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O desastroso Goncourt 2000

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O livro Ingrid Caven, prêmio Goncourt 2000, é um poço de erros, desinformações e imprecisões. Ousaram propor ao leitor um texto que mais parece um rascunho, ou uma prova escolar não corrigida

Lothar Baier - (01/08/2001)

Segundo o premiado autor, a heroína, Ingrid Caven, falava com o “sotaque” do Althochdeutsch, língua falada por volta do ano 1.000, na Alemanha

Ler um livro, e mais ainda em se tratando de uma obra literária, tornou-se um ato cívico fantástico, comparável, por exemplo, a salvar uma espécie ameaçada de extinção. Numa demonstração de reconhecimento jamais vista, os leitores passaram a ser calorosamente recebidos nos salões do livro – que vêm se multiplicando por toda parte – e ovacionados como mensageiros da vivacidade do mundo do espírito, resistentes heróicos diante da frota invasora das imagens eletrônicas... E, entretanto, seria o caso de nos perguntarmos se os tão celebrados leitores são, de fato, levados a sério. Especialmente pelos editores. Estes muitas vezes produzem o “nobre objeto livro” com a mesma displicência, a mesma falta de cuidado com que se monta, às pressas, uma página eletrônica.

Algumas pérolas de imprecisão

A editora Gallimard deveria ter exigido um trabalho mais profissional e uma releitura mais competente dos originais antes da publicação

Tomemos o exemplo do livro, vendido às centenas de milhares de exemplares, que ganhou o prêmio Goncourt 2000, na França: o “romance autobiográfico” Ingrid Caven, de Jean-Jacques Schuhl. Publicado pela prestigiosa editora Gallimard (e não por qualquer editora de fundo de quintal), o livro é um poço de erros, desinformações e imprecisões. Ousaram propor ao leitor um texto que mais parece um rascunho, ou uma prova escolar não corrigida. Entre as dezenas de erros, eis aqui algumas pérolas: a famosa rua das boates noturnas de Hamburgo, a Reeperbahn, é chamada no livro de “Ripperbahn”, como se ela tivesse algum vínculo com Jack-the-Ripper (Jack, o estripador)... Os 850 quilômetros que separam Paris de Munique tornaram-se 1.500... Em outra passagem, é permitido ao autor dizer que 8 milhões de judeus foram exterminados pelos nazistas, quando o número a que faz normalmente alusão Raul Hilberg, o grande historiador do genocídio, é de 6 milhões... Rudi Dutschke, o líder do movimento estudantil alemão que foi gravemente ferido, à bala, em abril de 1968, surge fantasiado com o nome imaginário de “Rudy, o vermelho”... O grupo político palestino que desviou um avião da Lufthansa em outubro de 1977, em Mogadíscio, é curiosamente chamado “Os Baader”, quando o verdadeiro Andreas Baader, um dos fundadores da Fração do Exército Vermelho, estava, nessa ocasião, preso em Stuttgart-Stammheim e foi encontrado morto, em sua célula, no dia seguinte à tentativa fracassada de desviar o avião...

Um papel ridículo

E é bom ressaltar que a crítica fez um elogio rasgado, chegando ao panegírico – “obra-prima de liberdade e alegria”, escreveu Bernard-Henri Lévy

Como a heroína do romance, Ingrid Caven, é alemã, o autor cita com freqüência frases ou versos em alemão, mas com uma imprecisão que beira o ridículo. O verbo ekeln, provar/degustar, por exemplo, transforma-se em eckeln. Referindo-se a Ingrid Caven, diz que ela “começa uma frase com um sotaque althochdeutsch” – e como seria possível, nos dias de hoje, saber como era o “sotaque” do Althochdeutsch, língua falada por volta do ano 1.000, na Alemanha, e metamorfoseada várias vezes desde então? E por aí vai.

Ninguém exige de Jean-Jacques Schuhl que tenha um conhecimento profundo da língua, da cultura ou da história alemãs. Mas a editora Gallimard deveria ter exigido de seu conselho editorial um trabalho mais profissional e uma releitura mais competente dos originais antes da publicação. Isso teria evitado ao autor o ridículo, em alguns momentos. Mas nada foi feito. E é bom ressaltar que a crítica fez um elogio rasgado, chegando, em geral, ao panegírico – “obra-prima de liberdade e alegria”, escreveu Bernard-Henri Lévy. Também ela não soube cumprir o seu papel, deixando passar em branco as inúmeras fragilidades fatuais e textuais que poluem este prêmio Goncourt. Há diversas formas de arruinar o livro e a leitura: uma delas é a divulgação de trabalhos tão mal editados. (Trad.: Jô Amado)

Referência Ingrid Caven, de Jean-Jacques Schuhl, ed. Gallinard, Paris, 2000.




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