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RELIGIÃO

A guerra da sucessão no Vaticano

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O Concílio extraordinário que se reuniu em maio na cidade do Vaticano marcou a abertura da discussão sobre a sucessão de João Paulo II. Na realidade, o encontro tinha por objetivo mais a apresentação de programas do que uma competição entre candidatos

Giancarlo Zizola - (01/08/2001)

No colégio de cardeais, aumentou o espaço ocupado pela chamada “Terceira Igreja”: de dois cardeais não-europeus, em 1903, passou-se para os atuais 60

O colégio de cardeais passou, no dia 21 de fevereiro de 2001, por uma reorganização definitiva, com a nomeação de 44 novos cardeais. O fortalecimento da representação romana, com dez cardeais, e o salto quantitativo dos latino-americanos, com 11 novos barretes, refletem a ambivalência do pontificado, entre romanidade e mundialismo. O Sagrado Colégio passou a contar com 185 membros – recorde histórico –, entre os quais 135, com idade até 80 anos, podem votar. O papa não se deixou enganar por sua lei eleitoral, que prevê, no máximo, 120 eleitores: fez suas contas e deduziu que o mecanismo de limite de idade terá deixado fora do páreo pelo menos 15 cardeais, daqui até a data da eleição, restabelecendo assim o teto eleitoral canônico e poupando o Retiro de Santa Marta, residência dos eleitores, de problemas de superpopulação.

No colégio de cardeais, quase já inteiramente nomeado por João Paulo II, nota-se que não só se desenvolveu a tendência internacionalista dos concílios de João XXIII e Paulo VI, mas também aumentou o espaço ocupado pela chamada “Terceira Igreja”: de dois cardeais não-europeus (entre 62), em 1903, passou-se para 23 (com João XXIII), e para 57 (com Paulo VI). Após a última fornada de João Paulo II, o corpo eleitoral se repartiu da seguinte maneira: 65 cardeais europeus (48%), 16 norte-americanos, 24 latino-americanos, 13 africanos, 13 asiáticos e 4 da Oceania.

Disciplina e pressão

Abriu-se caminho para a possível ascensão de um papa que, não apenas virá de fora das fronteiras italianas, como também das fronteiras européias

Considerando esses números, a “Terceira Igreja” passou a contar com 54 cardeais eleitores, o que representa 40% do colégio. O inverso ocorreu com a representação italiana, que também sofreu o revés do primeiro papa não-italiano1 em quase 500 anos: 24 cardeais eleitores são italianos, ou seja, 17,8%, quando no início do atual pontificado, em 1978, eram 25%, e 61% no início do século XX. Isso provavelmente significa um golpe definitivo na hegemonia italiana, abrindo caminho para a possível ascensão de um papa que, não apenas virá de fora das fronteiras italianas, como também das fronteiras européias.

O critério geopolítico perdeu seu valor absoluto na designação do sucessor ao trono de Pedro. A escolha do novo chefe espiritual de aproximadamente 1,18 bilhão de católicos deixa de considerar a nacionalidade uma questão determinante. No interior da própria cúria romana não existe uma homogeneidade de pontos de vista, o que exige uma disciplina de grupo e o voto do conclave, ou que pressione o grupo de 40 eleitores da cúria para que, como se fora um pacote uniforme de votos, possa influenciar, no momento certo, o peso da balança.

Poliglota, pianista e compositor

A escolha do novo chefe espiritual de aproximadamente 1,18 bilhão de católicos deixa de considerar a nacionalidade uma questão determinante

Por outro lado, agora tornou-se possível falar de uma eventual solidariedade transversal entre grupos nacionais, romanos e continentais, sobre questões cruciais ligadas ao futuro da Igreja. Considerando as conseqüências secundárias da ruptura com a tradição de um papado italiano, é preciso abandonar os prognósticos nominais clássicos – que jamais se revelaram exatos –, substituindo-os por uma análise dos problemas que estão na ordem do dia e das orientações dos eleitores.

