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Lições de 1984

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Em qualquer lugar onde o Grande Irmão seja uma ameaça, permanecer rebelde é o único meio de permanecer humano

François Brune - (12/09/2000)

Se quiseres uma imagem do futuro, nos diz o amável torturador de 1984, imagina uma bota esmagando um rosto humano... eternamente.

Se é essa a imagem do futuro, é preciso admitir que esse futuro era o presente quando George Orwell elaborava sua utopia aterrorizante. No entanto, admirar sua obra apenas por seu valor de antecipação — ou seja, reduzi-la a uma constatação derrotista — seria eliminar uma grande parte de seu interesse. 1984 não deve ser visto como um futuro quadro de uma catástrofe, porém como uma pintura lúcida das dinâmicas que facilitam sua existência cotidiana. O diagnóstico é mais importante que o prognóstico. E, é claro, Orwell só prenuncia a derrota do homem para evitá-la.

Os países totalitários eram os primeiros visados pela denúncia de Orwell, no sentido mais literal do livro. Mas a bota esmagando um rosto humano simboliza, genericamente, as diversas formas de opressão que desnaturalizam o ser humano ou o impedem de realizar livremente sua humanidade. Pois, mais do que nunca, a bota está presente [1] e é fácil observar à nossa volta (e em nós!) as manifestações mais ou menos sintomáticas dos elementos constitutivos de 1984.

 [2]

O Grande Irmão (Big Brother), evidentemente, não existe. Não é o chefe político de 1984, e sim um ator encarregado de encarnar o poder aos olhos das massas (na televisão). Ele é virtual e concebido como tal por Orwell! No entanto, há, e sempre haverá, de maneira mais ou menos personalizada, os discursos de propaganda ou intimidação dos poderes que monopolizam a "moral" para culpabilizar os opositores; há, e sempre haverá, de forma mais ou menos presente (ou exageradamente presente) nos meios de comunicação, um direito de vigiar por parte das instituições encarregadas de reconduzir à ordem político-social os cidadãos que busquem viver segundo suas idéias, que fujam à lei do clã ou recusem os ditames da globalização.

O anti-Grande Irmão, pura invenção do sistema destinado a iludir o povo ingênuo, também não existe como tal. Porém há, e sempre haverá, para a grande alegria da opinião pública, os bodes expiatórios que incessantemente ressurgem — ou sob a forma de determinada comunidade ligada a todos os crimes, ou sob o rosto mutante do inevitável inimigo público número um, com o qual se alimenta a vingança popular na crônica policial cotidiana.

A intolerância da maioria

Há, e sempre haverá, conflitos longínquos, reais ou virtuais, mobilizando oportunamente nossos espíritos para nos fazer ignorar injustiças demasiado próximas. Sempre haverá, sob um nome qualquer, o espectro da Crise encarregado de amedrontar os cidadãos "normais", com o objetivo ora de reforçar seu medo conformista de felicidade, ora de exacerbar neles inúteis ódios de potências fantasiosas.

Sempre haverá, como que para agradar nossas necessidades de rejeição, marginais ou delinqüentes que seremos incentivados a denunciar, ou olhar de forma acusatória, para melhor nos instalarmos na intolerância da maioria. Sempre haverá proletários arcaicos cuja animalidade sombria (ou colorida) nos permitirá medir nosso famoso "progresso" — com os faunos operários do século XIX cedendo o lugar, no nosso imaginário ocidental, às massas efervescentes do "Terceiro Mundo".

O otimismo oficialista

Sempre haverá especialistas da história empenhados em refazer o passado para justificar o presente, façam eles sua pregação através de livros, programas de televisão ou novelas, assim como especialistas da "comunicação" pagos para nos impor como Realidade a fantasmagoria sonora com a qual o sistema da mídia ornamenta e falsifica o meio em que vivemos.

Sempre haverá teóricos habilidosos para nos fazerem aceitar como normal a opressão do homem pelo homem, para que dela participemos, e refinados "humanistas" legitimando a tortura em nome da Liberdade, ou a venda de armas em nome da Fraternidade. E todos esses especialistas da linguagem ambígua, do jogo duplo e do pensamento ambivalente, que se dedicam a cativar nossos corações fazendo vacilar nossa razão humana.

A cumplicidade interna

Sempre haverá os otimistas oficiais pairando acima das insatisfações profundas, e o barulho da mídia abafando o grito das solidões sofredoras. E, para coroar tudo, o reino anônimo da esquizofrenia dirigida, baseada — quase sempre — na nossa concordância tácita em cindir para sempre nossa consciência e nosso ser, fazendo-nos atravessar a existência sem chegar a dar um sentido à nossa Vida.

Porém as realidades de 1984 nunca são exclusivamente externas. Diante da opressão de múltiplas facetas, desigual conforme os lugares, ainda que ameaçando sempre a humanidade dos humanos, Orwell nos convida a destrinchar todas as formas de cumplicidade interna. Na medida em que o universo projetado em seu livro é um espaço-tempo imaginário, 1984 representa menos uma data que um lugar profundamente escondido em nós mesmos, como em nossos sistemas políticos. Como Winston Smith, cuja resistência acaba fracassando, nós nos arriscamos, em mil e uma circunstâncias, a ceder ao "movimento de 1984", ou seja, deixar cristalizar dentro de nós o complexo fatal de medo-ódio infalivelmente produzido pelas engrenagens dos poderes que nos cooptaram, e entrar assim no ciclo perseguido/perseguidor que envenena as relações humanas desde sempre.

