nas encruzilhadas, à noite, mendigos muito jovens imploram aos motoristas; a pobreza não é mais o apanágio dos imigrantes. Aqui, às vezes falta água, ali a eletricidade é freqüentemente cortada durante o insuportável verão.

É claro que o país continua rico. É o primeiro exportador mundial de petróleo e suas receitas fariam — e fazem — sonhar muitos países do Sul. Mas o barril de petróleo, que rendia 26 dólares (à cotação de 1995) em 1974 e 44,5 em 1984, já era vendido por apenas 14,5 dólares em 1988 e por 17 em 1999. Como explica um ex-ministro das Finanças, "a flutuação dos preços torna impossível qualquer planejamento por um período de dois ou três anos". O déficit orçamentário instalou-se desde o ano (islâmico) de 1983-1984 — chegou a 20% do PIB em 1986 e estará em torno de 4% em 2000. O Produto Nacional Bruto por habitante chegava a 16.500 dólares em 1981; caiu para cerca de 6 mil dólares. As infraestruturas envelhecem. O setor do Estado — dominante nos ramos do petróleo, da eletricidade, das telecomunicações, da indústria, da educação e da saúde, isto é, quase em tudo — curva-se, tanto quanto o privado, sob os atrasos: a dívida interna chegou a 100% do PIB em 1998.

Abertura do setor petrolífero

Estes fatos todo mundo conhece há muito tempo. São agora debatidos em praça pública. Mesmo as autoridades não dissimulam mais: os dias de prosperidade, de abundância, ayyam al-tafrah passaram; não voltarão mais, apesar do recente fortalecimento do preço do barril. O príncipe herdeiro Abdallah, homem-forte do regime desde o afastamento do rei Fahd, gravemente enfraquecido, não cessa de repetir, com uma energia surpreendente para um homem de 77 anos: "A globalização está às nossas portas, com sua força nos domínios científicos e técnicos. Devemos trabalhar intensamente para modernizar nosso sistema econômico e social." Mas relativiza: "Não devemos abandonar nosso verdadeiro caráter de sociedade conservadora." "Não se fala em reforma, pois o termo tem uma conotação religiosa", observa um diplomata ocidental, "somente de reestruturação." Os remédios procurados não são muito distintos dos preconizados em outros países, mas neste, tão tradicionalista, podem abalar muitas estruturas, pôr em causa muitos privilégios. [1]

Setembro de 1998. O príncipe herdeiro faz uma importante viagem política aos Estados Unidos. Confirma assim seu papel nos negócios internacionais, do que é prova a reaproximação que ele conduz com o Irã. Mas este não é o único objetivo de sua viagem a Washington. Uma noite, janta com os dirigentes de sete companhias de petróleo, entre as quais ex-acionistas da Aramco (Chevron, Mobil, Exxon e Texaco), [2] a companhia de petróleo "sauditizada" nos anos 80. O que foi murmurado em volta da mesa? Muito depressa, o boato aumenta. Riad estaria pronta a "abrir" o setor petrolífero aos investimentos estrangeiros, inclusive a exploração e a extração (o que se chama "montante", em oposição ao "jusante" — refino, transporte, distribuição). [3] As companhias são chamadas a apresentar suas idéias e suas propostas, o que farão nos meses subseqüentes.

É uma revolução: a Aramco renunciaria a seu monopólio! Imensos apetites são despertados: a Arábia Saudita regurgita de petróleo, com um quarto das reservas do planeta e os custos de extração extremamente baixos. Mas o príncipe herdeiro não assumiu nenhum compromisso firme, limitando-se a expressar a disponibilidade do seu país para estudar os projetos que lhe forem apresentados. Debates, abafados como sempre, opõem na Arábia Saudita, adeptos e adversários da abertura. No seio da Aramco, poucos dirigentes se resignam com a redução do papel de sua companhia. Depois de um ano de acres negociações, o poder cria, em 4 de janeiro de 2000, o Conselho Superior para Negócios com Petróleo e Minas, que reúne os príncipes mais influentes, bem como alguns ministros e tecnocratas. Trata-se, portanto, de associar — "melar", poderia ser dito em linguagem vulgar — todos os setores estatais a uma decisão delicada.

