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Uma luta surda agita a Internet, entre uma reivindicação de autonomia, que vem do público, e uma oferta de controle — que, para seduzir, se fantasia em oferta de "conteúdos"

Philippe Rivière - (12/06/2000)

Tudo começou há dez anos. O continente Internet emergia. Em todo mundo, nas salas de informática das universidades, jovens descobriam novos instrumentos de comunicação. Como radiamadores reunidos no café da manhã, os olhos ainda povoados pelos textos que acabavam de desfilar na tela de seus monitores, trocavam o aprendizado recentemente adquirido: como fazer circular um texto em pontos espalhados pelos quatro continentes; onde encontrar uma cópia eletrônica de Moby Dick...

Em pleno crescimento, as redes informáticas abertas eram, sem dúvida alguma, a primeira etapa para a realização da utopia de Herbert George Wells: um cérebro planetário enciclopédico. Profetizou-se a queda iminente do último império, o do poder concentrado do Estado e do comércio, que o vice-presidente da Eletronic Frontier Foundation, John Perry Barlow, anunciou nos seguintes termos: "As noções jurídicas que vocês têm de propriedade, de expressão, de identidade, de movimento e de contexto não se aplicam a nós. Elas se baseiam na matéria. Aqui não há matéria". [1]

Aqui, o texto é a Lei. Ele define cada um dos protocolos públicos da rede: uma descrição sem floreios, sob o modesto nome de request for comments ("pedido de comentários"), e o código informático que o coloca em ação. Os próprios protocolos consistem em uma série de comandos escritos numa linguagem acessível.

O duplo papel das máquinas-rede

As máquinas-rede têm um duplo papel intermediário. Agentes de transporte, elas "falam" entre si para permitir as trocas. Elas são também prótese, "interface" guiando o usuário através de sua representação digital. Formam — explica o "hacker" [2] e romancista Neal Stephenson num surpreendente ensaio sobre o sistema de exploração — "uma pilha de metáforas e de abstrações que se colocam entre você e o texto, encarnando o conjunto de procedimentos que o programador utilizou para converter a informação sobre a qual você está trabalhando (imagens, correio eletrônico, filmes ou textos elaborados) em bytes entrelaçados, que são as únicas coisas que o computador sabe utilizar". [3]

A interface coloca mais leveza nestes protocolos concisos, porém rígidos, simplifica o uso limitando a digitação em "linhas de comando". Depois de ter emancipado o ser humano de uma comunicação tradicional exasperante, os programadores entregam-se à tarefa de libertar de seu peso o instrumento que acabam de criar. A interface, para isso, introduz uma separação entre a rede e o usuário, uma distância destinada a tornar o código invisível.

Em 1993, logo depois da mutação gráfica dos computadores pessoais, a Internet tornou-se, por seu lado, "multimídia". A rede acaba explodindo com a chegada do Mosaico, um navegador com interface gráfica, mistura de imagens e de texto. Intrigado, o império do comércio faz seus primeiros passos na rede. Choque de culturas. O início dos "ponto com" são a tal ponto hesitantes que John Perry Barlow pode, com razão, parodiar os grandes meios de comunicação, "restritos a arrumar as cadeiras no convés do Titanic". [4]

Transformar o internauta em consumidor

Mas seis anos depois "o Titanic continua a navegar". [5] O velho império parece até ter colonizado o novo continente. Arnaud Lagardère, herdeiro do principal industrial francês de armamento, encena de novo Fahrenheit 451 em aparições na TV: graças ao seu serviço de acesso à rede das redes, nunca mais se deixará de lado a liberdade de expressão, parece prometer a propaganda. Embalagem bastante grosseira: quando, alguns meses mais tarde, ele vende esta atividade à filial Internet da Deutsche Telekom, Lagardère avalia seus 300 mil filiados em 50 mil francos cada um. Com essa tarifa, será necessário que um dia seja possível extrair alguma mais-valia ...

É necessário, portanto, tomar conta do internauta. Qual a solução? Netbox, um terminal de Internet ligado ao aparelho de televisão, acredita tê-la encontrado: "Com a Netbox você tem acesso a todas as casas equipadas com televisão. Contacte todos os seus clientes desde já e transforme-se no seu portal preferido. Você vai deixar passar a segunda revolução do e-comércio?" A chave do comércio eletrônico reside no controle do ponto de acesso. Tendo criado uma brecha, a interface se introduz aí imediatamente como uma alavanca que permitirá ao velho império, cuja ruína estava prevista, o controle, a fim de transformar o internauta num consumidor.

A invasão da vida privada

Neal Stephenson, em visita ao "reino mágico" de DisneyWorld, para diante de um homem equipado "de uma destas câmeras de vídeo que permitem ver a imagem filmada em uma tela plana do tamanho de um cartão, e não através do tradicional visor. (...) Em vez de visitar uma verdadeira aldeia gratuitamente, este homem havia pago para ver uma falsa, e em vez de vê-la a olho nu, preferia vê-la pela televisão". [6] Esta exigência de um meio-ambiente controlado, fácil e sem surpresas, explica Neal Stephenson, assegura o poder da interface. À imagem dos mundos compostos por Disney — freqüentemente a partir de textos clássicos que o rei do entretenimento reduz e escamoteia —, a interface gráfica evita ao seu usuário fixar-se ao texto (a cultura) subjacente ao funcionamento do computador ou da rede. Infantiliza assim o usuário, que abdica de sua autonomia, apesar do "sentimento de poder" que pode experimentar.

Os navegadores mais populares valorizam e procuram provocar um comportamento de consumidor: nada é mais chamativo na tela do que uma "transação segura" — um botão se ilumina, sob a forma de chave ou de cadeado, assegurando que é possível enviar sem temor seu número de cartão de crédito. Quando, ao contrário, uma conexão leva ao usuário um arquivo localizador (um cookie [7]), os navegadores não o anunciam na tela. Não seria possível assinalar de maneira equilibrada o risco de roubo dos dados e o risco de invasão da vida privada que constituem os cookies? Não seria possível instalar, ao lado da chave ou do cadeado, um segundo ícone, prático e discreto, assinalando a presença do cookie?

Outra questão central em jogo para inúmeras empresas da "nova mídia" é a definição da página inicial à qual se dirige o navegador. Evidentemente, cada um pode recusar a opção que lhe é proposta de cara e, muito facilmente, fixar-se no serviço que lhe é mais útil. Mas raros são os que o fazem. Prova disso é que o site francês mais consultado é o portal do principal operador de Internet do país; em seguida vem um site de correio eletrônico gratuito e um site da Bolsa de Valores, para, em quarto lugar... aparecer o portal do segundo operador do país. [8]

A chegada maciça de um novo público transforma a rede. A imagem que se tem da Internet e de seus usuários corresponde, na falta de outra referência, à que lhe é fornecida pelos operadores através de um desses CD-ROMs distribuídos a granel. "A comunicação fácil, é conosco!" proclamam; "A cultura sem esforço é conosco", contrapõem os animadores.

Controle sob a máscara de promoção

O controle dos computadores pessoais é ainda precário, pois se insere numa cultura rebelde ao encarceramento. Os negociantes não ganharão facilmente a batalha da cultura informática. Mas os pontos da Internet que se multiplicam nos lugares públicos oferecem um acesso recheado de propaganda e de comércio eletrônico. E o acesso à rede via telefone celular passará logo a ser feito por terminais cativos. "Quando o novo assinante sai da loja com seu celular, já se encontra frente a frente com as opções (do provedor), incitado a consumir isto, e não aquilo". [9]

Uma luta surda agita a Internet, entre uma reivindicação de autonomia, que vem do público, e uma oferta de controle — que, para seduzir, se fantasia em oferta de "conteúdos". "O espetáculo é uma guerra de ópio permanente que quer fazer aceitar a identificação entre bens e mercadorias", como diz Guy Debord.

Traduzido por Angela Mendes de Almeida.



[1] John Perry Barlow, "A Cyberspace Independence Declaration", 08/02/1996 (mensagem eletrônica). Tradução in Olivier Blondeau e Florent Latrive (orgs.), Libres Enfants du savoir numérique, L’Eclat, 2000.

[2] "Industrioso", "habilidoso", no verdadeiro sentido de "hacker", antes que ele tenha sido criminalizado.

[3] Neal Stephenson, In the Beginning Was the Command Line, Avon Books, New York, 1999. — www.cryptonomicon.com/beginn.... Ler também seu último romance, Cryptonomicon 1, Payot-Rivages, 2000.

[4] John Perry Barlow, The New York Times, 24/09/1995, citado por Robert McChesney, " Why the Internet won’t sink the media giants ", Extra! , New York, mar.-abr. 2000.

[5] Robert McChesney, op. cit.

[6] Neal Stephenson, op. cit.

[7] N.T.: O cookie é um arquivo que fica adaptado ao computador do visitante (caso este concorde), permitindo ao computador visitado localizar a sua presença. Entre outras, o cookie tem a função, por exemplo, de permitir aos portais verificar o número de visitas feitas ao seu site por um determinado usuário.

[8] Médiamétrie, fev. 2000. Um "portal" agrupa na mesma tela um conjunto de serviços e de informações. Existem "portais" independentes como "Le portail des copains", rezo.net.

[9] Florent Latrive, "Internet mobile: adieu, monde sans filtres", Libération, 10/03/2000.


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