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A Igreja na contramão

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A encíclica Humanae Vitae foi redigida com o objetivo de aceitar a contracepção. Mas Paulo VI, aconselhado por um certo Karol Wojtyla, condenou a contracepção que não fosse natural. E a Igreja entrou na contramão de uma sociedade em busca da liberdade

Dominique Vidal - (01/09/2001)

Durante sua viagem aos EUA, João Paulo II ouviu, de uma religiosa norte-americana: “Este papa faz tudo ao contrário, beija a terra e pisa nas mulheres”

As aparências enganam. Das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), em Paris, ao Jubileu de Roma, a Igreja Católica reuniu milhões de jovens. “Entre dois momentos de enorme sucesso, as igrejas ficam quase sempre vazias e os padres são cada vez mais raros – só os carismáticos se multiplicam.” Para além de “razões profundas” – o período de crescimento econômico do pós-guerra, de 1945 a 1973 (que os franceses chamam de trente glorieuses), a elevação do nível de vida, a emancipação do indivíduo, que estão na base de uma “menor necessidade de religião” – Bruno Chenu, ex-editor-chefe do jornal La Croix, não deixa de apontar as responsabilidades específicas de Roma.

A virada começa, em 1968, com a encíclica Humanae Vitae. Com o objetivo de prolongar o concílio Vaticano II, este documento foi preparado por uma comissão majoritariamente favorável à aceitação da contracepção química. No entanto, o papa Paulo VI, aconselhado por um certo Karol Wojtyla, condenou qualquer contracepção que não fosse natural. A Igreja entrou, dessa forma, na contramão de uma sociedade – mulheres e jovens na vanguarda – em busca da liberdade.

Os valores de consenso

A imensa maioria da opinião pública rejeita, atualmente, as intervenções da Igreja no campo privado, que estariam acelerando a fuga dos fiéis

“Não é desse episódio que vem todo o mal”, atenua um religioso assuncionista. “Mas ele não deixou de ser uma das principais causas da imagem negativa da Igreja. Inclusive porque o sucessor de Paulo VI fortaleceu suas posições.” Após condenar a contracepção, condenou o aborto e o uso do preservativo; depois de proibir o casamento de padres, proibiu a ordenação de mulheres. Célebre por ter “abalado” João Paulo II durante sua viagem aos Estados Unidos, uma religiosa norte-americana resume a situação: “Este papa faz tudo ao contrário, beija a terra e pisa nas mulheres.” A imensa maioria da opinião pública rejeita, atualmente, as intervenções da Igreja no campo privado, que aceleraram a fuga dos fiéis.

O que faz um bispo aposentado? Monsenhor Jean-Charles Thomas trabalha em uma Bíblia ecumênica para iniciantes destinada a “atingir uma massa de pessoas com as quais as Igrejas não têm mais contato, com a finalidade de incitá-las à busca, no mais profundo de si mesmas, de algo maior do que elas: valores de consenso.” Impressionado pelo sucesso dos Dez mandamentos, na versão de Chouraqui-Obispo, ele pensa que em um mundo onde as pessoas se auto-determinam sem referência a uma autoridade, “o importante não é tentar fazê-los voltar ao bom caminho, mas dar-lhes os elementos necessários”.

Pôr fim à “monarquia absoluta”

Diante das posições do Vaticano sobre a contracepção e o divórcio, algumas pessoas têm a impressão de que “querem impedi-las de pensar”

Diante das posições do Vaticano sobre a contracepção e o divórcio, algumas pessoas têm a impressão de que “querem impedi-las de pensar”. Ora, lembra monsenhor Thomas, “quando, no feudo católico que é Versalhes, publicamos uma página dupla no Fraternité Yvelines, que tem uma tiragem de 300 mil exemplares, sobre o tema Preservar a vida e salvar o amor, não recebemos um único protesto”. Muitas experiências o levam a pensar que “a Igreja Católica é muito centralizada: pede-se, sempre, à mais alta autoridade que se pronuncie, mas sem consulta, nem diálogo, arrisca-se a passar ao largo dos problemas”.

