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A ameaça do modelo texano

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Com a candidatura de Bush, a eleição presidencial norte-americana tornou-se um plebiscito sobre o Texas e os valores que ele encarna. Vale a pena conhecê-los mais a fundo...

Daniel Lazare - (12/09/2000)

A maioria dos norte-americanos acredita que o Estado do qual George W. Bush é governador desde 1995 herdou a característica política singular de seus cowboys, de seus grandes espaços selvagens e de sua longa história de lutas violentas contra todo o tipo de inimigos, do México aos índios Comanches, sem esquecer os exércitos nortistas por ocasião da Guerra de Secessão. Afinal, quando os índios se preparam para a guerra e o mais próximo vizinho suscetível de socorrê-lo se encontra a quilômetros de distância, o homem não tem outro aliado senão o seu fiel revólver de seis tiros. Isto explicaria o fato de os texanos terem posto o individualismo e a independência acima de todas as virtudes.

Com a candidatura de Bush, a eleição presidencial norte-americana tornou-se um plebiscito sobre o Texas e sobre os valores que encarna este Estado, o mais populoso dos Estados Unidos depois da Califórnia. Se as armas e a geografia certamente atuaram na sua gênese, explicações desse tipo subestimam até que ponto o Texas de hoje foi "construído" em 1875, conscientemente, por um grupo de 90 parlamentares, todos brancos e ex-soldados dos exércitos confederados (sulistas). Durante os seis anos anteriores, um governo progressista apoiado pelo Norte se dedicara a fazer o Texas entrar no mundo moderno, construindo escolas públicas, desenvolvendo a indústria e lutando contra os maus tratos infligidos a mexicanos e negros. [1]

Bilionários mendigam subsídios

Essas reformas traumatizaram de tal maneira os proprietários de terras que, quando o Norte abandonou o projeto de transformar os Estados confederados e a breve abertura democrática terminou, eles se apressaram em restaurar o antigo regime. Decretaram a segregação racial nas escolas públicas, cortaram os orçamentos da educação, aboliram o financiamento público dos estabelecimentos negros e desmantelaram o aparelho governamental tão dolorosamente implantado pelo governador precedente, Edmund J. Davis. Destas contra-reformas emergiu um novo Estado que veio a ser, antes de tudo, sinônimo de oposição à intervenção pública, à mudança política e disposto a fechar os olhos à utilização de violência contra as minorias raciais, operários e pobres.

Esta visão do Texas subsiste em tudo que o Estado diz e faz, em suas cidades quase inóspitas, sua estrutura de classes, seus ioiôs econômicos entre prosperidade e falência, sua paixão pela pena de morte. O Texas é, como dizem os folhetos turísticos, "uma terra de contrastes". O que os folhetos não revelam é que esses "contrastes" são produto de contradições enraizadas na estrutura política do Estado. Os texanos desprezam a política, apesar de terem contribuído com alguns de seus mais talentosos políticos para a superpotência norte-americana. O Estado transborda de bilionários do petróleo e do gás, que pregam com fanatismo o capitalismo e a livre empresa, mas sem jamais esquecer de mendigar uma isenção fiscal ou uma subvenção de Washington.

Estagnado no subdesenvolvimento

Os texanos são impregnados de um espírito voluntarioso e de um otimismo a toda a prova, ainda que — devido à desorganização crônica de seu Estado — tenham suportado um fracasso após o outro. Celebrada como uma das páginas mais gloriosas de sua história, a batalha do Álamo — a fortaleza espanhola de San Antonio, onde, em 1836, 187 texanos independentistas foram mortos pelas forças mexicanas — representa, acima de tudo, um desastre militar inteiramente evitável. Mais tarde, quase inelutavelmente, a população branca acolheu o campo dos perdedores, logo no começo da Guerra de Secessão (1861-1865), depois recebendo políticos empenhados em preservar o caráter retardatário do Estado, sacrificando a educação e proibindo, com rigor, o exercício do direito sindical.

Mesmo a descoberta de jazidas petrolíferas, em 1901, não impediu que o Texas ficasse estagnado no subdesenvolvimento até a década de 50. Se a alta dos preços do petróleo nos anos 70 finalmente permitiu ao Estado alçar vôo, ele perdeu rapidamente uma parte de sua riqueza com a falência fraudulenta de cadernetas de poupança nos anos 80: a renda média por habitante caiu mais de dez por cento em relação à média nacional.

