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LITERATURA / FICÇÃO CIENTÍFICA

O espelho do mundo atual

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Considerada "menor", a ficção científica tem se mostrado mais realista do que a "grande literatura", ao abordar as transformações tecnológicas e sociais causadas pela informática e pela globalização, tornando o controle social ainda mais sofisticado

Valerio Evangelisti - (12/08/2000)

A globalização da economia, o papel hegemônico da informática, o poder de uma economia desmaterializada, as novas formas de autoritarismo ligadas ao controle da comunicação, todos estes temas parecem deixar indiferentes os escritores da "grande literatura", pelo menos na Europa. Na maior parte de seus romances, o mundo parece imutável. Predominam as histórias intimistas, que poderiam ter-se passado há cinqüenta anos — ou que poderiam acontecer daqui a cinqüenta anos... Amores, paixões e traições perpetuam seu consumo à luz de uma vela, num mundo de cores pálidas e cheirando a poeira e talco. Há, é claro, algumas exceções; mas na maior parte do tempo o cenário geral é imoderadamente "minimalista".

O estilo insosso, extenuado, passou a ser considerado como realista. Parece deter a verdade, a ponto de tornar-se a única forma de literatura nobre. Pouco importa se o autor, que não tem tempo a perder, digita seu texto num computador e o envia por correio eletrônico. Pouco importa se o tempo de impressão foi reduzido em mais da metade graças às novas tecnologias. Essas inovações vulgares não poderiam refletir-se na história, sob pena de contaminá-la e reduzir sua carga de sublime. A prosa "realista" situa-se fora do tempo; o que é ancorado no tempo não tem valor.

Obediência ao mercado

É lógico que a literatura "branca" arrasta consigo sua antítese, o roman noir. Aqui, a rua, o conflito, o urbano, o social desempenham um papel importante. Já as estruturas planetárias do sistema, as evoluções históricas, as mutações psicológicas e comportamentais que o desenvolvimento tecnológico gera não têm papel algum, exceto em casos raros. Os acontecimento se reduzem ao conflito entre alguns indivíduos animados pelas eternas paixões: ódio, vingança, amor, sede de justiça. O "maximalismo" do cenário se dissolve no "minimalismo" do tratamento: policial corrupto, ou dúbio, ou honesto, contra criminoso honesto, dúbio ou corrupto. Nem sempre, mas com bastante freqüência. E no entanto o sistema é questionado, em seu conjunto. Na realidade, trata-se de um "minimalismo" mais amplo, ou de um "maximalismo" reduzido. Dois passos à frente e um passo atrás.

O fato é que hoje, mais do que nunca, o sistema diluiu-se em escala continental e o controle sobre as vidas individuais se encontra nas mãos de um poder anônimo e longínquo. Um volume vertiginoso de trocas decide no espaço de um dia centenas de milhares de destinos: uma fábrica fecha na França, uma revolta estoura na Indonésia, uma empresa italiana desloca sua produção para a Albânia, um aventureiro ganha milhões de dólares na Austrália e os perde na Espanha no dia seguinte; tudo isso escoltado por milhares de dramas que ninguém se encarrega de registrar... Alguém gostaria de saber quem está na origem de tantas tragédias? Descobre-se que são acionistas inconscientes que confiaram suas economias a um administrador de fundos. Este último também é parcialmente inconsciente: tudo o que ele conhece é o mercado. Ora, o mercado não é uma entidade física, é um conjunto de equilíbrios gerado por regras. Quem impôs tais regras? Os governos. Mas os governos também são inconscientes, pelo menos em parte: tomam decisões em ligação com outros governos mais poderosos. A quem obedecem estes últimos? Em teoria, ao mercado, na realidade, a ninguém...

Estranho código genético

Se procurássemos o elemento detonador, talvez terminássemos por descobri-lo num professor alcoólatra, numa pequena universidade norte-americana de província... O qual, em pleno delírio etílico, elabora uma teoria fundada sobre nada, mas em afinidade total com o que, naquele momento, a política de seu governo exige... A teoria se mistura à ideologia, o resultado se metamorfoseia em político, a política se transforma em poder, o poder se faz potência.

Nessa altura, o desempregado já sabe a quem agradecer. Ou talvez não. Ninguém sabe. Enquanto a "grande literatura" se compraz em ignorar tudo isto, a literatura do "andar de baixo" fez da época seu objeto de predileção. Aludo à ficção científica. Não a toda ficção científica, bem entendido, pois há muita bobagem nesse campo. Mas, por natureza, o gênero é "maximalista" e inclina-se a tratar vários assuntos: pinta mutações em larga escala, revela sistemas ocultos de dominação, denuncia efeitos trágicos ou bizarros da tecnologia, inventa sociedades alternativas. Assim como o spaghetti-western mais pesado podia incluir momentos de cinema de qualidade, o romance de ficção científica menos legível pode conter grandes intuições. Mesmo que se perca em aventuras sem outro fim que elas mesmas, em retratos psicológicos mal-acabados, em simplificações de historieta infantil. Mas o "minimalismo" nele continua, para sempre, intolerável. É estranho a seu código genético.

