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Obra revela compromissos que o primeiro-ministro rompeu, mas procura defendê-lo apresentando atenuantes que não convencem

Serge Halimi - (12/04/2000)

Em março de 1997, uma pesquisa um pouco mais significativa do que as outras, indicava que os franceses que expressam "revolta" em relação ao capitalismo eram 31 vezes mais numerosos do que aqueles que experimentam qualquer coisa que possa assemelhar-se ao "entusiasmo". Dois meses depois, a "esquerda plural" ganhava as eleições legislativas. A relação entre esses dois fatos iria revelar-se aleatória. Eleito depois de ter se engajado na luta contra o "capitalismo duro", o atual primeiro ministro francês e sua equipe colocaram em prática um "novo capitalismo".

Os autores de A Esquerda imaginária recusam-se a "abrir mais uma vez o eterno processo do sonho frustrado e fazer de Lionel Jospin seu principal acusado". No entanto, o que redigiram foi a ata de acusação da política econômica dos dois últimos anos, onde o esclarecedor e exaustivo confronto entre os compromissos da esquerda de 1995 a 1997 e seus atos no poder [1] mistura-se com a exposição, menos convincente, de algumas circunstâncias atenuantes.

Entre essas últimas figuraria principalmente a substituição, na França, de um "capitalismo germânico" neo-colbertiano pelo modelo anglo-americano de "criação de valor" para o acionista. Lionel Jospin teria chegado ao governo despojado do poder econômico e financeiro, em um país que se tornou "uma banal democracia de mercado onde tudo se compra e vende, basta que se coloque um preço". A hora da verdade está próxima. Por medo das "terríveis represálias" dos investidores estrangeiros (os fundos de pensão americanos), a quem o governo francês teria que cortejar desde a privatização parcial da France Télécom, os socialistas teriam sido obrigados a fechar a fábrica da Renault em Vilvorde.

O problema desse tipo de análise, feita sobre uma atualidade muito recente, é que a esquerda já dedicou parte considerável de sua história a desculpar-se por essas mudanças de rumo, insistindo no peso das limitações que teve que enfrentar no poder. Os dois autores, ao invés de exagerar o caráter supostamente inédito da situação de 1997, poderiam ter destacado a seguinte recorrência histórica: o problema foi sobretudo o "muro de dinheiro" em 1924 e 1936; a falta de ajuda americana, em 1944; e o peso do comércio exterior no produto nacional bruto, em 1981.

Que as pressões conservadoras "estejam de agora em diante acima da democracia, ligadas ao mercado, nas taxas de juros e de câmbio e na capacidade de empréstimos, tudo isso que antigamente permitia que um governo dispusesse de margens de manobra para a agir", nos parece algo quase banal, e o atual capitalismo parece infinitamente menos novo do que se diz. Se algo está claro, é que a lógica do sistema é muito mais forte do que a vontade de transformá-la sem combatê-la.

Gérard Desportes e Laurent Mauduit, La gauche imaginaire et le nouveau capitalisme, Grasset, 1999, 301 páginas.

Traduzido por Denise Lotito.



[1] Vários capítulos do livro de Yann Forestier, La gauche a-t-elle gagné trop tôt? (L’Harmattan, Paris, 1998, 397 p.) fazem o mesmo trabalho.


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