O gosto pela generosidade pública

É portanto bastante lógico que o Texas, habituado a derrotas, tenha escolhido um perdedor como governador. Procurando o sucesso no petróleo depois de uma incursão universitária sem destaque, George W. Bush se lançou aos negócios nos anos 80, chegou a acumular 4,7 milhões de dólares graças aos parentes e republicanos ricos, não demorou em provocar a pré-falência de duas companhias e somente realizou algum lucro dez anos mais tarde, quando, às vésperas da guerra do Golfo, uma terceira empresa da qual detinha uma cota conseguiu um lucrativo contrato de exploração petrolífera no Bahrein. O fato de seu pai ser o presidente dos Estado Unidos não dissuadiu, ao que parece, o emirado de lhe atribuir a concessão. Bush teve mais sucesso como dono de uma equipe de beisebol profissional, mas apenas depois de ter persuadido a cidade de Arlington, nos arredores de Houston, a pagar a maior parte dos 191 milhões de dólares necessários à construção de um novo estádio, exemplo suplementar da maneira como a burguesia texana sabe contar com a generosidade pública. [2]

Foi na sua corrida pelo cargo de governador que Bush se realizou verdadeiramente, ganhando a eleição de 1994, e depois, por larga margem, a de 1998. Se ele triunfar sobre Albert Gore em novembro de 2000, terá conseguido impor o modelo texano a todo o resto da nação. É difícil acreditar que o mundo necessita um bilionário do petróleo e conservador sulista no comando da única superpotência que resta, mas é nessa direção que o cada vez mais petrificado sistema político americano poderá se mover.

Um Estado desorganizado

Na época em que o Texas renasceu das cinzas, em 1875, seria possível imaginar que uma classe de latifundiários, determinada a reprimir os antigos escravos e os pequenos fazendeiros arruinados, se tivesse utilizado sucessivamente do monopólio do poder político. A elite texana, porém, fez outra coisa, mais complexa. Como o regime precedente implantara um Estado centralizado capaz de empreender reformas, ela se encarregou de desmantelá-lo.

Numa convenção especial, convocada para redigir uma nova Constituição, um grupo de delegados, mesmo desprovidos de legitimidade democrática, escolheu paralisar o executivo, despedaçando-o em cinco cargos diferentes, cada um com um titular eleito separadamente. Em seguida, fragmentaram um pouco mais a administração, dispersando suas atribuições em (atualmente) quase duzentas comissões administrativas, cujos membros, nomeados pelo governador após a avaliação e o consentimento do Senado, não precisariam responder por seus atos perante qualquer daqueles que os designaram. Determinados a não parar neste belo passeio, os delegados paralisaram igualmente a Assembléia local, limitando a duração dos mandatos (dois anos), a das sessões, sem esquecer os salários dos parlamentares (o que garantiria que estes seriam ou homens ricos ou aves de arribação).

Uma pseudo-democracia

Restava o judiciário: todos os juizes e procuradores de Estado seriam eleitos, com a esperança de os deixar menos suscetíveis a enfrentar os outros dois poderes. Para dar um toque de gênio à construção, não se esqueceram de paparicar a composição do eleitorado: a maioria esmagadora de negros não votaria (uma prática que sobreviveu nos Estados do Sul até o Voting Rights Act — Lei de Direito ao Voto —, de 1965), e os brancos pobres ainda menos, dissuadidos através de um imposto eleitoral e pela obrigação de se reinscrever a cada novo escrutínio.

Tidas como um retorno à situação de antes da Guerra da Secessão, estas "reformas" criaram, de fato, um sistema ainda pior: mais fragmentado, mais descentralizado e menos responsável perante o eleitor. Não se tratava de uma ditadura, mas de uma forma de república oligárquica e diligente, amplamente manipulada pelos grandes latifundiários. Criando uma pseudo-democracia, os membros da convenção texana se inspiraram nos valores e princípios da Constituição norte-americana. Estes têm razão em se considerar o povo mais avançado da terra, já que sua Constituição de 1787 era — e continua sendo — "pré-moderna" em seu princípio que subordina a uma lei fundamental, quase impossível de se reformar, todos os atos do governo. Sendo a Constituição forte, o governo pode ficar fraco. Melhor: na medida em que a Constituição garantir as liberdades, quanto mais fraco seja o governo, mais as liberdades estarão garantidas. [3]

Cultura política de latifundiários

E foi isso o que Richard Coke, primeiro governador do Texas depois da Guerra de Secessão, quis dizer num discurso em 1875: "A teoria admitida pelo governo norte-americano é a de que as Constituições dos Estados federados, longe de resultar em delegações suplementares de autoridade nas mãos do poder público, deveriam limitar esta autoridade". [4] A Constituição federal já então restringia a capacidade do povo se governar como quisesse. As constituições dos Estados apenas se somariam a estas restrições.

A partir daí, a inabalável Constituição texana — uma tentativa de elaborar um nova falhou em 1975 — não parou de pesar sobre a política local, enrijecendo um certo número de crenças e proibindo a maior parte das reformas. O conservadorismo popular à moda texana tornou-se lei ordinária: de algum modo, da mesma forma que dirigir pela direita ou parar no semáforo. Uma cultura política de latifundiários que pariram nos anos de 1870 uma Constituição do Estado que viria a garantir a hegemonia social e política dos ricos durante o essencial dos 125 anos que se seguiram.

Linchamentos e execuções

A uma lei fundamentalmente rígida, correspondem uma política rígida e uma moral rígida. Já no fim do século 19, uma breve revolta populista estourou, conduzida por fazendeiros empobrecidos. Foi reprimida sem dificuldades. [5] Em seguida, toda uma seqüência de políticos pitorescos se sucederam na residência oficial do governador, cada um prometendo mudanças antes de se tornar uma garantia do status quo. Destituído pela legislatura, um governador arranjou um jeito para que sua esposa ocupasse o cargo enquanto ele atuava por trás dos panos. Na década de 30, um outro fez campanha atravessando o Estado com um grupo de música country e um programa que se limitava aos Dez Mandamentos e à promessa de uma pensão para cada aposentado (a qual, desnecessário dizer, nunca veio à luz). Outros ficaram famosos vituperando contra o comunismo (que tem bem pouco defensores no Texas...) e também contra o governo federal e os professores de Letras, acusados de ensinar obras "obscenas".

Apesar disso, em termos de moralidade o Texas deixa a desejar. Se o comanche "gostava de encher de carvão as partes genitais do homem branco", como conta um conhecido historiador do Estado, o branco, poderia alegremente "estourar o crânio de um bebê índio ou abater um hispano-americano que tivesse piscado os olhos de maneira não apropriada". Entre 1900 e 1930, o Texas viu muito mais linchamentos de negros que os outros Estados do Sul. [6] E a milícia local, então batizada de Texas Rangers — nome de uma equipe de beisebol da qual George W. Bush se tornou proprietário antes de ser eleito governador —, aterrorizava a população méxico-americana do estado, executando sumariamente cerca de trezentas pessoas somente entre 1915 e 1919.

Economia ancorada no passado

O empobrecimento político rapidamente encontrou seu correspondente no plano intelectual: "Os texanos desconfiam de teorias. Para eles, a prática prevalece sobre os conceitos; as coisas sobre as idéias; a educação visa ajustar as crianças à sociedade, não modificá-la". [7] E enquanto o sistema político refletia e perpetuava a concepção anti-social do individualismo, os texanos também evitavam a sociedade de mulheres, um pouco como procuram escapar da sociedade em geral. No fundo, os protagonistas da cultura cowboy se sentem mais à vontade principalmente entre eles.

A economia texana se ancora, também, no passado. Nos últimos vinte anos, graças a enormes investimentos públicos de origem federal (nas áreas militar e aeroespacial), o estado conseguiu diversificar e mergulhar na informática e na alta tecnologia. Contudo, a economia local continua fixada à terra. A riqueza só é considerada real na forma de propriedade imobiliária. Um texano rico considera-se realizado quando compra alguns milhares de hectares no interior, veste um par de jeans e botas, e brinca de criador de cavalos — como George W. Bush, que adquiriu um rancho perto de Crawford, no Oeste do Texas. [8]

Ausência de legislação ambiental

O estado não é mais progressista em matéria de política social. Se o Texas ocupa, no que toca à renda per capita, uma posição média na federação, em compensação a repartição das riquezas é de tal forma desigual que ele se torna um dos primeiros no que se refere à população que vive abaixo do nível de pobreza. Sempre proporcionalmente, o Texas aparece também no fim da cadeia no que toca ao número de médicos, estudantes e à taxa de mortalidade infantil. [9] Os cortes orçamentários — que não pararam desde que Bush se tornou governador — não resolveram nada: levaram o estado ao último lugar em matéria de despesas públicas por habitante, o que pode agravar a já desigual distribuição de renda. [10]

