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CINEMA

O Elogio do Amor, segundo Godard

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O filme é uma cantata cujas personagens louvam a Resistência, a memória e o cinema. Uma nova oportunidade para se descobrir a originalidade e a pertinência desse realizador ímpar, para quem o cinema é, em primeiro lugar, pensamento

Philippe Lafosse - (01/05/2001)

O público não olha as imagens, vê o que lhe disseram que deveria ver e acompanha o texto publicitário da televisão, que é ditado apenas pela exploração

Primeiro, é necessário assistir O Elogio do Amor. Em seguida, revê-lo : como se olha de novo um quadro, se torna a ouvir um trecho de música ou se relê um livro. Só depois é que se pode falar sobre ele. Tem-se a tal ponto o hábito de falar sem ver, e de modo imediato — e mais ainda quando se trata de Godard, adulado por uns, amaldiçoado por outros, em resumo: reduzido, traído, engessado — que a gente se pega sonhando que um dia, simplesmente, as pessoas vejam enfim suas imagens e escutem seus filmes. "O que é interessante", confirma o cineasta, "é falar do filme, e não da pessoa. Mas quem faz isso?... Isso é possível em literatura: Muitas vezes fala-se dos livros, e não dos autores. Mas, em relação ao cinema, isso é excepcional, fala-se do orçamento ou do que o autor quis fazer. Os autores falam muito, dizem o quiseram fazer, e o público acredita, embora eles não o tenham feito. O público não olha as imagens, vê o que lhe disseram que deveria ver, acompanha o texto publicitário da televisão que é ditado apenas pela exploração, e não diz respeito ao produto."

O Elogio do Amor é, antes de tudo, um filme em preto e branco como não se faz mais. E trata de algo sobre o amor, do amor por algo. O amor pela resistência, pela memória, pelo cinema, pela língua francesa, pela história... Edgar é Bruno Putzulu. E basta vê-lo, de frente ou de costas, em pé, em seu escritório, ou sentado, com a capa sobre os joelhos, ou ainda olhando pela janela, como se olha através do tempo, comunicando pela imobilidade e pelo silêncio, para compreender que, para Jean-Luc Godard, esse homem é "uma grande retidão, a honestidade e a probidade enquanto ator". "Tentou resistir e resistiu." Isso salta aos olhos.

O direito à memória

Edgar tem um projeto, é ele quem diz: "É algo sobre a história das três idades: há jovens, adultos e velhos. E esse ’algo’ é um dos momentos, um dos quatro momentos do amor." Música. "Isto é, o encontro, a paixão física, e depois a separação, e depois o reencontro... E você, você vai fazer o quê nessa história? E você?".

Trata-se da pequena e da grande história. Como passar da história à História? Edgar procura pessoas, faz perguntas, "talvez para um filme na tradição do documentário, mas quem conhece o sentido exato dessa palavra?... Ou talvez uma tese sobre os católicos na Resistência...". E o que é a Resistência? São os rochedos que a gente vê agüentarem o ataque das ondas, um barco que se chama "A França livre", as fotos do passado que a senhora Bayard fica olhando, o direito à memória. "Todo mundo fala do dever de memória", explica Godard, "mas parece-me que se deve falar de direito. Pelo menos é uma hipótese... O direito é ou uma divisão, ou uma multiplicação, do dever. Tem-se o dever de ser humano, tem-se o dever de comer... O direito é outra coisa, é a organização desse dever."

Como mecânica quântica

O Elogio do Amor é um filme em preto e branco como não se faz mais. E trata do amor pela resistência, pela memória, pelo cinema, pela história...

A memória são os lugares e os monumentos. Os da grande história — que O Elogio do Amor mostra no presente, com o peso do seu passado, seu valor comemorativo — e depois, os da pequena história — os bancos públicos onde os mendigos se deitam para dormir, onde outros se sentam para conversar, ou para ler, onde o tempo também passa. E, entre a grande e a pequena, ou melhor, ao lado de todas as histórias, há o cinema, um outro lugar da memória: lugar do tempo, da fidelidade e do desejo. O Elogio do Amor é um elogio ao tempo. Ele o deixa acontecer, o faz aparecer. É simples e evidente — como uma caneta que se mergulha num tinteiro e que se enche sob nossos olhos — e é complicado. "É como a mecânica quântica", explica Godard. "Pode-se saber a velocidade de um corpúsculo, mas não se sabe onde ele está. E quando se sabe onde ele está, não se sabe a sua velocidade. O cinema é ou deveria ser feito mais para cuidar disso, para fazer surgir. Filma-se no presente e projeta-se: está-se imediatamente no passado. Vê-se uma imagem e em seguida se repensa a respeito. Portanto, trata-se realmente da memória."