Nem efêmera nem negligenciável

Só a ficção científica apresenta descrições realistas (sim, realistas!) do mundo em que vivemos. Por exemplo, que outro gênero literário já dedicou um romance aos mecanismos das crises econômicas? Nenhum. Mas tomemos Depression or Brust (1974), de Mark Raynolds. Um sujeito cancela sua encomenda de uma geladeira, o que leva à falência da concessionária, depois do fabricante e, etapa após etapa, ao colapso de toda a economia dos Estados Unidos. A história não tem outro personagem a não ser a crise e a fragilidade geral do sistema. Talvez não se trate de literatura refinada, mas não se pode relegá-la ao campo do efêmero ou negligenciável. Os temas são tão fortes que é impossível deixá-la à margem.

Voltemos atrás, com Hell’s Pavement, de Damon Knight (1955). Uma sociedade imaginária, relativamente próxima à nossa no tempo, descobre o remédio definitivo contra o crime. Os criminosos confirmados são condicionados a sofrer alucinações no momento em que tentarem cometer um delito. A descoberta cai nas mãos de algumas sociedades multinacionais, que a adaptam a seu próprio objetivo: o delito mais grave, que provoca alucinações, torna-se a compra dos produtos das empresas concorrentes. Resultado: O mundo inteiro é dividido em zonas de influência, onde cada sociedade multinacional exerce sua dominação impondo aos cidadãos as alucinações que lhes convêm.

Distinguir o verdadeiro do falso

Isso faz você sorrir? Eu não sorrio. Vivo num país — a Itália — onde um movimento político nasceu de um aceno, graças ao único fato de que seu líder — Silvio Berlusconi — era o dono de uma rede de televisão...

Ainda no capítulo das alucinações: um autor italiano de ficção científica, Vittorio Curtoni, escreveu há uns vinte anos uma série de histórias sobre o tema de uma guerra do futuro. Os protagonistas recorriam a armas psicodélicas, o que gerava uma humanidade impotente para distinguir o verdadeiro do falso, incapaz de se considerar como pertencente a um todo solidário...

Os que ainda se lembram da onda de desinformação divulgada pelas fontes mais confiáveis durante a guerra do Golfo e a guerra do Kosovo compreendem do que se trata: recém-nascidos arrancados da incubadora pelos homens de Saddam Hussein, as 700 crianças kosovares seqüestradas para doar sangue aos soldados de Milosevic... E outras tantas informações falsas, que nos levam a pensar que a guerra das alucinações já começou.

A falência da democracia

Um último exemplo. Aludi à dificuldade de identificar, hoje, quem maneja as alavancas do poder. Sobre este assunto, há uma história deliciosa de Jack Vance, Dodkin’s Job (1964). Numa sociedade de classes rígida, um operário é perturbado pelas ordens irracionais que lhe são impostas e então tenta descobrir de quem elas vêm. Depois de uma longa pesquisa, descobre que não vêm de ninguém... Melhor ainda, é um velho porteiro dos palácios do poder quem se encarrega de datilografar um rascunho numa velha máquina de escrever, e depois o sistema se apodera do rascunho, deforma-o e o transforma em ordens absurdas.

À primeira vista, não passaria de uma brincadeira. Na realidade, uma parábola sobre a falência da democracia que se manifesta nas formas modernas da sociedade, quando o poder se exerce sem controle.

A resistência do cyberpunk

Com a metáfora, a ficção científica soube perceber, melhor que qualquer outra forma de narração, as tendências evolutivas (ou regressivas) do capitalismo contemporâneo. Isto lhe permitiu, freqüentemente, ultrapassar os limites habituais da literatura e se expandir para os costumes, comportamentos, os modos de falar comuns, em uma palavra, a vida cotidiana. A corrente cyberpunk, ainda ativa há uns dez anos, constitui o exemplo principal. Pela primeira vez na história, e bem antes do desenvolvimento atual da Internet, muitos escritores tomavam como tema de seus romances esta forma de relação entre o homem e a máquina, que é a informática.

Seriam romances "fantásticos", afastados do realismo considerado como a forma privilegiada da literatura? Permitam-me duvidar. Quando a Internet se impôs, as obras de William Gibson, Bruce Sterling, Rudy Rucker e outros forneceram à nova realidade os termos adequados para descrevê-la e um mapa de seus porvires potenciais. Melhor ainda, mostraram aos oponentes o caminho da resistência, cultural e prática, diante das ameaças contidas na emergência de uma rede de comunicação onipresente e capaz de reproduzir as relações de dominação no terreno enganador do imaterial.

As batalhas dos piratas

Segundo eles mesmos confessaram, militantes da extrema-esquerda européia criaram, sob a influência de histórias cyberpunk, a rede European Counter Network (ECN); foram os primeiros a utilizar a velocidade do novo sistema de informação para coordenar suas ações. Os centros sociais dos jovens revoltados encheram-se de modems e de computadores, sistematicamente destruídos durante as batidas policiais. Os piratas da informática empreenderam titânicas batalhas individuais contra os grandes grupos econômicos, reduzindo a velocidade de acesso à rede e sua submissão.

Já tínhamos visto a literatura popular influenciar a vida (por exemplo, as novelas do século XIX ou as recaídas sociais dos romances de Eugène Sue), mas nunca de modo tão maciço e sistemático. A ponto de o cyberpunk não se ter extinguido devido à fraqueza, mas por ter-se tornado supérfluo, diante de sua expansão fora do campo narrativo. Não creio que outras correntes literárias se possam gabar de fim tão glorioso.

Investindo nos sonhos

Tem-se a impressão que o fantástico, e muito particularmente a ficção científica, é a única maneira, do ponto de vista literário, de descrever o mundo atual de modo adequado. Porque é um mundo onde o imaginário assumiu uma importância excepcional. Se fôssemos reformular a teoria do valor (e como isto seria necessário!), seria preciso acrescentar a informação aos fatores enumerados por diversas escolas econômicas. As noções de quantidade de trabalho contida nas mercadorias, de penúria de bens, de diferença entre a oferta e a procura não bastam mais. A procura de uma mercadoria aumenta com sua notoriedade, e seu valor cresce em conseqüência disso.

O capitalismo tradicional contentava-se com a publicidade. Agora, vai mais longe: na imaginação, nos sonhos, nas mais íntimas visões do mundo. O crescimento da comunicação o permitiu, impondo modos de vida, criando necessidades onde não havia, aumentado a sede de afirmação do indivíduo. Não se compreende nada da sociedade contemporânea se não se levar em conta a rápida colonização do imaginário consumada nestes últimos anos. Antes, desempenhávamos um papel produtivo durante um certo número de horas por dia, enquanto o resto do tempo era dedicado à diversão e ao repouso, isto é, a nós mesmos. As atividades de descontração, todas baseadas na comunicação, prolongaram o campo da produtividade à custa do lazer e do tempo de repouso. Quase todos os espetáculos televisivos contêm incitações à compra, seja através de publicidade explícita ou referências a modos de vida considerados melhores para todos.

Imagens sem contexto

A imagem já causou verdadeiras comoções sociais: a corrida às mercadorias ocidentais depois da queda do muro de Berlim, a chegada maciça de albaneses à Itália, atraídos pela fascinação das ondas televisivas captadas além-Adriático... Mas se a informação é uma coisa, a sua manipulação é outra. Hoje em dia, a comunicação capitalista visa diretamente o inconsciente. A produção simbólica, antes ajustada à evolução dos séculos, tornou-se frenética. Incentiva-se sem pudor a perda de identidade.

Por outro lado, informação e comunicação são partilhadas quando os grandes temas estão em jogo. Imensas tragédias se reduzem a diligentes seqüências de imagens, tão rápidas que delas nada resta. Ver um jornal da CNN é não ver nada. Sai-se com uma série de noções inutilizáveis, porque ali falta o contexto, a análise, a reflexão. É verdade que a profundidade é a grande inimiga dos que controlam os destinos de outros (ainda que de forma anônima). O sistema só subsiste se os subordinados viverem na futilidade. E daí a exigência de introduzir em sua intimidade, até na sua psique, falsas informações, falsas representações para que não percebam sua condição.

As formas bastardas da ficção

A ficção científica, o fantástico, a literatura centrada no imaginário, têm o poder de reforçar a inventividade contra este gênero de agressões. Elas o utilizam menos do que seria necessário, e às vezes nem o utilizam. A ficção científica norte-americana contemporânea é a sombra do que foi: padronizada, pobre, reduz-se muitas vezes a formas bastardas de vulgarização científica, tão nulas literária quanto intelectualmente. A renúncia à ambigüidade e à provocação foi, certamente, fatal.

Todavia, não se deve esperar que a "grande literatura", o mainstream (de tal forma indiferente à sociedade que o cerca que fez do descompromisso e do retorno sobre si um critério de qualidade) conduza a resistência contra a colonização do imaginário.

É necessário para isto uma narração "maximalista", consciente de si mesma, que preocupe e não console. A ficção científica foi isto. Poderia sê-lo de novo.

Traduzido por Maria Elisabete de Almeida.




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