Vender o país por 100 bilhões de dólares

Um mês mais tarde, o rei encarrega o Conselho de negociar suas propostas com as companhias de petróleo. Fixa as regras do jogo: o montante petrolífero ficará sob a responsabilidade única da Aramco; [4] em troca, tanto para o montante do gás como para o jusante do petróleo e do gás, a Arábia Saudita está pronta para acolher investimentos estrangeiros em condições a serem definidas — deverão principalmente ajudar a extensão das infraestruturas. Esta abertura deveria permitir o aumento da produção de gás, insuficiente mesmo para o mercado interno, e a retomada dos investimentos, em declínio, no setor do refino. No começo de março, numa entrevista à agência de imprensa oficial, o príncipe herdeiro Abdallah se explica: [5] "Os diferentes projetos que nos foram apresentados elevam-se a 100 bilhões de dólares. E não devemos esconder de nós mesmos que se esses 100 bilhões não foram investidos no nosso país, serão investidos em outro lugar, em projetos concorrentes."

Em todos os ramos, o país está sedento de capitais. Seduzi-los — e, para começar, os 450 bilhões de dólares de bens de sauditas no estrangeiro — é uma prioridade. "Nos próximos vinte anos, precisaremos de 150 bilhões de dólares somente no setor da eletricidade", é a explicação do Ministério da Indústria. "Não podemos contar com nossos próprios recursos. Aceitaremos então os investimentos estrangeiros no ramo da produção elétrica, mas a distribuição e o transporte ficarão nas mãos do Estado." Para facilitar esta mutação, uma estrutura, a Companhia de Eletricidade Saudita, foi montada no mês de fevereiro de 2000. Reagrupa uma dezena de companhias de eletricidade, das quais 85% das ações estão nas mãos do Estado. É o último passo, afirma-se, antes da abertura ao capital estrangeiro. As telecomunicações passaram por uma evolução semelhante...

Aliada fiel dos Estados Unidos e do "mundo livre" na luta contra o comunismo e a União Soviética, a Arábia Saudita reivindica há muito tempo a livre empresa. Os investimentos não-sauditas foram sempre extremamente regulamentados. É proibido a todo estrangeiro ser titular de ações e o negócio é monopólio dos nativos. Certos setores "saturados" foram fechados aos capitais estrangeiros — bancos, construção, limpeza... A publicidade, a distribuição e, como vimos, o montante petrolífero também. Nenhum imigrante residente pode possuir terrenos ou imóveis; além disso, ele deve encontrar-se sob a responsabilidade de um patrocinador local, seu fiador junto às autoridades. [6]

Reduzir o Estado, privilegiar os estrangeiros

Criado em 1999, o Supremo Conselho Econômico, presidido pelo príncipe herdeiro, pilota o pesado barco da reforma. A bússola indica uma direção: diminuir as despesas do Estado, diversificar a economia, reduzir o setor público, dar uma formação e um emprego a cada jovem. Em 20 de fevereiro de 2000, o Conselho adotou dois projetos de lei para liberar os investimentos estrangeiros e criar de uma entidade superior que seria o único interlocutor dos investidores. Além disso, o Conselho autorizou o Fundo Industrial Saudita a conceder empréstimos a sociedades que estariam totalmente nas mãos de estrangeiros. Paralelamente, as negociações com a Organização Mundial do Comércio (OMC) entraram em sua fase final e Riad espera juntar-se àquele clube até o mês de setembro. Muitos assuntos estão em discussão, da liberalização dos investimentos à baixa das tarifas aduaneiras, passando pelo direito das companhias de seguros de operar no país.

Se a rota foi fixada, nada garante que será mantida. O piloto não é o único mestre a bordo — a família real está longe de ser unida — e terá que evitar múltiplos obstáculos. Pois a reforma pretendida ataca sólidos interesses adquiridos, inclusive nas mais altas esferas do poder. Lembrando as negociações com as companhias de petróleo, o príncipe herdeiro "garantiu pessoalmente" aos presidentes destas que "as negociações deveriam ser limitadas às companhias e aos dirigentes governamentais". "Recusarei todo projeto que não seja transparente", [7] sublinhou. Num país onde os intermediários e as comissões fazem parte do cotidiano, a medida, se for aplicada, assinalaria uma revolução... Consta, todavia, que o príncipe herdeiro já pôs um freio em certos gastos excessivos de membros da família real.