Estados Unidos em busca da história

Edgar tem um projeto, é ele quem diz: "É algo sobre a história das três idades. E esse ’algo’ é um dos momentos, um dos quatro momentos do amor"

Para saber, para criar, é preciso investigar. O Elogio do Amor é um filme policial, no qual Edgar seria o detetive. Para aprender, para conhecer, é preciso partir dos fatos. Isso é indispensável para o cinema "se não se quiser que um filme de ficção seja uma comédia norte-americana qualquer" — e para tudo. Para a economia, por exemplo: "Se quiser saber", prossegue Godard, "por que a economia do Japão vai mal atualmente, quando há dez anos nos disseram que era o modelo para o futuro, vá todas as manhãs, às oito horas, à esquina da Avenida George V com os Champs-Elysées: você verá os japoneses fazendo fila diante das lojas Vuitton. Para comprar o quê? Malas cor de merda!... É um mistério total! (risos)... Vendo essa imagem, e descrevendo-a, pode-se divagar sobre a economia japonesa, ou sobre a economia em geral..."

Antes de falar, é preciso começar por olhar, "senão acrescentam-se palavras a palavras", como dizia Péguy, "e acaba-se não tendo mais realidade". E o cineasta explica: "Em geral, não se vêem as coisas. Quanto a mim, tento vê-las. Não vejo de longe, sou míope, mas vejo de pertinho. Tento ver... O título inglês do último livro de James Ellroy é The Six Cold Thousand, ou seja, "Six mille dollars froids", e o título francês é American death trip. É isso aí. É a globalização..." Outro exemplo: os Estados Unidos. "Noto, simplesmente, que é um país cujos habitantes não têm nome. Americano — isso não quer dizer nada: os mexicanos ou os brasileiros também são americanos. E o Brasil também tem estados unidos; o Canadá também. Então, o que é que isso diz sobre eles, sobre sua história?... A minha hipótese é que não é, de fato, surpreendente que um país cujos habitantes não têm nome precise das histórias dos outros. Como nós, buscam a origem, mas como não têm uma longa história, têm que procurá-la entre os outros: no Vietnã, em Sarajevo...".

Um debate obsceno

"Todo mundo fala do dever de memória", explica Godard, "mas parece-me que se deve falar de direito. Pelo menos é uma hipótese..."

E justamente por falar em histórias: "Seria bom saber por quê as pessoas gostam de ver filmes norte-americanos", questiona Godard... "Talvez porque a gente seja que nem criança, que gosta de se empanturrar. Então, já que as pessoas gostam dos filmes norte-americanos, tudo bem. Mas, nesse caso, vamos até o fim, façamos o mesmo com os jornais. Que Le Figaro, Libération, Le Monde sejam escritos em inglês, já que é isso que querem. Vamos em frente, continuemos. E até que acabe Le Figaro! Que continue a pagar as pessoas, e que faça um contrato com o New York Times para publicar seus artigos em francês!"

Para quem afirma que "o verdadeiro imaginário deve passar pelo real", o cinema deve servir para isso, para ver, para pensar, e, depois, para dizer: "No debate quase obsceno que, há alguns anos, compara os mortos do gulag com os dos campos — quando bastaria ver que as três primeiras cartas de Lager são as três últimas do gulag — e onde só se discutem frases sobre frases, proponho tomar um filme soviético da grande época e um noticiário alemão: poderá ver-se, então, que os sorrisos dos jovens das brigadas na Rússia e na Alemanha eram diferentes. O sorriso russo era muito diferente do sorriso alemão. No caso das moças, isso aparece de forma incrível. Não é a mesma coisa. E com os mortos, é o mesmo. Fazendo isso, a gente faria um trabalho de campo, no campo do entendimento e da compreensão, e não se ficaria apenas no dizer."

Questionar a aparência da verdade

Entre a grande e a pequena história, há o cinema, um outro lugar da memória: lugar do tempo, da fidelidade e do desejo

Mas voltemos justamente ao terreno de O Elogio do Amor. A começar pelo título.

"O título de um filme", confia Godard, "é a nota inicial que indica algo. Os títulos não são apelidos: fala-se de títulos de propriedade, de obrigações..." Do amor, trata-se dele constantemente no filme. Do amor e de sua ausência, da formação do casal e de sua dificuldade, da coabitação. De todos os pares: presente-passado; preto e branco-cores; memória-amnésia; paz-guerra; documentário-ficção; alguma coisa-nada; plano-contra-plano, e... ação-reação, "o mais velho par da história". E depois, de homens e mulheres, evidentemente. O Elogio do Amor fala alguma coisa de todos os pares através do casal Bayard, de Tristão e Isolda, de Eglantine e Percival, de Edgar e... Edgar, que procura até num depósito da rede ferroviária uma moça que "tem olhos grandes" e que "tinha um discurso fantástico... Sobre o Estado e a impossibilidade de o Estado se apaixonar... ". O título do novo filme de Jean-Luc Godard não é apenas uma nota inicial; é o seu alcance e a sua chave.

