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GLOBALIZAÇÃO

A ordem liberal e a baixaria

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A manobra do governo italiano, permitindo que fossem devastados bairros inteiros de Gênova, visava a responsabilizar pela violência centenas de organizações não-violentas. A tentativa fracassou, mas o preço foi alto: um morto e 600 feridos...

Susan George - (01/08/2001)

Depois de Gênova, uma questão se coloca: como aniquilar o movimento de cidadania que não pára de perturbar as solenes reuniões dos senhores do universo?

Depois do G-8 da vergonha, realizado em Gênova, uma questão lancinante se coloca agora às empresas transnacionais, às autoridades nacionais e às instituições européias e internacionais que se tornaram os alvos daqueles que a mídia chama de “antiglobalização”, rótulo, aliás, unanimemente recusado pelos envolvidos: como desacreditar, enfraquecer, manipular e, se possível, aniquilar o movimento internacional de cidadania que, desde Seattle, não pára de perturbar as solenes reuniões dos senhores do universo? No arsenal do contra-ataque, o revide policial e a repressão direta são as respostas mais conhecidas. Em abril passado, a primavera de Québec cheirava muito mais a gás lacrimogêneo do que ao perfume das flores: a contabilidade oficial enumera exatamente 4.709 cartuchos disparados pelas forças da ordem contra os manifestantes anti-Alca (Área de Livre Comércio das Américas)1, quantidade considerada “abusiva” por uma comissão nomeada pelo próprio governo de Québec2.

Entretanto, é na Europa que parece ter havido, nos últimos meses, uma virada no uso da força e na manipulação. Já em Göteborg, quando das ações organizadas por ocasião da cúpula dos quinze chefes de Estado, ou de governo, da União Européia (UE), em meados de junho, a polícia sueca não hesitou em atirar com balas verdadeiras contra os manifestantes.

Pressão (ilegal) jurídica

Já em Göteborg, quando da cúpula dos chefes de governo da UE, a polícia sueca não hesitou em atirar com balas verdadeiras contra os manifestantes

No dia 22 de junho, em Barcelona, onde foruns e manifestações haviam sido mantidos para comemorar a lastimável defecção do Banco Mundial, policiais à paisana, infiltrados nas últimas filas, fizeram várias depredações e atacaram policiais de uniforme, a fim de provocar uma reação policial violenta contra manifestantes pacíficos e jornalistas.

Em Gênova, a polícia italiana foi mais longe ainda: um morto, mais de seiscentos feridos, centenas de prisões arbitrárias, e, sobretudo, uma autêntica manobra política. Na verdade, existem depoimentos a respeito da cumplicidade das autoridades com os grupos provocadores do “Black Block”, que devastaram algumas partes da capital da Ligúria3.

Como a repressão física nunca parece desanimar os contestadores, recorreu-se à pressão jurídica. Um dirigente da Ruckus Society4, organização conhecida por seu ensino de técnicas da não-violência quando de concentrações como a de Seattle, foi preso na rua, em Filadélfia (Estados Unidos), no dia seguinte às manifestações contra a convenção do Partido Republicano. Interrogado durante seis horas por um policial, que admitia abertamente haver recebido instruções para “pôr o máximo de merda na lista das acusações5” viu-se intimado a responder por treze acusações e – fato sem precedentes nos anais judiciários dos Estados Unidos para infrações de menor importância – e a pagar uma fiança de um milhão de dólares!...

Suspensão da liberdade de ir e vir

No dia 22 de junho, em Barcelona, policiais à paisana, infiltrados nas manifestações, fizeram várias depredações e atacaram policiais de uniforme

Prisões abusivas, medidas de intimidação e maus tratos infligidos aos detentos, fechamentos “preventivos” dos locais de reunião são fatos corriqueiros cada vez que os opositores à globalização liberal se reúnem. Para convencer-se disso, basta visitar os diferentes sites das Indymedia, centros de informação independentes e descentralizados6 que tanto preocupam Washington. No mesmo dia em que, em Québec, se realizava a grande manifestação anti-Alca, agentes do FBI e dos serviços secretos norte-americanos apresentaram-se à sede da Indymedia de Seattle, munidos de uma carta precatória, exigindo que lhes fossem comunicados os nomes e endereços eletrônicos de todas as pessoas que haviam acessado o site nas últimas 48 horas, ou seja, vários milhares. Tal iniciativa constitui, claramente, uma violação flagrante dos direitos garantidos pela Constituição dos Estados Unidos7. Em Gênova, na noite de 21 para 22 de julho, sem carta precatória, os policiais invadiram o centro de informação alternativa para tentar botar a mão em imagens que provassem que eles estavam infiltrados entre grupos de provocadores.

Também na Europa, os governos não ficam nem um pouco constrangidos em tomar liberdades com os textos, em função das necessidades. Em dezembro de 2000, por exemplo, para tentar diminuir a dimensão das manifestações contra as políticas liberais da União Européia – por ocasião do Conselho Europeu realizado em Nice, encerrando a conferência intergovernamental que deu origem a um novo tratado – 1.500 cidadãos italianos foram barrados na fronteira e, no entanto, dispunham de passagens e de documentos em ordem. Algumas semanas mais tarde, em janeiro de 2001, mas desta vez fora do espaço da União Européia, as autoridades suíças mandaram bloquear todas as vias de acesso a Davos, transformando a região em verdadeira fortaleza militarizada e em trincheiras. O governo italiano, pura e simplesmente, suspendeu a convenção de Schengen8 durante quatro dias para tentar - em vão - impedir os manifestantes dos outros países de afluírem a Gênova.

O contra-ataque da direita

Existem depoimentos a respeito da cumplicidade das autoridades com grupos provocadores, que devastaram algumas bairros da capital da Ligúria

O contra-ataque ideológico também avança rapidamente. Como identificar seu rótulo, após um fiasco como o de Seattle? Primeira técnica: declarar seu adversário “inimigo dos pobres”. É o método empregado tanto em Londres, pelo jornal Financial Times e o semanário The Economist, quanto em Genebra, pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Mike Moore (“esses manifestantes me dão vontade de vomitar”, 5 de fevereiro de 2001). Do outro lado do Atlântico, Paul Krugman, economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e menina dos olhos da mídia, não fica devendo nada. Para ele, o “movimento antiglobalização já pode se vangloriar de alguns feitos notáveis, constituídos por prejuízos cometidos justamente contra as pessoas e as causas que pretende defender”, pois os manifestantes de Québec, “quaisquer que tenham sido suas intenções, fizeram o melhor possível para tornar os pobres ainda mais pobres9”. Argumento retomado, na véspera de Gênova, pelo próprio George Bush numa declaração ao Monde (19 de julho de 2001): “Os manifestantes condenam as pessoas à miséria.”

Desde sua primeira edição pós-Seattle, The Economist propunha um segundo argumento. Diante do sucesso que as organizações não-governamentais (ONGs) acabavam de obter, insinuava que “representam um perigoso deslocamento do poder em direção a grupos não eleitos, que não prestam contas a ninguém”. Essa pretensa falta de legitimidade dos opositores, aliás, vem sendo um leitmotiv do mundo dos negócios desde a publicação, em setembro de 1998, da Geneva Business Declaration, que resultou de um encontro organizado conjuntamente pelo então presidente da Câmara de Comércio Internacional, Helmut Maucher (aliás, diretor-presidente da Nestlé e presidente da Mesa Redonda dos industriais europeus – European Round Table), e pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

Uma linha de demarcação

Em Filadélfia, um dirigente de uma organização não-violenta foi detido, interrogado e intimado a pagar uma fiança de um milhão de dólares!...

Essa declaração sugeria que os “grupos de pressão ativistas” examinassem com atenção, primeiramente, sua própria legitimidade, sem o que seria necessário submetê-los a “regras fixando seus direitos e suas responsabilidades. O mundo dos negócios está habituado a trabalhar com sindicatos, com organizações de consumidores e com outros grupos que são responsáveis, têm credibilidade, são transparentes, prestam contas e, por isso, têm direito ao respeito. O que condenamos é a proliferação de grupos ativistas que não aceitam nenhum desses critérios de autodisciplina”.

Terceira tática: afirmar à saciedade que os opositores dizem qualquer coisa. As idéias e opiniões veiculadas por suas organizações constituem, segundos diferentes autores, exemplos de “desinformação”, para não falar de “flagrantes mentiras” e de “disparates”; são “oportunistas” e “alarmistas”. Para Thomas Friedman, do New York Times, quem professa tais insanidades são pessoas “desprezíveis” e “merecem umas bofetadas10”. Por sua vez, o Financial Times, vagamente ameaçador, considera que, para deter o avanço desses mal-intencionados adversários da globalização, “já está na hora de traçar uma linha amarela que não pode ser atravessada11”. ”. Mas o que fazer se sempre falta a “autodisciplina”, se as “linhas amarelas” são levianamente atravessadas e se os contestadores continuam a “despejar suas futilidades”? Há quem reflita sobre isso.

“Desestabilizar os contestadores”

Agentes do FBI exigiram de um centro de informações alternativo os nomes e endereços eletrônicos de quem havia acessado o site nas últimas 48 horas

Talvez por isso, em março de 2000, o Instituto Cordell Hull, de Washington12, que tem por missão promover a liberdade de comércio, realizou um seminário intitulado “Após Seattle: dar um novo impulso à OMC”. De cerca de cinqüenta participantes - altos funcionários, ministros, consultores de grandes empresas, embaixadores - apenas dois faziam parte do mundo das ONGs. Um deles, escandalizado, fez o relato do seminário na InternetCortando financiamentos

Em dezembro, quando da reunião do Conselho Europeu em Nice, 1.500 italianos foram barrados na fronteira – todos com passagens e documentos em ordem

O ministro das Relações Exteriores do Brasil preferia que se realizasse a próxima reunião ou “no meio do deserto” - é praticamente o que vai acontecer em novembro próximo com a conferência da OMC, no emirado de Qatar – ou “num navio de cruzeiro”. (A próxima cúpula do G8, em 2002, será numa estância de difícil acesso, nas Montanhas Rochosas canadenses.) Sob os aplausos dos presentes, ele defendeu em seguida, apaixonadamente, o trabalho das crianças que, em seu país, ganham uns poucos reais para ajudar suas famílias, transportando sacos de carvão do depósito até a fábrica de aço vizinha… Um alto funcionário norte-americano sugeriu “dar às ONGs tanques de areia, onde poderiam brincar”, ou, por exemplo, incentivá-las a levarem suas preocupações à Organização Internacional do Trabalho (OIT), que não tem qualquer poder. Um outro, preocupado em “deslegitimar as ONGs”, apresentou a proposta de se convencer as fundações que financiam as ONGs a fecharem a torneira, obrigando-as, dessa forma, a pôr um ponto final em suas atividades.

Quaisquer que sejam as verdadeiras razões, o fato é que as fundações norte-americanas mais importantes estão mudando de atitude. Segundo fontes fidedignas - que pedem para não serem citadas -, os think tanks (“centros de pensar”) e as organizações contrárias à globalização liberal estão, atualmente, tendo as contribuições cortadas. E, fato incomum, os presidentes das grandes fundações acompanham, pessoalmente, a distribuição de fundos de sua responsabilidade por programas, se estes, no passado, financiaram grupos que pertencem à “constelação de Seattle”. As fundações Ford e Rockefeller privilegiam, daqui por diante, think tanks como o Economic Strategy Institute, presidido por um ex-assessor de Ronald Reagan e cuja lista de doadores parece um Who’s Who das empresas transnacionais norte-americanas14, .

Avançando em terreno minado

As fundações Ford e Rockefeller privilegiam, daqui por diante, think tanks como o Economic Strategy Institute, presidido por um ex-assessor de Ronald Reagan

Outra arma poderosa de que essas empresas podem dispor é a vigilância eletrônica. A sociedade eWatch15 ilustra a admirável capacidade do capitalismo para lucrar sempre, inclusive com as atividades dos opositores à sua própria dominação. Essa filial de uma firma de relações públicas propõe a seus clientes fiscalizar tudo o se diz sobre eles na rede, inclusive nas 15 mil listas de discussão e nas 40 mil listas especializadas (newsgroups). Mediante preços que vão de 3.600 a 16.200 dólares por ano, prometem a seus clientes: “Vocês podem vigiar a concorrência, as agências de regulamentação do governo, os ativistas e opositores e em todos os que possam influir sobre seus negócios.” Pelo preço cobrado, é de graça !

Às vistas disso, poderia dizer-se que guerra é guerra. Isso até prova, na opinião de alguns, que os adversários da globalização liberal têm um impacto real. Se não fosse assim, os “senhores do mundo” não se preocupariam tanto com eles. Que o seja. Mas seria também minimizar a importância dessa batalha para o capital internacional. Seu ódio pela democracia nunca foi demonstrado de modo tão evidente. Ele precisa, por todos os meios, consolidar a legitimidade de sua dominação, antes que esta seja mais abalada. Desse ponto de vista, a eleição de George W. Bush e a de Silvio Berlusconi são uma dádiva. Depois de Gênova, os movimentos sociais devem tomar ainda mais consciência de que, daqui por diante, avançam em terreno minado... (Trad.: Iraci D.Poleti)




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