Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Nem todo Uber é capitalista

» Comuns, alternativa à razão neoliberal

» “Nova” ultradireita, filha dos neoliberais

» Como os PMs são formados para a incivilidade

» Cinema: três filmes para olhar além da fronteira

» Pacote Guedes (1): Uma distopia cujo tempo passou

» Pacote Guedes (2): Unidos pelo fundamentalismo

» A execução de Baghdadi e o autoengano do Ocidente

» Por que fracassou o mega-leilão do Pré-Sal

» O alento de Mafalda, a rebeldia chilena e… o Brasil

Rede Social


Edição francesa


» Il y a cent cinquante ans, la révolte des cipayes

» Hôpital entreprise contre hôpital public

» Dernières nouvelles de l'Utopie

» Très loin des 35 heures

» Qui a profité de l'unification allemande ?

» Chantages ordinaires chez General Motors

» Gagnants et perdants de l'ouverture chinoise

» L'islam au miroir de la télévision

» Laïcité et égalité, leviers de l'émancipation

» Insécurité sociale programmée


Edição em inglês


» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes

» A firm too good to be true

» In the GDR, old debts and big profits


Edição portuguesa


» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa

» A Expo'98 e o Parque das Nações: Estado, gentrificação e memória urbana

» Uma história do Habita

» «Ficar sem Tecto»: as demolições no Bairro 6 de Maio

» Gentrificação e turistificação: o caso do Bairro Alto em Lisboa


SEITAS RELIGIOSAS

O cavalo de Tróia norte-americano

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Insidiosamente, a questão das liberdades religiosas envenena as relações diplomáticas entre Washington e os principais países europeus. Em nome dos direitos humanos, os EUA querem a impunidade de grupos cujas atividades são condenadas pelos tribunais

Bruno Fouchereau - (01/05/2001)

Algumas dessas seitas religiosas multinacionais dispõem, só na França, de ativos de várias centenas de milhões de francos

Desde há mais ou menos dez anos, na Europa, a questão das seitas passou do estágio de "fenômeno social preocupante" ao de "problema de segurança pública de primeiro plano". Os massacres provocados pela Ordem do Templo Solar, em 1994 e 1995, o ataque com gás sarin pela seita Aum no metrô de Tóquio, em março de 1995, o suicídio coletivo de Heaven’s Gate em Los Angeles, em 1999, foram alguns dos acontecimentos que aceleraram essa tomada de consciência. A França, a Bélgica, a Espanha e a Alemanha, por exemplo, reforçaram seu arsenal repressivo. Uma opção dos legisladores que se seguiu, em geral, a relatórios parlamentares sobre o caráter perigoso de determinado grupo e os métodos coercitivos de alienação por ele infligidos sobre seus seguidores. A França e a Alemanha estão na vanguarda dessa tendência repressiva.

Mais ou menos por toda a Europa surgiram órgãos encarregados de observar o fenômeno. Na França, uma série de leis votadas em 1996 aumentou, entre outras coisas, a proteção das pessoas em situação de fragilidade. O governo de Lionel Jospin instalou uma Missão Interministerial de Luta contra as Seitas (MILS), presidida por Alain Vivien. Na Alemanha, o alvo principal foi a Igreja da Cientologia. Desde 1997, após uma investigação pelos serviços de polícia, o governo federal já alertava a população sobre os perigos dessa seita e o land (equivalente a Estado) da Baviera decidiu excluir os adeptos da Cientologia da função pública.

Desculpas esfarrapadas

Na Alemanha, o alvo principal foi a Igreja da Cientologia. Desde 1997, a polícia alemã já alertava a população sobre os perigos dessa seita

Diante desse endurecimento europeu, todos os observadores do fenômeno esperavam por uma contra-ofensiva da parte das multinacionais das seitas, algumas das quais dispõem, só na França, de ativos de várias centenas de milhões de francos. A resposta veio dos Estados Unidos.1 No dia 27 de janeiro de 1997, as medidas contra a Cientologia na Alemanha foram oficialmente denunciadas por Washington. Alguns dias mais tarde, o Departamento pela Democracia, pelos Direitos Humanos e pelo Trabalho (Bureau for Democracy, Human Rights and Labor, BDHRL),2 uma divisão do Departamento de Estado, tornava público seu relatório sobre a situação dos direitos humanos no mundo. Violentamente atacada, a Alemanha figurava, na lista dos Estados infratores das liberdades religiosas, em posição similar à da China!

