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ILHAS KURILAS

O eterno pomo da discórdia

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No estreito de Nemuro, onde poucos quilômetros separam a Rússia do arquipélago japonês, cerca de 30 ilhas – as Kurilas do Sul – são objeto de um interminável litígio entre os dois países. Que vem desde o final da guerra, 1945...

Guy-Pierre Chomette - (01/09/2001)

Quase desertas, de difícil acesso, fustigadas pelo vento, as ilhas se estendem ao longo de 700 quilômetros, de Hokaido à península russa Kamchatka

O dia amanhece e os russos estão prestes a partir. Desceram dos ônibus que acabaram de chegar ao porto de Nemuro, no extremo norte do Japão. No cais, onde está atracado o Coral White,., têm início longas cenas de despedida: uma centena de japoneses acompanha o grupo de 70 russos das ilhas Kurilas do Sul, que vieram, na condição de vizinhos, “visitar os amigos japoneses”. No barco, acumulam-se dezenas de embrulhos cheios de mercadorias que não se encontram nas ilhas: tapetes, inúmeros guarda-chuvas, baldes de plástico... Subindo a bordo, os russos apertam a mão dos japoneses que ficaram no cais, parando para bater a foto: “Olhem, agora os japoneses são nossos amigos!”, enquanto o Coral White solta as amarras, ao som de um apito prolongado e os braços se agitam por um bom tempo.

Passado o quebra-mar, o barco toma o caminho da ilha de Kunashiri, a mais meridional do arquipélago das Kurilas, a aproximadamente 40 quilômetros de Nemuro. O arquipélago das brumas, como é chamado na região... São cerca de 30 ilhas quase desertas, de difícil acesso, fustigadas pelo vento, que se estendem ao longo de 700 quilômetros, do extremo Nordeste da ilha japonesa de Hokaido ao extremo Sul da península russa Kamchatka. Ilhas que poderiam passar desapercebidas, quase sempre encobertas pela névoa, se não fossem objeto de intermináveis disputas entre a Rússia e o Japão1. Desde 1945, pertencem à Rússia. Mas Tóquio reivindica permanentemente a posse de quatro delas, situadas mais ao Sul do arquipélago: Kunashiri (1.500 km2), Etorofu (3.184 km2), Shikotan (253 km2) e Habomai (100 km2). Ou seja, um total de 5.037 km2: 1,3% do Japão e 0,03% da atual Rússia.(veja o mapa da região)

Opiniões desconcertantes

Situado no extremo da península de Nemuro, o cabo Nosappu tornou-se um lugar de peregrinação: da ponta, vêem-se as primeiras Kurilas, a uma distância de apenas sete quilômetros e habitadas por alguns militares russos desempregados. Uma chama eterna, concebida para resistir a qualquer vendaval, simboliza o interminável combate dos japoneses para recuperar as ilhas, que flutuam longe. Em Nemuro (35 mil habitantes), vêem-se por toda parte slogans dirigidos aos visitantes russos, traduzidos para sua língua, como um, escrito em letras garrafais, no telhado do prédio da prefeitura: “As ilhas pertencem ao Japão. Devolvam-nas!”

No telhado da prefeitura de Nemuro (35 mil habitantes), em letras enormes, um slogan adverte os turistas: “As ilhas pertencem ao Japão. Devolvam-nas!”

“As ilhas? Que os russos fiquem com elas! Já não tenho esperança que elas voltem a ser nossas.” Antiga moradora das ilhas Kurilas, Tomiko Hamaya, de 76 anos, tem uma opinião desconcertante. “Aqui, todo mundo vai lhe dizer em uníssono que os japoneses querem a devolução das ilhas e que jamais abandonaremos nossas reivindicações. É proibido pensar de outra forma. Aliás, não fico anunciando minha opinião aos quatro ventos. Mas, se as ilhas nos fossem devolvidas, ninguém iria querer morar nelas, de tão dura que é a vida lá. Está tudo por fazer, ou por refazer: energia elétrica, água, estradas, fábricas... Isso iria custar muito caro ao Japão. O único problema é o da divisão das zonas de pesca.”

Prioridade nacional japonesa

E, na verdade, essa é uma das razões que levam os russos a recusarem a devolução do que os japoneses chamam seus “Territórios do Norte”: as ilhas Kurilas do Sul situam-se em uma das zonas de maior abundância de pescado do mundo. Ao anexarem o arquipélago, os soviéticos também privaram os pescadores japoneses de suas zonas de pesca tradicionais e particularmente ricas. Patrulhas militares russas inspecionam constantemente os pesqueiros nipônicos nas áreas proibidas. Enquanto no tempo da guerra fria as sanções infligidas pelas autoridades russas aos pescadores poderiam implicar na sua deportação para um campo de trabalhos forçados na Sibéria por vários anos, hoje as autoridades russas cobram pesadas multas2. Dono de um pequeno barco de pesca em Nemuro, Kamata Hideko contenta-se com as zonas japonesas: “Para nós, pequenos pescadores, a restituição das ilhas pelos russos seria uma catástrofe. De um dia para o outro, as grandes companhias de pesca japonesas viriam explorar as zonas recuperadas, comprometendo o mar, e, conseqüentemente, as zonas em que pescamos, que já têm pouco peixe. Prefiro que os russos fiquem com as ilhas, mesmo correndo o risco de comprar o peixe que vierem a pescar nelas.”

Mas as posições de Hamaya e Hideko são bastante minoritárias em meio à população japonesa. O Japão considera a questão dos “Territórios do Norte” prioridade nacional. Desde 1945, o país vem lutando contra a injustiça. Invoca o tratado de Shimoda, como prova legal de sua soberania sobre as ilhas Kurilas do Sul, e afirma que sua anexação pelos soviéticos não pode ser considerada decorrente de um ato de guerra, pois ocorreu após a capitulação japonesa. Por seu lado, os russos se fundamentam na conferência de Ialta, de fevereiro de 1945, durante a qual Stalin obteve de Franklin D. Roosevelt a promessa de recuperar as ilhas Kurilas em troca de sua entrada na guerra contra o Japão, no máximo três meses após a capitulação alemã.

A impopularidade da anexação

A pesca, muito rica, é uma das razões que levam os russos a recusarem a devolução do que os japoneses chamam seus “Territórios do Norte”

Em novembro de 1997, Boris Yeltsin e Ryutaro Hashimoto, respectivamente presidente da Rússia e primeiro-ministro japonês, reuniram-se em Krasnoiarsk, na Sibéria, comprometendo-se a “envidar todos os esforços possíveis para assinar um tratado de paz antes do ano 2000”. O litígio sobre as ilhas Kurilas impede, desde o final da guerra, qualquer tentativa de um tratado entre os dois países. Sua assinatura subentende a regulamentação prévia da questão dos “Territórios do Norte”. O que significa, na visão dos japoneses, recuperar as ilhas. Quatro anos depois, nada mudou, e a decepção corresponde à esperança alimentada por essa declaração no estreito de Nemuro.

Decepção que lembra outra, quando, por ocasião do desaparecimento da União Soviética em 1991, Mikhail Gorbatchev, e depois Boris Yeltsin, estiveram a ponto de pôr fim ao litígio geopolítico herdado de uma época subitamente deixada para trás. Dois ou três anos de hesitação foram suficientes para cristalizar de novo a situação: a ascensão dos nacionalismos na Rússia pós-soviética acabou por paralisar as veleidades de certos dirigentes de saldar o passado. Que presidente russo se daria ao luxo de tomar uma medida tão impopular para uma população a quem se repetiu por décadas que a anexação das ilhas Kurilas fazia parte dos grandes feitos do Exército Vermelho, sendo quase uma questão de honra?

Amizade sem visto de passaporte

Kamata Hideko, de Nemuro, contenta-se com as zonas japonesas: “Para nós, pequenos pescadores, a restituição das ilhas pelos russos seria uma catástrofe”

Quanto mais se agravava a situação política interna russa, mais distante ficava a solução para o conflito. Moscou ignorou de tal forma essas ilhas perdidas em sua fronteira no extremo Oriente que os 17 mil russos que ali vivem, em condições precárias, acabaram por se sentir abandonados. Em 1994 e 1996, os primeiros alertas: a administração das ilhas Kurilas do Sul tentou sensibilizar diretamente Moscou, organizando dois plebiscitos, nos quais 70% dos habitantes se pronunciaram... pela devolução das ilhas ao Japão! Outro alerta em 1998: um abaixo-assinado, organizado pelos próprios ilhéus, solicitando que as ilhas fossem alugadas por 99 anos ao Japão, teve grande sucesso3.

Os russos das ilhas Kurilas, antes cortejados pelo poder soviético pelo fato de terem sido pioneiros nessas ilhas hostis, mas estratégicas (elas “trancam” o mar de Okhotsk, protegendo assim o litoral siberiano da Rússia), parecem voltar o olhar para o Japão, tão próximo e capaz de lhes trazer rapidamente conforto e desenvolvimento econômico. E os japoneses não medem esforços para cativar esses olhares, esperando tecer cada vez mais vínculos com seus vizinhos dos “Territórios do Norte”. Aprofundando relações culturais e econômicas de um lado e do outro do estreito de Nemuro, o Japão tenta atrair as quatro ilhotas para sua órbita.

Chefe da agência de seguros marítimos de Nemuro, Satotaka Ishima conta como russos e japoneses do estreito pouco a pouco aprenderam a se conhecer: “O estreito foi aberto pela primeira vez em 1964. Na época, os russos permitiram aos ex-moradores japoneses das ilhas Kurilas que as visitassem uma ou duas vezes por ano, e somente por um dia, para levar flores aos túmulos nos cemitérios.” O hábito foi crescendo pouco a pouco e, quando em 1991 os dois países decidiram abrir um pouco mais o estreito, os contatos foram rapidamente estabelecidos. “Os russos dos Territórios do Norte puderam vir sem visto de passaporte passar alguns dias com as famílias japonesas em Nemuro, e vice-versa. Nasceram amizades. Foi nessa época que o Coral White se tornou o verdadeiro traço de união entre nós.”

Tudo para evitar o esquecimento...

O Japão afirma que a anexação das ilhas pelos soviéticos não pode ser considerada decorrente de um ato de guerra, pois ocorreu após a capitulação

Convertido num ferry-boat, esse antigo barco-escola acabou constituindo um status lendário para os povos do estreito. Só funciona quatro a cinco vezes por ano, de maio a outubro, quando o mar não está congelado, e seus passageiros são escolhidos: do lado japonês, os ex-moradores das ilhas, naturalmente, mas também ativistas de organizações que defendem a devolução; do lado russo, exclusivamente os habitantes das ilhas Kurilas do Sul. Cerca de 3 mil russos, e o mesmo tanto de japoneses, foram beneficiados por esse intercâmbio turístico e cultural desde 1992. E, a cada visita, de um lado e de outro, é a mesma acolhida calorosa, um pouco teatral, as mesmas cenas de despedidas no cais do porto de Nemuro4.

Os japoneses não medem esforços para seduzir os russos do outro lado do estreito, como prova a recente construção de um Centro de intercâmbio cultural em Nemuro, dedicado aos Territórios do Norte. Nele, os visitantes encontram uma biblioteca especializada, assim como um centro de documentação, uma sala de exposições, uma sala de conferências, um museu sobre a ecologia das ilhas... Enfim, tudo para evitar o esquecimento, para dar ânimo aos japoneses que pudessem ser tentados a se desviar da chama da reivindicação. “O objetivo desse centro cultural é, acima de tudo, elevar o moral dos japoneses quanto à questão dos Territórios do Norte”, declara seu diretor, Kentaro Iochitatsu. “Mas o centro também é um lugar de intercâmbio, onde queremos ajudar os russos dos Territórios do Norte e os japoneses daqui a se conhecerem melhor, a criarem verdadeiros laços de amizade. Pensamos numa sala para a cerimônia do chá, onde podemos ensinar a nossos vizinhos um aspecto importante da nossa cultura, e pensamos também em uma cozinha, onde russos e japoneses possam trocar suas receitas culinárias.” Custo da operação: 136 milhões de francos (cerca de 4,75 milhões de reais).

Cidades-irmãs

A administração russa organizou dois plebiscitos, nos quais 70% dos habitantes se pronunciaram... pela devolução das ilhas ao Japão!

