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HISTÓRIA

A volta do Judeu Süss

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Um canal de televisão francês (Arte) apresenta em setembro uma noite de debates sobre cineasta alemão Veit Harlan, com um documentário sobre o diretor de “O judeu Süss”. O filme serviu de apelo ao ódio racial contra os judeus na década de 40

Lionel Richard - (01/09/2001)

Terça-feira, 4 de fevereiro de 1738, dia de festa em Stuttgart! Do campo em volta, a população do ducado de Wurtemberg precipita-se às ruas. Nenhum judeu, todavia. A cidade lhes foi proibida. Porque é um judeu o objeto da cerimônia macabra à qual a multidão se apressa em assistir1. Preso logo depois da morte súbita de seu soberano, decorrente de uma infecção pulmonar, Joseph Süss Oppenheimer estava preso desde a noite de 13 de março de 1737. Condenado pelo tribunal em 13 de dezembro desse mesmo ano, já era mais que tempo de enforcá-lo.

E por que essa condenação? Os juízes entenderam que ele teria sido a eminência parda de Carlos-Alexandre. Segundo eles, ele teria esmagado a população sob impostos, favorecendo a corrupção. Teria mesmo fomentado um golpe de Estado contra a Assembléia Parlamentar das Corporações, violando a Constituição baseada liberalmente sobre a partilha dos poderes.

Os “judeus da corte”

A execução de Joseph Süss Oppenheimer foi planejada de modo a vilipendiar sua vida dissoluta. Foi içado ao cadafalso sob gritos de “Morte ao judeu!”

Além disso, também foi acusado de ter atentado contra a honra de várias moças. Por causa disso, os juízes pensaram em restaurar uma portaria caída em desuso que castigava as relações carnais entre judeus e cristãs. Mas o risco de escândalo era tão grande que a acusação desse “pecado da carne” foi abandonada pelo tribunal.

A execução de Joseph Süss Oppenheimer foi organizada de modo a vilipendiar sua vida dissoluta. “O pássaro hebraico”, que voava de leito em leito, é oferecido agora à vista dos curiosos, trancado numa gaiola de ferro. É içado, sob os gritos de “Morte ao judeu!”, até o alto do cadafalso, de dez metros de altura.

No ducado de Wurtemberg, o judeu Süss representa a figura emblemática da dezena de “judeus da corte” que, no século XVIII, subiram às cúpulas dos pequenos Estados alemães. Era filho do negociante Süsskind-Oppenheimer, que por sua vez se tornara coletor de impostos do Palatinado, e era ligado a um correligionário influente, Isaak Landauer. O duque Carlos-Alexandre confiou-lhe, em 1733, a função de assessor de finanças.

Associado a Satã

O drama de Süss decorre da política que se esperava que ele adotasse: uma administração modernizada e uma economia capitalista em proveito do soberano

Seu drama decorre da política que se espera que ele adote, com a necessidade de uma administração modernizada e de uma nova economia capitalista, em proveito do soberano. Enquanto este, convertido ao catolicismo, também é rodeado de conselheiros católicos, é sobre ele, o judeu, que a população protestante de Wurtemberg – insuflada pela Assembléia Parlamentar das Corporações, que se opõe a Carlos-Alexandre – polariza as recriminações e a hostilidade. Ela o denuncia como um “vampiro”, um “disseminador da fome”, um “parasita”. Ainda por cima, ele concedeu à comunidade judaica o monopólio do tabaco. Apanhado em uma querela de poderes e oposições religiosas, acabou sendo vítima de uma trama urdida pelos dirigentes da Assembléia das Corporações. Não lhe é concedido qualquer perdão, já que ele se recusa a converter-se ao protestantismo.

De 1737 a 1739, libelos e difamações abundam contra o judeu Süss. Depois o suábio2 Wilhelm Hauff, célebre autor dos contos orientais de La Caravane, dedicou-lhe um conto em 18273. Uma forma de homenagear seu avô, o secretário do Conselho Parlamentar Johann Wolfgang Hauff, defensor dos direitos da Assembléia das Corporações. Em outras palavras, a tradição familiar predispunha o autor a uma visão protestante dos acontecimentos e a um retrato pouco simpático do assessor de Carlos-Alexandre, apresentado como um estrangeiro de vida dissoluta, instigador de uma ruptura no funcionamento das instituições. A ordem só poderia ser restabelecida, com as seqüelas de um formidável sismo social, pela morte de Süss, associado a Satã. Nada de espantoso, portanto, se nacionalistas e racistas alemães viessem mais tarde tirar do conto de Wilhelm Hauff a imagem pretensamente “verdadeira” do judeu Süss.

