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LIVROS / ESPANHA

Repensando o papel do franquismo

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A suave transição vivida pela Espanha poderia fazer crer que foi das próprias entranhas do franquismo que surgiu a jovem democracia espanhola. Este livro de Nicolas Sartorius e Javier Alfaya acerta os ponteiros

(12/09/2000)

Quase vinte e cinco anos depois da morte natural, na cama, do último ditador europeu originário da matriz fascista, era necessário relembrar, ainda que a título póstumo, o processo de um general sedicioso cuja longa duração no poder ameaçava fazer esquecer o banho de sangue sobre o qual se deu sua resistível ascensão. A suave transição vivida pela Espanha poderia fazer crer que foi das próprias entranhas do franquismo que surgiu a jovem democracia espanhola, como se o sistema tivesse permitido um longo amadurecimento dos valores democráticos num país que permaneceu por muito tempo avesso ao movimento de idéias provenientes da Revolução Francesa e do Iluminismo. E nem se deve ao papel (Oh! que positivo!) atribuído a Juan Carlos, herdeiro do trono da dinastia dos Bourbons, que ameaça obscurecer as condições reais da passagem à democracia após a morte do cadilho.

Protagonistas da luta antifranquista

O livro de Nicolas Sartorius e Javier Alfaya acerta os ponteiros. Os autores foram certamente protagonistas da luta antifranquista: ambos pertencem à segunda geração (a da década de 60). Nicolas Sartorius, fundador (com Marcelino Camacho) das Comissões Operárias (Comisiones Obreras), só voltou à liberdade, após oito anos de prisão, quando morreu o ditador. Então dirigente do Partido Comunista (PCE), participou como parlamentar da elaboração da atual Constituição de Espanha. O livro de Sartorius e Alfaya não é, no entanto, um depoimento — não se precisa mais disso —, mas uma reflexão histórica, a mais de vinte anos de distância, que se responsabiliza pela memória. "Escrever para não esquecer", a divisa da Anistia Internacional, motivo desse projeto, como destaca o título original do livro: La memoria insumisa.

Os ditadores também morrem

Os autores demonstram, com dados sólidos, que durante seus trinta e cinco anos de existência, o franquismo manteve os traços fundamentais de sua identidade, como por exemplo a repressão, mais forte ainda nos anos 60 que durante a década anterior. Também o caráter de classe do regime, que manobra recuando, para garantir o principal, diante do impulso cada vez mais forte de um novo movimento operário e da oposição democrática. Não se atribui ao franquismo a abertura — logicamente maior em 1970 do que em 1950 — que lhe foi imposta. Os autores destacam sem partidarismo — do qual ambos parecem distanciados — a participação dos comunistas da Espanha no desmantelamento do franquismo, que provam, entre outros, com os arquivos policiais e os registros de entrada dos presos.

Podemos contestar a pertinência do conceito de totalitarismo aplicado à ditadura franquista, interrogar-nos sobre as contradições dentro da classe dirigente espanhola diante da construção européia, ou ainda sugerir que a usura do tempo é um fator político. Os ditadores também morrem: pelo menos isso, o nosso século nos ensinou. Mas será bom lembrar sempre que o fascismo não evolui, por si mesmo, para a democracia. Ele se transgride e desmorona sob as invectivas dos combatentes da liberdade.

Nicolas Sartorius e Javier Alfaya, La Memoria insumisa. Sobre la dictatura de Franco , ed. Espasa Calpe, Madri, 1999.

Traduzido por Janaína Gonçalves.




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