Como na gare da rede ferroviária, uma imagem pode esconder outra, ou palavras podem esconder uma imagem, e vice-versa. A repetição incessante é indispensável à reflexão e, como sempre em Godard, é preciso ir e vir, estabelecer correspondências e comutações, ou seja, trabalhar um pouco, pelo menos, talvez porque "não se pode pensar em alguma coisa senão se pensa em outra coisa", como diz Edgar: "Você vê uma paisagem nova; é nova para você porque a compara em pensamento com uma outra paisagem, antiga, e que você conhece." Não é um cinema tranqüilo. O espectador deve preocupar-se juntamente com ele quanto ao sentido, ao lugar. Dos sentidos das palavras: resistência, distribuição, amor, título, memória... É um dos caminhos que propõe quem "trabalha no cinema, como se diz", para atravessar as aparências e questionar o que é apresentado como uma verdade.

"Emito idéias. E as pessoas pensam..."

Antes de falar, é preciso começar por olhar, "senão acrescentam-se palavras a palavras", como dizia Péguy, "e acaba-se não tendo mais realidade"

O Elogio do Amor é um filme sobre o lugar de cada um no espaço e no tempo, no plano e no contra-plano. "O plano-contra-plano é uma fotografia de alguém, depois outra de alguém que fala", provoca Godard. "Mas, na realidade, observando-se bem, ainda não houve, tecnicamente, o verdadeiro plano-contra-plano, só houve o início de algo que não dá certo, nunca existiram os contra-planos que deveriam ter existido, a visão ou a não-visão, a ausência, o inominável... E minha idéia é que, por essas coisas nunca terem existido, a conseqüência é que nada mudou. Alguma coisa não aconteceu... Quanto à televisão, na realidade, ela ignora completamente o contra-plano. Não mostra quem escuta. Há um plano, depois cortam — como dizem — e depois há outro, e esses planos não têm relação humana entre si. Em alguns momentos, não há mais relações entre os planos a tal ponto, que até a imagem pequenina da televisão ainda é subdividida, não se sabe por quê..." Em seguida, acrescenta: "Isso poderia ser discutido, se a discussão fosse possível, mas não dá mais. Não se pode mais batalhar, as pessoas não acompanham mais, e se irritam. Afirmam, mas não discutem."

Em O Elogio do Amor, como em muitos de seus outros filmes, Godard tenta ainda, entretanto, suscitar a discussão, e se recorre a Wittgenstein, Cioran, Matisse, Bresson, Monet, Simone Weil, Georges Bataille, Robert Walser e outros, é para fazer as idéias se ouvirem: "Introduzo essas palavras para conservá-las, para que levem a outras coisas. É um quadro sonoro que construo, o quadro é que tem um sentido... Emito idéias. A partir daí, as pessoas pensam e talvez um dia falem a respeito. Cabe a cada um verificar. Se não agrada que se fale do contra-plano azar deles..."

O sentido é o começo da história

"Em geral, não se vêem as coisas. Quanto a mim, tento vê-las. Não vejo de longe, sou míope, mas vejo de pertinho. Tento ver...", explica Godard

Após uma hora, passa-se do preto e branco ao colorido. E não a qualquer cor: à de uma câmera digital cujos tons lembram o fauvismo. O mar é vermelho, a praia é azul. As ondas em vermelhão sobre o mar fazem eco à Orquestra Vermelha. É a segunda parte do filme que começa: dois anos antes, na Bretanha, onde Edgar encontra Jean Lacouture, pois tenta "documentar-se sobre o essencial". E o que é que se passou dois anos antes?

Primeiro, aparece Edgar, sozinho, numa estrada azul ladeada por árvores amarelas e vermelhas; uma placa indica "Cuidado. Crianças": Edgar sai da infância, tenta tornar-se adulto. Para saber o resto, vai-se ao cinema.

E se descobrirá que O Elogio do Amor é um filme de amor, um filme policial, político, histórico, sociológico, uma busca incessante. Um olhar às vezes melancólico — "Todo o pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso"... — sobre fragmentos do nada, que nos mostra e nos faz escutar alguma coisa dos homens e do mundo, tais como são.

"As coisas ganham sentido quando acabam: porque é quando a história começa." Não a sua história, nem a minha, como diz Edgar. Aconteça o que acontecer: a nossa.
(Trad. Iraci D. Poleti)




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