O lado russo não dispõe, logicamente, desses meios, mas não fica nada a dever. Prova disso é a proposta feita aos japoneses ex-moradores das ilhas Kurilas para criar “grupos conjuntos de busca a cemitérios”. Quando chegaram às ilhas, em 1945, os soviéticos utilizaram alguns desses grupos em trabalhos nas pedreiras: lápides de túmulos e muros foram aproveitados em outras construções. Depois, a erosão e a vegetação acabaram por esconder esses vestígios de cemitérios, com o agravante de que não há plano da época que seja preciso o suficiente para localizá-los. Por isso, os moradores das Kurilas do Sul propuseram ajudar a localizar, assim como relembrar, períodos da memória e da história japonesas.

O único problema com essas operações de agrado mútuas é o fato de Nemuro ser cidade-irmã de Severo-Kurilsk. Yasutoku Takamura, conservador do museu de Nemuro, mostra-se decepcionado com essa irmandade. “Esses laços não criaram uma dinâmica de intercâmbio. Isso data de 1994 e refere-se principalmente à pesca. No início, tínhamos que comprar peixe dos pescadores de Severo-Kurilsk a preço bom e de lhes dar apoio técnico, em contrapartida. Esperava-se que isso desse impulso ao intercâmbio cultural, o que não ocorreu. Agora, parou tudo.” Esclarecimento: Severo-Kurilsk não se situa nos Territórios do Norte, mas em Paramushir, a ilha mais setentrional das Kurilas. E os japoneses não reivindicam essa parte do arquipélago...

Os novos consumidores russos

Os russos das ilhas Kurilas parecem voltar o olhar para o Japão, tão próximo e capaz de lhes trazer rapidamente conforto e desenvolvimento econômico

Intercâmbio turístico, cultural… e comercial. Quando, no início da década de 90, a Rússia abandonou inteiramente a economia planejada, os pescadores do extremo-oriente russo viram-se livres para vender seus produtos a quem oferecesse mais, isto é, ao Japão, principal importador mundial de frutos do mar. Rapidamente, os portos de pesca do norte do Japão se abriram aos barcos pesqueiros russos de Vladivostok e de Sakhalin, mas também das ilhas Kurilas. Em Nemuro, decidiu-se abandonar o pequeno porto que dá para o mar de Okhotsk, congelado durante quatro meses por ano, e aumentar o de Hanasaki, a cinco quilômetros de Nemuro, situado do lado do Pacífico e livre de gelo durante o ano todo. Obras gigantescas deram origem a um porto onde atraca um número sempre crescente de velhos barcos de arrastão russos, lotados com o famoso “caranguejo de Hanasaki”. Um caranguejo muito apreciado pelos japoneses e que existe em abundância, mas só do outro lado do estreito, na zona russa.

Recebendo em dólar, o que evita que percam tudo, já que o rublo despenca, e ganhando dez vezes mais do que antes, os pescadores russos das ilhas Kurilas viram seus lucros aumentar confortavelmente nos últimos anos. Lucros que se apressam em gastar em bens de consumo que encontram em Hokaido. Os pesqueiros nunca voltam vazios: a demanda dos habitantes das ilhas Kurilas é tão grande que os pescadores se tornam comerciantes improvisados. Aparelhos eletrodomésticos, pneus recauchutados e até, às vezes, carros em promoção... Em frente ao cais, onde atracam todos os dias os pesqueiros russos, Keiji Tetsuya abriu uma loja onde se pode encontrar desde óleo de motor a modernas torradeiras e até o último modelo de aparelhos de som alta-fidelidade, por cerca de 3 mil francos (pouco mais de mil reais). Há quatro anos, Tetsuya aprendeu o russo e tenta lembrar o nome de cada um de seus clientes. Aliás, montou um pequeno álbum com fotos que tirou dos “amigos russos”, numa ocasião em que os convidou para jantar em casa. Este é o Serguei, que gosta de saquê, e esta é a Tatiana, uma jovem que atravessou o estreito em um pesqueiro para comprar um carro em oferta.

A desmotivação dos japoneses

Cerca de três mil russos, e o mesmo tanto de japoneses, são anualmente beneficiados por um intercâmbio turístico e cultural desde 1992

Talvez mais que o intercâmbio turístico e cultural, que, afinal, são muito políticos, seja o desenvolvimento das relações comerciais que contribui para a aproximação das populações ribeirinhas do estreito de Nemuro. Serão essas relações suficientes para gerar um acordo diplomático?