Atravancado por uma elite rural avessa às cidades — e às despesas públicas —, o Texas pouco se preocupa com transportes públicos, conjuntos habitacionais, espaços verdes e outros equipamentos urbanos. A ausência de legislação ambiental agrava a poluição da água e do ar, que ultrapassa os níveis registrados em qualquer dos outros estados norte-americanos ou províncias canadenses. Com a intensificação do tráfego rodoviário, Houston, a capital petroquímica do Estado, ultrapassou Los Angeles na classificação das cidades norte-americanas mais poluídas pelo ozônio: e apesar disso, centenas de equipamentos envelhecidos, fábricas químicas e refinarias de petróleo continuam isentas de normas anti-poluição. Um dos responsáveis pelo meio ambiente, nomeado por Bush, garantiu a Washington que o ozônio é uma substância benigna... [11]

Um baú de quinquilharias

Tão benigna, sem dúvida, quanto o flagelo de cidades sem fim, de centros comerciais onipresentes, pontos de alimentação rápida e outras lojas de venda com desconto que invadiram a maior parte do território. [12] Coberta por um véu de nevoeiro e calor sufocante, com uma população 20% menor que a de Paris, Houston se estende por uma área três vezes maior. Não se vêem pedestres nem ciclistas, mas uma superabundância de veículos engarrafando as auto-estradas de oito pistas, que, como espaguete entrelaçado, partem em todas as direções.

Nenhum estado norte-americano se iguala ao Texas em matéria de população carcerária. Um sistema de governo rudimentar e uma moralidade quase tribal produziram o sistema penal mais punitivo do mundo industrializado. Com apenas vinte milhões de habitantes, o estado de Bush conta com mais presos que a França, Alemanha e Itália juntas. Seu universo penitenciário parece um arquipélago subdividido em 250 xerifes de condado, 500 polícias municipais e duas dúzias de agências e comissões mais ou menos autônomas. Mesmo que um dia tentasse organizar este baú de quinquilharias, a assembléia local não teria a competência constitucional para fazê-lo. E, considerando os milhares de advogados que lucram com o status quo, qualquer reforma parece improvável.

Execução de menores e doentes mentais

O Texas recentemente atraiu a atenção da opinião pública mundial acelerando o ritmo das execuções (cerca de 140 desde que Bush é governador). Mas os políticos não se preocupam com a imagem de seu Estado no exterior: "Penso que moramos num lugar agradável e que é por razões de politicagem que estão de olho no Texas", declarou o braço direito de Bush em resposta aos protestos que se seguiram à execução, em junho de 2000, de Gary Graham, um condenado negro que, com algemas nos pulsos, alegou inocência até o fim. O réu ainda não tinha dezoito anos na época da detenção, mas os Estados Unidos — além do Irã, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita e o Iêmen — são um dos seis únicos países que executam menores e doentes mentais.

Além de provocar a (necessária) ingerência de agências federais, [13] as instituições sociais do Estado que tratam do problema de retardamento mental curvam-se à dependência, nunca desmentida, de subsídios e verbas de Washington. Isso talvez seja uma explicação para o considerável número de políticos texanos que — como o governador Bush pretende fazer — prolongam suas carreiras no plano nacional. Pois são vários os que deram seus primeiros passos na política no Texas: além dos presidentes Lyndon Johnson e George Bush pai, há um presidente da Câmara de Representantes (Sam Rayburn), um secretário do Tesouro e candidato à Vice-presidência dos Estados Unidos (Lloyd Bentsen Jr.) e um secretário de Estado (James Baker).

Setor energético, uma mina

A classe dirigente local permanece muito unida. República oligárquica, o Texas não obriga os cidadãos mais ricos ou as empresas mais opulentas a manipular os políticos, mas quase os incita a fazê-lo. Daí decorre o alto nível de implicação política dos mais ricos, normalmente bastante reacionários, que constituem "uma força temível que, face às massas bastante despolitizadas, ganha mais que perde". [14]

Na medida em que o setor energético — no qual George W. Bush e seu candidato à Vice-presidência, Richard Cheney, tiveram grandes lucros — depende grandemente de isenções fiscais e de subsídios públicos, a classe dirigente texana está muito "interessada" pela coisa pública. A energia representa um mundo à parte, habitado por gente que acredita que o aquecimento do planeta é um mito, que se exageram os riscos de salubridade vinculados à emanação de óxido de carbono e que cada cidadão tem o dever de consumir tanta gasolina quanto consiga. Também é um setor cujos dirigentes jamais enjeitaram um automóvel, uma auto-estrada ou uma mansão de 3 mil metros quadrados — desde que esta última seja equipada com um refrigerador superdimensionado, um televisor de tela grande e os mais recentes utensílios domésticos devoradores de energia.

