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INTERNET

A hora do desencanto

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A Internet abriu caminho para uma “nova economia”, a e-economia, graças à qual o enriquecimento seria permanente, instantâneo e exponencial. Era uma miragem. E, como miragem, acaba em decepção: dezenas de empresas quebradas, milhares de demitidos...

Derrick De Kerckhove - (01/08/2001)

Em 1994, Jim Clark fundou a Netscape com os US$ 20 milhões que tinha de participação na Silicon Graphics. Menos de um ano depois, tinha 400 milhões

Foi a firma Netscape que propôs o modelo e lançou a moda da e-economia. Introduzida na Bolsa de Valores em 9 de agosto de 1995, a Netscape Communications Corp. alcançou, no fechamento, nesta mesma noite, um capitalização de dois bilhões de dólares... E isso, sem a empresa ter ganho um só centavo. Nessa época pioneira, todas ou quase todas as pessoas ligadas à Internet conheciam o navegador da Netscape. Tinham experimentado e aprovado. Era a primeira versão comercial do Mosaic, um programa criado pelo mesmo geniozinho, Marc Andreessen. Assim como o Yahoo – o programa de busca que, alguns meses mais tarde, também atingiria picos de valorização bancária – o Netscape era uma espécie de prova de que a rede atingira um grau de maturação suficiente para tornar-se um espaço econômico. O Netscape deu o pontapé inicial a uma economia excitada e totalmente confusa: Internet, correio eletrônico, rede, portais, nova economia, e-economia etc.

Em outubro de 1995, as ações de Jim Clark, fundador da Netscape, valiam 425 milhões de dólares. Um ano antes, em outubro de 1994, Clark participara de uma mesa-redonda, em Tóquio, sobre o futuro da multimídia. Acabara de deixar a Silicon Graphics para fundar a Netscape. E explicou: “Ofereci-lhes participação. Eles (o conselho administrativo da Silicon Graphics) recusaram. Retirei a minha participação, 20 milhões de dólares, e investi na Netscape. Em menos de um ano, já tinha 400 milhões.” Como poderia ele ter sido o primeiro a prever, com tanta precisão, os efeitos inflacionários da nova economia e a ausência de relação entre valorização e produção? Certamente, tirou o melhor partido da situação, assim como a Amazon.com, o Yahoo, o E-Bay, e toda a enxurrada de empresas on line que, muito rapidamente, compreenderam que a rede se alimentava mais e melhor de promessas do que de realizações.

Um descrédito generalizado

Estamos agora em plena feelings’ economy, de que fala um ex-pesquisador do programa McLuhan: o investimento se baseia na emoção provocada por boatos

Estamos agora em plena feelings’ economy, a economia da emoção de que fala Robert McIllwraith, ex-pesquisador do programa McLuhan. O investimento se baseia na emoção provocada por boatos. Sobre a desmaterialização da economia, a jornalista Solveig Godeluck diz o seguinte: “Fundamentada na confiança, dissociada do real, ela fica sujeita a depressões ou à manipulação. Entramos realmente no capitalismo informatizado, mas os riscos e perigos são nossos1.”

Haverá, sem dúvida, como para tantas outras psico-tecnologias, uma espécie de percurso obrigatório que faz com que, ao ultrapassar o limiar crítico da virtualidade, se abandonem as barreiras protetoras dos modelos estabelecidos e se passe a construir um campo alternativo, divorciado da realidade. Esse modelo se impõe e cresce por seus próprios meios até o momento em que a não-realização se torna demasiado evidente. Volta-se, então, decididamente, aos modelos antes rejeitados. Levadas a um descrédito generalizado, tanto as stars quanto as start-ups da e-economia passam por dificuldades. E, como os presidentes de jovens democracias – que fogem levando o cofre – alguns executivos, sentindo a mudança do vento, renunciam ou vendem suas ações a tempo de embolsar o que ainda sobra...

A recessão hightech é pra valer

Levadas a um descrédito generalizado, tanto as stars quanto as start-ups da “nova economia” passam por sérias dificuldades

Não se pode dizer que, nesse meio tão volátil, não tenha havido manipuladores. Mas essa escalada dos valores não teria ocorrido se as manobras da bolsa não tivessem encontrado apoio em um público que crescia à velocidade das próprias redes, diversificado entre investidores, day-traders, principiantes, banqueiros, simples internautas, empresários inexperientes, programadores de softwares etc. Tudo isso criando, por outro lado, um clima favorável às inovações. Sem falar de mentalidades, bem como de práticas profissionais, que mudam imperceptivelmente com o uso das redes.

Portanto, a quebra tinha sido prevista. Andy Grove, guru da Intel, aguardava há três anos a info-Götterdämmerung até que, em abril de 2000, veio a notícia: “A recessão hightech começou para valer; trata-se, na realidade, de uma recessão, e não é das menores: abrange todos os setores, dos semicondutores às fibras óticas, e é de natureza cíclica2.” No entanto, se as quedas brutais de cotação na bolsa afetam somente uma população de investidores abonados, e mesmo despreocupados, as crises mais sérias referem-se a investimentos previstos em mercados que ainda não se materializaram, como o do WAP (telefonia interativa) ou da WebTV (televisão interativa).

