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Jerusalém, o centro da discórdia

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Se o general Ariel Sharon só pretendesse criar problemas ao primeiro-ministro israelense após o fracasso da reunião de Camp David, por que então Barak, ao invés de o repreender, deu-lhe uma proteção de mil policiais para ir à Esplanada das Mesquitas?

Mohamed Sid-Ahmed - (17/11/2000)

A visita provocativa, a 28 de setembro de 2000, por Ariel Sharon, protegido por mais de mil policiais, à esplanada de Haram Esh Sharif, em Jerusalém, desencadeou uma nova intifada palestina, diante da qual nenhuma parte do mundo árabe, nem mesmo do mundo muçulmano, permaneceu indiferente. Por toda parte manifestações imensas de solidariedade estourariam nas capitais, inclusive no Kuwait e nos restantes países do Golfo.

Nunca se haviam ouvido reações tão firmes por parte dos dirigentes árabes, mesmo dos mais moderados. O príncipe herdeiro Abdallah, por exemplo, dirigente oficial da Arábia Saudita, declarou: "As nações árabes e islâmicas representadas pela Palestina resistente, nestes momentos dramáticos unem-se a ela. Chegou a hora dos israelenses, assim como todos aqueles envolvidos no processo de paz, compreenderem o que significa a mesquita Al-Aqsa para nós, árabes e muçulmanos, tanto do ponto de vista histórico, quanto de identidade e ideologia. Não se pode falar em compromisso sobre essa questão. "

Hostilidades abertas

Depois da recusa de Ehud Barak em tomar parte, no dia 5 de outubro, da reunião quadripartite em Charm El-Cheikh, com William Clinton, Yasser Arafat e Hosni Mubarak, o presidente egípcio rejeitou qualquer idéia de uma nova reunião de cúpula enquanto o primeiro-ministro israelense não tiver aceitado as seguintes condições: retirada das tropas israelenses das posições que agora ocuparam na Cisjordânia e em Gaza; fim dos ultimatos israelenses; constituição de uma comissão internacional de investigação; garantia de que provocações como a visita do general Sharon à esplanada não tornarão a se repetir; busca de uma solução para o problema de Jerusalém no contexto da legalidade internacional.

O raïs [1] só aceitou ficar mais flexível em sua posição devido à exacerbação de tensão que se seguiu aos ataques israelenses contra os postos da polícia palestina, em 12 de outubro. Essas ações ameaçavam degenerar em hostilidades abertas e o número um egípcio, renunciando às cláusulas formuladas anteriormente, aceitou ser o anfitrião de uma nova reunião internacional em Charm El-Cheikh, nos dias 16 e 17 de outubro, antes da reunião de cúpula do Cairo, marcada para 21 e 22 de outubro.

Uma punição desproporcional

Uma reunião que assinala uma mudança. Há dez anos, em 2 de agosto de 1990, o Iraque invadia o Kuwait, desencadeando um terremoto que faria explodir o mundo árabe. Uma reunião de seus dirigentes, convocada às pressas, revelou-se incapaz de chegar a uma posição unificada. O mundo árabe cindiu-se em dois, uma parte dos Estados tomando posição a favor do Kuwait, a vítima, e os outros, a favor do Iraque. O secretário de Estado norte-americano da época, James Baker, aproveitou-se dessa fratura sem precedentes para convencer os Estados do Golfo de que seu pior inimigo não era Israel, mas um outro Estado árabe. Foi essa mudança que permitiu a realização, depois da vitória aliada de 1991 contra o presidente Saddam Hussein, da conferência de Madrid (outubro de 1991) e do "processo de paz."

A maioria dos Estados árabes esperavam, desse modo, "neutralizar" Israel e concentrarem-se contra aquele que os Estados Unidos designavam como seu pior inimigo: o presidente Saddam Hussein. Muitos deles acabaram, no entanto, por achar que a manutenção indefinida de sanções contra o Iraque, por exigência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, representava uma punição desproporcional que atingia, acima de tudo, os inocentes. Os sofrimentos do povo iraquiano tornaram-se assunto de preocupação internacional. O isolamento de Washington e Londres no interior do próprio Conselho de Segurança (da ONU) aumentou. Tornou-se cada vez mais difícil convencer a opinião pública internacional de que as duras penas impostas ao Iraque eram conformes à "legalidade internacional".

Muda a dinâmica do processo de paz

Muitos Estados árabes, inclusive os do Golfo, desafiaram, então, o bloqueio — e, portanto, o próprio pressuposto de que o Iraque era seu pior inimigo — ao enviarem a Bagdá aviões transportando material médico e donativos. Ao mesmo tempo, a brutal repressão aos palestinos pelas autoridades de ocupação israelense evidenciou o absurdo dos argumentos que procuravam justificar a impossibilidade de uma reunião de cúpula devido ao antagonismo em relação a um outro país árabe.

A partir daí é Jerusalém — e não mais o Iraque — que constitui o ponto central que determina a política árabe. Contrariamente a outros aspectos da questão palestina, Jerusalém parece um campo minado. Ela toca a sensibilidade religiosa e ultrapassa as prerrogativas da Autoridade Palestina. A situação é tão grave que a única saída possível é uma solução definitiva do problema. Até agora, havia sido possível adiar prazos, enquanto se esperava que outros pontos em negociação fossem resolvidos. Mas a provocação do general Sharon mudou a dinâmica. A espiral de violência suscitada por sua visita mostrou que um acordo definitivo sobre o estatuto da cidade santa pressupõe uma regulamentação final do conflito israelense-árabe.