Os reformadores defendem um programa de mudanças: modificação do Sínodo dos bispos, mudanças no interior da Cúria, descentralização em favor das igrejas locais e novas modalidades do exercício da supremacia do Vaticano. O projeto inclui a convocação de um novo Concílio Ecumênico e, principalmente, um desenvolvimento prudente do diálogo inter-religioso e na divulgação do Evangelho nos “novos mundos”. Os partidários da reforma gostariam de associar esse projeto à força simbólica de um papa latino-americano e elevar ao trono de Pedro um homem capaz de representar a alternativa espiritual da Igreja dos pobres à dominação mundial do dinheiro.

Os reformadores defendem um programa de mudanças no Sínodo dos bispos, na Cúria, a descentralização em favor de igrejas locais e no pontificado

A figura que surge nesse cenário é o arcebispo de Tegucigalpa (Honduras), Oscar Andrès Rodríguez Maradiaga (nascido em 1942). Um salesiano com um vasto currículo de qualidades e fala cinco línguas: pianista e compositor, diplomado em psicoterapia em Innsbruck, doutor em Teologia Moral e em Filosofia, professor de Física, Matemática, Ciências Naturais e Química, reitor do Instituto de Filosofia salesiano, bispo auxiliar de Tegucigalpa com apenas 36 anos, antes de se tornar arcebispo, em 1993. Secretário-geral e depois presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), ele ganhou a estima geral, principalmente por seu espírito conciliador, dos adeptos da teologia da libertação2 . Em Roma, tornou-se conhecido como membro do Conselho Cor Unum e do Conselho Justiça e Paz. Eleito pelo Sínodo dos bispos para o secretariado-geral (1994-2001), foi secretário do Sínodo para a América, encarregado da elaboração do documento pós-Sínodo Ecclesia in America – diagnóstico crítico da doutrina neoliberal e programa para a Igreja no hemisfério. Se, de sua pequena Honduras, fosse chamado para a Santa Sé, pode-se ter certeza de que ele faria desse texto uma declaração de princípios de ação da igreja, não só no continente americano, mas também no contexto do conflito crescente entre o Império global e a massa dos excluídos.

O homem de confiança do papa

Seu principal candidato é o arcebispo de Tegucigalpa, Oscar Rodríguez Maradiaga, redator de Ecclesia in America – diagnóstico crítico do neoliberalismo

O principal argumento que pesa em favor de um candidato latino-americano é o valor simbólico desse primeiro salto transatlântico do papado, considerando o reconhecimento de uma comunidade cristã que representa mais da metade dos católicos. Na mesma linha, é possível prever uma eventual candidatura africana, por exemplo a do cardeal nigeriano Francis Arinze, pioneiro da divulgação da mensagem evangélica na África e presidente do Conselho Pontifical para o diálogo inter-religioso.

No campo reformador, ainda não se chegou a um acordo estratégico preciso. A solução latino-americana é considerada prematura pelos que pensam que a prioridade deve ser diminuir o fosso entre a utopia de João Paulo II e o sistema central, concentrando esforços sobre uma séria retomada do aparelho governamental.

O nome sugerido é o de Giovanni Battista Re, em relação ao qual o próprio papa já manifestou a preferência, colocando-o à cabeça da lista de 44 cardeais, o que, na linguagem do Vaticano, designa-o como delfim. Nascido em 1934 em Brescia, Giovanni Battista Re fez carreira como secretário de Estado, depois foi nomeado secretário da Congregação dos bispos e, finalmente, substituto de João Paulo II, de quem é o homem de confiança. Re poderia atrair os votos dos eleitores mais preocupados em escolher um papa atento aos problemas relacionados ao futuro da Igreja do que um papa carismático, um homem capaz de reparar as rupturas internas, de implementar a reforma da cúria e de devolver às igrejas locais o que a política de centralização da década de 90 retirou.

