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ORIENTE MÉDIO

Diário de um campo de refugiados

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"Se Barak quiser realmente saber se a intifada vai continuar ou não, ele deveria falar com as mulheres palestinas, em vez de ameaçar Arafat. Será que Barak já tentou saber por que, desta vez, as mulheres estão longe das linhas de combate?"

Mouna Hamzeh-Muhaisen - (17/11/2000)

Quarta-feira, 4 de outubro

O torpor que eu venho sentindo há seis dias se prolonga. Quando me levanto, às quatro da manhã — não tenho dormido muito, estes últimos dias — tento não correr para o computador ou para o rádio, e vou para o terraço, tomar o café. Sinto que estou ficando louca.

Contudo, maquinalmente, preparo o café, ligo a rádio local Belém 2000, e começo a ler as 352 mensagens que chegaram pelo correio eletrônico. Sinto-me tão entorpecida. (...)

Ninguém em Dheisheh pode ir para o trabalho, exceto quem tem emprego em Belém propriamente dita. A vida parou. Qualquer palestino vivendo na Zona A [1] está isolado — por carros blindados! — das outras regiões. Não podemos ir de Belém para Hebron (no Sul), nem para Jerusalém, no Norte. A única coisa que podemos fazer, nestes dias, é acompanhar atentamente as notícias. Os olhos ficam grudados na televisão o dia inteiro... Só isso.

Fui ver televisão na casa dos vizinhos. Ninguém aqui quer que os confrontos parem. Todo mundo quer o prosseguimento do confronto e que o resto vá para o inferno... O desespero é tão grande e as pressões são tantas que as pessoas acham que chegou a hora: ou eles ou nós. Mesmo que eles nos bombardeiem e nos reduzam a cinzas, venha o que vier. " Uma única bomba, e acaba-se Dheisheh", diz Muyasar, minha vizinha de 34 anos, mãe de seis crianças. "Mas nós morremos instantaneamente", respondo. "Melhor morrer do que continuar deste jeito", diz ela.

Cada mulher com quem eu falo diz a mesma coisa. O clima está tão diferente desta vez. As pessoas estão cheias. Cheias da agressão israelense, cheias da corrupção da Autoridade Palestina, cheias dos acordos de paz que transformaram este lugar num Estado de "apartheid", num "bantustan", numa Cisjordânia dividida em 200 ilhotas isoladas (...). Cheias do silêncio do mundo inteiro, que não nos dá atenção alguma só porque somos árabes.

(...) Durante todo este tempo, em Israel, a vida continua normalmente. Os israelenses se levantam todas as manhãs e vão ao trabalho, enquanto suas crianças vão à escola. Vão ao teatro e ao restaurante. Não são atingidos pelo que se passa aqui. É como se seus maridos, seus pais, seus filhos — que nos matam, nos ferem, nos estropiam — fossem uma espécie de mercenários vindos de muito longe (...).

Quinta-feira, 5 de outubro

A eletricidade foi cortada na região de Belém das 7 às 11 horas da noite. Logo compreendemos por quê: o exército israelense bombardeara — ou queimara — um dos transformadores. Os palestinos pediram garantias para os bombeiros que chegaram para combater o fogo. O lado israelense recusou, é claro (...).

O blecaute foi o ponto culminante de nossa depressão desde que se soube que Arafat se encontraria com Barak em Paris. Muitos entre nós tínhamos apostado que ele não iria. Ninguém queria que ele fosse.

E agora, esta manhã nos traz uma nuvem pesada de melancolia. Os cânticos revolucionários, o silvo das sirenes lá fora e as notícias dos confrontos de ontem e da noite anterior — mais sete mortos — não nos dão raiva. Ao contrário, são ruídos e notícias que nos impulsionam para a frente, que nos fazem ferver o sangue, que nos permitem uma raiva indispensável para sobreviver mais um dia.

Mas a notícia de um acordo não é uma notícia que queiramos ouvir. Que Israel retire sua artilharia pesada, e depois? Continuarão utilizando munição real, balas de borracha, gás lacrimogêneo, para matar civis inocentes. Amanhã, ainda acordaremos num Estado de "apartheid". Por isso é que nós somos inflexíveis. Ninguém quer voltar à situação que existia antes da "intifada de Al-Aqsa". Por duros que tenham sido estes últimos dias, quando uma semana pareceu durar uma década, as pessoas estão determinadas a lutar até o fim. (...)

