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ORIENTE MÉDIO / SUL DO LÍBANO

O fim da ocupação

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A memória das ruas está intacta; a das pessoas, um pouco menos. As rugas na testa de alguns, os cabelos grisalhos de outros, os vizinhos que faltam à festa e repousam nos cemitérios dão a medida dos prejuízos causados por vinte e dois anos de ocupação

Hana Jaber , Mounzer Jaber - (12/07/2000)

A estrada de volta está cheia de carros. Um após outro, numa fila ininterrupta que liga, desde a madrugada de 25 de maio, a zona Sul de Beirute às aldeias liberadas, fronteiriças a Israel. O sol se levanta sobre paisagens despretensiosas, suavemente entrecortadas por vales. Os carros atravessam os vilarejos como que despertados de um sono longo e pesado. Pelas janelas abertas, os velhos dão nome a lugares que reconhecem e os jovens começam a associar nomes familiares a lugares até então desconhecidos. Os soldados da Força de Paz das Nações Unidas no Líbano, lotados desde 1978 ao Norte da zona liberada, estão em festa; postados à entrada de suas guaritas, militares das Ilhas Fiji, da Noruega ou da França dirigem aos passantes sorrisos cúmplices.

Estamos quase lá, ainda falta um pouco, mas uma coisa agora é certa: as aldeias estarão lá em baixo, no final desta rodovia do Sul, estreita e destruída, como frutos no final de um ramo, frutos até então proibidos. Não há mais barreiras na entrada dos diferentes acessos: destruídos pelo Hezbollah, os edifícios que abrigavam a "administração civil" da ocupação são agora apenas amontoados de pedras.

Símbolos da resistência e da ocupação

Os carros não são mais parados a duzentos metros da barreira, não há mais necessidade de percorrer a pé o caminho, de ser submetido a interrogatório e ser revistado, e de retornar num veículo sem placa da administração da ocupação. Na entrada de Beit-Yahoun, pode-se mesmo ler, num imenso cartaz, uma mensagem assinada pela Resistência Islâmica: "Entrem em paz, tranqüilos." Este trecho do Corão, referindo-se à entrada no paraíso, reaviva, por sua serenidade mesma, as lembranças de mortos, de massacres e de práticas perversas, que surgem nos comentários de todos aqueles que, encontrados pelo caminho, nem esperam ser convidados para falar.

Mas como reconhecer, entre todas essas estradas campestres, aquela que leva cada um à sua aldeia? Ansiosos por retornar a casa, as pessoas ficam perturbadas com a idéia de se enganar de direção. A impaciência de rever seu bairro e sua casa é tal que, fixados em seu destino final, olham sem atenção as multidões de "estrangeiros" que vieram ver os lugares símbolos da resistência e da ocupação: a prisão de Khiyam, que ex-presos reencontram e fazem uma visita detalhada, ou ainda a famosa "cela de segurança 17" [1] em Bint-Jbeil, famosa por seus interrogatórios violentos.

Excessos irrisórios

A memória das ruas está intacta, a das pessoas, um pouco menos. À entrada dos bairros, os rostos se tornam entretanto mais familiares, os olhares mais insistentes. Choros de alegria acolhem aqueles que retornam em carne e osso. Mas as rugas marcadas nas testas de alguns, os cabelos grisalhos de velhos camaradas de escola, os vizinhos de sempre que faltam à festa e repousam à sombra das quinas dos cemitérios, dão a medida dos prejuízos causados por vinte e dois anos de ocupação.

Eufóricas e alucinadas, as pessoas também estão preocupadas. É verdade que a libertação se fez num contexto de paz civil incontestável, sem acertos de contas entre as comunidades, contrariamente às especulações sobre o futuro da região, que se imaginava a ferro e fogo após a retirada israelense. Se também é verdade que a casa do general Antoine Lahad, comandante do Exército do Sul do Líbano — a milícia irregular de Israel — foi queimada, que a rádio La voix du Sud foi completamente saqueada e desmantelada, que a estátua de Saad Haddad foi destruída, que as tumbas de certos colaboracionistas foram profanadas em Bint-Jbeil, os excessos são entretanto irrisórios, tendo em vista a duração da ocupação, o saldo comunitário sangrento que divide certas aldeias, [2] os conflitos não menos sangrentos no interior dos partidos políticos e a dimensão das práticas milicianas durante a ocupação.

Medo da revanche

O pavor do inimigo foi substituído pelo medo de ser linchado pelos seus, especialmente nas aldeias cristãs, acusadas de uma colaboração que no entanto estão longe de assumir. Entretanto, apesar das visitas contínuas das delegações do Hezbollah como mediadoras, dos encontros com respeitáveis cristãos e chefes de paróquia das diferentes aldeias, e apesar dos repetidos apelos do presidente Emile Lahud para "permanecer sob a proteção da legalidade libanesa", a confiança não impera. Algumas aldeias cristãs estão quase vazias: de Rmeich, 1.700 pessoas (homens, mulheres e crianças) refugiaram-se em Israel, Dibl não tem mais de uma dezena de habitantes e Qlei’a tem apenas velhos e algumas crianças. No total, 7 mil libaneses — colaboradores e suas famílias, cristãos em sua esmagadora maioria — cruzaram também a fronteira.

O medo da justiça popular e do linchamento público, do qual a fuga para Israel é a conseqüência direta, coloca logo de saída duas questões importantes: a do papel da colaboração no contexto da guerra civil libanesa, e a do papel do Estado numa região libertada por uma força não estatal.

Tática de "dividir para governar"

Inscrita no contexto de uma guerra civil sangrenta, na qual aldeias fronteiriças muçulmanas e cristãs se lançaram em combates impiedosos, a ocupação israelense do Sul do Líbano ocorreu oficialmente a 14 de junho de 1978. [3] Ampliada após a invasão do Líbano em 1982 e os sucessivos recuos israelenses — apenas parcialmente realizados, a 10 de junho de 1985 — a zona ocupada constituiu desde então um "cordão de segurança" que protege o Norte de Israel, cobre 1.200 km2 (800 km2 em 1978) e contava uma população inicial de 600 mil pessoas, que não cessou de diminuir, para atingir de 65 mil a 70 mil às vésperas da libertação.

Israel pediu em seguida ao comandante Saad Haddad que constituísse um exército que seu aliado. [4] Assim se cria, a 17 de maio de 1978, o Exército do Líbano Livre, que leva o nome de Exército do Sul do Líbano (ESL), com a chegada a seu comando do general Antoine Lahad, a 4 de abril de 1980. Se a estrutura desta força armada é inicialmente cristã maronita, a política israelense posterior — encarregando-se de jogar com as rivalidades entre as aldeias e os conflitos entre clãs em seu interior — conseguiu, particularmente durante os anos 80, reequilibrar a dosagem comunitária deste exército (3 mil homens no total), e formar um aparelho muçulmano que não falha em nenhuma das missões que lhe são confiadas, a ponto de poder dispensar, em muitas circunstâncias, os elementos cristãos.

O prêmio pela colaboração

Paralelamente, para contar com a fidelidade destes elementos armados num contexto de colaboração e de desemprego, Israel estabeleceu um sistema de apadrinhamento que dava aos familiares de todo militar o direito de trabalhar em Israel, reservando-lhes empregos nas instituições que lhe eram correlacionadas, no interior e no exterior do território libanês.

As primeiras ofertas de trabalho em Israel foram feitas dois anos antes da ocupação, a partir de 1º de agosto de 1976, pela Companhia de Tabaco em Safad, mas a prática do emprego e do apadrinhamento pelo ESL torna-se sistemática a partir de 1987, quando o Estado libanês deixa de importar e comprar as colheitas de tabaco por três safras sucessivas. O número de trabalhadores libaneses em Israel passa então de 1.535 pessoas (2.300 em 1989, 3 mil em 1994) para 4 mil pessoas em 1996. [5]

Cristãos abandonados à sua sina

Neste contexto, os habitantes percebem-se vítimas — consentidas e regiamente recompensadas, em alguns casos, mas vítimas, de qualquer forma — de uma lógica de controle implacável e crescente que só poderia levar à colaboração. A retirada antecipada das forças israelenses, à revelia mesmo de um ESL derrotado, leva Antoine Lahad à dura constatação de que "vinte e quatro anos de colaboração [foram] aniquilados em vinte e quatro horas". Israel abandona habitantes e soldados rasos do exército à sua triste sina.

Uma sina que preocupa principalmente as aldeias cristãs, na medida em que seus apelos impacientes — dos quais o clero se faz porta-voz, [6] — de enviar com urgência forças legais (o exército, ou pelo menos a polícia militar libanesa, ou as forças policiais internas) ficam sem qualquer resposta tangível. A justiça condena os acusados de colaboração com o inimigo a penas consideradas muito indulgentes pelo Hezbollah e as famílias das vítimas, o que às vezes dá lugar a linchamentos isolados. Rivalidades e conflitos entre a resistência

O Hezbollah, a quem o poder central deve a devolução "sob a proteção da legalidade" dos territórios ocupados, acha-se intimado de facto a preencher esse vazio em termos de segurança, que as forças legais ainda não preencheram várias semanas após a retirada israelense. Entretanto, por ocasião do comício organizado em Bint-Jbeil pelo Hezbollah — que reuniu 100 mil pessoas, entre as quais o ministro das Relações Exteriores iraniano — seu secretário-geral, o xeque Hassan Nasrallah, recusou-se firmemente a assumir esse papel. A mesma posição foi confirmada por seu adjunto, xeque Naim El Kassem: "O Hezbollah não é uma força de segurança e não pode penetrar a esfera dos conflitos internos enquanto força de pressão." E acrescentou: "Apesar de tudo, trouxemos uma contribuição importante a este capítulo, para que a situação não descambe."

Apesar da sua entrada triunfal e de seu papel incontestável, o Hezbollah não controla a totalidade da zona liberada. As tendências políticas implicadas na resistência (esquerda libanesa, Amal, Hezbollah), fazem o possível para evitar uma implosão. Por isso, alinham-se às posições oficiais libanesa e síria, que pretendem acalmar a situação para absorver os efeitos da retirada israelense. Disso resulta simplesmente que desde os primeiros dias da retirada, conflitos e rivalidades políticas se fazem presentes: corrida desenfreada para afixar cartazes apontando o futuro, comício a 27 de maio do Hezbollah em Bint-Jbeil, justamente onde, a 31 de maio, Nabih Berri decide a manutenção excepcional, de qualquer maneira , da sessão parlamentar.

A liderança, relativa, do Hezbollah

Por sua vez, esses conflitos também assumem rapidamente contornos comunitários, e cada uma das comunidades proclama sua "resistência": o Partido Socialista Progressista, na região drusa de Hasbayya, a Associação dos Projetos Islâmicos, na região do Arkub, o Partido Nacionalista Sírio, nas regiões cristãs, Amal e Hezbollah, nas regiões xiitas — é claro que com predominância clara deste último sobre o conjunto da zona liberada.

Se o Hezbollah se tornou incontestavelmente o primeiro partido xiita, não conseguiu transformar-se em liderança global e federativa da resistência no Sul do país. Na realidade, esta assumiu, ao longo dos anos, um adorno islâmico ao qual tornou-se difícil renunciar. Muito rapidamente, no fim dos anos 80, as operações de resistência assumidas pelos partidos de esquerda desde 1982, que culminaram com a tentativa de assassinato de Antoine Lahad por Suha Bichara, a 7 de novembro de 1988, dão lugar àquelas organizadas pelos islamitas — e mais particularmente pelo Hezbollah, cuja primeira operação espetacular tem lugar a 30 de dezembro de 1985, provocando a morte de dois soldados israelenses.

A partir do fim da década de 80, a resistência é incontestavelmente islâmica, dirigida por um Hezbollah que, apoiado numa rede social que suas instituições (escolas, centros de saúde, associações etc.) contribuem ativamente para alimentar, jamais cessou de pregar seu objetivo maior: a libertação do Sul do país. No entanto, com a aproximação das perspectivas de libertação após a retirada israelense, ele permanece misteriosamente mudo sobre a próxima etapa. Relaciona-a, sem dúvida, ao traçado das fronteiras com Israel, à Palestina e ao Golan, o que evidencia que o prosseguimento ou a suspensão das operações militares estão ligadas às orientações sírias e iranianas e ao jogo das negociações sírio-israelenses. Por enquanto, dispondo de oito cadeiras no Parlamento, de um total de 33 cadeiras xiitas, o Hezbollah repousa sobre os louros de "sua" vitória.

Traduzido por Celeste Marcondes.



[1] O "17" é originalmente o nome que leva uma das facções do Fatah palestino, reputada por sua organização afiada e suas práticas vigorosas. A "administração civil" da ocupação instalou-se em Bint-Jbeil no mesmo local que ocupava antes a facção "17".

[2] Primeiro conflito, em outubro de 1976 entre a aldeia xiita de Hanine, de um lado, e Dibl e Rmeich, cristãs, de outro lado, seguido de um segundo conflito, em julho de 1977, entre Yarine e Marwahine, xiitas, e Alma Shaab e Rmeich, cristãs.

[3] Na realidade, a ocupação ocorreu na madrugada de 15 de junho. Não se trata de um erro cronológico, mas da submissão dos fatos às considerações da política. O Conselho do Sul havia pedido que o dia 15 de março fosse reconhecido como data nacional, assim como o 19 de março, dia da proclamação da Resolução 425 pelo Conselho de Segurança da ONU (19 de março de 1978). A linha oficial decidiu de outra forma, e decretou 14 de março o dia da invasão israelense do Líbano.

[4] Saad Haddad controlou o exército do Líbano Livre de 1978 a 1984, quando morreu de câncer.

[5] Note-se que os rendimentos do emprego junto às instituições israelenses representam 21 milhões de dólares por ano, ou seja, um quarto dos rendimentos dos habitantes da zona (a metade desses mesmos rendimentos, se forem acrescentados os salários dos milicianos do Exército do Sul do Líbano).

[6] O arcebispo dos gregos ortodoxos de Marjayun pede que "o Estado com todos os seus símbolos esteja presente", da mesma forma que o arcebispo dos gregos católicos se queixa da "rigidez intelectual entre as pessoas que não conseguem estabelecer a diferença entre colaboração e necessidade". Cf. Al Nahar, 25 de maio de 2000.


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