Esse relatório não podia surgir em momento mais oportuno, como ponto de apoio à campanha lançada pela Cientologia contra a Alemanha através de manifestações, de matérias pagas na imprensa internacional e de um recurso junto à Comissão Européia de Direitos Humanos. Para "esfriar a cabeça", em março de 1997, um comunicado do Departamento de Estado esclarecia: "Nós criticamos os alemães, mas não nos associamos à campanha lançada pela Cientologia contra a Alemanha..." Era o mínimo que o governo alemão podia esperar.

Vítimas da fé

Saindo em defesa daquela seita, o Departamento de Estado publicou um relatório atacando a Alemanha como Estado infrator das liberdades religiosas

Em 1998, quando o Congresso norte-americano votou uma nova lei sobre a liberdade religiosa no mundo, constituiu-se outra comissão no interior do BDHRL: a Comissão pela Liberdade Religiosa Internacional (Office of International Religious Freedom). A lei que a criou, colocou à sua frente um embaixador plenipotenciário que dispõe de cinco funcionários (officers) da Secretaria de Estado. A comissão dispõe de um representante em todas as embaixadas norte-americanas. Primeiro embaixador dessa comissão, Robert A. Seiple, um ex-fuzileiro naval, gosta de repetir: "Os direitos humanos são universais porque são um dom de Deus!"3 Explicou ao jornal Naples Daily News,4 até que ponto a fé o amparou nas provações de sua vida e, especialmente, nas 300 missões de combate que realizou como oficial dos fuzileiros navais durante a guerra do Vietnã.

Entretanto, Seiple não foi escolhido exclusivamente por causa de suas qualidades de monge-soldado. Durante mais de onze anos, esteve à frente da muito conservadora World Vision Inc. Organização evangélica mais importante do mundo, ela financia milhares de projetos nos dois hemisférios e tem milhões de filiados tanto na América Latina quanto na Ásia.5 No primeiro relatório publicado por sua comissão, em setembro de 1998,6 a França, a Alemanha, a Áustria e a Bélgica são acusadas de achincalhar as liberdades religiosas. O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito francesa, de 1995, é comparado a uma perseguição cega e os deputados são acusados de segregação religiosa e de terem organizado uma lista de associações inocentes que seriam perseguidas — não por atividades ilegais, e sim por sua fé.

Braço armado da nova inquisição

Criada pelo Congresso norte- americano em 1998, a Comissão pela Liberdade Religiosa Internacional é dirigida por Robert Seiple, um ex-fuzileiro naval

No dia 22 de março de 1999, em Viena, a convite da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), um seminário organizado pela Comissão pelas Instituições Democráticas e pelos Direito Humanos (ODHIR)7 ataca violentamente a política francesa no que diz respeito às seitas. Retomando e ampliando as acusações do Departamento de Estado, diplomatas e senadores norte-americanos transformam-se em procuradores. Quase ocorre um incidente diplomático. O mesmo roteiro se repete em Washington, diante da Commission on Security and Cooperation in Europe — órgão que reúne os representantes norte-americanos da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Três testemunhas chamadas a depor fazem revelações terríveis: a França faz as pazes com Vichy, o primeiro-ministro está intoxicado por movimentos anti-religiosos, crentes são entregues à ira popular, outros perdem o emprego, crianças são tiradas de seus pais...

Publicado em junho de 1999, o relatório oficial dos senadores norte-americanos dá o tom de suas preocupações quanto às liberdades fundamentais na Europa.8 Acusam o governo francês, por exemplo, de manipular sua administração fiscal para fazer dela o braço armado de uma nova inquisição.