Um pontificado de curta duração

Se, de sua pequena Honduras, fosse chamado para a Santa Sé, pode-se ter certeza que faria desse texto uma declaração de princípios de ação da igreja

O principal candidato da ala reformadora é o cardeal Carlo Maria Martini, um jesuíta. As qualidades espirituais de Martini, sua visão universal dos problemas, suas convicções ecumênicas e inter-religiosas, sua experiência pastoral na maior diocese do mundo, aliadas à lucidez e à prudência com que defendeu, no último concílio, uma reforma colegial do papado, lhe valeram a simpatia de muitos cardeais. Mesmo candidatos conservadores, como Francis Eugène George, de Chicago, comunicaram-lhe que não hesitariam em votar nele, apesar do fato de que fará 75 anos em 2002 e abandonará, então, a Igreja de Milão, para retornar a seus caros estudos bíblicos em Jerusalém. Não seria a primeira vez que o conclave iria buscar o papa em um retiro.

Na história dos conclaves, ocorre freqüentemente o paradoxo segundo o qual “quem entra papa, sai cardeal”. Não é possível, portanto, excluir a possibilidade de que a candidatura de Martini continue a suscitar uma certa consideração – não, apesar de sua fraqueza, mas graças a ela. Quanto ao problema de sua idade, a alternância entre um pontificado longo e um pontificado curto, sem ser absoluta, continua a representar uma certa racionalidade estatística: após o longo reinado de João Paulo II, os cardeais estarão sem dúvida mais inclinados a encontrar vantagens em um pontificado curto, de reorganização e de reequilíbrio, e podem pender então para o nome de um cardeal idoso, desde que seja atuante. Isso já ocorreu em 1958, quando a escolha recaiu sobre o “velho” Roncalli, que se tornou João XXIII. Na ocasião, os eleitores optaram por um “pontificado de transmissão”, após os 19 anos do pontificado de Pio XII.

O cardeal de Pinochet

No campo conservador, o nome sugerido é o de Giovanni Battista Re, em relação ao qual o próprio João Paulo II já manifestou a preferência

Na eventualidade, que parece mais provável, de Martini não conseguir a adesão dos dois terços nem da metade mais um dos votantes, há um nome alternativo, o do cardeal Dionigi Tettamanzi, de Gênova, considerado uma solução mediana entre reformadores e moderados. Milanês, nascido em 1934, esse teólogo moral, que explorou as fronteiras da bioética e da ética econômica na era da globalização, é conhecido por suas posições reformadoras prudentes, com tendência a se curvar excessivamente aos ventos do poder curial. Tem uma experiência indiscutível, tanto pastoral, como arcebispo de Ancona, quanto governamental, como secretário da Conferência dos Bispos italiana e colaborador na redação das encíclicas morais do papa, antes de sua mudança para Gênova, em 1995. Tornou-se conhecido no plano internacional por ocasião de sua intervenção pró-reformas no Sínodo europeu de 1999, o que lhe valeu, quando da votação para o secretariado geral, o primeiro lugar entre os italianos eleitos. Sua leitura positiva da crise do cristianismo e sua convicção de que a primazia do espiritual exige um novo ciclo de reformas na Igreja o aproximam das posições de Martini. Muito amigo de Re, do qual foi colega de classe, poderia contar, no conclave, com o apoio do amigo, que, naturalmente, poderia se tornar seu secretário de Estado.

Existe ainda uma aliança, costurada sob o signo da restauração, que se organiza em torno do secretário de Estado Angelo Sodano, que encarna a mais política das candidaturas no páreo. Nascido em Isola d’Asti, em 1927, fez carreira diplomática no Chile sob o regime do general Pinochet. Poderia atrair o voto de certos setores do corpo eleitoral que buscam uma personalidade pragmática, de tendência conservadora, apto a lidar com situações de extrema urgência, como uma possível convocação do colégio dos cardeais por ocasião de uma eventual renúncia (por problemas de saúde) de João Paulo II.

Uma perspectiva conservadora

Um nome alternativo seria o do cardeal Dionigi Tettamanzi, de Gênova, uma solução mediana entre reformadores e moderados

Excluindo sua própria pessoa ou um eventual candidato latino-americano de sua simpatia, Sodano poderia também adotar outras soluções “pastorais” – por exemplo, suscitando um consenso em favor do novo arcebispo de Turim, Severino Poletto (nascido em 1933), originário de Treviso, promovido a bispo de Asti (cidade natal de Sodano) em 2000. Não somente por suas qualidades espirituais e pastorais, de resto pouco conhecidas, mas por suas ligações com o secretariado de Estado.

Em um cenário desse tipo, seria inoportuno negligenciar o peso eleitoral de uma coalizão possível entre grandes eleitores da cúria, como Josef Ratzinger e Sodano, e a ala radical, representada por três cardeais latino-americanos romanizados: Dario Castrillón Hoyos, prefeito da Congregação do Clero, ex-normatizador do Conselho Episcopal latino-americano; Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho Pontifical da Família – ambos devendo seus postos a Sodano –; e Jorge Arturo Medina, prefeito da Congregação para o culto divino, um teólogo chileno amigo de Ratzinger desde a época do Concílio Vaticano II, conhecido por suas cruzadas morais contra a liberalização sexual. A perspectiva latino-americana seria, dessa forma, recuperada em favor de um programa conservador.

Outra opção dos conservadores

Existe uma aliança que se forma em torno do secretário de Estado Angelo Sodano, que fez carreira diplomática no Chile sob o regime do general Pinochet

No campo italiano, um candidato com esse perfil é encarnado pelo arcebispo de Bolonha, cardeal Giacomo Biffi (nascido em 1928), conhecido por sua discordância com o mea culpa da Igreja sobre seus erros históricos e por suas críticas ao diálogo inter-religioso. A candidatura de Biffi busca apoio no campo dos radicais e em movimentos como “Comunicação e Libertação” e Opus Dei. Uma coalizão dessas, ainda que heterogênea, forma-se em torno de um programa de restauração autoritária, que defende que o diálogo ecumênico e inter-religioso deve ser condicionado pela reafirmação da supremacia da verdade exclusiva da Igreja romana e de seu poder ético-político no mundo.

Uma outra candidatura, menos constrangedora mas ainda sob o signo da restauração, seria a do cardeal Christoph Schonborn, dominicano, brilhante arcebispo de Viena, redator do “Novo Catecismo da Igreja Católica”, que, livre da severidade de identidade de Biffi e do rigor de ferro de seu padrinho Ratzinger, e mesmo aberto ao diálogo, garantiria uma interpretação sugestiva às expectativas não somente da ala intransigente, mas também de amplos setores dos católicos conservadores. Pesa contra ele a juventude (nasceu em 1945) e a origem germânica, que ainda incomoda muita gente.

Em busca de um papa democrático

Há o peso eleitoral de uma coalizão não desprezível, entre Josef Ratzinger e Sodano, e a ala radical, representada por três cardeais latino-americanos

Em qualquer caso, a Igreja está diante de um momento crucial em que opções fundamentais devem ser feitas. Ainda que, atualmente, sejam mais sensíveis à prudência do que à audácia, não se pode excluir que muitos cardeais ficariam felizes em dar à Igreja um profeta, como o fizeram seus colegas quando elegeram João XXIII, embora sem o saber. Um papa que não buscasse o poder, mas a linguagem do coração, que privilegiasse a vida interior mais que as aparências, que se dirigisse não às massas, mas às consciências. Um soberano pontífice que respeitasse o direito natural a buscar, ainda que essa busca colocasse em questão verdades humanas afirmando os princípios perenes, que utilizasse a persuasão, ao invés da coação. Um papa que se cercasse de bispos para governar a Igreja, e que soubesse fazê-la respirar com as esperanças dos mais pobres, pronunciando, no que se refere aos poderosos, palavras de justiça inflexíveis. Um pastor que abrisse novos espaços aos carismas das diferentes igrejas cristãs. Um papa, enfim, que incentivasse os cristãos a levar a “boa nova” a outras culturas, consciente de que o Evangelho tem outra vida além daquela vivida no Ocidente.

Talvez esse papa já esteja presente, na sala de espera da Igreja católica. Mas é difícil dizer se o próximo conclave o conseguirá descobrir. (Trad: Marco Aurélio Weissheimer)




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