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Liberdades e censuras...

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A chacina-fantasma de Timisoara (1989) e a guerra do Golfo (1991), pelo menos permitiram questionar a atividade jornalística. Mas tudo recomeçou com as mentiras da guerra do Kosovo, o frenesi “Loft Story”, sem esquecer o peso da publicidade...

Serge Halimi - (01/08/2001)

Cada dia mais, o jornalismo bajula os poderes que deveria controlar. Em inúmeros países, os donos da mídia mantêm o Estado e os políticos na coleira

Será que é por acaso? O jornalismo ocidental usa sem parar a palavra “moral” em seus debates. Intimativa de exigência moral aos dirigentes políticos, proclamação do advento da moral no direito internacional, onipresença na mídia de intelectuais medíocres, teóricos do “Mal” e professores de moral. “O espetáculo que nos oferecem os jornais parece ser o de milhões de vassouras em mãos sujas, que estão sempre prontas a varrer em frente à porta dos outros1”, observou, há pouco mais de um século, a revista satírica austríaca Die Fackel.

“Mãos sujas” ou, melhor dizendo, mãos que se imaginam suficientemente esterilizadas para manejar o bisturi. No último mês de junho, a empresa Alcatel anuncia que pretende fechar a maior parte de suas empresas. Sem demora, Denis Jeambar fica chocado com a inércia pública: “Os governantes vivem sob o império dos mercados e das empresas globalizadas. Em suma, não há mais política2.” Mas o autor dessa perspicaz repreensão é, ao mesmo tempo, diretor da revista L’Express e presidente do pólo de informação geral da Vivendi Universal Publishing (ex-Havas, grupo que já pertenceu à Alcatel3...). Diretor de uma das principais multinacionais do planeta, será que ele pode dissertar sobre as evoluções da atualidade como se estas lhe fossem inteiramente estranhas? As tais “empresas globalizadas”, que vivem “sob o império dos mercados” não seriam, e cada vez mais, os conglomerados da comunicação? E, nesse caso, não seria conveniente varrer, de vez em quando, diante dessas portas4?

A subserviência à mercadoria

Para que impor porta-vozes militares se o verdadeiro poder pode dispor de jornalistas que, sem vínculos aparentes, falam a língua dos militares?

Cada dia mais, o jornalismo serve de caudatário5 aos poderes que deveria controlar. Em um número crescente de países, os donos dos meios de comunicação mantêm o Estado e a política na coleira. Jornalistas proclamaram essa transformação o “fim da história” e a apoteose da “liberdade de imprensa”. Mas a vitória em questão representou para eles apenas uma etapa na via de uma dependência bem maior. Os muros da censura do Estado, que caíram, foram substituídos por outros, menos visíveis. Para que, então, impor porta-vozes militares – como teve a Polônia das ditaduras – quando o verdadeiro poder pode dispor de jornalistas que, sem vínculos aparentes, falam a língua dos militares? Nos dias de hoje, os uniformes já trazem os logotipos dos mercados.

Se a revolta contra a subserviência à mercadoria apenas começou, na imprensa acontece exatamente o contrário. Seja em um jornal respeitado, uma grande rádio pública ou uma TV privada, o objetivo parece ser o de pronunciar, sempre que possível, as palavras que identificam a “marca” ou o “produto” para definir o que ainda há pouco tempo os jornalistas preferiam chamar “informação”.6 Esqueciam, é verdade, que o capitalismo desabrochou com a “liberdade de imprensa”, que em uma economia liberal a “informação” serviria, em primeiro lugar, para vender e para se vender: ao leitor, ao anunciante, ao acionista.

A “filosofia” da “pausa publicitária”

Se a revolta contra a subserviência à mercadoria apenas começou, na imprensa acontece exatamente o contrário

O historiador Patrick Eveno lembra-lhes isso com tamanho entusiasmo que se deve supor que seja sincero: “Não resta quase mais nada do arsenal coercitivo instituído na época da libertação (da ocupação nazista) para reprimir os meios de comunicação. Com exceção das NMPP (Nouvelles Messageries de Presse Parisienne, distribuidor de publicações em banca de jornal), da AFP (Agência de notícias France Presse) e do que restou da antiga ORTF (rádio-televisão pública), que também terão que se atualizar, os meios de comunicação franceses reencontraram a liberdade de expressão, cortando o cordão que os ligava estreitamente ao Estado. A imprensa melhorou porque a publicidade aumentou, mas também porque ela tem projetos, editoriais e comerciais. (...) Os meios de comunicação franceses entraram na era da modernidade capitalista e democrática. (...) A única receita válida para preservar a independência de um jornal é satisfazer simultaneamente os leitores e os acionistas7 .”

Sem “amarras”, portanto, a liberdade e a independência caminhariam na esteira dos anunciantes e dos proprietários. Essa “filosofia” tornou-se comum. Na maioria das redações, algumas questões nem sequer são mais colocadas, de tanto o uniforme – ou a farda – ter adquirido o vinco das roupas comuns. Há já vários anos, por exemplo, que os programas de rádio ou de televisão são interrompidos por “pausas” publicitárias barulhentas e ao mesmo tempo invasivas.8 Por sua vez, esses programas são difundidos nos cafés, nos restaurantes, nos supermercados. Tudo isso se dá quase naturalmente, sem resistência. Imaginem a reação dos dirigentes dos meios de comunicação, dos ouvintes e dos transeuntes, se a cada dez minutos um porta-voz do governo interviesse em todos os programas – ou seja, nos cafés, nos restaurantes, nos supermercados – para ler um comunicado oficial. Seria um escândalo terrível; iria ocorrer uma gritaria contra a domesticação das ondas, contra a ditadura. Com razão. Seria, então, porque foi vendido a quem paga mais – ou seja, aos mais ricos – que o poder de martelar sem parar nos cérebros e nas almas se tornaria menos perigoso? Passaria o direito do dinheiro a valer a absolvição de qualquer manipulação do espírito9?

A indulgência da “liberdade de imprensa”

Em uma economia liberal a “informação” serve, em primeiro lugar, para vender e para se vender: ao leitor, ao anunciante e ao acionista

Dizer que os jornalistas não questionam isso seria incorreto: alguns até já deram uma resposta. Há dois anos, em uma entrevista dada à L’Evénement, uma publicação do grupo Hachette, Alain Genestar, então diretor do Journal du Dimanche (grupo Hachette), hoje diretor do Paris Match (grupo Hachette) e cronista fixo do Europe 1 (grupo Hachette), explicou suas relações com o proprietário nos seguintes termos: “Há dezoito anos, sou jornalista na Hachette. Gosto de trabalhar com quem trabalha lá, eu me dou bem com seus diretores. Numa época em que os grupos internacionais de imprensa se desenvolvem com uma rapidez considerável, desejo a meu grupo bastante poder10 .” Ninguém duvida que Genestar também se rejubile com a liberdade conquistada pelos jornalistas quando o Estado deixou de “reprimir os meios de comunicação”. Será que ele não tem a liberdade de se proclamar “jornalista na Hachette” e comprová-lo nas publicações que dirige?

Essa “liberdade de imprensa”, tão indulgente para com os gigantes da comunicação, também não incomoda muito a organização Reporters sans frontières-RSF (Repórteres sem fronteira). Seu diretor, Robert Ménard, admitiu: “Para defender os jornalistas do mundo inteiro, necessitamos do apoio consensual à profissão, enquanto a reflexão sobre o ofício de jornalista, por definição, presta-se à polêmica. Como, por exemplo, organizar um debate sobre a concentração dos órgãos de imprensa e pedir, em seguida, à Havas ou à Hachette para financiar um evento11 ?” E, já que “defender os jornalistas” na China ou na Chechênia exige tratar com moderação a Hachette, a Havas – mas também Berlusconi, Murdoch, Bouygues... –, como se surpreender que, entre os “predadores da liberdade de imprensa” selecionados pela RSF e expostos no pelourinho da FNAC no dia 4 de maio passado, não tenha figurado qualquer nome suscetível de “financiar um evento”? Principalmente, e jamais, o de François Pinault, dono da FNAC.

Comendo na mão do patrão

Essa “liberdade de imprensa”, tão indulgente para com os gigantes da comunicação, não incomoda muito organizações como Reporters sans frontières

Para falar a verdade, a teia de alianças tornou mais difícil questionar um chefão da comunicação, inclusive por um veículo que ainda não dependa dele. Jean-Marie Messier e Rupert Murdoch acabam de associar suas redes de televisão paga na Itália. Silvio Berlusconi e Murdoch são, assim como Pinault e a TF1, acionistas da cadeia privada TV Breizh, na Bretanha12. Lagardère e a Vivendi são sócios no CanalSatellite. A editora Hachette e as publicações Le Point (grupo Pinault), Le Monde e Le Figaro – e, talvez em breve, o Libération – são candidatos, por meio de uma sociedade comum, a uma rede parisiense13.

Em um universo de conivências industriais como esse, onde se esbarra a toda hora nos mesmos nomes e nos mesmos interesses de classe, a distinção entre o público e o comercial também vai para o espaço. Na Itália, isso é claro, pois Berlusconi, o homem mais rico do país e dono de três redes privadas de televisão, acaba de se tornar primeiro-ministro. Mas o mesmo acontece em outros lugares. Robert Maxwell comprou um jornal no Quênia e, ao mesmo tempo, tinha sociedade em empresas do presidente Arap Moi, de quem o dito jornal só falava das qualidades; a família Marinho, que domina os meios de comunicação brasileiros, dispõe de um grupo parlamentar informal mais poderoso que um partido; Francis Bouygues admitiu que comprou a TF1 para ter poder de influência, político e cultural. Aliás, um de seus amigos dissera confidencialmente: “Francis tinha o maior desprezo pelos políticos, que sabia poder comprar. Com uma emissora de televisão, compreendeu que não terá mais de fazer-lhes pedidos, pois são eles que virão comer em sua mão14.”

Uma tirania silenciosa

Em um universo onde se esbarra a toda hora nos mesmos nomes e interesses de classe, a distinção entre o público e o comercial também vai para o espaço

E essa mão, quem a recusa? Nem os seus detratores, que encenam performances nos meios de comunicação para tecer críticas ao “ultraliberalismo”, mas que poupam quase sempre as multinacionais da comunicação e a orientação que elas imprimem à informação; nem os intelectuais que, mesmo se desprezam o espaço degradado que os meios de comunicação lhes concedem, aceitam os convites que recebem. No entanto, há cerca de 25 anos, Gilles Deleuze já os advertia sobre a técnica e os perigos do “marketing filosófico” desenvolvido por Bernard-Henri Lévy e seus amigos: “É preciso que se fale de um livro falando mais do que o próprio livro fala ou tem a dizer. No limite, é preciso que o grande número de artigos de jornais, de entrevistas, de colóquios, de programas de rádio ou de televisão substitua o livro, que poderia muito bem não existir mesmo. [...] Os intelectuais e os escritores, e mesmo os artistas, estão, portanto, convidados a se tornarem jornalistas, se estiverem dispostos a aceitar as normas. Trata-se de um novo tipo de pensamento, o pensamento-entrevista, o pensamento-debate, o pensamento-rápido16. No entanto, não é muito difícil avaliar o perigo. Em 1996, por exemplo, o Congresso norte-americano, que acabava de suprimir o auxílio federal aos pobres, doou gratuitamente concessões calculadas, de modo geral, em 70 bilhões de dólares. A Viacom, a Disney e a General Electric – proprietários, respectivamente, das redes CBS, ABC e NBC – foram os principais beneficiados por essa decisão.

Protestando contra essa doação, o senador John McCain anunciou, durante o debate parlamentar: “Vocês praticamente não ouvirão falar desse assunto na televisão ou na rádio, porque isso lhes diz respeito diretamente.” Efetivamente, durante os nove meses que decorreram entre a proposta de lei e sua aprovação definitiva, as três principais redes de informação destinaram ao assunto apenas dezenove minutos. Nenhum desses dezenove minutos abordou a questão de saber se as maiores empresas de comunicação não tinham condições de pagar pelas concessões que o Estado lhes oferecia17.

No entanto, existe algum país onde “liberdade de imprensa” é melhor garantida do que nos Estados Unidos? (Trad: Wanda Caldeira Brant)




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