Até a reunião de Camp David, em julho de 2000, ambas as partes haviam evitado essa armadilha. Inclusive na primeira reunião de Camp David (setembro 1977), entre James Carter, o presidente egípcio Anuar El-Sadat e o primeiro-ministro israelense Menahem Begin, os protagonistas haviam aceitado deixar as discordâncias sobre Jerusalém para uma etapa posterior. Em duas cartas separadas, endereçadas ao presidente norte-americano, Sadat e Begin manifestaram suas respectivas posições e esses textos tornaram-se parte integrante dos acordos de Camp David.

Recordemos que Israel ocupou a parte oriental de Jerusalém em junho de 1967. Dilatou as fronteiras do município, multiplicando sua área.. Persistiu na campanha de judaização de Jerusalém Oriental, destruindo quarteirões inteiros, expulsando, progressivamente, a população árabe e multiplicando as colônias judias.

A prepotência de Clinton

Em 1980, o Parlamento israelense aprovou uma lei ratificando a anexação da parte oriental da cidade e declarando "Jerusalém unificada capital eterna do Estado". O que era, evidentemente, inaceitável para os árabes, que não podiam aceitar uma solução definitiva conferindo a Israel a soberania sobre os lugares santos muçulmanos da cidade. Aliás, nenhum Estado — nem mesmo os Estados Unidos — aceita a idéia de uma soberania total israelense sobre Jerusalém. Embora durante as campanhas presidenciais, os candidatos norte-americanos sempre defendam a transferência da embaixada de seu país para Jerusalém, depois de vitoriosos nenhum deles cumpre a promessa: tal decisão teria uma acolhida positiva por parte do poderoso lobby judeu, mas deterioraria de forma irreversível as relações entre árabes e norte-americanos.

Ora, pela primeira vez, em Camp David II, os negociadores abordaram a questão de Jerusalém de maneira sóbria, sem recorrer a clichês repisados. Pela primeira vez também, o primeiro-ministro israelense não se utilizou dos slogans tradicionais — "Jerusalém unificada capital eterna" do Estado judeu — para evitar qualquer discussão séria. Até aceitou iniciar um diálogo realista com os palestinos. Essa abertura foi apresentada como uma concessão, à qual Arafat não teria respondido. O presidente Clinton chegou a atribuir a responsabilidade pelo fracasso da reunião a Arafat — que não teria tido a coragem da "dar o último passo" — ao mesmo tempo em que elogiava a "flexibilidade" de Barak.

O hipotético templo de Salomão

Uma imagem equivocada: o presidente da Autoridade Palestina mostrou tanta flexibilidade quanto seu interlocutor. Aceitou renunciar à soberania palestina sobre certos lugares de Jerusalém Oriental, principalmente o Muro das Lamentações e os bairros judeus da cidade velha. Porém a autoridade de Arafat é temporal e não poderia abranger lugares que têm significado espiritual para o conjunto do mundo muçulmano, sobretudo a esplanada de Haram Esh Sharif (que os israelenses chamam Monte do Templo).

Ele não podia, portanto, rejeitar as propostas do presidente Clinton de dividir verticalmente a soberania sobre esse lugar — os palestinos a exerceriam sobre o que está "acima" do solo da esplanada, e os israelenses, sobre o que está "abaixo". A vontade insistente dos israelenses em conservar o controle sobre a zona situada abaixo da mesquita al-Aqsa apóia-se no fato de que ali se encontrariam as ruínas do segundo templo, o do rei Salomão, suposição que não foi confirmada por nenhuma escavação.

Antes da atual intifada, era possível pensar-se num tipo de acordo que permitisse às partes continuarem as negociações sem se aterem ao pesadelo de Jerusalém. Israelenses e palestinos teriam podido, por exemplo, optar por um procedimento que, contornando as questões de princípio de ambas as partes, permitissem adiar uma decisão final. Uma proposta nesse sentido, formulada pelo Vaticano, consistia em fazer de Jerusalém uma cidade internacional — no espírito do plano de partilha da ONU de 29 de novembro de 1947, que previa fazer de Jerusalém um corpus separatum. Tal fórmula teria sido aceitável como solução transitória, com a condição de que fosse aplicada ao conjunto da cidade, Ocidental e Oriental.

Perguntas incômodas

Depois da visita provocativa do chefe do Likud, um acordo temporário sobre Jerusalém não parece mais ser possível. A ponto de se poder perguntar: Sharon agiu sozinho ou de comum acordo com Barak? Se ele apenas pretendesse criar problemas ao primeiro-ministro após o fracasso da reunião de Camp David, por que este último, ao invés de repreendê-lo, concedeu-lhe uma proteção de mil policiais? Por que também procuram criar, juntos, um governo de "urgência nacional"? Teria sido o medo do general Barak de ser acusado de capitulação diante dos árabes que o levou a capitular diante do Likud, pergunta-se com propriedade, Uri Avnery, um partidário da paz israelense?

A intifada que Sharon (ou Barak e Sharon?) desencadeou voltou a dar ao conflito seu caráter polarizado. Quando se trata de Jerusalém, não é possível utilizar as contradições internas às fileiras árabes (nem mesmo as discordâncias com relação ao Iraque). A reunião árabe do Cairo mostrou isso. Exigiu, por unanimidade, a criação de um Estado palestino, com Jerusalém Oriental como capital, ao lado do Estado de Israel, com Jerusalém Ocidental como capital. Se o acesso ao Muro das Lamentações deve ser garantido aos israelenses, a soberania sobre a esplanada de Haram Esh Sharif o deve ser para os palestinos.

Traduzido por Teresa Van Acker.



[1] N. T.: Chefe supremo de alguns Estados árabes.


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