O tempo conta a favor de Moscou. Em várias ocasiões, nos últimos anos, os negociadores russos propuseram inverter as prioridades, assinando inicialmente um tratado de paz, com o objetivo de empurrar a questão territorial “para a próxima geração”. Apostam na desmotivação da população japonesa com relação à reivindicação das ilhas Kurilas do Sul, esperando assim que a classe política nipônica, absolutamente unida nessa questão, acabe por pregar no deserto. De fato, dos 17 mil moradores japoneses expulsos das ilhas Kurilas às vésperas da guerra, só restam 9 mil, dos quais 2.200 em Nemuro. Contam-se entre eles 26 mil crianças, algumas das quais nascidas nas ilhas, mas só tendo vivido uma parte da infância nelas. E seus netos parecem afastar-se desta região isolada, e mais ainda dos “Territórios do Norte”, que nada representam para eles. A maioria da geração jovem de Nemuro escolheu viver na cidade, em Saporo, e até em Tóquio.

Desenvolvimento econômico conjunto

Justamente em Tóquio, Mirei, de 23 anos e estudante de sociologia, surpreende-se com a questão. Pela primeira vez, talvez, ela reflete sobre isso. Confessa que não se sente “realmente envolvida com a história. Sim, é claro, aprende-se sobre isso na escola primária e no colégio. Mas não me pergunte qual é o nome das ilhas... Não, realmente, jamais passaria pela minha cabeça comemorar o dia dos Territórios do Norte, em 11 de fevereiro, acho que é isso5. Nesse dia, todos os anos há manifestações. Mas nenhum dos meu amigos vai. E meu pai já não vai há muito tempo.” Conseguirá a escalada do sentimento nacional, que vem ocorrendo no Japão há alguns anos, inverter essa tendência? Sem esperar a resposta, o governo japonês tenta frear esse desinteresse, mas parece que só em Hokaido os japoneses ainda ligam para a questão dos “Territórios do Norte”.

Os japoneses não medem esforços para seduzir os russos do outro lado do estreito, como prova a recente construção de um Centro de intercâmbio cultural

Por sua vez, só no papel a comunidade internacional pende a favor das reivindicações japonesas. Ela se esforça para não tomar partido com relação à questão, que não compreende bem. Em várias ocasiões, os japoneses tentaram, sem resultado, sensibilizar seus aliados norte-americanos para que exerçam influência sobre a Rússia. O estreito continua uma zona altamente estratégica e militarizada. Apesar das promessas de desmilitarização feitas por Boris Yeltsin em 1993, o exército russo se recusa a baixar totalmente a guarda diante das forças americanas que ainda têm base no Japão. Dos 10 mil homens baseados nas ilhas Kurilas do Sul, no início da década de 90, o exército russo mantém 3.500, pelo menos oficialmente. E, ainda recentemente, em maio de 2001, o encontro entre Vladimir Putin e o ex-primeiro-ministro japonês Yoshiro Mori, em Irkutsk, na Sibéria, mostrou até que ponto a restituição das ilhas não estava na ordem do dia do presidente russo. Já em setembro de 2000, por ocasião de uma visita do presidente russo a Tóquio, o primeiro-ministro japonês, Yoshimo Mori, tinha recebido um “não”, cordial mas claro, ao atacar a questão de frente.

Status quo, portanto. A Rússia não parece disposta a abandonar as ilhas Kurilas. Mas também não tem propostas para fazer avançar as negociações. E principalmente no terreno da ajuda ao desenvolvimento. Em novembro de 1996, Evgeny Primakov, na época ministro das Relações Exteriores, propôs pela primeira vez a Tóquio desenvolver conjuntamente as ilhas Kurilas do Sul, principalmente no que se refere à infra-estrutura (estradas, portos ou aeroportos), mas também através da construção de fábricas de processamento de peixe. O Japão recusou-se a participar desse projeto sem um compromisso geopolítico claro por parte de Moscou. A Rússia tenta atrair os investidores japoneses para as ilhas, mas sem ceder no terreno político. Mas até quando os japoneses resistirão a esta oferta apetitosa? A perspectiva de uma exploração, ainda que em conjunto, das vastas riquezas de frutos do mar das ilhas Kurilas talvez acabe por flexibilizar a posição japonesa. Os japoneses não parecem estar longe de se implantarem de novo nos Territórios do Norte. Mas sem os recuperar.
(Trad: Marinilzes Melo)




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