Relatório continua acusador

A comissão dirigida por Seiple avaliou que a França, a Alemanha, a Áustria e a Bélgica são países que tripudiam as liberdades religiosas

Tanto a MILS (missão interministerial) quanto o palácio do governo explicam que um estudo das estruturas e dos fluxos financeiros da Cientologia e das Testemunhas de Jeová demonstra que se trata de autênticas organizações com fins lucrativos, gerando lucros colossais (fatos que justificam plenamente multas fiscais); que o relatório da Assembléia foi elaborado com a colaboração de juristas, de policiais especializados, de associações reconhecidas como de utilidade pública, de professores universitários... Esse relatório apresenta 180 associações que se definem como religiosas; contudo, um estudo aprofundado sobre elas demonstrou seu caráter totalitário e os métodos coercitivos que exercem sobre seus adeptos. Em sua grande maioria, essas associações têm sido objeto de condenações dos tribunais.

As instâncias francesas também procuram corrigir algumas contra-verdades. Por exemplo: a França é acusada de recusar estatuto de religião a certos grupos minoritários quando, em virtude da lei de 1905 que estabelece a separação entre Igrejas e Estado, ela não reconhece religião alguma.

O diálogo não produz qualquer resultado. No dia 9 de setembro de 1999, a Comissão pela Liberdade Religiosa Internacional publica um novo relatório. Um ataque ainda mais duro contra os países europeus. No dia 8 de dezembro, o ministro das Relações Exteriores, Hubert Védrines, escreve à sua colega Madeleine Albright: "Esse questionamento sem fundamento, por parte de seu governo, da ação pública francesa — justamente quando se processava o diálogo entre nossos altos funcionários — lançou uma sombra sobre a própria riqueza desse diálogo." O intercâmbio diplomático sobre essa questão foi oficialmente suspenso. E ainda não foi retomado. Embora incorporando os elementos positivos da lei de 1901 e de 1905 e retificando, sem o admitir, um certo número de erros, o último relatório do Departamento de Estado norte-americano, publicado em 2 de março de 2001, continua extremamente acusador.

Interferência deliberada

O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito francesa é comparado a uma perseguição cega e os deputados são acusados de segregação religiosa

A história e a constituição norte-americanas não bastam para explicar a obstinação dos Estados Unidos em apoiar esses grupos. A Comissão pela Liberdade Religiosa Internacional é, como vimos, uma estrutura do BDHRL, que por sua vez é ligado ao Departamento de Estado. A Comissão pela Liberdade Religiosa (Commission for Religious Fredom) foi criada em Washington, pelos parlamentares norte-americanos. E, finalmente, há uma terceira estrutura diretamente vinculada à Casa Branca: a Comissão dos Estados Unidos pela Liberdade Religiosa Internacional (United States Commission for Religious Freedom). Seu diretor, Steven T. Mc Farland, afirma que uma das principais razões para a existência dessa comissão é, em relação às outras duas, agir como um "cão de guarda" (Watch Dog): "Controlamos o trabalho das outras comissões a fim de que permaneçam no bom caminho..." Caso se tratasse de um outro lugar, diante da existência de uma comissão encarregada de vigiar as comissões que vigiam as liberdades religiosas, haveria por certo quem falasse da sobrevivência do aparelho soviético!

Quando se pergunta a Steve T. Mc Farland se leu o relatório da Assembléia Nacional francesa, ele responde que não! Depois acrescenta, como que para se desculpar, que não lê nem fala francês. O mesmo ocorre com respeito aos relatórios da MILS, comunicados do governo francês e notas informativas da embaixada da França em Washington. Os funcionários das diferentes comissões que foi possível contatar declararam não ter conhecimento direto dos relatórios, nem mesmo através de traduções... A explicação de Mc Farland é a de que os dados transmitidos pelas agências de informação norte-americanas, pela embaixada em Paris, por professores universitários e pelas ONGs com relação à intolerância por parte do governo francês parecem-lhe suficientemente confiáveis. Finalmente, quando lhe são apresentadas cópias de telex da embaixada norte-americana em Madri9 demonstrando que o BDHRL interveio para retardar a instrução de um juiz espanhol contra a Cientologia, o diretor da Comissão prefere não fazer nenhum comentário.