Mas a reforma econômica pressupõe uma transparência em muitos outros domínios, tais como o abandono da cultura do segredo, profundamente arraigada ao funcionamento do reino. "Ninguém conhece o número de pessoas que ficam em casa, sem trabalho. (...) Ninguém conhece o montante dos investimentos no exterior — nem mesmo a quantidade de dinheiro que as pessoas têm nos seus bolsos ou guardam debaixo do colchão e que se pensa que excedem as reservas do Estado. Ninguém conhece quase nada sobre muitos setores, como a previdência social, a água ou outros serviços públicos." Para concluir esta investida, o editorialista do Al-Chark Al-Awsat, um dos grandes jornais árabes, propriedade de um príncipe saudita e largamente divulgado no reino, escrevia: "Recolher informações deveria ser uma primeira etapa. Tornar essas informações acessíveis — em vez de escondê-las como se fossem um importante segredo militar — é uma necessidade ditada pelos interesses dos indivíduos, das empresas e dos governos." [8]

Monarquia, privilégios e tabus

E ele poderia ter acrescentado: quem sabe qual é o orçamento do Estado? As despesas militares são opacas, tanto que as compras de armas abrem espaço para polpudas comissões. E o montante da "lista civil" — quantias enviadas regularmente aos membros da família real e aos chefes das tribos aliadas — são assunto tabu. Todavia, são avaliadas, por um jornalista de Riad, em dois bilhões de riyals (cerca de 260 milhões de dólares) por mês, ou seja, entre 15 e 20% das despesas orçamentárias!

Numerosos intelectuais, homens de negócios, pessoas de classe média, crêem na vontade do príncipe herdeiro de ir até o fim da reforma, de assumir suas conseqüências políticas. Outros mantêm-se céticos. Jeddah, capital econômica e principal porto do reino no Mar Vermelho... Há longos séculos, a cidade olha ao longe, à espera das centenas de milhares de peregrinos que desembarcam pacificamente, todos os anos, para se recolher a Meca. As relações tribais ali são mais distendidas, os costumes menos rígidos, os jornais mais desenvoltos que na capital. "A eloqüência do círculo próximo de Abdallah, que soube cercar-se bem, é inegável", observa um homem de negócios. "Mas as soluções propostas não estão à altura dos problemas. Interesses demais opõem-se às mudanças. Dezenas de milhares de sauditas vivem servindo de testas-de ferro. Até o setor privado precisa do Estado e muitas empresas não sobreviveriam sem ele." "Após cada crise", nota um professor universitário, "ecoam hinos à mudança. Mas nada se modifica de verdade e o poder fica só nas mãos da família real." O peso das estruturas é às vezes desanimador. "Encontraremos uma solução para esse problema?" — se interroga o jornal An-Nadwa a propósito das dificuldades de conexão com a Internet. "Ou, como fazemos com todos os problemas, vamos simplesmente supor que vai desaparecer por si mesmo?" [9] Mergulhando numa visão orientalista, um redator-chefe de um importante jornal diário observa: "Somos beduínos. Sentamos diante de nossa tenda, sob o céu estrelado, e refletimos. E tomamos nossa decisões sempre tarde demais."

A juventude atingida

E será que já é tarde demais? A resposta pertence sem dúvida aos jovens, essa imensa maioria da população. Todos os anos, mais de 200 mil deles não conseguem entrar no mercado de trabalho. [10] Durante o período de abundância, a despreocupação prevalecia. Os diplomados tornavam-se funcionários públicos ou entravam no setor estatal, com um salário elevado. Outros podiam servir de testas-de-ferro a uma companhia estrangeira, com remuneração substancial. As famílias e o Estado garantiam o supérfluo, às vezes até o necessário. Assim, cada estudante recebia cerca de R$ 4 mil por mês.

Desse sistema, só subsistem intactas, mas não se sabe até quando, as bolsas. Toda a criação de empregos na função pública foi bloqueada. O sistema de patrocinador está em contradição com as regras da OMC. O desemprego atingiria hoje — mas ninguém tem muita certeza — 27% da população masculina. A redução gradual dos rendimentos das camadas médias, o aumento do preço da gasolina, da eletricidade, da água, corróem a capacidade das famílias de garantir a subsistência de seus filhos. A pobreza persiste no campo. Os laços pessoais e tribais, tão essenciais no passado para uma inserção social, para encontrar trabalho, dissolveram-se, ou são menos eficazes devido à explosão demográfica. É verdade que o "não-emprego" não é, na maioria dos casos, sinônimo de miséria. Mas por quanto tempo?

