Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Morte e gozo sobre rodas

» Tecnologia, Ignorância e Violência

» Universidades: a “nova” estratégia do governo

» Pós-capitalismo na era do algoritmo (2)

» Por uma Reforma Tributária Solidária

» Mudar o mundo sem desprezar o poder

» Seria a Medicina moderna uma ilusão?

» Pós-capitalismo na era do algoritmo (1)

» Uma “potência acorrentada”

» Sobre jeans, trabalho insano e folia

Rede Social


Edição francesa


» Quand les intellectuels s'enflammaient pour une cause…

» La France favorable à un système international de gérance

» Les savants, le public et la sonde Rosetta

» Les mondes perdus de l'anticipation française

» L'ordre mondial selon John Maynard Keynes

» L'offensive des intellectuels en Iran

» Les charniers de Franco

» Sabra et Chatila, retour sur un massacre

» La résistance de George Orwell

» Mémoires et malmémoires


Edição em inglês


» July: the longer view

» An interview with Franco ‘Bifo' Berardi

» Learning the lessons of the Arab Spring

» May 2019 parliamentary election

» A religious map of India

» Universal access to care

» Benin's fight against tuberculosis

» Towards an equal and healthy Africa

» Ivorians mobilise against AIDS

» Health for all, a global challenge


Edição portuguesa


» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto

» EUROPA: As CaUsas das Esquerdas

» Edição de Maio de 2019

» Os professores no muro europeu


ARGÉLIA

Em busca da memória perdida

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

Raramente os argelinos pareceram tão dispostos a abrir suas memórias, a lançar um olhar retrospectivo sobre um passado recente e já tão carregado de desmentidos, silêncios e censuras

Ghania Mouffok - (12/06/2000)

Foi preciso 16 anos de paciência a um sociólogo da Universidade de Argel, Kamel Bouguessa, para publicar sua tese sobre as primeiras horas do movimento separatista da Argélia, nascido na década de 20 entre os imigrantes argelinos na França. Se seu livro [1] está finalmente disponível nas livrarias, não é graças à imprensa, explica ele, pois "a cultura do esquecimento é complexa, é constantemente alimentada, o silêncio permanece ainda no ano 2000. Nossa memória segue errante, procura a si mesma e quando bate a uma porta, é perseguida".

Kamel Bouguessa nasceu em 1947 e toda sua juventude foi "ocupada pelo período colonial. Eu era uma criança mas não me esqueço. Fui colono, vi os militares na minha casa, meu irmão era combatente do Exército de Libertação Nacional (ELN). O colonialismo foi a origem da ruína de minha família no mundo rural. Me lembro dos anos 1953 e 1954, quando vestíamos farrapos, usávamos sapatos que chamávamos el gourg, que fabricávamos com pedaços de couro, pano e papel jornal e eram enrolados nos pés, com cordas".

Os "valores sagrados de novembro"

Elisabeth Schemla, jornalista francesa, pertence a essa mesma geração mas a memória que guarda a respeito do colonialismo não é a mesma. Seu livro, Journal d’Algérie, [2] à venda nas livrarias francesas, evoca outras lembranças, as de uma criança mimada que busca com nostalgia a Argélia de sua infância, e que, 38 anos depois da independência, ainda sente falta da Argélia francesa. Quem poderia imaginar ler um dia na imprensa argelina, normalmente tão altiva e orgulhosa a esse respeito — ainda mais vindo da boca de uma "francesa da Argélia" —, que a Frente de Libertação Nacional (FLN) e a Organização do Exército Secreto (OAS) [3] eram organizações terroristas semelhantes? No entanto, foi isso que fez a autora nas colunas do jornal diário Le Matin, [4] sem provocar reação oficial, nem da Frente de Libertação Nacional (FLN) nem das várias associações de ex-combatentes ou outros interessados, habitualmente prontos a se mobilizar quando "os valores sagrados de novembro" [5] são colocados em questão.

Esse silêncio testemunha a desordem permanente que se instalou no país, ainda atordoado pela tempestade sangrenta dos anos 90, que os argelinos não souberam prever nem fazer cessar e para a qual ainda têm grandes dificuldades de encontrar uma solução, apesar da relativa calmaria que parece se esboçar, pelo menos nas grandes cidades. O país está esgotado com tantos fracassos e tem dificuldades em compreender — já que foi proibido de se enxergar como uma coletividade — sua história, mantida sob forte vigilância de ambos os lados do Mediterrâneo. Esse livro, muito mais divulgado do que o de Kamel Bouguessa, dividiu a opinião pública, da mesma forma que o anúncio do concerto de Enrico Macias ou o lançamento, em avant-première mundial, do filme Là-bas mon pays, de Alexandre Arcady. Entre revisionismo show-business e nacionalismo new age, a crítica nem poupa a história da revolução, supostamente tida como o último refúgio das últimas certezas.

Fechados num universo de loucura

A memória da Argélia dói. Pela primeira vez, um presidente da República, Abdelazis Bouteflika, evoca a lembrança do pai fundador do nacionalismo argelino, Messali Hadj, até então apagada da história oficial; é verdade que existe um aeroporto com seu nome, mas o colóquio que lhe foi dedicado em sua cidade natal, Tlemcen, onde foi enterrado às pressas em 1974, não provocou o debate que se esperava.

No entanto, raramente os argelinos pareceram tão dispostos a abrir suas memórias, a lançar um olhar retrospectivo sobre um passado recente e já tão carregado de desmentidos, de silêncios, de censuras. As questões em pauta são vitais, e é a primeira vez que esse assunto é abordado com tal seriedade, numa nação tão jovem, que acreditou ter um destino antes de se auto-destruir — e quase se perder — menos de 40 anos após sua independência. Raramente se escreveu tanto na Argélia, e para leitores argelinos. É como se cada autor, fechado num universo de loucura e sentindo a proximidade da morte, tivesse necessidade de deixar um testemunho pessoal. Mostefa Lacheraf, dirigente histórico da FLN e último ministro da Educação do governo de Houari Boumediène (1965-1978), chama isso "pedagogia da lembrança".

Um islamismo contestador, violento e niilista

Não é por acaso que são as elites das gerações da guerra de libertação nacional (1954-1962) e dos primeiros anos da independência, presenteadas com um modelo de desenvolvimento específico, que agora escrevem, no limiar deste segundo milênio.

Essas elites sentiram sua existência ameaçada por uma nova geração que abalou definitivamente a legitimidade revolucionária que havia permitido o estabelecimento de diferentes formas de poder — políticas, econômicas e culturais —, opondo-lhe o refúgio num islamismo contestador, violento e niilista. Através desses depoimentos, essas elites tentam, num último esforço, preencher as inúmeras lacunas da memória, como se assim consertassem o trágico fracasso da transmissão da história, resultante da censura e da manipulação exercidas ao bel-prazer dos poderosos de plantão.

Até generais escrevem memórias

Foram necessários dez anos de violência, o doloroso abandono do partido único e o fim dos monopólios sobre o mercado editorial para conseguir abrir, ainda que timidamente, um debate sobre a história social e política da Argélia. "É um autêntico fenômeno social, todo mundo quer escrever", reconhece Mustapha Madi, sociólogo que dirige a coleção de ciências humanas da Casbah Editions desde 1996. Essa editora, que existe desde 1992 — seu trabalho começou de verdade em 1995 —, distingue-se pela qualidade das obras que publica com muito esforço. Na editora Casbah, o livro é um negócio de família. O pai era tipógrafo antes de tornar-se impressor em 1962, e foi o filho que em seguida lançou-se ao trabalho de edição — com uma grande independência editorial, graças justamente à impressora particular que se encontra no primeiro andar de uma casa instalada em um dos novos bairros comerciais, na periferia de Hydra. É nessa casa que, toda a quarta-feira ocorrem entrevistas coletivas, pretexto para encontros com os autores da editora.

Tudo começou, como acontece sempre na Argélia, pela publicação do primeiro livro de um general aposentado, Yahia Rahal, [6] em 1996. Até os generais escrevem suas memórias, sobre coisas não-vistas. As do general Khaled Nezzar [7] são consideradas como um best-seller com seus 30 mil exemplares esgotados em poucos meses. Era o mínimo que se poderia esperar de alguém que foi um dos mentores das estratégias do exército desde as revoltas de outubro de 1988 — quando era chefe das forças terrestres, encarregado de manter a ordem — até a anulação das eleições de 1991, vencidas pela Frente Islâmica da Salvação (FIS), passando pela escolha do presidente Mohamed Boudiaf, assassinado em junho de 1992 por um membro de sua guarda. No entanto não foi esse período recente de sangue que deu lugar a uma necessária discussão sobre as responsabilidades do exército nos embates sangrentos dos dez últimos anos. O debate foi curiosamente enfocado sobre o papel dos desertores do exército francês que se uniram ao Exército de Libertação Nacional — categoria de oficiais à qual pertence o general Nezzar. Um violento debate foi feito a esse respeito por iniciativa do ex-presidente do Alto Comitê de Estado, Ali Kafi.

20 anos de "travessia do deserto"

Kafi, que sucedeu o presidente Boudiaf na presidência do governo colegiado instalado em janeiro de 1992 depois da anulação das eleições, sugeriu, a respeito desse tema-tabu, que a "formação inicial" de um certo número de quadros do Exército de Libertação Nacional não era muito diferente de sua maneira pouco brilhante de gerir os negócios do país. Mais tarde, Ali Kafi, também autor de um livro de memórias, seria isolado por seus "irmãos de combate" devido ao assassinato de Abane Ramdane, em 1957. No entanto, essa polêmica necessária, discutida no mais alto nível, acabou por se diluir rapidamente entre insinuações difamatórias.

Mas, contrariamente ao que em geral se diz, não foi o presidente Abdelaziz Bouteflika que, após 20 anos de "travessia do deserto", quebrou esses tabus. Antes de sua eleição, em 1999, os ataques aos nichos do conformismo já haviam começado, acabando por deslegitimar uma classe dirigente que nunca cumpriu suas promessas.

Política de "concórdia civil"

Porém é muito cedo para se acreditar que não existam mais assuntos proibidos. Se a história do movimento nacional, de seu autoritarismo e militarismo, começa a ser escrita longe de teses edificantes e unânimes, o que se quer esconder agora é uma outra guerra. Se o golpe de Estado de 19 de junho de 1965, do coronel Houari Boumediène, já não é mais classificado como "direcionamento revolucionário", continua sendo mal visto dizer que a anulação das eleições de dezembro de 1991 frustrou, na verdade, um processo democrático promissor. A intervenção do exército teria tido como objetivo salvar as instituições e a democracia — com o sucesso que se conhece. Trata-se, uma vez mais, de "virar a página" à política dita de "concórdia civil", iniciada pelo presidente Bouteflika.

Por falta de espaço para um debate institucional, é na rua que se manifestam as vítimas dessa guerra. Todas as quartas-feiras, diante do Observatório dos Direitos Humanos, as mães dos desaparecidos exigem a verdade e a justiça. Em outros lugares, famílias vítimas do terrorismo reivindicam indenização e se manifestam contra a cultura do esquecimento, num desordem caótica que pode ser muito perigosa.

A Kabília não provoca mais medo

Até a Kabília, tida por muito tempo como a região com mais esperança de democracia, comemorou os vinte anos daquilo que se convencionou chamar "a primavera bérbere" [8] de 1980 em meio à divisão e ao fracasso. A Kabília não provoca mais medo. E foi de forma desorganizada, como no resto do país, que milhares de manifestantes desfilaram pelas ruas de Tizi Ouzou com uma nova geração de militantes — aos quais, evidentemente, os mais velhos nada conseguiram transmitir além da obstinada reivindicação do reconhecimento da língua amazigh — aos gritos de "a língua tamazight na escola, o árabe para os jumentos". Quando o famoso cantor Ferhat Imazighen Imoula canta no estádio de Tizi-Ouzou aquilo que foi um hino de contestação nos anos 80, os militantes dessa geração percebem com espanto que esse canto é desconhecido para os milhares de jovens presentes.

Por outro lado, os jovens manifestantes, cuja maioria não era nascida em 1980, entregam-se a um verdadeiro culto à glória de Matoub Lounès, o poeta das teses bérberes radicais, assassinado em 25 de junho de 1998. Está nascendo um mito que reúne à volta de sua memória e de seu túmulo, na sua cidade natal, toda uma geração destruída por esses dez anos de guerra civil. Desorientada, ela optou por venerar aquele que diz ser seu rebelde e seu mártir.

Preenchendo lacunas da memória

"É assim que a Argélia dá continuidade à sua história: cada geração tem como tarefa reinventar tudo de novo, recomeçar, pois um poder reina sob diversas formas sucessivas mas é sempre o mesmo. Um poder que quer apagar tudo, passar uma borracha como se seu princípio político principal fosse o de que os povos mais docilmente governáveis são os que sofrem de amnésia", escreve Nourredine Saadi no prefácio de um outro livro publicado recentemente, de Houari Mouffok, primeiro presidente da mítica União Nacional dos Estudantes Argelinos (UNEA), nascida em 1963 e interditada em 1971. O livro "Percurso de um estudante argelino, da Ugema (União Geral dos Estudantes do Magrebe) à UNEA" [9] conta a história esquecida da retomada da Universidade após o golpe de Estado de 1965. Por ter condenado esse golpe, Houari Mouffok foi torturado e cassado, antes de desaparecer da cena política em 1967. "Desde então levei muito tempo para me refazer das seqüelas da prisão e da tortura. Me abstive de qualquer atividade política", escreve ele depois de 27 anos de silêncio.

Será necessário algum tempo até que os argelinos consigam preencher as lacunas de sua memória, simplesmente porque a camada social que os dirige sob pressão, recusa-se a assumir responsabilidades diante da História. Enquanto espera, a identidade errante e suicida pode continuar.

Traduzido por Denise Lotito.



[1] Ler, de Kamel Bouguessa, Aux sources du nationalisme algérien, ed. Casbah Éditions, Argel, 2000.

[2] Ler, de Elisabeth Schemla, Mon journal d’Algérie, novembre 1999-janvier 2000, ed. Flammarion, Paris, 2000.

[3] A OAS era uma milícia clandestina, de extrema-direita, que se opunha à independência argelina e era composta, essencialmente, por oficiais do Exército francês e voluntários da Legião Estrangeira. Ficou tristemente famosa por ter introduzido, na guerra de libertação, a prática de atentados, seqüestros e tortura contra argelinos.

[4] Le Matin, 27 de abril de 2000.

[5] A guerra da independência da Argélia teve início em 1° de novembro de 1954.

[6] Ler, de Yahia Rahal, Histoires de pouvoir: un général témoigne, ed. Casbah Éditions, Argel, 1997.

[7] Ler, de Khaled Nezzar, Mémoires, ed. Chihab Éditions, Argel, 1999.

[8] N.T.: A população bérbere, confinada à região próxima à cordilheira do Atlas, tem tradição de guerreira e teve importante papel na guerra da independência.

[9] Editions Bouchène, Argel, 1999.


Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos