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O "DEVER DA BELEZA"

Dilemas e estigmas femininos

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Livro retrata a trajetória de três mulheres de diferentes origens sociais que acabaram militando no Movimento de Libertação Ferminino, de Genebra, expondo sempre a necessidade impositiva de obterem referência masculina

Elisabeth Lequeret - (12/07/2000)

Filha de um casal de emigrados da Europa do Leste («pessoas muito progressistas»), Rosa militava pelo grupo Lutas Internacionais ("que reagrupava todos aqueles que não eram nem trotskistas, nem maoístas, nem comunistas do Partido") e achava os movimentos feministas "ridículos", quando ela descobriu o MLF, Movimento de Libertação Feminino em 1974, por ocasião de um congresso. De uma família muito mais modesta, Jacqueline, bancária desde os dezesseis anos, teve que batalhar firme para seguir cursos noturnos e conseguir um "diploma de cultura geral" para tornar-se professora primária. Quanto a Albertine, filha de um médio-empresário, ela se viu na Universidade sem que alguém tenha jamais pedido sua opinião: seu pai, decepcionado por não ter tido um filho que pudesse ser médico ou advogado, tinha dessa forma encontrado o meio de se proporcionar o filho-genro que ele não tivera, "via um casamento vantajoso".

Sob seus nomes fictícios, Rosa, Jacqueline e Albertine recontam o caminho que as conduziu, em meados dos anos 70, ao MLF de Genebra . O que surpreente mais, além da diferença das origens sociais e dos percursos, é a mesma frase que volta como um bumerangue: "Era evidente que só os garotos podiam dar um status social a uma garota" (Rosa) "O principal é ter um marido que não beba e traga o salário para casa" classificava a mãe à jovem Jacqueline antes de lhe oferecer, pela obtenção de seu diploma... um livro de culinária. "Uma mulher sem amante ou sem marido era um objeto sem valor, uma quantidade negligenciável, um fracasso." (Albertine)

Estigma

Talvez tenha sido aliás, para escapar ao eterno estigma que persegue as mulheres que ousam falar e pensar em seu próprio nome, que Melanie Klein, toda sua vida, sublinhou sua continuidade com Sigmund Freud . Teórica e clínica, dotada de um carisma e de um senso político à toda prova, Melanie Klein, que concebeu seu primeiro estudo sobre psicanálise de crianças baseando-se em análise dos seus próprios filhos, remodela amplamente, no entanto, o paradigma freudiano, o que não a impede de se fazer atacar sem folga pelos discípulos de Anna Freud, a filha do fundador da psicanálise e passar para a posteridade sob o nome de "genial enganadora" (segundo um duvidoso elogio de Jacques Lacan).

Tanto esse estigma é evidente que, se o homem é sempre considerado na esfera do intelecto, a mulher, por sua vez, é incessantemente relegada na direção do corpo, do instinto sexual, do orgânico. "Do lado de cá a relação fantasiada entre o feminino e doentio, desta representação de Pandora ao mesmo tempo agente e encarnação do Mal, situa-se uma relação mais imediata entre a mulher e a doença: o cotidiano doentio da mulher", observa Bruno Remaury em O bom sexo frágil, um estudo sobre as imagens do corpo feminino, das propagandas de cremes antirugas aos vídeos de Jane Fonda. Constatamos aí que o tempo todo a beleza teve lugar de imperativo catégorico para a mulher. E, se "a feiosa do século passado não era responsável e podia sempre acusar a natureza, a feiosa de nosso fim de século é negligente e culpada, e não deve mais descarregar a culpa em alguém, a não ser em si mesma", sublinha o autor. Após o dever da felicidade, o dever da beleza?




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