A direita fundamentalista

Bush recolheu o fundamental do seu apoio neste universo, em sua tentativa infrutífera de ocupar uma cadeira de representante, em 1978, nas duas campanhas vitoriosas ao posto de governador (em 1994 e em 1998) e na sua corrida atual pela Casa Branca. A Enroin Oil Company aparece como principal financiadora do candidato republicano, do qual pelo menos vinte e cinco dos principais "mecenas" (ou investidores) são ligados ao setor petrolífero. [15] A explicação é óbvia: filho de um perfurador de poços e ele próprio homem de petróleo, Bush é muito mais texano que seu pai; seus anos de estudante na Nova Inglaterra, na universidade de Yale e na Harvard Business School não fizeram senão reforçar sua lealdade ao Estado. De fácil convívio (na universidade, ele ganhou popularidade decorando o nome de seus cerca de 1.000 colegas de turma), mostra-se à vontade tanto com apertos de mão quanto com o jogo político texano, no qual os negócios e uma boa prosa se misturam a cada instante. [16]

Ainda mais conservador que seu pai, mais próximo que ele de uma direita fundamentalista que é muito forte no Texas, Bush nunca esquece de mostrar um anti-intelectualismo jovial. Isso nunca o incomodou, num Estado onde reina a ignorância.

Desde a eleição de Ronald Reagan, em 1980, os Estados Unidos não pararam de se "texastizar". Essa evolução nem mesmo foi interrompida há oito anos, quando William Clinton e Albert Gore foram empossados: a população carcerária cresceu em 50%, as execuções (que Clinton e Gore afirmam defender ferrenhamente) se tornaram rotineiras, a "guerra" prossegue, cada vez mais impiedosa, contra usuários e traficantes de droga, a fortuna tornou-se mais ostentatória e o sistema político mais venal que nunca. Se Bush for eleito, essa dinâmica só mudará de ritmo.

Traduzido por Gustavo Adolfo Maia Junior.



[1] Ler, de Robert A. Calvert e Arnold De Leon, The History of Texas, ed. Arlington Heights, Illinois, 1990. O historiador calcula que, entre a população masculina negra, um em cada 100 adultos, na faixa de 15 a 49 anos, foram assassinados por brancos de 1865 até o início do governo de Estado progressista, em 1868.

[2] Ler, de Molly Ivins & Lou Dubose, Shrub: The Short but Happy Political Life of George W. Bush, ed. Random House, Nova York, 2000.

[3] Ler "A Constituição que pesa sobre a política norte-americana", Le Monde Diplomatique — Brasil, fevereiro de 2000.

[4] Ler, de Gary M. Halter, Government and Politics of Texas: A Comparative View, Segunda edição, ed. McGraw-Hill, Nova York, 1999.

[5] Ler, de Chandler Davidson, Race and Class in Texas Politics , ed. Princeton University Press, Princeton.

[6] Cf. Anne Chaon, "Le lynchage comme art photographique", Le Monde Diplomatique, junho de 2000

[7] Ler, de T.R. Fehrenbach, Lone Star: A History of Texas and the Texans, ed. Macmillan, Nova York, 1968.

[8] Ler, de Frank Bruni, "Bush Finds Comfort Zone In a Remote Texas Ranch", The New York Times, 22 de julho de 2000.

[9] Dados de 1997-98. Para mais informações, www.census.gov/statab/www/ra....

[10] Ler, de Louis Dubose, "The Gospels of the Rich and Poor", The Texas Observer, 12 de novembro de 1999.

[11] Ler, de Molly Ivins e Louis Dubose, "Bush and the Texas Environment", The Texas Observer, 14 de abril de 2000.

[12] Cf. John W. Gonzalez, "Urban sprawl in Texas fastest in the country," The Houston Chronicle, 26 de dezembro de 1999. Ler também o artigo de Danièle Stewart sobre o assunto, "L’Amérique dans les têtes", Manière de voir, setembro 2000, n° 53.

[13] O governo federal intervém freqüentemente nos Estados para garantir que certas regras fundamentais que se referem a todos os cidadãos norte-americanos sejam respeitadas.

[14] Ler, de Charles Davidson, Race and Class in Texas Politics, ed. Princeton University Press, Princeton, 1990.

[15] Ler, de John M. Broder, "Oil and Gas Aid Bush Bid For President", The New York Times, 23 de junho de 2000. Tendo arrecadado cerca de 100 milhões de dólares de donativos quatro meses antes das eleições, Bush pulverizou todos os recordes na matéria.

[16] Ler, de Nicholas D. Kristof, "Ally of an Older Generation Amid the Tumult of the 60’s", The New York Times, 19 de junho de 2000.


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