Carismáticos e neofascistas

Um estudo das finanças da Cientologia e das Testemunhas de Jeová demonstra que se trata de organizações com fins lucrativos, gerando lucros colossais

Os membros dos serviços de informação que mantêm informadas as comissões norte-americanas são, evidentemente, impossíveis de identificar. Já a embaixada norte-americana de Paris recomenda em seu site Internet um advogado, Kay Gaetjens, membro notório da Cientologia. Por outro lado, por ocasião de uma conferência na Assembléia Nacional sobre o problema da manipulação mental, em fevereiro passado, a embaixada norte-americana, embora não convidada, enviou dois de seus membros, acompanhados por um ativista francês da Cientologia.

Com relação aos depoimentos colhidos por essas comissões, também aí subsistem muitas dúvidas. A pessoa encarregada pela OSCE de coordenar os debates em Viena, em março de 1999, não é outra senão Massimo Introvigne, sociólogo italiano, fundador do Centro de Estudos e de Documentação sobre as Novas Religiões (Cesnur), vinculado à tendência carismática da Igreja católica e muito ligado à seita neofascista Trabalho, Família, Propriedade. Colaborador assíduo das publicações de Cientologia, esteve entre as pessoas favoráveis à seita e que depuseram diante do tribunal de Lyon, no processo instruído pelo juiz Georges Fenech.

A "companheira" da Cientologia

A França é acusada de recusar estatuto de religião a certos grupos sectários quando, em virtude da lei de 1905, ela não reconhece religião alguma

Igualmente convidado para Viena, e depois para Washington, o advogado francês Alain Garay, defensor dos Testemunhas de Jeová é, ademais, encarregado de seu processo fiscal. É também um freqüentador das publicações da Cientologia. Outro ator-chave é Willy Fautré, presidente de uma associação belga — Direitos Humanos sem Fronteiras —, cujo nome não deve levar a crer que seja reconhecida pela Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH). Durante muito tempo, Fautré foi correspondente de News Network International, um importante grupo de imprensa e de lobby evangelista norte-americano, antiaborto e ferozmente anticomunista. É também membro da Federação Helsinki para os Direitos Humanos (FHDH), cujos relatórios foram fartamente citados pelas comissões norte-americanas. Ocorre que o correspondente grego da FHDH participou das publicações da Cientologia ao lado de outras seitas, assim como a delegação de Moscou publicou uma obra em colaboração com a Cientologia.

Enfim, entre as principais testemunhas da violação da liberdade religiosa orquestrada pelo governo francês, encontra-se o pastor Louis Démeo, do Instituto Teológico de Nîmes. Este instituto faz parte da organização evangélica Greater Grace, instalada em Baltimore (Maryland), nos Estados Unidos. A Greater Grace dispõe de mais de 3.000 missões na América Latina e várias centenas na África, bem como na Europa Oriental. O Instituto Teológico de Nîmes funciona como escola de quadros para a Europa Oriental. A Greater Grace, cujos métodos foram fortemente contestados até nos Estados Unidos, pode ser definida como "companheira de estrada" da Cientologia.

Isenção de impostos

A história e a constituição norte- americanas não são suficientes para explicar a obstinação dos Estados Unidos em apoiar essas seitas religiosas

Presidente do Lisa Mc Pherson Trust,10 principal associação norte-americana de ajuda às vítimas da Cientologia, Stacy Brooks foi, ela própria, adepta dessa seita durante 15 anos. Foi também secretária de David Miscavige, o herdeiro de Ron Hubbard e atual guru da Cientologia. Ela se lembra perfeitamente do reverendo George Robertson, que dirige a Greater Grace: "Ele tem uma estreita relação com os dirigentes da Cientologia. Quando não pode intervir a respeito de alguns pontos, por razões de imagem, a seita pede que Robertson o faça. Ele é seu principal substituto no movimento evangélico..." Sob sua orientação e por meio de processos, a Greater Grace e a Cientologia conseguiram provocar a falência da principal organização de ajuda às vítimas das seitas, fundada na década de 70: a Cult Awareness Network... Para, em seguida, comprá-la ao equivalente norte-americano a um tribunal de comércio!11

Um outro fato explica a influência da Cientologia e de seus adeptos nos Estados Unidos. Desde 1993, o poderoso departamento norte-americano do Imposto de Renda (IRS) concedeu à seita o estatuto de religião plena, isentando-a, assim, de imposto. Nos 25 anos precedentes, o IRS havia-lhe recusado sistematicamente as isenções fiscais de que se beneficiam as instituições religiosas. Recusas confirmadas por todos os tribunais norte-americanos, inclusive pela Suprema Corte. Essa reviravolta do IRS permitiu que a Igreja da Cientologia economizasse milhões de dólares e proporcionou-lhe um extraordinário instrumento de relações públicas, abrindo-lhe as portas do governo norte-americano.

Influência junto à cúpula

Há uma terceira estrutura diretamente vinculada à Casa Branca: a Comissão dos Estados Unidos pela Liberdade Religiosa Internacional

A história completa dessa guinada foi revelada pelo New York Times quatro anos depois. A Cientologia teria travado uma verdadeira guerra contra a administração fiscal. Evidentemente, através de processos: abriu mais de 50 ações judiciais. Mas também contratando detetives privados para investigar a vida privada de altos funcionários do IRS. Em março de 1997, um deles revelou ao New York Times que havia trabalhado para a Cientologia durante dezoito meses, entre 1990 e 1992. De seu escritório em Maryland, teria colhido informações sobre dirigentes que faltavam às reuniões, que bebiam demais ou mantinham relações extraconjugais... A concessão da isenção de impostos à Cientologia passou por um procedimento fora das normas, provocando um curto-circuito nos círculos habituais de decisão, mediante pedido expresso do diretor do IRS...

Aos 300 milhões de dólares de lucros armazenados a cada ano pela Cientologia, às suas técnicas de infiltração e de intimidação, ao seu reconhecimento pelo IRS, acrescentaram-se outras ações coordenadas que lhe permitiram firmar sua influência junto à mais alta cúpula do Estado norte-americano. Pesquisador do Departamento de Sociologia da Universidade de Alberta, no Canadá, Steven A. Kent estudou minuciosamente a estratégia de lobby adotada por diversos grupos religiosos e seitas em Washington.12 Ele explica perfeitamente como os adeptos da Cientologia, e antes deles os moonistas, desenvolveram operações de relações públicas muito amplas, dirigidas a membros do Congresso, do Senado e da Casa Branca. Para alcançar esse objetivo, a Cientologia depositou 725 mil dólares, em 1997, e 420 mil dólares, em 1998, para uma empresa de relações públicas especializada em lobby político.

Acordos pouco confessáveis

Os membros dos serviços de informação que mantêm informadas as comissões norte- americanas são, evidentemente, impossíveis de identificar

Atores de cinema filiados à Cientologia depositaram mais de 70 mil dólares para a campanha a senadora de Hillary Clinton, sendo que Tom Cruise, pessoalmente, contribuiu com 5 mil dólares para a campanha de Albert Gore e John Travolta organizou, com outros adeptos da referida seita, um jantar de gala para levantar fundos para o Partido Democrata (preço do ingresso: 25 mil dólares). Um advogado da Cientologia, por sua vez, depositou 20 mil dólares para a campanha daquele partido. Enfim — último exemplo porque a lista é extensa — um dos principais dirigentes da Cientologia, Greg Jensen, patrocinou a campanha do senador Benjamin A. Gillman no valor de 7.400 dólares.13 Este senador tornou-se, após a eleição, presidente da Commisson of Religious Freedom da OSCE...

