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FILOSOFIA

O progresso da ciência-espetáculo

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Insatisfeita com sua condição, a humanidade quer acreditar nas promessas da tecnologia. Mas quando esta se manifesta, a impostura do imediato e a ilusão de proximidade privam o homem de se conhecer a si próprio e aos outros

Paul Virilio - (01/08/2001)

Será que o paradoxo do desenvolvimento científico produziu um bando de anões que consideram verdadeiro o que era apenas manipulação das aparências?

“O progresso” como eles dizem, “funciona”, declarava Tom Smallways, herói de um romance de H. G. Wells1. “Funciona e a gente se pergunta como é que pode continuar funcionando.” Cem anos após esta declaração, cabe perguntar como é que pode continuar funcionando. Será que o paradoxo do desenvolvimento científico, como o do ilusionismo – ao qual ele deve muito – produziu um perigoso bando de anões, metidos a gigantes, que consideram verdadeiro o que era apenas manipulação das aparências, falcatruas e, em certos casos, um prato feito de absurdos?

Durante o longo status quo nuclear do século XX, o progresso tecno-científico assumiu um aspecto muito particular pois, ao entrar no domínio da pura estratégia militar, tornou-se uma arte do falso ao serviço da arte da mentira2. Quando, na época, se falava de “sociedade do espetáculo”, de “política-espetáculo”, de “alienação das massas”, no fundo, tratava-se, principalmente de “ciência-espetáculo”. O que estava em pauta era a espetacular revolução do complexo militar-informático-científico que passou, em poucas décadas, da ameaça totalitária à ameaça planetária, graças ao desdobramento dos satélites de observação, isto é de uma “grande lente” cujo objetivo declarado era o de transformar o planeta em uma única sala de filmagem e de projeção...

A era dos super-homens

Quando, no século XX, se falava de “sociedade do espetáculo”, de “alienação das massas”, no fundo, tratava-se, principalmente de “ciência-espetáculo”

A partir de então, os Terráqueos, deslumbrados, puderam ver em suas múltiplas telas inúmeros prodígios – cada qual mais mítico que o outro – e sonhar com novas perspectivas médicas, cirúrgicas, genéticas, olímpicas...

Em 4 de outubro de 1957, o Sputnik I era colocado em órbita e desafiava os ocidentais emitindo o seu bip-bip publicitário. Foi enviado então ao espaço um pequeno zoológico, e o bom público se comoveu com a cachorra Laika, morta em nome da ciência, antes que o super-homem soviético, Yuri Gagarin, fosse lançado por sua vez na pista das estrelas, em 12 de abril de 1961. Oito anos mais tarde, em 21 de julho de 1969, os telespectadores puderam ver ao vivo o super-homem norte-americano, Neil Armstrong, saltitar e apanhar pedras no solo de um circo lunar.

Como homem de espetáculo prevenido, Orson Welles, em seu comentário sobre a televisão e as imagens computadorizadas, observava: “Fizemos um milagre e todo mundo diz: ‘É maravilhoso!’ Mas quem se interessará pela segunda viagem do homem à Lua ? Ninguém.”

O futuro adversário do progresso

Em 1969, os telespectadores puderam ver ao vivo o super-homem norte-americano, Neil Armstrong, saltitar e apanhar pedras no solo de um circo lunar

O importante não era fazer durar a representação cósmica, mas aturdir o público do mundo inteiro, enquanto já se projetava a futura “guerra nas estrelas”, prometida desde 19843 por um outro homem das artes cênicas, ex-ator de Hollywood e presidente dos Estados Unidos: Ronald Reagan.

As dispendiosas aventuras do homem na lua foram interrompidas abruptamente em 1973. O Cabo Kennedy voltava a ser Cabo Canaveral e, em 1977, morria um dos principais instigadores do grande espetáculo intersideral, o ex-nazista Werner von Braun que, na juventude, sonhara ser escritor de ficção científica. O colapso da União Soviética, em 1991, o fim da política dos blocos e o surgimento da globalização econômica exigiam uma revisão urgente da ciência-espetáculo. “Trezentos anos de diástole, e subitamente, como um punho que se fecha, a sístole imediata, inesperada4.” Sem o inimigo de ontem, desaparecido, era absolutamente imperativo revelar a um público que se tornara apático a identidade do futuro adversário do progresso, de quem iria impedir a humanidade de progredir.

Culpabilidade e insuficiência

Como homem de espetáculo prevenido, Orson Welles observava: “Mas quem se interessará pela segunda viagem do homem à Lua ? Ninguém...”

O culpado já tinha sido escolhido: era o homem (leia, nesta edição, o artigo de Jean-Claude Guillebaud). Bastava recorrer à mística pós-adâmica, com as velhas especulações sobre a cibernética e a eugenia. Voltamos, então, a nos interrogar sobre as estruturas fisiológicas do ser humano – que pouco mudaram desde o neolítico, ao contrário dos sistemas de sociedade e, principalmente, das máquinas, cujos progressos foram constantes5. Aliás, será que sabemos o que é um homem? Existe, efetivamente, uma humanidade, mas homens? Apenas organismos vivos desproporcionais, simultaneamente grandes e pequenos demais, “presos no Universo, como numa jaula” afirmava Blaise Pascal.

Ilustrando uma frase de Flaubert – “A maneira mais profunda de sentir uma coisa é sofrendo com ela” –, o sociólogo Alain Ehrenberg, autor de La Fatigue d’être soi6, observava recentemente os estragos causados pela sístole do progresso e sua nova propaganda: “A depressão, que pouco interessava à psiquiatria da década de 50, tornou-se o distúrbio mental mais comum no mundo. (...) A neurose é uma tragédia da culpabilidade, enquanto a depressão é um drama da insuficiência. Vivemos um momento, após a libertação dos costumes na década de 60, em que o homem pergunta: ‘O que sou capaz de fazer?’, ao invés de perguntar: ‘O que me é permitido fazer?’Ilusões de ótica

Em 1984, um outro homem das artes cênicas, ex-ator de Hollywood e presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, já projetava a “guerra nas estrelas”

A fuga do homem de seu estado congenitamente incompleto, da insatisfação de ser ele próprio, não parecia mais passar pela “ilícita ciência das almas” do psicanalista, ou pela abolição dos tabus religiosos e das velhas proibições éticas. Porém, quando Emil Michel Cioran8 escrevia: “Viver é enganar-se sobre suas próprias dimensões”, ele enunciava melhor que ninguém a resposta trazida pela aceleração técnica a uma exigência supra-sensível permanente, pateticamente formulada por Nietzsche: “Aqui estou e nada posso fazer.”

Saber como as coisas surgem é, para o comum dos mortais, a menor das preocupações, e tanto faz se as aparências do mundo ficam reduzidas a fugitivas ilusões de ótica, desde que o pára-brisas ou a telinha retirem de cada um a medida de sua pequenez. Não é por acaso que, há vários anos, se verifica a deterioração do foco utilitário dos aparelhos high tech e sua reorientação para fins sectários, sincréticos, new age, para-filosóficos, trans-políticos…

O reencontro à porta do paraíso

Sem o inimigo de ontem, a União Soviética, era imperativo revelar a um público apático a identidade do futuro adversário do progresso: era o homem

O imediato, a ubiqüidade, a onisciência dos monitores e dos terminais de computadores ou de televisores domésticos se encarregam, no final, de devolver métodos imemoriais, empregados por cada pessoa para afirmar sua dependência em relação ao que o deixa fora de si – o que, por raros instantes, parece tornar os corpos inconsistentes – sonho, transe, orgasmo, hipnose, álcool, droga, estimulantes... E entre essas técnicas de desaprovação de si, as imagens, as palavras, esses “poderes inflexíveis”, dizia Alfred Döblin9, “capazes de nos impedir de viver em nosso lugar”.

Recentemente, por exemplo, um jornal regional francês publicou um obituário em que o tema budista se assemelha aos da conquista espacial ou da série televisiva Star Trek: “X…, esse pequeno cosmonauta, decidiu mudar de missão e seu rosto nos mostra que ele despertou para o budismo e poderá renascer em melhores condições.”

Por seu lado, engenheiros de software queriam batizar seu computador “Golem” na mais pura tradição rabínica, traders de Wall Street, ainda traumatizados pelo recente crack da informática, contratavam os serviços de sacerdotisas vodus “para purificar seus sites de forças maléficas”… E, enquanto alguns radicais proibiam a entrada em seus cemitérios de usuários da Internet, criavam-se sites mortuários na rede que permitiam às famílias dos internautas de luto recolher-se sobre os túmulos dos defuntos sem precisar se deslocar... Sem também nenhum deslocamento, os membros da seita cibernética americana Heaven’s Gate acreditavam que, com o suicídio coletivo, poderiam reencontrar-se instantaneamente, com armas e bagagens, à porta do paraíso, além das telas de seus computadores...

A impostura do imediato

A fuga do homem de seu estado congenitamente incompleto, da insatisfação de ser ele próprio, não passa pela “ilícita ciência das almas” do psicanalista

Durante estas décadas de progresso, o que não cessou de progredir de maneira incomensurável foram as ideologias, as utopias, os logros, os desvios e os blefes de todo gênero, colocados a partir de agora na gaveta das ilusões perdidas. Afinal, trata-se da impostura do imediato, revelada em tempos trágicos por Dietrich Bonhœffer10. Uma elaboração técnica de falsa proximidade. O que o progresso destruiu, é a humilde substituição do perto e do próximo – o “saber ser a si mesmo”, de que Montaigne nos falava como da coisa mais importante no mundo – em favor do “desconhece-te de ti próprio”, abominado por Franz Kafka.

Agora, existem “simuladores de proximidade”, como existem simuladores de tiro, de vôo ou de direção. A ciência-espetáculo deixou de ser sideral para se confundir com um reality show, explorando até o fim a impostura do imediato, a falsa proximidade do perto e do próximo. A “cândida câmera” dos irmãos Lumière, o documentarismo, o cinema neo-realista, e depois os paparazzi e a imprensa marrom, após terem criado uma falsa intimidade com as “estrelas”, acabaram por destruí-las...

Uma prévia das guerras do futuro

Saber como as coisas surgem não preocupa o comum dos mortais – e tanto faz se as aparências do mundo ficam reduzidas a fugitivas ilusões de ótica

Essas circunstâncias são atualmente reatualizadas graças à incrível propaganda feita ao redor de seriados televisivos como Loft Story11 … Os objetos de experiência deste tipo de programa não são os voluntários enclausurados na intimidade forçada do loft, e sim os milhões de telespectadores, atores secretos contratados sem saber para os primeiros capítulos de um temível jogo global, uma revolução biosférica em que a humanidade se esforça por sondar, reagir e eliminar virtualmente esse outro mundo que é o homem. Já dá para imaginarmos a ferocidade que alcançarão os próximos programas de “tele-realidade”. Não nos enganemos, a “modernidade” de Big Brother e de seus clones é uma seqüência direta daquela dos conflitos do Golfo e do Kosovo.

“Empate, uma aberração política”, dizia-se da guerra, após 1989. Velha como o mundo, a guerra parecia não levar a mais nada, mas, ao contrário, arruinava as estruturas nacionais, desorganizava exércitos tradicionais, destruía sistemas econômicos... Anthony Blair, um homem da mídia, já avisara em 1999, no início da guerra do Kosovo: “Trata-se de uma guerra de novo tipo, não por um território, mas por valores universais...” Aquela não seria uma guerra especificamente militar, mas apenas o esboço das futuras guerras orbitais.

No decorrer do conflito no Kosovo, os dois adversários declarados – Sérvia e Otan – não se encontraram em lugar algum, assinalando assim o desaparecimento de um campo de batalha que existia ainda, em estado larval, em 1991, durante a guerra do Golfo. A “guerra humanitária” do Kosovo, tornada possível graças a espetaculares “progressos” científicos, passava a fazer sentido. Ao eliminar o antigo campo de batalha, eliminava, por tabela, qualquer proximidade real, o imediato e o risco de uma confraternização possível entre os homens… (Trad.: David Catasiner)




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