Doutrina e funcionamento. “Se a encíclica Humanae Vitae produziu tais estragos foi porque foi aceita por gerações de seguidores, ou pelo efeito de uma verdadeira caça às bruxas contra qualquer um que saísse do tom”, garante Jean-Paul Guetny, diretor de redação de Actualités des religions. A Igreja fica polarizada nos “problemas burocráticos”, em detrimento da “matriz intelectual e cultural” do cristianismo. “Todos os cardeais, todos os bispos – conservadores ou não – não agüentam mais o centralismo romano.” O próximo papa tem que “por fim a esta monarquia absoluta”, uma das últimas do mundo, substituindo-a por um “modo de governo que privilegie o colegiado”. Seu principal desafio será a reforma de um sistema excessivamente rígido em sociedades que se tornaram muito complexas. Por este motivo, segundo Jean-Paul Guetny, cresce o “desejo por um novo concílio. Como o de Constança [1414-1418], que, em meio ao cisma entre Oriente e Ocidente, fez ver aos dois papas rivais que o poder dos bispos era maior do que o deles”.

Uma nova Internacional

“Uma nova Internacional talvez esteja surgindo”, prevê um padre com passado de militante. “Desde que rejeite instituições ‘caretas’ ou ‘globalizantes’”

Na expectativa do Vaticano III, cuja idéia o semanário Témoignage Chrétien empenha-se em divulgar com o apoio de teólogos e intelectuais cristãos e humanistas, Dominique Fontaine, da Missão da França, tenta, em Ivry, reconciliar a Igreja com os que a abandonaram. O diálogo diz respeito, quase sempre, a questões espirituais. “A vida não é apenas trabalho, metrô e férias. As pessoas têm necessidade de uma interioridade que não se exprime, necessariamente, em um vocabulário religioso. Mais agnósticos do que ateus, eles são animados por uma dúvida positiva sobre Deus, assim como muitos cristãos.” Nesse reduto comunista, a queda do muro de Berlim e dos dogmas introduziu, até nos velhos militantes, dúvidas espirituais, “alimentadas pela nostalgia de uma infância católica”. Se os jovens parecem mais indiferentes, muitos deles buscam – diante do excesso de atividades ou da falta de perspectiva de suas vidas – “uma coluna vertebral, mais do que uma couraça”. Dominique Fontaine sente neles essa “tensão na direção do ideal” que leva alguns a novas formas de militância: tais como o Attac, mas também viagens humanitárias, assim como as JMJ e o Jubileu.

“Longe da década de 80, quando a derrota do comunismo levou cada um a cultivar seu jardim, uma nova Internacional talvez se esteja formando”, é o prognóstico deste homem da igreja com passado de militante. Na condição de conseguir se adaptar à rejeição de instituições “caretas” ou “globalizantes”. E o padre observa que nas Jornadas Mundiais da Juventude de Paris, assim como nas de Roma, o papa evitou falar em preservativo: ele conclamou a multidão de jovens a viver com Cristo a utopia de um mundo reconciliado. “Se o Attac se tornasse um partido político, controlado por um centralismo democrático, todo mundo fugiria.”

Para Dominique Fontaine, a única “receita” é o respeito ao outro. Ele se tornou padre para “tentar ir até as últimas conseqüências do diálogo com os que não crêem”, e escolheu a Missão da França porque “ela tem por função debater com quem não partilha da fé cristã”. Para convertê-los? “Não. Muitos cristão dizem a si mesmos: ‘E se isso não for verdade?’ E muitos agnósticos perguntam-se ‘E se for verdade?’ O que eu quero é confrontar nossas hipóteses, avançar lado a lado na nossa busca e nos converter, mas reciprocamente, para definirmos juntos a espiritualidade de que precisamos...”
(Trad.: Teresa Van Acker)




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