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Desmontando a "ciência" econômica

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A leitura destes livros sugere que a economia — com sua ortodoxia, seus gurus, seus adeptos, seus fiéis e seus hereges — está mais próxima do campo religioso que do campo científico autônomo reivindicado por seus praticantes

Ibrahim Warde - (12/09/2000)

Numa época em que a economia continua conquistando espaço, sem resistência, nas ciências social e política, dois livros complementares desmontam a arrogância dessa hegemonia, permitindo recolocar a "rainha das ciências sociais" no seu devido lugar da sociedade e da história.

Partindo dos conceitos e grades de leitura que desenvolveu em seus anteriores trabalhos de sociologia e etnologia, Pierre Bourdieu faz uma reflexão sobre a "construção" do mercado da casa própria na França. A análise dos recursos dos atores — funcionários públicos de alto escalão, poderes locais, construtores, financiadoras e compradores —, de seu "espaço" e da "gênese de suas preferências" permite compreender melhor as relações de força e os estados de espírito subjacentes, assim como explicar o desfecho desses confrontos. Paradoxalmente, a realização do sonho da casa própria tornou-se "o fundamento da miséria pequeno-burguesa", fonte de desilusões e de sofrimento.

Quem são "eles"?

Na realidade, o proprietário fica "acorrentado pelo crédito a uma casa que muitas vezes se torna invendável, ou se vê incapaz de assumir encargos e compromissos — principalmente no que se refere ao modo de vida — tacitamente inscritos na opção inicial e que também muitas vezes lhe ficaram obscuros". A análise engrandece o significado da fórmula de Bertrand Russell colocada em epígrafe, no livro: "A economia explica como as pessoas fazem suas opções; a sociologia explica que as pessoas não têm opções."

O "parêntese que encerra todo o enraizamento social das práticas econômicas" denunciado por Pierre Bourdieu ainda se compreende melhor com a leitura de La Croyance économique, livro em que Frédéric Lebaron tenta desmontar a arrogância dos economistas profissionais e compreender como as oposições sociais e acadêmicas estruturam o "campo econômico". A análise empírica, rigorosamente esquadrinhada, do sistema de produção — e de reprodução — da crença econômica traz respostas claras às seguintes questões: Quem são os economistas?; Qual é a sua formação?; Como é que elaboram suas teorias?; e Como é que essa profissão conseguiu impor os seus esquemas, a sua argumentação e a sua linguagem a outras disciplinas acadêmicas assim como ao mundo político?

Os reflexos corporativistas

As respostas sugerem que a economia — com sua ortodoxia, seus gurus, seus adeptos, seus fiéis e seus hereges — está mais próxima do campo religioso que do campo científico autônomo reivindicado por seus praticantes. O uso abusivo da matemática, assim como a obscuridade do jargão, conferem-lhe uma fachada científica que permite excluir os não-iniciados do debate, dissimulando os esquemas políticos através de uma linguagem de especialista. Trate-se de políticas monetaristas pregadas pelos bancos centrais ou da luta contra a "rigidez" do mercado de trabalho, a neutralidade do discurso é obrigatória.

Por outro lado, os reflexos corporativistas são poderosos. Sobre a profissionalização do economista, diz o autor que "oferece simultaneamente a seus membros prestígio científico, poder institucional e reconhecimento econômico que lhes permitem acumular recursos variados, especialmente valorizados na época da globalização das economias e do triunfo político do discurso liberal nos meios de comunicação".

Pierre Bourdieu, Les Structures sociales de l’économie , ed. Seuil, Paris, 2000.

Frédéric Lebaron, La Croyance économique: Les économistes entre science et politique , ed. Seuil, Paris, 2000.

Traduzido por Jô Amado.




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