Por sua vez a seita Moon, proprietária de um dos principais jornais da imprensa diária, o Washington Time, abriu espaço em sua publicação — bastante conservadora — para Hillary Clinton, que publica semanalmente um pequeno artigo. É incontável o número de senadores e membros do Congresso "subvencionados" por Moon. Basta lembrar que dois presidentes dos Estados Unidos prestigiaram regularmente as conferências organizadas pelo reverendo Sun Myung Moon: George Bush (pai) e Gerald Ford. Parece evidente que a Cientologia e Moon já fizeram acordos. Desde meados da década de 90, desenvolvem em conjunto ações pela liberdade religiosa, tanto na Europa como nos Estados Unidos.

"Integralistas" e fundamentalistas

Presidente do Lisa Mc Pherson Trust, associação de ajuda às vítimas da Cientologia, Stacy Brooks foi, ela própria, adepta dessa seita durante 15 anos

Tornadas públicas na Internet, uma série de cartas trocadas entre dirigentes da Cientologia e de Moon deixou evidentes as atividades daquelas seitas — já planejadas articuladas — voltadas para os países do Leste. O ativismo dos moonistas e dos adeptos da Cientologia — ao qual, de modo mais ou menos formal, se agregaram outras seitas, à imagem da parceria entre a Cientologia e a Greater Grace — recebe agora o apoio dos grupos fundamentalistas religiosos norte-americanos. O Institute on Religion and Public Policy,14 por exemplo, calorosamente recomendado pelo Departamento de Estado norte-americano, reúne alguns senadores ultraconservadores, moonistas, o guru da seita Sri Chinmoy... Esse instituto, que reivindica a condição de católico "integralista", está instalado a algumas quadras da Casa Branca e milita abertamente pelo respeito dos direitos da Cientologia, de Moon e de outras chamadas religiões minoritárias na Europa.

E finalmente há o Institut for Religion and Democracy (IRD), que paladino dos governos Reagan e Bush (pai e filho), ultraconservador, homófobo e antiaborto, que existe há mais de vinte anos e fez surgirem dezenas de milhares de missões fundamentalistas protestantes pelo mundo, e que se alinhou aos detratores da França. Diane L. Knippers, sua presidente, não desiste: "A França é um modelo para as outras democracias européias. Ela tem que abandonar, definitivamente, sua política anti-religiosa e garantir novamente a liberdade confessional..."

A "nova ordem liberal"

Porém, sua explicação resvala depressa e mostra, sem se aperceber disso, a natureza do que une esses grupos tão heterogêneos: "O que hoje nos faz agir em favor da liberdade religiosa é da mesma natureza daquilo que nos fez combater o comunismo. Uma sociedade humana não pode se desenvolver na mentira. O ateísmo e o comunismo só podem fazer nascer a mentira. A espiritualidade é uma garantia de civilização, porque a espiritualidade e a fé fabricam indivíduos honestos. Sem honestidade não há comércio e sem comércio não há civilização..."

Essa luta pela "espiritualização do mundo"15 une-se, concreta e ativamente, aos lobbies que querem impor os valores norte-americanos através da globalização. Em várias ocasiões, o IRD expressou: a internacionalização e a globalização dos mercados são missões inspiradas aos Estados Unidos pela Bíblia. Um conceito místico-imperial a que adere o conjunto dos grupos fundamentalistas e evangélicos norte-americanos e que está presente de forma intensa no espírito daqueles que se dizem defensores das liberdades religiosas. John R. Bolton, por exemplo, membro da Comissão dos Estados Unidos pela Liberdade Religiosa, foi o vice-presidente da American Entreprise Institute for Policy Research, um grupo militante do ultraliberalismo. No governo de George Bush (pai), Bolton foi um dos principais assessores da Presidência para questões de comércio internacional. Nina Shea, da mesma comissão, afirma: "Nosso principal objetivo é estabelecer no mundo a nova ordem liberal...".

