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FICÇÃO CIENTÍFICA, TERROR E ESPERANÇA

Viagem ao pesadelo da biotecnologia

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Romance inglês apresenta uma sociedade futura divida entre os que têm acesso à Saúde e os condenados à morte pela doença. Um acaso leva o cientista que criou o apartheid a unir-se à gentalha

Evelyne Pieiller - (12/04/2000)

Estamos em 2100 no meio de uma poeira... mais ou menos radioativa. O apocalipse chegou, mas ninguém percebeu. No entanto, mais de 80% da humanidade é portadora de um vírus que a está matando segura e lentamente. Fatalidade... Os que não são atingidos, os happy few, acumulam privilégios. Não apenas estão com saúde, mas são ricos, pois o sangue "puro" passou a representar o valor máximo, mais precioso do que o ouro. Ele é estocado, especulado, e encontrar a vacina contra o vírus seria uma catástrofe para essa bloody economia.

Quando o Sistema não permite a cura

Os pobres procuram viver pouco enquanto os outros buscam aproveitar a vida abrigados em sua zona protegida. Entre esses dois mundos circulam as maravilhas da engenhosidade humana, esses conjuntos de bits que permitem vigiar cada um, identificar tudo e saber de quase tudo.

Um desses sortudos que possuem tudo para si, terá seu mundo abalado pela doença da filha. Mesmo para ele, as transfusões revelam-se caras demais. Então, Dallas, o brilhante criador dos sistemas de defesa dos "hemobancos", tranqüilamente convicto de seu direito de participar da elite, vai unir-se a essa "gentalha" — até então ignorada por ele — para formar uma quadrilha que lhe permitirá cometer o delito máximo: assaltar o maior banco de sangue, situado na Lua, cujas reservas seriam suficientes para curar metade da população.

Deterioração genética e injustiça social

A saúde, e mais precisamente a organização de uma sociedade fundamentada na divisão entre donos de um corpo em forma e os outros, começa a surgir hoje em dia como um dos grandes temas da ficção científica. Num sentido mais amplo, seria uma dupla angústia que se revela: em relação aos corpos manipulados geneticamente, fragilizados por uma sociedade que se tornou tóxica, e em relação à injustiça que condenará os pobres a não terem acesso à possibilidade de cura.

Esse tema, que vai da "pureza genética" ao tráfico de órgãos, é tratado tanto no filme Bem-vindos a Gattaca, por exemplo, quanto no último romance de Bruce Sterling. É claro que o trio dados informáticos/dados genéticos/dados financeiros permite muitas variantes.

Um novo homem

O romance do britânico Philip Kerr, de quem conhecemos principalmente L’été de cristal (um policial que se passa na Alemanha nazista), combina de forma notável nossas preocupações atuais, potencializando-as com uma lógica completamente fria e emaranhando-as num verdadeiro suspense, no qual a tensão é produto do enfrentamento entre as novas tecnologias e a astúcia do homem. No entanto, e é aí que se localiza a beleza muito particular desse surpreendente romance. Kerr não se contenta em explicar nossas inquietações. Ele nos conduz a uma aventura extraordinária, à mais autêntica das aventuras: a reinvenção do homem.

O envolvimento é tanto que não se consegue abandonar a história, com sua quantidade de perseguições e sustos. Kerr propõe discretamente, sob o apadrinhamento de William Blake, sonhar ainda mais alto, ou pelo menos mais amplamente, para invocar um novo mundo, onde não poderia mais existir a divisão entre poderosos e miseráveis nem a lei da selva tecno-dolarizada. Se veio o Apocalipse, é preciso que surja também uma nova Gêneses: entre a física quântica, os mistérios do DNA e a combinatória dos computadores, deveria ser possível aparecer um homem que compreenda que "o outro" é seu igual.

Nesse ponto Kerr se alia a uma grande tendência da ficção científica atual e, talvez, de modo mais abrangente, de uma sensibilidade geral: já não é chegado o tempo de analisar e tornar visíveis as dores, as loucuras da época, mas também de imaginar um futuro em que seja possível viver? Talvez seja esse o papel dos romancistas e dos visionários - como rosna o herói de Kerr: "às vezes eu penso que é assim que nascem as idéias do futuro, com os desvios de um romancista e uma história metafísica". Pode ser...

Philippe Kerr, O sangue dos homens , traduzido do inglês por Pascal Loubet, Livre de poche, 475 p.

Traduzido por Denise Lotito.




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