Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Eles lutam por todos nós

» Paulo Guedes, o bravateiro velhaco

» Mídia: a descarada sabotagem a Bernie Sanders

» Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias

» Economia: o fantasma da crise externa

» Aos pobres, a xepa

» Por que o Brasil precisa de um Estado gastador

» A empregada de Guedes e a cozinheira de Lênin

» Esquerda e governo: ideias e lições históricas (2)

» Evo: Como reconstruir o Socialismo Comunitário

Rede Social


Edição francesa


» Les sondés ne veulent plus parler

» Apolitisme très politique des journaux municipaux

» La force molle de la social-démocratie

» L'enfance, une espèce en danger ?

» Progrès technologique et régression sociale

» La recolonisation du plus pauvre pays de l'hémisphère occidental

» Taïwan, ou l'indépendance dans le brouillard

» Sur les causes de la pauvreté des nations et des hommes dans le monde contemporain

» La criminalité en « col blanc », ou la continuation des affaires…

» Les manœuvres à l'intérieur du parti de M. McGovern diminuent les chances d'un candidat démocrate


Edição em inglês


» US ideologues in the ascendant?

» US ideologues in the ascendant?

» Rojava, a fragmented territory

» Australia's angriest summer

» February: the longer view

» African national parks managed by African Parks

» Genetic medicine makes the world less fair

» From apartheid to philanthropy

» Who is the land for?

» Belarus, the industrious state


Edição portuguesa


» Edição de Fevereiro de 2020

» O que Donald Trump permite…

» As marcas do frio

» Edição de Janeiro de 2020

» Embaraços externos

» De Santiago a Paris, os povos na rua

» Que prioridades para uma governação mais à esquerda?

» Edição de Dezembro de 2019

» Uma fractura social exposta

» «Uma chacina»


LIVROS

Camponeses do Brasil e o FMI

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Chega-se a suspeitar que Maurice Lemoine inventa vocábulos para melhor descrever os camponeses pobres, as mulheres médiuns, os grandes proprietários de terra e seus capangas, os pistoleiros, que povoam o seu romance

Ramón Chao - (01/05/2001)

O texto evolui em frases tranqüilas, com longas pausas, e um discurso cheio de imagens e invenções verbais: é o linguajar do povo pobre da Amazônia

O título — La dette (A dívida) — sugere um ensaio de economia, mas o autor o escreve como um romance. Também poderia ter igualmente usado a forma de uma notícia trágica na editoria de polícia, já que a realidade e a ficção se emaranham ao longo do texto. Do realismo mais direto, Maurice Lemoine passa às mais sutis transformações fantasmagóricas.

A qualidade do texto ajuda, sem dúvida a separar dois níveis. Num deles, o ritmo é lento, como nas grandes narrativas. Começando pelo modo de falar das pessoas. Uma linguagem que evolui em frases tranqüilas, com longas pausas, e um discurso cheio de imagens e de invenções verbais inesperadas. É desse linguajar do povo pobre da Amazônia que Maurice Lemoine se apoderou, como de uma matéria bruta, uma espécie de argila petrificada, para criar uma obra literária. Ao regionalismo da Amazônia ele acrescenta termos em português, em espanhol e em outras línguas. E, como se isso não bastasse, chega-se a ter a suspeita de que ele inventa vocábulos, quebrando deliberadamente o fluir de uma frase para melhor descrever os camponeses pobres, as mulheres médiuns, os grandes proprietários de terra e seus capangas, os pistoleiros, que povoam o seu romance.

Resistindo à expropriação

A outra faceta do romance é o fundo épico que percorre o seu discurso através da visão que proporciona a literatura de cordel

À medida que vai formigando uma multidão de personagens, variadas tonalidades vão interferindo, diversos gêneros narrativos que se diria serem incompatíveis de poderem coexistir. E encontramos a outra faceta de seu texto: o fundo épico percorre o seu discurso através da visão que proporciona a literatura de cordel, os pequenos folhetos mimeografados, amarrados por um barbante, que se vendiam nas feiras livres do interior do país. Resumindo: Maurice Lemoine revela-se um autêntico contador de histórias.

Estamos no coração da Amazônia, no Norte do Brasil. Um narrador (Rapaz) lembra acontecimentos que ali ocorreram, tornando-se a voz coletiva da aldeia. Os moradores de Riacho dos Mendigos tentam resistir a uma expropriação — ilegal, como não param de repetir: pois a lei garante que, mesmo sem um título de propriedade, uma vez que um pedaço de terra tenha sido ocupado e cultivado durante um ano e um dia, os camponeses se tornam posseiros. E eles já ali se encontravam há mais de cinco anos — haviam chegado montando mulas, através da floresta aberta por uma estrada de mais de dois mil quilômetros que atravessa o inferno verde.

Uma narrativa social e política

Com o apoio de jagunços e da polícia militar, os grandes proprietários decidem expulsar as famílias camponesas, queimando suas casas e suas plantações

Com o apoio de jagunços e da polícia militar, os grandes proprietários decidem expulsar pela violência essas famílias camponesas, queimando suas casas e suas plantações, envenenando suas colheitas de cereais e mandando-as para a cadeia, ou assassinando-as. E por trás disso... Quem seria esse misterioso senhor F. Emmy que, num dia nefasto, emprestou sem hesitação ao "coronel" cem mil dólares para desenvolver a aldeia?

O que interessa Maurice Lemoine não é apenas a narrativa propriamente dita — por mais trágica que ela seja —, mas o contexto social e político no qual ela se insere. Dois textos breves, no final do livro, traçam o quadro em que se encontra o campesinato brasileiro e a dívida dos países da América Latina. Além deles, uma bibliografia dos livros que abordam essas questões.

La dette (roman de la paysannerie brésilienne), de Maurice Lemoine, ed. L’Atalante, coleção "Comme un accordéon", Nantes, 2001.
(Trad. Jô Amado)




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos