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IRÃ / HISTÓRIA

O golpe que a CIA patrocinou

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Em novembro de 1952, autoridades britânicas propuseram aos norte-americanos um golpe de Estado contra o governo iraniano. Estes responderam que o governo estava terminando, mas que Eisenhower, que tomaria posse em janeiro, possivelmente o faria

Marleen Teugels - (12/10/2000)

Há alguns meses, o New York Times recebeu o relatório oficial do golpe de Estado realizado em 1953 pela CIA contra o primeiro-ministro iraniano Mohamed Mossadegh. No dia 16 de junho de 2000, o jornal publicou o texto em seu site na Internet. [1] Os nomes de muitas personalidades iranianas implicadas no caso foram apagados, mas a maioria delas são designadas pelo nome real num outro site. [2] Este documento extraordinário contém importantes revelações sobre a maneira pela qual essa operação foi realizada e qualquer pessoa interessada pela política interna do Irã ou pela política externa norte-americana deveria lê-lo.

O golpe de Estado ocorreu durante um período de grande efervescência da história iraniana e em plena guerra fria. Mossadegh era então o líder da Frente Nacional, uma organização política fundada em 1949 cujos principais projetos eram a nacionalização da indústria petrolífera, que na época estava sob dominação britânica, e a democratização do sistema político. Essas duas questões mobilizaram a população e a Frente Nacional tornou-se rapidamente o principal ator do cenário político iraniano. Em 1951, o Xá Mohamed Reza Pahlavi foi obrigado a nacionalizar a indústria petrolífera e a nomear Mossadegh primeiro-ministro, provocando um confronto aberto com o governo britânico. A Grã Bretanha reagiu, organizando um boicote geral ao petróleo iraniano e iniciando manobras que a longo prazo tinham por objetivo derrubar Mossadegh.

O primeiro plano

No início, os Estados Unidos decidiram permanecer neutros e incentivaram os britânicos a aceitar a nacionalização — ao mesmo tempo que tentavam negociar um acordo amigável, chegando a persuadir Londres, em setembro de l951, a não invadir o Irã. Essa neutralidade continuaria até o final do governo Harry Truman, em janeiro de 1953, apesar de muitos dirigentes norte-americanos já acharem que a obstinação de Mossadegh iria criar instabilidade política, colocando o Irã "em perigo real de passar para o outro lado da cortina de ferro" (página III do relatório). Em novembro de 1952, pouco após a eleição do general Dwight D. Eisenhower à presidência dos Estados Unidos, personalidades do alto escalão britânico propuseram aos seus homólogos norte-americanos realizar, em conjunto, um golpe de Estado contra Mossadegh. Estes responderam que a administração que estava terminando o mandato jamais realizaria tal operação, mas que a de Eisenhower, que tomaria posse em janeiro — determinada a intensificar a guerra fria — possivelmente o faria.

O relatório da CIA mostra detalhadamente a maneira como foi preparada a operação. Após a autorização, pelo presidente Eisenhower, para que a agência de informações iniciasse os preparativos, em março de 1953, oficiais da CIA passaram a estudar a maneira pela qual poderia ser realizado o golpe de Estado, buscando uma solução para o problema da troca do primeiro-ministro. Sua escolha se dirige rapidamente para Fazlollah Zahedi, um general aposentado que já tinha conspirado com os britânicos. Em maio, um agente da CIA e um especialista iraniano que trabalhava para o Serviço Secreto de Inteligência (SIS) britânico passaram duas semanas em Nicósia (Chipre), onde acertaram os detalhes de uma primeira versão do plano. Autoridades da CIA e do SIS fizeram uma revisão dessa proposta, e uma versão definitiva seria redigida em Londres, em meados de junho.

Um golpe "quase legal"

O plano era dividido em seis etapas principais. Numa primeira fase, a antena iraniana da CIA e a mais importante rede de informação britânica no Irã — então dirigida pelos irmãos Rashidian — deveriam desestabilizar o governo Mossadegh através de propaganda e outras atividades políticas clandestinas. Fazlollah Zahedi organizaria em seguida uma rede constituída por oficiais capazes de concretizar o golpe de Estado. Numa terceira etapa, a CIA deveria "comprar" (página B19) a colaboração de um número suficiente de parlamentares iranianos para que o corpo legislativo se opusesse a Mossadegh. Em seguida se iniciariam sérios esforços para persuadir o Xá, assim como Zahedi, a apoiar o golpe de Estado — apesar de estar acertado com este último que a operação seria realizada com ou sem o acordo do monarca.

A CIA deveria em seguida tentar, de maneira "quase legal" (página A3), derrubar Mossadegh, provocando uma crise política ao longo da qual o Parlamento o destituiria. A crise seria provocada por manifestações de protesto organizadas por dirigentes religiosos, persuadindo o Xá a deixar o país ou criando uma situação que forçasse Mossadegh a renunciar. Finalmente, se esta tentativa "quase legal" fracassasse, a rede militar montada por Fazlollah tomaria o poder com a ajuda da CIA.

A "compra" de militares golpistas

As três primeiras etapas já estavam em andamento durante o acerto do "plano de Londres". No dia 4 de abril, a seção da CIA em Teerã recebeu um milhão de dólares destinados "a derrubar Mossadegh de qualquer modo" (página 3). Em maio, ela desencadeou, com os irmãos Rashidian, uma campanha de propaganda contra Mossadegh e, supõe-se, desenvolveu outras ações clandestinas contra ele. Estes esforços seriam redobrados de maneira brutal no decorrer das semanas que precedem o golpe de Estado (página 92).

Em abril, a CIA faz contato com Fazlollah Zahedi, entregando-lhe 60.000 dólares (e talvez muito mais) para que ele "encontre novos aliados e influência de pessoas-chaves" (página B15). A prestação de contas oficial nega que oficiais iranianos tenham sido comprados (página E22); entretanto, é difícil imaginar em que outra coisa Fazlollah Zahedi teria gasto esse dinheiro. A CIA não levou muito tempo para compreender que faltava a Zahedi "determinação, energia e estratégia concreta", e que ele não era capaz de montar uma rede militar capaz de organizar um golpe de Estado. Esta tarefa é então confiada a um coronel iraniano trabalhando para a CIA.

Reza Pahlevi concorda com golpe

Em fins de maio de 1953, a seção da CIA é autorizada a gastar cerca de 11.000 dólares por semana para comprar a cooperação de parlamentares, o que acentuaria bastante a oposição política a Mossadegh. Este último reagiu, convocando os parlamentares que lhe são fiéis a renunciarem, o que impediria que se atingisse o quorum e levaria à dissolução do Parlamento. Para o enfrentar, a CIA tenta então persuadir certos parlamentares a se recusarem a renunciar. No início de agosto, Mossadegh organiza um plebiscito fajuto, no qual os iranianos se pronunciam de forma maciça pela dissolução e pela realização de novas eleições. Isto acabaria impedindo a CIA de exercer suas atividades "quase legais", ainda que esta continuasse a utilizar propaganda, imputando-lhe a responsabilidade pela fraude do plebiscito.

No dia 25 de julho, a CIA iniciaria uma longa operação de "pressão" e de "manipulação" para persuadir o Xá a apoiar o golpe de Estado e aceitar a nomeação de Fazlollah Zahedi para o posto de primeiro-ministro. No decorrer das três semanas seguintes, quatro emissários se encontram com o Xá, quase todos os dias, para convencê-lo a cooperar. No dia 12 ou 13 de agosto, apesar das reticências, ele acaba aceitando e assina os decretos reais (firman) destituindo Mossadegh e nomeando Zahedi em seu lugar. A rainha Soraya o teria persuadido a agir dessa forma (página 38).

O fracasso da primeira tentativa

No dia 13 de agosto, a CIA encarregou o coronel Nematollah Nassiri de entregar os firmans a Zahedi e a Mossadegh. Mas a demora nas negociações com o Xá acabou colocando em risco o segredo e um dos oficiais envolvidos revela a existência da conspiração. Mossadegh mandou então prender Nassiri, na noite de 15 para 16 de agosto, quando este se preparava para divulgar o primeiro decreto — e muitos outros conspiradores seriam interpelados logo depois. Preparada para essa eventualidade, a CIA tinha preparado unidades militares pró-Zahedi para tomarem pontos estratégicos do Teerã, concretizando o golpe de Estado. Mas os oficiais que comandavam essas unidades sumiram quando Nassiri foi preso, fazendo assim fracassar esta primeira tentativa.

Zahedi, assim como outras pessoas implicadas, se refugiariam em esconderijos da CIA. O Xá fugiria para o exílio, primeiro para Bagdá, depois para Roma, enquanto Kermit Roosevelt, diretor da seção local da CIA, avisava Washington que o golpe de Estado tinha fracassado. Pouco depois, ele recebia a ordem de abandonar a operação e de voltar aos Estados Unidos.

Manifestações "parcialmente espontâneas"

Mas Kermit Roosevelt e sua equipe decidiram improvisar uma outra tentativa. Começaram por distribuir cópias dos decretos do Xá à imprensa para mobilizar a opinião pública contra Mossadegh. Nos dias que se seguiram, seus dois principais agentes iranianos desenvolvem uma série de operações "secretas" com o mesmo objetivo. Para jogar os iranianos religiosos contra Mossadegh, fazem ameaças telefônicas contra chefes religiosos e "simulam um atentado" contra a casa de um eclesiástico ( página 37), fazendo-se passar por membro do poderoso Partido Comunista (Toudeh). No dia 18, também organizaram mobilizações onde os manifestantes diziam pertencer ao Toudeh. Incitados por esses dois agentes, os manifestantes saquearam os escritórios de um partido político, derrubam as estátuas do Xá e de seu pai, e semearam o caos no Teerã. Percebendo o que estava ocorrendo, o Toudeh recomendou aos seus militantes que permanecessem em casa (páginas 59,63 e 64), o que o impediria de se opor aos manifestantes anti-Mossadegh que invadiram as ruas no dia seguinte.

Na manhã do dia 19 de agosto, estes últimos começam a se juntar nas proximidades do bazar do Teerã. O relatório da CIA descreve as manifestações como "parcialmente espontâneas", mas acrescenta que "as circunstâncias favoráveis criadas pela ação política (da CIA) também contribuíram para realizá-las" (página XII). Na verdade, a divulgação dos decretos do Xá, as "falsas" manifestações do Toudeh e as outras operações de provocação, realizadas com a infiltração de agentes nos dias anteriores, levaram muitos iranianos a se juntarem a essas manifestações.

Traição mal explicada

Vários integrantes iranianos da equipe da CIA conduziram então os manifestantes pelo centro de Teerã, persuadindo unidades do exército a se juntarem a eles, incitando a multidão a atacar o quartel-general do partido iraniano que dava apoio a Mossadegh e incendiando uma sala de cinema e muitas redações de jornais (páginas 65, 67 e 70). Unidades militares anti-Mossadegh começaram então a dominar Teerã, ocupando estações de rádio e outros pontos estratégicos. Após bastantes combates, as forças que apoiavam o primeiro-ministro foram finalmente derrotadas. O próprio Mossadegh se escondeu, mas entregou-se no dia seguinte.

Os textos publicados sobre a CIA deixam duas questões essenciais em suspenso. Em primeiro lugar, não esclarecem a origem da traição que provocou o insucesso da primeira tentativa de golpe de Estado, contentando-se em atribuir o fato à "indiscrição de um dos oficiais do exército iraniano envolvido"( página 39). Além disso, o texto não explica como a ação política da CIA contribuiu para as manifestações de 19 de agosto, nem qual foi a importância dessa contribuição para a explosão das manifestações. Outros relatórios sobre o golpe de Estado, redigidos a partir de entrevistas com participantes do primeiro plano, sugerem que a equipe da CIA teria dado dinheiro a chefes religiosos, que possivelmente não conheciam a origem destes fundos. O relatório da CIA não confirma essa versão. Como a quase totalidade das pessoas envolvidas já faleceram, e como a CIA afirma haver destruído a maioria dos arquivos relativos a esta operação, talvez essas perguntas fiquem sem resposta.

Mera "coincidência"

Também é difícil saber a origem do vazamento que permitiu a divulgação deste relatório oficial e qual a verdadeira finalidade desse vazamento. No artigo publicado no dia 16 de abril de 2000, onde foi revelada parte deste relatório, o New York Times somente explica que o documento foi fornecido por um "ex-oficial que ficou com uma cópia". Um mês antes, por coincidência, durante um importante discurso destinado a promover a aproximação entre os Estados Unidos e o Irã, a secretária de Estado Madeleine Albright reconheceu, pela primeira vez, que o governo norte-americano estava implicado no golpe de Estado, desculpando-se. 3 Muita gente acha que o vazamento foi propositalmente organizado pelo governo ou por uma pessoa decidida a apoiar a iniciativa da senhora Albright. Se for esse o caso, entretanto, é difícil de acreditar que o relatório tenha sido revelado integralmente, mas não se pode excluir essa possibilidade.

Traduzido por Celeste Marcondes.



[1] www.nytimes.com/library/worl.... O documento está datado de 1954 e assinado por Donald N. Wilber.

[2] cryptome.org/cia-iran.htm. A técnica utilizada pelo New York Times foi inoperante: bastava utilizar um computador lento para ler os nomes antes que a tarja negra se fixasse.


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