"Há dez anos, quando púnhamos um anúncio, tínhamos no máximo uma resposta, e era para um lugar de diretor-geral", explica o gerente de um hotel de Jeddah. "O trabalho não era valorizado. Hoje, para o mesmo anúncio, temos quinhentas respostas." Na recepção, um jovem saudita recebe os clientes; outros preferem trabalhar nas cozinhas, longe dos olhos. Alguns emigram — têm menos vergonha de trabalhar num país estrangeiro, ou mesmo numa província da qual não são originários. Mas a maioria dos empresários, sem deixar de notar essas transformações, admite, com franqueza: "Um imigrante custa mais barato, faz o trabalho que se pede a ele, chega na hora e aceita trabalhar seis dias por semana."

Os imigrantes representam um quarto da população da Arábia Saudita; e dois terços da mão-de-obra. [11] O governo se empenha, há vários anos, em um plano de "sauditização": as empresas devem empregar uma cota crescente de nacionais. Esta estratégia suscita tanta hostilidade por parte dos empresários que o sistema de ensino e formação está perdendo a reputação.

Um homem de negócios — existe também um número crescente de mulheres de negócios, mas é complicado para um jornalista encontrá-las — de Jeddah encontrou uma solução original: "Como não pagamos impostos, criamos um fundo para os jovens sauditas. Remuneramos assim uma centena deles simplesmente para virem e se formarem." E preconiza a extensão desse sistema a todo o país... Mas vai ser preciso tempo para inculcar uma cultura do trabalho. Enquanto esperam, certas empresas ameaçam instalar-se em outros países e dezenas de milhares de jovens se encontram desempregados.

Entre Meca e o celular

Istirahah, a palavra quer dizer ponto de lazer. Em volta de Riad, estes istirahah, enfeitados e ao lado dos cafés, restaurantes e clubes, são tomados de assalto à noite. Ao ar livre, em barracas alinhadas lado a lado, sentados até mesmo no chão, jovens rapazes, em grupos de três ou quatro, comem, bebem e, sobretudo, vêem televisão: cada barraca dispõe de um aparelho instalado a dois metros do solo. Assim pode-se ver, uma atrás da outra, um caleidoscópio de imagens emitidas por satélite. A maioria dos espectadores está ligada num canal libanês: canções e danças de algumas estrelas locais, não submissas às estritas regras de indumentária dos canais sauditas.

Criados na fidelidade sem falhas do Islã, os jovens sofrem o assalto de uma modernidade globalizada. "Nossa vida é ritmada pela religião mais que em qualquer outro país do mundo", explica um homem de negócios. "O tempo dos homens se confunde com o tempo da religião. Cada um de nossos gestos, cada uma de nossas ações é marcada por isso." A cada chamada à prece, o tempo é suspenso: as lojas baixam as cortinas, a administração pára, todos os muçulmanos devem ir à mesquita. Como conciliar esta educação e a televisão, a prece e o telefone celular? Alguns temem que a adesão à OMC seja um prelúdio a uma "invasão cultural". Nas negociações com os Estados Unidos foram levantadas questões ligadas às liberdades religiosas, aos direitos das mulheres e até mesmo ao... cinema. Washington exige que a Arábia Saudita, onde não existe nenhuma sala de projeção, as abra. "Isto evitará que os jovens se entediem, que se droguem", observa, resignado, um dirigente.

Aqui, como em outros lugares, as mulheres estão no centro das contradições. Em nenhum país muçulmano elas são submetidas a tais restrições: não podem dirigir nem andar sozinhas, a maior parte dos locais públicos é segregada — sucursais especiais da maior parte das repartições são reservadas a elas. Na maior parte do tempo invisíveis, elas são a metade escondida do céu saudita. No entanto, o ensino para as moças generalizou-se e conta-se agora 170 mil estudantes dos quais uma maioria de... mulheres. Seminários são consagrados ao trabalho das mulheres — hoje, 200 mil têm empregos profissionais, número ainda pequeno, mas em crescimento constante. Enquanto a realidade tenta quebrar a coleira de ferro das tradições mais obscurantistas, a luta é surda entre os que defendem uma evolução e uma parte dos religiosos e dos meios conservadores. Tudo está sujeito a atritos...

As mulheres no centro das polêmicas

Em maio de 1999, o príncipe Abdallah declarou: "Não permitiremos a ninguém minimizar o papel da mulher saudita, marginalizar seu lugar eficaz no país. Não devemos permitir a ninguém dizer que o reino subestimou o papel de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas filhas." [12] As polêmicas suscitadas por esta declaração obrigaram a um "esclarecimento" de uma fonte oficial: as palavras foram mal interpretadas e a mulher saudita não tem necessidade de ser "liberada". O Conselho dos grandes ulemás (teólogos) lembra, após alguns dias, sua posição contrária a que mulheres dirijam automóveis, contrária a escolas mistas e a favor do uso obrigatório do hijab, o véu que cobre a cabeça e, às vezes, até o rosto.

Mas o debate não estava encerrado. O Ministério do Interior fez saber, em novembro de 1999, que as mulheres poderão em breve dispor de suas próprias carteiras de identidade. Em fevereiro de 2000, o grande festival cultural da Janadiriyya, que se realiza todos os anos sob a égide do príncipe herdeiro, suscitou uma série de insinuações e numerosas reclamações por dar espaço demais a suas organizadoras. "Vêm das mesmas pessoas que se opuseram ao telefone, depois à televisão, depois à educação feminina", observava, tranqüilo, um estudante universitário.

O debate tem também uma dimensão econômica. "Se eu quero que um empregado meu chegue cedo e se ele não tem motorista e sua mulher não dirige, como os filhos dele irão à escola?", pergunta-se um empresário. Perto de 400 mil empregos são ocupados por mulheres imigrantes; na hora da austeridade não seria melhor que estes lugares fossem ocupados por sauditas? E as dezenas de milhares de motoristas imigrantes, cuja única tarefa é transportar mulheres. Não estariam custando muito caro ao país?

Os ideais islâmicos, interpretados pelos wahhabitas, [13] estruturaram a sociedade e consolidaram o domínio da família real. A imprensa difunde uma retórica anti-americana e o país afirma seu apoio aos direitos palestinos, à resistência no sul do Líbano, às reivindicações sírias às colinas de Golan. [14] As elites fingem rejeitar o modelo ocidental, identificado com a decadência moral — e também com um apoio incondicional a Israel — mas vêem a televisão estrangeira, integram-se à globalização, sonham com viagens a Nova York ou Paris. Contrariamente ao xá do Irã, os sauditas quiseram casar a modernização com o respeito estrito aos valores tradicionais, a solidariedade árabe-muçulmana com a aliança vital com Washington.

Este equilíbrio delicado — esta esquizofrenia, na opinião de alguns — está ameaçado. Todo mundo o sente, um novo equilíbrio deve ser encontrado. Cada um o espera ou teme. "Seja qual for a mudança, será positiva", explica o editor de um jornal diário de língua inglesa. "Nos meios de comunicação, já se fala mais facilmente dos problemas sociais, da poluição, do meio-ambiente. Muitas pessoas vão perder seus privilégios. Os que se opõem ao movimento morrerão. Não pode haver reformas econômicas sem reformas políticas."

Traduzido por Betty Almeida.



[1] Ler "Fin de règne en Arabie saoudite", Le Monde Diplomatique, agosto de 1995.

[2] Diretores das empresas Arco, Philipps e Conoco também participaram.

[3] Sobre os motivos que levam companhias nacionais a "abrirem" seus setores de petróleo e de gás, ler o excelente estudo Le Pétrole et le Gaz arabes, publicado em Paris, a 16 de fevereiro de 2000.

[4] A recusa em abrir o montante petrolífero explica-se, principalmente, pelo fato de que a capacidade da Arábia Saudita ultrapassa, atualmente, a sua produção diária de 2,5 a 3 milhões de barris.

[5] Al Hayat, Londres, 10 de março de 2000.

[6] Ler "Le cadre de l’investissement étranger en Arabie saoudite", ed. Services d’expansion économique français, Riad.

[7] Al Hayat, op.cit.

[8] Al Chark Al Awsat, Londres, 20 de outubro de 1999.

[9] Reproduzido por Arab News, Jeddah, de 22 de fevereiro de 2000.

[10] A Arábia Saudita conta com uma população de 20 milhões de habitantes, entre os quais cinco milhões de estrangeiros; serão 31 milhões em 2010, 46% com idade de até 15 anos. O crescimento demográfico ainda é muito alto, embora tenha caído, entre 1980 e 1997, de 4,9% para 3,8%.

[11] Ler "Préférence nationale à la saoudienne", Le Monde Diplomatique, de outubro de 1998.

[12] Saudi Gazette, Jeddah, de 3 de maio de 1999.

[13] N.T.: Seguidores de Abd-al-Wahhab, adversário de qualquer prática não sancionada pelo Corão.

[14] A Arábia Saudita defende as negociações e o estabelecimento da paz no Oriente Médio. Uma curiosidade: existem, no país, algumas dezenas de estudantes da língua hebraica.


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