A superação do medo

Pois não basta fugirmos à normalização das almas que nos transformam em massas medrosas: devemos rejeitar também a tentação de uivar com os lobos por medo de sermos carneiros. Nem temer, nem odiar. Recusar ser vítima para não se tornar, involuntariamente, o carrasco. Saber que se o homem é um lobo para o homem é porque, muitas vezes, o homem aceita ser um carneiro para o homem. Conhecer seus medos, todos os seus medos, até a mais ínfima fibra de seu corpo ("Nos momentos de crise", escreve Orwell, "não é contra um inimigo externo que se luta, mas sempre contra seu próprio corpo"), e tentar superá-los. Um jornalista chileno, que todos os dias desafiava a censura de Pinochet, dizia com modéstia: "Não é que sejamos corajosos, mas aprendemos a superar o medo." Conhecer todos os ódios, até os acessos de ódio de si mesmo que levam a odiar o outro, quando se detesta no semelhante aquilo que se ignora abominar em si mesmo.

O ódio e o medo são alienações-irmãs. Gritar "Abaixo Hitler" ou "Abaixo Stalin", "Abaixo Pinochet" ou "Abaixo Jaruzelski", "Abaixo Clinton" ou "Abaixo Putin", não tem mais ou menos sentido do que gritar "Abaixo o Grande Irmão" (que não existe). É até correr o risco de conferir aos nossos alvos um poder mítico. Esgotando-nos no ódio, tornamo-nos cegos diante das melhores estratégias de resistência possíveis. Pois se o ódio é em vão, constantemente é preciso resistir, opor ilhas de existência pessoal e interpessoal à maré crescente de normalizações abusivas, sejam elas econômicas, sociais ou da mídia.

A esperança humana está no homem

Em nome do homem. A despeito de todas as perversões que possam ter coberto o discurso humanista, Orwell nos pede que nos atenhamos a um humanismo concreto, ainda que seja sempre necessário reformulá-lo devido a seus compromissos históricos. Se há uma esperança, não está numa categoria social ou idealizada, num grupo humano sacralizado, e menos ainda num indivíduo carismático. Se há uma esperança, só pode estar no homem e em qualquer homem, a começar por si mesmo e naqueles que estão ao nosso lado, aqui e agora. Como a ameaça anti-humanista está presente no coração do ser humano, então é no coração de cada homem que se dá a luta pela humanidade. Ninguém tem o direito de se acomodar com a idéia de que sempre haverá seres excepcionais, heróis, "homens dignos desse nome" encarregados de perpetuar a dignidade da espécie.

Logo, ninguém tem o direito de renunciar ao nome de homem. É preciso considerar que o "último homem", [3] seja sempre você mesmo. Que nunca estamos totalmente precavidos contra o "movimento de 1984". Que a menor degradação do homem, infligida ao mais ínfimo dos homens a milhares de quilômetros, recai sobre nossa vida íntima ferindo nossa humanidade profunda. Pois não existe "o mais ínfimo dos homens". Aceitar a servidão interna equivale a ratificar, e muitas vezes conduzir, à escravidão do outro. Através de cada caso particular está em jogo o futuro de todos. A defesa de si é indissociável da defesa da humanidade. A reconquista do homem refaz-se a cada manhã... em si próprio. Eis o que nos diz a voz de Orwell.

Rebeldia serena à opressão

O verdadeiro anti-Grande Irmão é "o homem comum", [4] cujo medo diminui e a consciência cresce, que reconhece suas ambivalências sem transigir nas suas contradições, vinculando-se aos próximos através de relações irredutíveis às erosões do anônimo e do unânime, e talvez procurando menos transformar-se do que permanecer serenamente rebelde às múltiplas opressões. Isso não quer dizer que Orwell nos pregue uma existência à margem do coletivo, um humanismo de aposentado centrado em si, uma vez que seu individualismo permanece sempre solitário. Ao contrário, ele nos convida a um combate tenaz, porque contido, no qual a conduta cívica e a mobilização interior são ajustadas uma à outra, o engajamento evita o auto-engano, a lucidez recusa o desespero, o homem que embarca no mundo que constrói não deixa de resistir sem ser indiferente, e de militar sem odiar.

Em qualquer lugar onde o Grande Irmão seja uma ameaça, permanecer rebelde é o único meio de permanecer humano. Orwell nos engaja no dever da irredutibilidade.

Traduzido por Teresa Van Acker.



[1] A bota está presente, ainda que escondida sob as delícias da sociedade de consumo — que Michel Clouscard chama, com justiça Le capitalisme de la séduction (Editions sociales, 1982). Cada vez, por exemplo, que cidadãos-consumidores de diversas nações, sujeitos às regras do ultra-liberalismo, querem sair de sua prisão dourada, a bota do gigante norte-americano — já é que preciso dizer seu nome — reaparece com seus ditames econômicos e seu arsenal militar. Cf. Ignacio Ramonet, "Dominar corações e mentes", Le Monde Diplomatique, maio de 2000.

[2] A necessidade dos bodes expiatórios

[3] Le dernier homme en Europe foi um dos títulos pensados por Orwell para 1984.

[4] Adotando a expressão de Jean Clem e Bernard Crick, no indispensável trabalho biográfico George Orwell. Une vie, ed. Seuil, Paris, 1990.


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