O esvaziamento da bolha

Como os presidentes de jovens democracias – que fogem levando o cofre – alguns executivos renunciam ou vendem as ações a tempo de embolsar o que sobra

A recessão hightech leva a demissões em massa e a uma depressão geral de todo o setor. Para a Nortel, empresa canadense, principal fabricante de comutadores de redes no mundo, a perda – instantânea – de 19 bilhões de dólares na bolsa significou a demissão de 10 mil empregados... O número de pequenas e médias empresas que, ao retirar a rede de suas prioridades, reduziram seus efetivos on line e demitiram seus webmasters, é incontável. Isso para não falar dos investidores desiludidos ou de executivos, muitas vezes com uma alta especialização e com salários elevados, que, diante da dificuldade de se reciclarem, contribuem para lançar o descrédito sobre a “nova economia” que os deserdou. Com a ajuda do efeito da moda, vivemos uma fase de desencanto, do “e-tédio”. As aves agourentas que se opunham à rede, por apenas terem visto o seu lado negativo, e que previam sua queda, se divertem.

Ao encanto segue-se o desencanto. Ambos têm a mesma natureza: colocam-se ao lado da realidade. Entretanto, o esvaziamento da bolha, coerente com o modelo emocional, é tão exagerado quanto o entusiasmo inicial. Este excesso que peca em sentido contrário apenas contribui para o retardamento do inevitável entrelaçado do planeta até a saturação. Grove compreendeu isso muito bem: “Apesar de seus excessos, a natureza do boom era saudável, precisamente porque esta incrível valorização conseguiu atrair investimentos bilionários para a construção da infraestrutura da Internet, como as centenas de bilhões que financiaram as redes de telecomunicações3”.

Melhor refletir, antes de investir

A quebra tinha sido prevista. Andy Grove, guru da Intel, aguardava há três anos a info-Götterdämmerung até que, em abril de 2000, chegou a notícia

Do naufrágio da Internet, diz-se que só o correio eletrônico sobreviverá. É uma previsão prematura. A observação parece tão gratuita quanto a de Michael Wolff, que afirma que “até o final do ano, não haverá mais a indústria da Internet4”. Andy Grove lembra que as empresas “ponto.com” representam, no máximo, 10% da e-economia. Por que, então, privar-se das vantagens reais da Internet em todas as suas modalidades de conexão? Para começar, há a formidável memória coletiva da rede, independentemente de qualquer tipo de comércio. No entanto, o acesso a esta memória é individual (um pouco como o acesso que temos à nossa própria memória individual) e, principalmente, por conexão. Isto significa que novos tipos de associações e colaboração humanas estão se desenvolvendo – sem que a empresa tenha um papel exclusivamente determinante. O ensino, por exemplo, obtém vantagens consideráveis da Internet: a difusão do saber, é claro, através dos bancos de dados que se reconfiguram e se atualizam por si próprios, mas também graças a uma colaboração de grupo cada vez mais intensa, um trabalho de equipe cada vez mais sólido.

Os bancos – para citar uma dimensão comercial que irá utilizar cada vez mais os seus serviços – não vão descartar a Internet porque as empresas “ponto.com” tiveram problemas. O que farão é refletir melhor antes de investir nelas; mas é fora de cogitação que abandonem a extraordinária facilidade de transações que a Internet oferece. Acrescente-se a isso os sistemas de reserva, as trocas de dados informatizados, o controle de estoques, a distribuição automática e tantos outros serviços dos quais uma empresa, e em breve o público todo, não poderá mais abrir mão.

O sorvedouro norte-americano

Ao encanto segue-se o desencanto. Entretanto, o esvaziamento da bolha, coerente com o modelo emocional, é tão exagerado quanto o entusiasmo inicial

O público todo? Na França, cerca de 20% da população ativa já está conectada – e acessa a Internet. No Canadá, a porcentagem chega a 45%. Isto se deve, seguramente, a uma política de tarifas mais sadia que em outros lugares, que possibilitou uma verdadeira cultura “telefônica”. Na África, o acesso é ainda raro, mas o desejo de se conectar é cada vez mais presente nos africanos – com a mesma característica de expectativa, misturada com paciência, revelada por quem acessa a rede. O verdadeiro problema é outro. Quando se fala de “proporção digitalizada”, pensa-se em termos de quantidade: de um lado, um pequeno número de “internautas”, e do outro, uma grande maioria sem acesso ao espaço virtual. Joël de Rosnay dá uma outra perspectiva à questão ao introduzir o fator velocidade, que, em sua opinião, é determinante: “Algumas sociedades se desenvolvem a um ritmo tal que drenam sozinhas os recursos financeiros, humanos, energéticos e de informação que poderiam contribuir para o desenvolvimento das sociedades emergentes5.”

Os melhores quadros dos países em vias de desenvolvimento são os mais afetados, na medida em que os países avançados lhes prometem vantagens e lhes abrem mais facilmente as portas do que aos que chegam pela via da imigração. Desse ponto de vista, a Internet tem o efeito de um ciclotron6. O Canadá, por exemplo, que sofre do efeito do sorvedouro norte-americano (cerca de 70 mil estudantes diplomados emigram anualmente, às custas do contribuinte, para os Estados Unidos), não encontrou solução. Encontra-se atualmente ameaçado de sofrer, a curto prazo, uma séria carência de capital intelectual.

Uma revolução de cem anos

Andy Grove lembra que as empresas “ponto.com” representam, no máximo, 10% da e-economia. Por que, então, privar-se das vantagens reais da Internet?

No que diz respeito à Internet, a única maneira de reverter este efeito (e, dessa forma, também aumentar a proporção digitalizada) é acelerar a distribuição mundial da rede. Esta já participa da consolidação das relações e associações humanas. Em nossa civilização de movimento constante, as redes de comunicação são mais estáveis que os indivíduos.

Masayoshi Son, empresário japonês de telecomunicações, afasta com um gesto a lembrança do fato de que a cotação das ações de sua empresa sofreu uma queda de 90%: “Estamos em meio a uma revolução de cem anos. As comunicações de banda estreita que temos hoje dão apenas uma pequena idéia da dimensão tecnológica de que a Internet é capaz7.” (Trad.: Nena Mello)




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