O antídoto de Goebbels

A população de Wurtemberg, protestante, denunciou Joseph Süss como um “vampiro”, um “disseminador da fome”, um “parasita”

O personagem estava longe de ter caído no esquecimento quando Lion Feuchtwanger, originário de uma família da burguesia judia da Baviera, assimilada pela comunidade, começa, em 1916, a se interessar por ele. Primeiro, escreveu uma peça em três atos, publicada em 1917. Ainda que sensível ao anti-semitismo, ele havia rompido com o judaísmo. De saída, ele queria construir uma parábola manifestando sua reação diante da guerra. Depois, transformaria sua peça num romance, reconstituindo a época. Quando o publicou, em 1925, esse primeiro romance histórico foi um sucesso imediato. Mais de 100 mil exemplares vendidos em cinco anos. Depois, traduções em cerca de vinte línguas4. Quando o seu autor, que emigrara para os Estados Unidos, morreu, em 1958, suas vendas no mundo ultrapassavam dois milhões de exemplares.

No cinema, Lothar Mendes realizou um filme, a partir de um roteiro extremamente fiel ao romance, que foi apresentado em 4 de outubro de 1934, em Londres. Teve uma repercussão internacional notável, exceto na Alemanha nazista, onde foi proibido: a reconstituição do cenário histórico predominava, com a representação do gueto e dos rituais judaicos, e a relação com a atualidade do anti-semitismo era nitidamente sugerida. Dizem que o filme irritou Goebbels, que decidiu que a Alemanha deveria retomar o tema e propôs a fabricação do antídoto a um diretor já bastante conhecido, Veit Harlan. Contrariamente ao que acreditou Feutchwanger – que protestou contra a desfiguração de seu romance – não foi ele que serviu de base ao roteiro adotado. Este foi redigido por um autor nazista, Eberhard Wolfgang Möller, baseado no conto de Wilhelm Hauff, como constava do primeiro folheto de informação. Havia uma frase chocante: “Judeu, tire as patas de uma mulher alemã!”

As ordens de Himmler

Nada de espantoso se nacionalistas e racistas alemães viessem mais tarde tirar de um conto adulterado a imagem pretensamente “verdadeira” do judeu Süss

A concepção do filme se situa em novembro de 1938, num momento em que o Ministério da Propaganda dá às empresas cinematográficas orientações para incentivar roteiros anti-semitas. A ameaça de extermínio da “raça judia” é lançada publicamente por Hitler em 30 de janeiro de 1939. Os protagonistas chamados para fazer o filme sabiam, portanto, do que se tratava. A filmagem começou em 15 de março de 1940 nos estúdios de Babelsberg. Os serviços de propaganda nazista recomendaram que ele não fosse qualificado como “anti-semita”, para obter maior eficácia junto ao público. Foi lançado, em pré-estréia mundial, em 5 de setembro de 1940, na Bienal de Veneza. Veit Harlan, sua esposa, a atriz Kristina Söderbaum, e Ferdinand Marian, intérprete do personagem central, estavam presentes para receber os aplausos.

Somente na Alemanha, onde as sessões foram muitas vezes acompanhadas pelo grito “Morte aos judeus!”, o número de espectadores atingiu rapidamente mais de 20 milhões5. Foi exibido em todos os países europeus ocupados. Heinrich Himmler o achava tão convincente que em 30 de setembro de 1940 assinou uma ordem obrigando todos os membros da SS e da polícia a vê-lo “durante o inverno”. Nos campos de concentração, os guardas foram submetidos à mesma obrigação.

Happy end da execução

O personagem estava longe de ter caído no esquecimento quando Lion Feuchtwanger, de uma família judia da Baviera, se interessou por ele

O filme é uma falsificação histórica6. Exclui o conflito confessional entre as corporações e o duque Carlos-Alexandre. As relações de Süss com as damas da aristocracia foram silenciadas para melhor estigmatizar “a cópula do judeu com uma cristã”, em consonância com a proibição promulgada pelas leis de Nuremberg, em 1935. As características atribuídas a Süss retomam os estereótipos nazistas anti-semitas: avidez, astúcia, covardia, hipocrisia. Quanto à língua falada pelos judeus, é ridicularizada por meio de uma paródia do iídiche e da gesticulação.

O próprio cenário é simbólico. Os judeus agem sempre na penumbra, ou na calada da noite. E quando Süss é enforcado, o filme se ilumina para o happy end: cai a neve, limpando tudo o que estava poluído. A “limpeza” é então prometida ao povo de Wurtemberg. É por isso que não apenas Süss é condenado. Todos os judeus são expulsos de Wurtemberg e seu banimento é acompanhado por uma música religiosa de redenção.

Acabada a guerra, Veit Harlan usou, como desculpa, o argumento da imposição. O Judeu Süss só se teria revelado nitidamente anti-semita devido a alterações decisivas feitas pessoalmente por Goebbels. Infelizmente nenhum documento confirma essa versão das coisas. Em seus Diários, o dirigente nazista, embora tão detalhista para mencionar as medidas e decisões que tomava, lembra simplesmente conversas com Harlan.

Marcado pelo signo da infâmia

O romance histórico de Feuchtwanger, reconstituindo a época, foi publicado em 1925, e se tornou sucesso imediato: vendeu 100 mil exemplares em 5 anos

Em 1948, uma comissão de desnazificação isenta o realizador do Judeu Süss de qualquer culpa. Espanto e protestos de quatro juristas alemães, que pedem sua condenação invocando “crime contra a humanidade” – não como participante ativo, mas na qualidade de cúmplice. Em 15 de julho de 1948, entram com uma ação no tribunal de Hamburgo, então na zona de ocupação britânica. O processo, que duraria três semanas, termina em 23 de abril com a absolvição. Depois do recurso do promotor Gerhard Kramer, o Tribunal de Colônia dá seu veredicto em 12 de dezembro de 1949: o filme deve ser considerado “criminoso”.

Volta o processo ao tribunal de Hamburgo. De novo, seis semanas de processo. O julgamento definitivo é pronunciado em 29 de abril de 1950: “a acusação de crime contra a humanidade” é identificada nas atividades de Veit Harlan. Entretanto, ele é absolvido devido a circunstâncias atenuantes. A condenação do filme como “criminoso”, porém, é confirmada. Esse julgamento permitiu a Veit Harlan retomar imediatamente sua carreira de cineasta. Ele ainda realizaria dez filmes até sua morte. Seu Judeu Süss, no entanto, ficou marcado pelo signo da infâmia. É verdade que a partir de 1955 sua projeção foi autorizada na República Federal Alemã, exceto em Berlim Ocidental, devido ao estatuto de ocupação da cidade. Desde 3 de outubro de 1990, a proibição foi suspensa em todo o território alemão. Todavia, a exibição do filme continua rara. Ocorre apenas no contexto de simpósios ou seminários sobre a história do nacional-socialismo. E mesmo assim, não deixa de provocar polêmicas.

A polêmica da proibição

No cinema, Lothar Mendes realizou um filme, a partir de um roteiro extremamente fiel ao romance, que foi lançado em 4 de outubro de 1934, em Londres

Foi o que se passou em fevereiro de 2001, em Furth, perto de Nuremberg, com a decisão da comissão diretora do Museu Judeu de organizar, no âmbito de uma exposição sobre Joseph Oppenheimer, uma projeção do filme7. O escritor Ralph Giordano, sobrevivente da perseguição nazista, tomou vigorosamente posição contrária8. Tendo tido a oportunidade de ver o filme em Hamburgo, no final de fevereiro de 1940, ele o lembra como um “apelo ao ódio racial aos judeus”. Obra de arte? Para ele, definitivamente não. Não há qualquer motivo, no seu entender, para projetar esse filme “vergonhoso” em Furth, principalmente quando as pesquisas indicam que 13% de alemães têm uma visão do mundo que corresponde à da extrema-direita – e uns 30% deles são favoráveis ao anti-semitismo.

Um abaixo-assinado redigido por jornalistas, professores e escritores foi divulgado, exigindo que qualquer “projeção pública” desse filme fosse proibida. O presidente da comunidade judaica daquela pequena cidade da Francônia, Haim Rubinzstein, acabou mostrando-se mais maleável: “Para mim, é indiferente que o filme seja projetado ou não. Mas projetá-lo num estabelecimento onde se encontram os pergaminhos da Torá9, e que é qualificado de ‘judeu’, acho uma infâmia.” Na mesma hora, a projeção prevista para o Museu Judeu foi transferida para as dependências da Universidade Popular.

O cineasta do diabo

O filme teria irritado Goebbels, que decidiu retomar o tema e propôs a fabricação do antídoto a um diretor já bastante conhecido, Veit Harlan

Os debates foram ainda mais apaixonados em Furth porque uma biografia recente de Veit Harlan tenta inocentá-lo invocando seu talento10. Os filmes do diretor de O Judeu Süss, na opinião de Frank Noack, o autor dessa biografia, foram simplificados por seus adversários, que apresentaram uma imagem “unidimensional” com o objetivo de reduzi-lo a um cúmplice de Goebbels.

Mas eis que se anuncia um documentário11 a ser passado na televisão no final de setembro: uma tentativa de reconstituição dos processos de 1949 e 1950 contra Veit Harlan, com trechos de seu tão famoso Judeu Süss. Sugerir uma dosagem a favor e contra, sem a versão integral do filme e sem o esclarecer com uma análise rigorosa, não implicaria no risco de fazer a maioria dos espectadores, mais de meio século depois, interrogar-se sobre a culpa do cineasta nazista?

O passe de mágica, em definitivo, seria o mesmo da biografia de Noack, cujo título é suficientemente sugestivo: Veit Harlan, o cineasta do diabo. Evidentemente, é sempre o diabo quem dirige o mundo quando as coisas dão errado. E como então seu cineasta poderia ser senão um pobre e infeliz instrumento?...
(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)




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