Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Uma aventura temerária

» Colômbia, paz ameaçada

» Hora de virar a mesa dos banqueiros

» #Ocupapolítica , entre esquerdistas e pragmáticos

» Crônica da Rússia, à beira da revolução

» Chuva no sertão. cobiça sobre as águas

» As raízes filosóficas da destruição do mundo

» As raízes filosóficas da destruição do mundo

» Os limites de dois “filmes do Oscar”

» As novas lutas pelo Direito à Intimidade

Rede Social


Edição francesa


» Hommes en quête d'identité

» L'odyssée de John Perry Barlow

» Les indépendants du cinéma direct

» Les femmes dans les luttes sociales

» La classe ouvrière devant les premiers immigrants

» En Chine, progrès dans l'industrie, difficultés dans l'agriculture

» Une trentaine de conflits armés que l'ONU n'a généralement pas réussi à éviter

» « Parité, je n'écris pas ton nom... »

» En Iran, les ravages de la drogue

» Sade et l'esprit du néolibéralisme


Edição em inglês


» Maxime Robin on the new drugs ‘100 times stronger than heroin'

» The light at the end of the corner

» Chinese New Year, but where's the money?

» Donald Trump offers a helping hand to China and Russia

» How we got Donald Trump

» How we got Donald Trump

» Iran's far-reaching Shia networks

» Iran's far-reaching Shia networks

» Japan's bluefin tuna

» Japan's bluefin tuna


Edição portuguesa


» Edição de Fevereiro de 2018

» «Idiotas úteis» do Pentágono

» O papel da Concertação Social

» Edição de Janeiro de 2018

» Recuperar os CTT

» O alvo iraniano

» O eixo Washington-Riade-Telavive

» Edição de Dezembro de 2017

» O Orçamento, o presente e o futuro

» Guerras de religião


DO SÉCULO 16 À ÉPOCA CONTEMPORÂNEA

Entusiasmo pela utopia

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

Uma exposição organizada pela Biblioteca Nacional da França, apresenta, de forma ousada, todas as formas daquilo que foi chamado de utopia. A riqueza dos documentos impressiona

Lionel Richard - (12/04/2000)

O que é utopia? O termo, que significa "em lugar nenhum", foi inventado em 1516 por Thomas More. Em 1532, esse jurista, magistrado e chanceler da Inglaterra, foi condenado à morte por seu rei Henrique VIII porque se recusava a renunciar à sua fé, o catolicismo. Em uma obra publicada em latim em Louvain, Utopia, ele descreve a ilha do Lugar Algum, uma ilha com 54 cidades, numa referência à Inglaterra, que na época era dividida em 54 condados. Humanista, amigo de Erasmo, partidário da tolerância religiosa, Thomas More leva seus contemporâneos à reflexão quando imagina a vida sob outro sistema político. Ele lhes propõe imaginar "uma forma melhor de governo".

Um contraponto às sociedades reais

Antes mesmo do fim do século XVI, o livro de Thomas More inaugura, graças a sua repercussão na Europa, um gênero literário: o romance utópico. Seu esquema é simples. Ponto de partida, um espaço geográfico. Nesse espaço, geralmente isolado de tudo, vivem seus habitantes, com um modo particular de organização. A descrição de suas instituições constrói implicitamente uma crítica às sociedades conhecidas. A sociedade descrita por Thomas More surge assim como um contraponto à sociedade inglesa da época. Enquanto numa os ricos esmagam os pobres, na outra reina a igualdade entre os cidadãos e uma justa divisão da riqueza.

No século XVIII, com Jean-Jacques Rousseau e seu mito do "bom selvagem", a literatura utópica foi retomada, o que teve continuidade no entusiasmo romântico das revoluções de 1848 e, pouco a pouco, no desenvolvimento das idéias socialistas, com a luta do proletariado por sua emancipação. Entre as obras particularmente representativas encontra-se Nouvelles de nulle part. Seu autor é o britânico William Morris, pai do movimento de renovação das artes aplicadas na Europa a partir de 1890.

Quanto à palavra utopia, seu uso revelou-se de uma vitalidade incomparável desde o Renascimento. A ela somaram-se várias derivações de toda natureza. O primeiro mérito da exposição organizada pela Biblioteca Nacional da França é de apresentar de modo ousado, com a preocupação de abarcar cinco séculos, todas as formas daquilo que foi chamado, com ou sem razão, de utopia. O panorama, pelos documentos apresentados, é de uma riqueza excepcional.

Das origens à salvação da humanidade pela Ciência

O suporte da utopia, abstração nascida do imaginário, foi inicialmente escrito. Mas os textos deram lugar quase imediatamente a abundantes ilustrações. As sociedades imaginadas tomaram cor e forma. De Platão a Saint Simon, Fourier ou Cabet, o objetivo é sempre a procura de uma outra Cidade para o Homem. Essa busca por uma sociedade ideal, por um mundo melhor, pura construção do espírito, só pode atrair os pintores, escultores e arquitetos.

A exposição em questão mostra-o perfeitamente. Ela parte das origens da utopia, da herança da cultura antiga, para desembocar na tradição judaico-cristã, com a iconografia do Paraíso. Segunda etapa, a descoberta do Novo Mundo e todo o imaginário derivado dela. Em seguida, a utopia na história, do século XVII à primeira guerra mundial. Depois vêm as revoluções americana e francesa, os socialismos românticos, o tema da República Universal preconizada pela geração de 48 e a Comuna de Paris. Finalmente a utopia da salvação da humanidade pela Ciência, e o esboço da ficção científica como gênero literário. A parte mais bonita, no entanto, talvez seja a do século XX com suas vanguardas: maquetes de Lissitzky para um projeto de encenação de uma ópera de Malevitch em 1923, Victoire sur le Soleil; apresentação de um robô usado no filme Metropolis, de Fritz Lang; modelo reduzido do famoso monumento nunca construído de Vladimir Tatlin para a sede da Terceira Internacional. A orientação é clara e pedagogicamente eficaz.

Uma utopia chamada "anarco-capitalismo"

O risco, porém, era grande. A noção de utopia tornou-se de fato um quarto de despejo quando nos perguntamos se, afinal, ela não está presente em tudo na vida. Cristianismo, capitalismo, comunismo, feminismo. Hoje podemos falar também em ecologia e reivindicações homossexuais. Comunidades de todo tipo surgiram nas Américas desde o século XVIII e principalmente a partir de 1848: místicos, teosóficos, comunistas, anarquistas. O catálogo nos mostra que existe até nos Estados Unidos uma utopia reivindicada pelos partidários de um pretenso "anarco-capitalismo". Seriam eles que teriam lançado a carreira política de Ronald Reagan, grande utopista, como se sabe.

A entrada da era eletrônica não teria trazido uma força nova à utopia? Grupos de cibernautas, como sempre nos Estados Unidos, militam por uma comunidade universal democrática, para além das barreiras de idade, sexo, raça, condição social, distâncias geográficas. Uma utopia a mais, certamente, fadada a perder-se em meio a uma padronização em massa.

A exposição obriga a pensar

Os textos do catálogo são, em geral, admiravelmente documentados. Alguns, no entanto, cultivam a confusão. Evidentemente, o tema se presta a isso. Quando, por exemplo, sob pretexto de provar a união natural entre utopia e "totalitarismo", Robespierre, Stalin, Mao e Hitler são arbitrária e abusivamente reunidos sob denominadores comuns em certas citações, a mistura é tendenciosa. O mais choquante é ver atribuída a Robespierre a paternidade de um conceito como o de "Estado total", invenção de Mussolini, ou ver creditada a Hitler a busca por uma "humanidade virtuosa e regenerada", aproximando-o dos revolucionários de 1789. Essas páginas, bastante incômodas, são ilustradas por terríveis imagens inspiradas em Zoran Music, devido à sua prisão no campo de Dachau!

Resumindo, a exposição e seu catálogo levam não apenas aos sonhos: obrigam a pensar. Questionam as classificações e categorias que pode haver na cabeça de cada um. Mas sonho e pensamento, antes de mais nada, podem ser dissociados? O sonho pertence à história da humanidade. Se o milenarismo cristão, que anuncia o evento na terra de uma felicidade de mil anos não possui mais adeptos e, se o Eldorado não seduz mais quase ninguém, Roland Schaer tem razão em afirmar que "somos obrigatoriamente levados à utopia". É ela que permite nos distanciarmos do real. Muitas vezes a utopia não passou de antecipação, um pensamento adiantado no tempo histórico. Precisamos portanto nos resignarmos: ela faz parte do nosso futuro.

Traduzido por Denise Lotito.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Direitos Civis
» Direitos Humanos
» História
» Ciência, Política e Ética

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos