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A vitória do “direito”

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O novo diretor do Departamento da Democracia e Direitos Humanos do governo norte-americano tem um currículo exemplar: mentiu, perante o Congresso, em 1991, e sua especialidade é ocultar massacres perpetrados por mercenários de extrema-direita

Serge Halimi - (01/08/2001)

Em 1991, Abrams omitiu informações sobre o apoio – ilegal – de Washington aos rebeldes dos “contra”, que lutavam contra o governo da Nicarágua

Apenas alguns dias após o ex-presidente Slobodan Milosevic ter sido extraditado a bordo de um avião da Otan – ou, para ser mais preciso, trocado por uma ajuda econômica – Eliott Abrams foi nomeado, pelo presidente George W. Bush, diretor do Departamento da Democracia, dos Direitos Humanos e de Operações Internacionais (Office for democracy, human rights and international operations). Não seria óbvio dizer que essa promoção, passada quase desapercebida pela grande imprensa, coincida com a nova era do direito, da moral e da ternura universal decantada pelos trovadores do Tribunal Penal Internacional.

Direito? Secretário-adjunto do Departamento de Estado no tempo do presidente Ronald Reagan, Abrams admitiu, em 1991, ter mentido, sob juramento, perante o Congresso norte-americano, omitindo informações sobre o apoio – ilegal – de Washington aos rebeldes dos “contra”, que lutavam contra o governo da Nicarágua. Para contornar a oposição por parte do Congresso, esse apoio a uma guerrilha declaradamente de direita foi parcialmente financiado através de uma venda de armas ao Irã, país que na época estava sob boicote norte-americano. O tráfico de armas e a mentira, que poderiam – e deveriam – ter provocado a destituição do presidente Reagan, limitaram-se a resultar em punições a alguns funcionários. Entre os quais, Eliott Abrams. Foi perdoado em 1992 por George Bush, pai do atual presidente.

Direitos humanos em boas mãos

Em 1982, um grupo paramilitar treinado pelos Estados Unidos assassinou 767 moradores da aldeia de El Mozote, em El Salvador. Abrams desmentiu o fato

Moral? O novo diretor do Departamento de Direitos Humanos foi, na década de 80, o cérebro da sangrenta política norte-americana para a América Central. Sua especialidade? Desmentir massacres. Como o de 767 moradores da aldeia de El Mozote em 1982, em El Salvador. Os assassinos pertenciam a um grupo paramilitar treinado pelos Estados Unidos em nome da luta contra o comunismo. Uma causa tão sagrada que, para Eliott Abrams, seus adversários só poderiam ser “víboras”.

Quando o entrevistamos, em fevereiro de 1995, num instituto de pesquisa conservador, o Hudson Institute, esse adepto confesso da direita israelense declarou que os palestinos não tinham “direito a um Estado”. Por outro lado, ele temia uma intervenção do presidente Clinton no Iraque. Por quê? “Porque não acredito que ele tenha a firmeza necessária para terminar.” Abrams também se mostrou favorável ao fim dos programas de ajuda às minorias desfavorecidas: “Em parte porque sou judeu. A comunidade judia tem 30% das vagas em Harvard; e só representamos 2% da população.” E, mais fundamental para ele, esses programas de discriminação positiva “exacerbaram as relações entre as raças”.

Com Eliott Abrams, os direitos humanos estarão em boas mãos. (Trad.: Jô Amado)




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