Coincidências assustadoras

Desde 1993, o departamento do Imposto de Renda (IRS) concedeu à Igreja da Cientologia o estatuto de religião plena, isentando-a, assim, de imposto

Definida desde o início da década de 80 pelo governo Reagan, essa mecânica de dominação, que quase poderia ser classificada como interativa, atingiu seu paroxismo com o que constitui sua principal disputa: a universalização das normas jurídicas. Esta última batalha deveria dar o acabamento perfeito à globalização do mercado mundial. Mas, nesse contexto, surgem inúmeras resistências. Dentre outras, e por iniciativa da França, a que se refere ao enorme mercado da educação. Em sua estratégia, seitas e consórcio da comunicação têm um inimigo comum: trata-se de uma ideologia fortemente difundida na Europa, a do laicismo, de que a França é historicamente o cadinho. É o laicismo do Estado francês que é diretamente atacado através de sua política de repressão aos movimentos sectários. Para as seitas, o interesse desse combate parece evidente: implantar-se na educação em âmbito europeu e dispor, como nos Estados Unidos, de escolas sem nenhum controle do Estado é a garantia de um recrutamento mais amplo e mais sólido, porque integrado à construção cultural e psicológica dos indivíduos. Se não se pode falar de uma frente comum, desenvolvida através de uma mesma estratégia e decidida por um estado-maior unificado, é inegável que a interpenetração dos grandes grupos de seitas e dos consórcios da comunicação, sejam eles vetores — como a indústria informática — ou produtores de objetos comunicantes — como a indústria cinematográfica — está confirmada. Não há nenhuma necessidade de lembrar aqui os vínculos que unem ABC, CNN e similares aos lobbies fundamentalistas norte-americanos, tampouco sua adesão total à ideologia dominante.

Notemos, apenas como fatos pitorescos, que David Ichbia, o principal biógrafo de William Gates, era adepto da Cientologia; que um dos colaboradores mais próximos de Gates, Greg Jensen, também o é; e que uma das principais empresas do império Microsoft — Executive Software — assume oficialmente sua condição de adepta da Cientologia. Isso mesmo! É o Big Brother que bate na janelinha de sua tela...
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - O que nada tem de surpreendente, já que 90% das seitas são de origem norte-americana ou instalaram sua sede nos Estados Unidos.
2 - Criado em 1990 e ligado a todas das agências norte-americanas de informação, esse departamento tem por missão oficial avaliar o estado das liberdades e o nível de democracia em todas as nações do mundo. Também fornece relatórios ao governo e alimenta o Congresso e o Senado norte-americanos.
3 - Conversa com o autor.
4 - Naples, Flórida, citado por Stephen A. Kent em "Consultation on Religious Persecutions as a US Policy Issue", Trinity College, Hartford, Connecticut.
5 - Consultar, a esse respeito, o Interhemispheric Ressource Center e a revista World Vision de dezembro de 1991, p. 14. Pode-se também consultar o site: www.pir.org/gw/wv.txt.
6 - Os diferentes relatórios da Commission of International Religious Freedom podem ser consultados no seguinte endereço: www.state.gov/www/global/hum....
7 - Comissão da OSCE, inicialmente criada em aplicação da Carta de Paris por uma Nova Europa (1990) para fins de controle da regularidade das eleições na Europa. Em 1994, a Cúpula de Budapeste ampliou suas competências no que se refere à dimensão humana nas instituições democráticas e à prevenção de conflitos. Sob a influência dos senadores norte-americanos Dennis De Concini e Alphonse d’Amato, a ODHIR se interessa de modo muito especial pelas questões de liberdade religiosa.
8 - www.csce.gov.
9 - Para consultar esses documentos, veja o site: parishioner.org/spain.html.
10 - Para obter informações acerca dessa associação, veja o site: www.lisatrust.net.
11 - Ler, sobre o assunto, a edição de 9 de setembro de 1999 do Los Angeles Times.
12 - Seu trabalho pode ser consultado na Internet: www.trincoll.edu/depts/cspl.
13 - Citado por Stephen A. Kent no Marbourg Journal of Religion, Universidade de Alberta (Canadá); fonte: Center for Responsive Politics, Washington, 1999.
14 - Seu site pode ser consultado em: www.religionandpolicy.org
15 - Consultar o Marbourg Journal of Religion, vol. 6, nº 1, janeiro de 2001.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos