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Os mennonitas e o futuro

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Em meio à tristeza desértica do Chaco, a cidadezinha de Filadélfia (7 mil habitantes), com suas ruas e avenidas geometricamente desenhadas, suas casas elegantes, seu ciber-café e seus restaurantes, parece saída do Meio-Oeste norte-americano

Bernard Cassen - (01/08/2001)

Alguns cônsules paraguaios, particularmente o de Miami, emitem falsos vistos para cidadãos nacionais residentes em outros países...

Uma sonora gargalhada assolou as redações de jornal, rádio e televisão paraguaias quando, no final de junho, os jornalistas souberam do último boletim do Índice Anual de Percepções da Corrupção1 divulgado pela Transparency International (TI): seu país não constava da lista! É lógico que a lista não é exaustiva, pois só abrange 91 países, mas seria o Paraguai menos importante que a Moldávia, o Panamá ou Honduras – todos eles devidamente homenageados? Se fosse o caso de falta de recursos, bastaria à TI consultar os jornais de Assunção que, diariamente, dedicam suas primeiras páginas, e várias outras nas páginas das editorias, à “percepção da corrupção”. Eis aqui alguns exemplos, entre dezenas de outros, extraídos da imprensa durante o mês de julho de 2001.

Um ex-ministro das Finanças afirma que “somente 30% da receita fiscal” chega, de fato, aos cofres do Estado. Assinantes da telefônica constatam que suas contas foram presenteadas com os custos de longas comunicações internacionais... que nunca fizeram! Alguns cônsules paraguaios, particularmente o de Miami, emitem falsos vistos para cidadãos nacionais residentes em outros países... Alunas do Colégio Nacional – um dos mais requintados do país – recusam-se a receber seus diplomas das mãos do presidente da República, Luis Gonzalez Macchi, cujos assessores mais próximos são suspeitos de envolvimento em inúmeros negócios obscuros – por exemplo, um desvio de 16 milhões de dólares! – e cujo carro pessoal consta da lista de carros roubados! “Um convidado de honra deve ser honrado”, explica a representante das alunas do colégio, “e o presidente da República não atende a esse requisito.” Assim como não atendem o vice-presidente, Julio Cesar Franco, e a quase totalidade dos outros membros da classe política.

“Inepto”, “incapaz” e “corrupto”

Essa maré de corrupção e de dinheiro sujo do narcotráfico, da fraude e do contrabando em que se debatem dirigentes políticos e muitos funcionários do alto escalão administrativo e econômico é o triste balanço do período de 12 anos de “volta à democracia” após a destituição, em fevereiro de 1989, do ditador Alfredo Stroessner, “presidente” desde 1954 e vivendo até hoje – embora seriamente doente – num exílio dourado, no Brasil. É verdade que a liberdade de imprensa, de expressão, de associação etc. foram restauradas e a Constituição, reformada em 1992. Mas uma oligarquia – o termo “máfia” talvez fosse mais adequado – substituiu parcialmente outra, as desigualdades apenas aumentaram e os presidentes que se sucederam limitaram-se a encobrir, e até organizar, a pilhagem do patrimônio público por seus assessores, por seus amigos, e mesmo por seus inimigos políticos.

As alunas do Colégio Nacional – um dos mais requintados do país – recusaram-se a receber seus diplomas das mãos do presidente da República

O descrédito dos partidos, das instituições e de quem os representa é total, mas a população continua impregnada pela cultura de resignação desiludida, fruto de 35 anos de ditadura e isolamento cultural>2 . Se um dia vier a existir uma operação “mãos limpas”, isso virá das gerações jovens, que por ocasião do “março paraguaio” de 1999 – que se seguiu ao assassinato do vice-presidente Luis Maria Argana – se mobilizaram contra o presidente Raul Cubas, cúmplice do general golpista Lino Cesar Oviedo, possível mandante do crime. A repressão desencadeada pelo governo e pelos comandos para-militares do general Oviedo contra os manifestantes reunidos na Praça da Constituição provocou sete mortos e 769 feridos. Para evitar sua destituição, Cubas, assim como o general Oviedo, refugiou-se no Brasil. De acordo com a Constituição, o presidente do Congresso, senador Luis Antonio Macchi, foi empossado presidente da República em 28 de março de 1999. Após dois anos, na imprensa, nas conversas de rua e mesmo entre boa parte de seus “amigos” do Partido Colorado, ele é tratado – pelas pessoas compreensivas – de “inepto”, “incapaz” e “corrupto”. Por apenas um voto, conseguiu evitar, no início de julho, um processo que levaria à sua destituição pela Câmara dos Deputados... Isso, entretanto, foi apenas um capítulo de uma novela que já passou a ser o dia-a-dia do microcosmo dos meios jornalísticos, políticos e diplomáticos de Assunção.

A dimensão mítica do Chaco

A maré de corrupção, de dinheiro sujo, é o triste balanço do período de 12 anos de “volta à democracia” após a destituição do ditador Alfredo Stroessner

A zona metropolitana, superdimensionada – 1,5 milhão dos cerca de 6 milhões de habitantes do país – não reflete a totalidade do Paraguai. No entanto, se sua parte oriental, entre os rios Paraguai e Paraná, está mais ou menos integrada a uma visão e dinâmica nacionais, a parte ocidental, o Chaco (que ocupa 247 mil dos 406 mil quilômetros quadrados do território nacional), habitado, durante muito tempo, exclusivamente por algumas tribos indígenas, corresponde a um buraco negro na idéia que os paraguaios fazem de seu próprio país. Mostrar interesse pelo Chaco parece quase exótico: “Ah, você vai ao Chaco ver os mennonitas?” É uma viagem que vale a pena. Chega-se a pensar que é dali que pode surgir, em parte, o futuro do Paraguai.

O Chaco? No imaginário paraguaio é um deserto sem vida>3 , que por isso provoca o fascínio; uma maldição da natureza onde as plantas são cobertas de espinhos que perfuram a roupa e os sapatos; uma região onde se alternam um frio gélido e um calor insuportável, a seca e as inundações, cheia de insetos e cobras. Antes de tudo, é a água doce, raríssima, que é o principal referencial do Chaco: foi em torno de seu domínio que se elaboraram as estratégias da colonização e da conquista, antes de se conhecerem as técnicas australianas de armazenagem das águas da chuva. A guerra do Chaco, com a Bolívia (1932-1935), por exemplo, desenvolveu-se, em parte, em torno da capacidade logística de armazenamento e transporte de água potável para as tropas. A aviação boliviana não só metralhava e bombardeava as tropas adversárias, como lançava, em pára-quedas, barras de gelo para seus oficiais sitiados. Em seu romance Filho do homem, o escritor Augusto Roa Bastos descreve de maneira alucinante a agonia dos soldados morrendo de sede – a morte branca – por ocasião da tomada do forte Boquerón pelos paraguaios, à espera de um caminhão-cisterna que não virá>4 . A batalha de Boquerón (29 de setembro de 1932)>5 prenunciava a vitória final paraguaia e faz parte da memória patriótica do país, ressaltando a dimensão mítica do Chaco.

A alternativa Paraguai

Os presidentes que se sucederam limitaram-se a encobrir, e até organizar, a pilhagem do patrimônio público por amigos, e mesmo inimigos políticos

Mas, por que diabos de motivo é que um país católico, como o Paraguai, acolheu na década de 20 neste deserto, e depois em outras regiões de seu território, colonos descendentes de uma dissidência protestante holandesa e suíça com quatro séculos de existência, e vítimas constantes de perseguições?

Em 1920, por ocasião de uma viagem de navio de Nova York para Assunção, o então presidente paraguaio, Manuel Gondra, conheceu um homem de negócios e latifundiário norte-americano, Samuel McRoberts, ex-militar, que procurava terras para um cliente seu, o Comitê Central Mennonita (MCC). Instalados em Acron, na Pensilvânia, os mennonitas procuravam uma solução para o problema que enfrentava uma parte de sua congregação (cerca de 6 mil, de um total de 18 mil), instalada no Canadá havia 40 anos. Os mennonitas não aceitavam que as autoridades impusessem a seus filhos o mesmo currículo escolar que impunham aos filhos de todos os outros imigrantes – especialmente o aprendizado da língua inglesa. A questão do idioma era, de fato, e continua sendo fundamental para os adeptos de Menno Simons em todo o mundo, exceto nos Estados Unidos: o alemão é sua língua básica e de ensino, e um dialeto do alemão, o plattdeutsch, é adotado entre os membros da comunidade. Ao tomar conhecimento de que a Argentina – ao contrário do México, que acolheu cerca de 4 mil mennonitas – não os receberia por eles se recusarem a usar armas, Gondra pensou: e por que não o Paraguai?

Privilégios sem precedentes

Para evitar sua destituição, o presidente Raul Cubas, assim como o general golpista Lino Oviedo, suspeito de um crime, refugiou-se no Brasil

O país encontrava-se, na verdade, exaurido pela chamada guerra da Tríplice Aliança (1865-1870), em que enfrentara a Argentina, o Brasil e o Uruguai: dos 300 mil sobreviventes, havia um homem para cada 28 mulheres! Uma injeção de sangue novo constituía uma oportunidade, e mesmo uma necessidade, para uma nação que, na época, era chamada de “homens sem terras e terras sem homens”. Além do que os mennonitas sempre haviam tido a reputação de serem excelentes agricultores, de trabalharem duro e de serem disciplinados – porque irmanados por uma fé profunda baseada na autoridade exclusiva da bíblia. O povoamento do Chaco, cobiçado pela Bolívia, também atendia a um objetivo geoestratégico. (Aliás, foi a instalação dos colonos nesse território, assim como a hipótese – desmentida – da presença de petróleo na região, que levou a Bolívia a iniciar as hostilidades contra o Paraguai em 1932.)

Em julho de 1921, o Congresso votou a Lei 514, que concedia privilégios sem precedentes aos futuros colonos, entre os quais a isenção de prestar juramento à bandeira e o serviço militar, o uso, sem restrições, da língua alemã no sistema escolar, o direito a ter o seu próprio sistema administrativo nas áreas de educação, saúde e prevenção social, um período de 10 anos de isenção fiscal etc. Havia quem dissesse que era “um Estado dentro do Estado”, esquecendo que no Chaco jamais existira um Estado...

Memória do sofrimento

O Chaco (que ocupa 247 mil dos 406 mil km2 do Paraguai), foi habitado, durante muito tempo, exclusivamente por algumas tribos indígenas

Estavam, pois, reunidas as condições para as três grandes ondas de imigração para o Chaco e, posteriormente, para a região oriental do país6 , coordenadas pelo MCC: a primeira, originária da província canadense de Manitoba, que fundou a colônia Menno em 1926-27; depois, a das vítimas das perseguições stalinistas, originária da Ucrânia e da região do rio Amur, que, depois de passar pela Alemanha e ter buscado refúgio na China, chegou em 1930, criando a colônia Fernheim; e, finalmente, a dos refugiados da Rússia, que, após terem seguido as tropas alemãs em sua retirada, terem sido capturados pelo Exército vermelho e terem sido prisioneiros de guerra, conseguiram chegar, em 1947, e criaram a colônia Neuland.

Os trajetos, muito diferentes, ainda estão vivos na memória dos descendentes. Gundolf Niebuh, diretor do pequeno museu de Filadélfia – centro administrativo da colônia de Fernheim e prefeitura da nova província de Boquerón – mostra um quadro, pintado em estilo primitivista por seu pai, que relembra as etapas do seu itinerário: o rio Amur, na Rússia, Harbin, na China, Xangai, o canal de Suez, Marselha, o porto de Havre, Buenos Aires e Assunção. Foi nessa capital que começaram as dificuldades...

Mansões e jardins floridos

Para os paraguaios, o Chaco é um deserto sem vida, uma maldição da natureza, uma região de frio gélido e calor insuportável, cheia de insetos e cobras

O percurso dos cerca de 470 quilômetros que separam Assunção de Filadélfia pela chamada estrada do TransChaco, construída entre 1957 e 1964, exige uma boa dose de prudência ao volante, devido aos inúmeros buracos e crateras na pista, que podem desestabilizar o carro a qualquer momento. Mas é uma estrada magnífica (um dia de viagem, ao invés de uma semana), comparada ao que enfrentaram os colonos para se estabelecerem: subir o rio Paraguai até Puerto Casado, depois um trem de bitola estreita até o quilômetro 141, e depois mergulhar no “inferno verde” em charretes atreladas a bois (leia, nesta edição, “Rumo ao inferno verde”). A viagem, não deixa de ser instrutiva: uma imensa planície, que já foi coberta de florestas, mas que o corte e o desmatamento inconseqüente transformaram em uma espécie de savana; alguns vilarejos e povoados grudados em torno de um posto de gasolina ou de uma lanchonete; as paradas obrigatórias para os motoristas dos caminhões-frigoríficos que transportam hortigranjeiros, assim como para os imensos caminhões abertos que levam gado para abate na capital e que vêm vazios em sentido contrário. Aqui e ali, alguns acampamentos miseráveis de indígenas: uma barraca, às vezes várias, cujas cores vivas chamam a atenção de longe, alguns objetos de artesanato, ou frangos, pendurados em fios estendidos à margem da estrada, tentando atrair os raros motoristas.

Depois, a partir da bifurcação da TransChaco no sentido de Filadélfia, “sente-se” a mudança, com acostamentos maiores e perfeitamente construídos, manadas de gado mais numerosas, cercas bem cuidadas, cartazes publicitários: estamos entrando na colônia mennonita de Fernheim. A cidadezinha (7 mil habitantes), com suas ruas e avenidas geometricamente desenhadas, suas casas elegantes, seu ciber-café e seus restaurantes, parece saída do Meio-Oeste norte-americano. Quem esperar por uma “marca” mennonita chamativa poderá ficar decepcionado. Isso será ainda mais marcante em Neu Halbstadt, o centro administrativo da colônia de Neuland: as casas – em alguns casos, quase mansões – são mais amplas, envoltas em jardins floridos, e o principal edifício da cidade mais parece a sede de um grande banco.

Simplesmente “germano-paraguaios”

A guerra do Chaco, com a Bolívia (1932-1935), desenvolveu-se, em parte, em torno da capacidade logística de armazenamento e transporte de água potável

Na realidade, existem no Paraguai mennonitas e mennonitas. Nas províncias da região oriental, por exemplo, os membros das 14 colônias vivem suas vidas de maneira muito distinta – da mais aberta à mais rigidamente tradicionalista (não aceitando eletricidade ou qualquer tipo de motor); já no Chaco, as três colônias – e especialmente as de Fernheim e Neuland – estão, decididamente, no século XXI. Em outras palavras, nada distingue, em termos de vestimenta ou de comportamento, um mennonita de um paraguaio – exceto pela cor da pele dos mennonitas, muito mais clara, dos olhos, muitas vezes azuis, dos cabelos, louros, e pela estatura, superior à da média. O que é o suficiente para os identificar...

Inicialmente lavradores, os colonos voltaram-se rapidamente para a criação extensiva de gado e depois para o setor terciário, o que também é o caso, de forma evidente, de todos os que vivem em Assunção (cerca de mil). No entanto, nem todos são mennonitas, no sentido estrito da palavra: além dos que não foram batizados (cerca de 30%), apesar de crentes, há os que não são praticantes ou não pertencem a qualquer igreja (numa proporção difícil de calcular, mas possivelmente ainda muito baixa) e se definem simplesmente como germano-paraguaios. Todos os dirigentes entrevistados nas colônias do Chaco insistem em deixar clara a dissociação entre três categorias – a da fé, a de etnia e a de comunidade – que não se confundem, entre eles, há várias décadas. Antes eram crentes, de origem germânica e membros de uma cooperativa; mas atualmente, para falar em linguagem corrente, um “indígena” pode ser batizado e membro de uma igreja mennonita, um “latino-paraguaio” pode ser batizado e membro de uma cooperativa, e um “germano-paraguaio” pode não ser uma coisa nem outra.

Ambições políticas?

O Paraguai encontrava-se exaurido pela guerra da Tríplice Aliança: dos 300 mil sobreviventes, havia um homem para cada 28 mulheres!

Peter Siemens, por exemplo, que, na condição de presidente da cooperativa, controla o maior supermercado de Neu Halbstadt, também é pessoalmente proprietário de um estabelecimento do mesmo tipo, a apenas alguns metros de distância. Persuadido por seus amigos dos riscos de conflito de interesses que poderiam surgir, ele acabou confiando a administração de sua loja a uma outra pessoa durante a vigência de seu mandato... Denis Rahn, um jovem que é proprietário de uma emissora de rádio FM e tenta ocupar algum espaço da ZP 30, a rádio oficial da colônia de Neuland (e, portanto, contando com amplos recursos), se insurge contra o dumping publicitário de sua concorrente e “contra o fanatismo dos colonos, que a defendem e tornam a [sua] vida difícil”. Mennonita fervoroso, Rahn nada tem de subversivo. Sua programação musical é bastante ortodoxa (basicamente, country e música pop alemã, um pouco de música paraguaia e nada de rock) e ele não corre riscos de repreensão: “Faço pouca coisa ao vivo para evitar opiniões intempestivas”, explica.

Para os paraguaios, os mennonitas, embora pouco ou quase nada conhecidos, passam por uma potência econômica baseada no profissionalismo, no rigor administrativo e numa honestidade que não são moeda corrente. Porém, na capital, os que se interessam por eles – e são bem poucos – tendem a colocar-lhes questões constrangedoras com relação aos problemas que enfrentam, tais como seu relacionamento com os indígenas, a solidez de seu modelo social, assim como suas presumíveis ambições políticas.

Católicos criticam “concorrentes”

Houve três grandes ondas de imigração mennonita para o Chaco: a primeira, do Canadá; depois, da Ucrânia e, finalmente, a dos refugiados da Rússia

Quando os primeiros colonos chegaram ao Chaco, não sabiam que ali encontrariam povos primitivos vivendo da caça e se alimentando de frutos silvestres, em sua maioria índios Enlhet (também chamados Lengua) e Nivaclé. O primeiro contato que tiveram foi pacífico – os mennonitas são não-violentos – e nunca ocorreram incidentes sérios entre suas comunidades. Bastante rapidamente, os colonos compreenderam que a possibilidade de segurança a longo prazo com seus vizinhos residia na integração, o que pressupunha seu sedentarismo, sua transformação em lavradores e assalariados, e até a incorporação à sua fé (indígenas são batizados desde 1946). Além disso, precisavam de mão-de-obra barata, pois eram poucos. Em grande parte, essa operação deu certo, com aspectos positivos e negativos. Os aspectos positivos são evidentes: nas cooperativas, nos ambulatórios, nas escolas, nas emissoras de rádio encontram-se indígenas ocupando cargos qualificados ou semi-qualificados e se beneficiando de dispositivos de proteção social. Praticamente todas as crianças são escolarizadas, o que não ocorre em outras regiões. A presença dos mennonitas, aliás, atraiu para o Chaco etnias que ali não viviam.

Mas há o reverso da medalha, constantemente ressaltado pelos indigenistas: durante um longo tempo, a exploração dessa mão-de-obra era remunerada na forma de cupons somente nas cooperativas; e, além disso, a discriminação racial. Atualmente, a crítica dirige-se mais à guetoização de alguns acampamentos, à prostituição que aí existe e, principalmente, à perda de identidade dos indígenas que se submetem ao paternalismo mennonita. A Igreja católica apóia essas críticas, embora seja fácil compreender que seus motivos não são apenas sociais: não vê de bons olhos o proselitismo de seus “concorrentes” e tenta contra-atacar, principalmente através da criação de uma potente emissora de rádio FM católica dirigida pelos três bispos do Chaco: a Rádio Pa’i Puku, que pretende contrapor-se à ZP 30...

Uma administração transparente

A viagem é instrutiva: uma imensa planície, outrora coberta de florestas, que o corte e o desmatamento inconseqüente transformaram em uma savana

Qual seria o motivo da coesão dos mennonitas: sua origem étnica, sua fé ou seu poder econômico? E como preservar, ou aumentar, este último, quando, num país de seis milhões de habitantes, eles não passam de 30 mil – e, além disso, vivendo, em grande parte, em comunidades relativamente isoladas? E esse número inexpressivo aponta outro perigo: a consangüinidade e suas conseqüências, principalmente em termos de doenças mentais. Os mennonitas têm o melhor hospital psiquiátrico, o que não é obra do acaso. Por outro lado, os descendentes dos colonos não vivem necessariamente seu dia-a-dia em respeito às professadas virtudes da carne: existem inúmeros indígenas de olhos azuis – embora não sejam permitidos casamentos mistos – e já surgiram casos de Aids.

Será que um dia o presidente paraguaio será mennonita? Essa questão deixou de ser absurda. O governador da província de Boquerón é um deles, Orlando Penner, ex-campeão de motociclismo e ás do volante (fez o trajeto Filadélfia-Assunção, pela estrada do TransChaco, a uma velocidade média de 150 quilômetros à hora...). Filiado ao partido Encuentro Nacional, criado em 1992, e de um dinamismo a toda prova, Penner deu início a um governo totalmente transparente com os escassos recursos de que dispõe – os subsídios do Estado levam meses para chegar e só chegam parcialmente – e que não deixa de ter uma certa semelhança com o orçamento participativo de Porto Alegre, que ele disse desconhecer. Vista de Assunção, essa iniciativa pode parecer insólita à classe política, mas há quem veja nela uma esperança para o futuro... (Trad.: Jô Amado)




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