Quinta-feira, 5 de outubro (continuação)

Chorem, meus olhos, chorem. As lágrimas podem lavar minha dor. Quantos seremos a encarar Um Hamzeh hoje? Ah, Um Hamzeh, teu filho juntou-se à longa procissão dos mártires. E nós deveríamos dizer-te: é a vida, foi um mártir, foi direto para o paraíso. Sê forte por teu marido cego, sê forte por teus outros filhos, alegra-te pelo fato de que teu filho foi o primeiro mártir de Dheishseh da "intifada de Al-Aqsa".

Ah, a dor de um coração de mãe. Ah, dor atroz. As balas israelenses carbonizaram seu peito e seus braços. E de novo, e de novo, e de novo. Dá para ver seus ossos. Quatro balas de franco-atiradores crivaram seu corpo, quando se encontrava à beira da calçada com seu melhor amigo, Akram.

Tive tanto medo por você, Akram, que você tivesse morrido também. Por favor, não morra. Quem iria avisar sua mãe? Quem iria consolar seu coração e a aliviar da dor? Um filho morto, levado para um hospital em Jerusalém, onde ela não pode nem mesmo ir. Uma filha em Gaza, é o mesmo que dizer, na lua. É isso o "processo de paz" que eles querem nos fazer engolir. É isso Oslo, o "acordo de paz", o "processo de negociações". Paz, uma ova, e eu gostaria de usar uma expressão ainda mais forte. Isto é um "processo de guerra", um "acordo de balas reais", um "Oslo para erradicar os palestinos", um acordo para os Apaches.

Sábado, 7 de outubro

Quando estávamos sentados, falando sobre os acontecimentos da semana anterior, a televisão interrompeu a programação para anunciar que os combatentes do Hezbollah tinham acabado de capturar três soldados israelenses. Explodimos de alegria. (...) Os acontecimentos de repente tomavam outro rumo. Estamos indo para uma guerra regional? Dependerá da resposta da Síria e do Líbano, se forem bombardeados por Israel. Ninguém aqui acredita que os países árabes revidarão a uma agressão israelense. A raiva contra os países árabes é imensa, como também é contra os Estados Unidos e as Nações Unidas.

Estou com uma terrível dor de cabeça. Tento me deitar, mas acordo com o barulho de um terrível tiroteio. Levanto-me e escuto. Parece muito próximo, no túnel de Beit Jala, perto da aldeia de Al-Khader, a alguns metros de Dheisheh. Os tiros duraram uns quarenta minutos. Eu podia ouvir os assobios e aplausos vindos do campo. Sorri, no escuro. Eu era uma criança em Amã, durante a guerra de junho de 1967 e durante o Setembro Negro. [2] Vivi na Palestina quase todo o período da intifada. Mas esta é a primeira vez em minha vida que o barulho das balas não me faz medo. E também pela primeira vez, compreendo por quê os palestinos, que viveram sob a ocupação toda a vida, continuaram combatendo os israelenses, enfrentando seus fuzis com pedras.

Domingo, 8 de outubro

Se Barak quiser realmente saber se a intifada vai continuar ou se pode ser detida, ele deveria falar com as mulheres palestinas daqui, em vez de ameaçar Arafat. Será que Barak já tentou saber por quê, desta vez, as mulheres estão longe das linhas de combate? Com poucas exceções — principalmente por ocasião dos funerais dos mártires —, elas ficam em casa. Poderia dizer-se que é por causa dos tiros e que, portanto, é pouco seguro para elas saírem.

Mas as mulheres são soldados desconhecidos, que suportam o que representa cada lar. São elas que acalmam as crianças, de olhos grudados na televisão. Não conheço uma única mulher em Dheisheh que não acompanhe de perto a mínima evolução da situação. Mesmo minha sogra, de 77 anos, senta-se na sala, o ouvido colado no rádio. E todas contam que não conseguem fazer as tarefas quotidianas, que perderam peso nestes dez últimos dias, que sofrem de dor de cabeça, que não podem dormir bem à noite, que temem por seus maridos e seus filhos.

O que elas têm a dizer a Barak? "Que a intifada deve continuar, que a morte das pessoas não pode ser em vão. Que as notícias de um cessar-fogo nos deixam deprimidas. Não podemos ter uma intifada quase todos os anos, e em seguida ir dormir profundamente, para despertarmos alguns anos mais tarde e tudo recomeçar. Desta vez o combate deve prosseguir até o fim. Até à vitória. "

Segunda-feira, 9 de outubro

Lembro-me da primeira vez em que me instalei aqui, vindo dos Estados Unidos, no início da primeira intifada (1987-1993). Eu estava tão pouco habituada a ver soldados israelenses irromperem em nossas casas, que corri para o telefone e disquei o 911, o número da polícia (nos Estados Unidos). Mas aqui não existe ninguém para nos proteger. Nenhuma lei pode proteger contra a brutalidade israelense. (...)

E agora são os colonos que substituem os soldados israelenses, atirando e aterrorizando os civis palestinos. As forças de segurança palestinas não podem fazer nada. É o processo de Oslo! Os acontecimentos dos dois últimos dias mostram como Israel planejou bem ao dividir a Cisjordânia nas Zonas A, B e C. Eu não posso ir a Hebron sem passar pelas colônias; não posso ir ao inferno sem passar pelas colônias. Cada cidade e cada aldeia palestina é rodeada por colônias. Quem ousaria viajar de carro, nessas circunstâncias?

Terça-feira, 10 de outubro

Trinta e seis pessoas foram feridas hoje nos territórios palestinos. Contudo, o que realmente precisaria ser feito para parar os confrontos seria que Israel retirasse completamente suas tropas desses territórios e admitisse que, sem a criação de um Estado palestino autêntico nos territórios ocupados desde 1967, a luta de libertação jamais irá parar. Mostrem-me onde, na história, um povo parou de sonhar e de se bater por sua independência e por sua liberdade...

A paz dos bravos, senhor primeiro-ministro, é a paz que põe um termo ao banho de sangue, e não a que exige ainda mais sangue. A paz dos bravos pressupõe o reconhecimento dos direitos legítimos de um povo, e não sua supressão.

Se o Estado de Israel e o Estado palestino vivessem lado a lado, senhor primeiro-ministro, tudo mudaria então para melhor na região. Se reconhecesse que o "apartheid" não pode persistir, então tudo mudaria para melhor.

Terça-feira, 17 de outubro

Enquanto estou aqui sentada, 20 mil pessoas participam, em Belém, de mais um funeral. Desta vez, o mártir é Muaya Osama Jawarish, do campo de refugiados de Aida. Um soldado israelense disparou-lhe um tiro na cabeça quando vinha da escola, com a mochila nas costas. Antes que a procissão depusesse seus restos mortais, a televisão transmitia, de Charm El-Cheikh, o comunicado final da reunião de cúpula.

Clinton comunicou — de forma indireta, é claro — que foi tomada a decisão de pôr fim à nossa intifada. Em vez de nos dizer que Israel iria parar de massacrar o povo palestino, ele explicou que os dois lados "iria agir de imediato para acalmar a situação". Parece que falou em "cessar-fogo"... Mas eu tenho a impressão que isso de "cessar-fogo" é um acordo entre dois exércitos, será que não é? E o nosso exército, está onde?

Passa mais um dia e ninguém quer que a intifada pare. A luta pela libertação dura há décadas. E durante esses anos, filhas tornaram-se mães, mães tornaram-se avós... Enterraram seus maridos, seus pais, seus filhos e continuamos longe de sermos livres, continuamos vivendo sob a ocupação e continuamos sem um Estado independente (...).

Bem-vinda a um novo dia na Palestina. Um novo dia de ocupação. É preciso procurar encontrar um lugar ao sol. Mas, veja, há um bem ali... Veja só as pastagens verdes, o azul do mar, o arco-íris no horizonte. Levante um pouco a cabeça e você conseguirá ver tudo isso.

Traduzido por Gilvando Rios.



[1] A Cisjordânia está dividida numa Zona A (sob soberania palestina), uma Zona B (sob soberania israelense e palestina) e uma Zona C (sob soberania israelense).

[2] Em setembro de 1970, na Jordânia, o exército esmagou as forças palestinas, matando milhares de civis.


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