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CUBA

Entre o orgulho e o tédio

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Sem ter que se submeter aos ajustes estruturais impostos a tantos outros países, Cuba encontrou os meios de sobreviver e reativar sua economia. Um novo ciclo de crescimento permitiu que o PIB aumentasse 5,6% no ano 2000

Françoise Barthélemy - (01/09/2001)

À entrada do centro histórico de Matanzas, ex-capital açucareira de Cuba, a Casa da Cultura Bonifacio Byrne tem um aspecto imponente, apesar da deterioração. Seu mobiliário é tão pobre, que é preciso içar, com a ajuda de uma corda, as cadeiras do pátio para o primeiro andar a fim de que os alunos do curso de música, selecionados nas escolas primárias e secundárias, possam sentar-se e trabalhar em volta dos mais diversos instrumentos - bongô, alaúde, violão, contrabaixo, güiro feito de cabaça etc.

“Este centro provincial da cultura comunitária foi criado em 1991, no momento em que começava o ‘Período especial em tempo de paz’ devido à derrocada do campo socialista”, explica com um certo orgulho Ileana Barrera, natural de Matanzas, muito viva e esperta. “Dado que todos os bens materiais estavam em falta, pensou-se que as atividades culturais seriam primordiais para compensar as privações, para manter a vida do espírito.” O desmantelamento do bloco do Leste, com o qual Cuba mantinha 85% de seu comércio exterior – sendo 70% dele com a URSS –, somando-se ao bloqueio imposto a Havana pelos Estados Unidos, lançou a ilha na mais terrível depressão de sua história. Entre 1990 e 1994, durante o período mais crítico, o Produto Interno Bruto caiu quase 38%, afetando gravemente o nível de vida da população.

Duas moedas vigentes

Cuba mantinha, até o início da década de 90, 85% de suas relações comerciais externas com os países da Europa Oriental (70% com a URSS)

Dez anos mais tarde, entretanto, a ilha emerge, como em busca do antigo entusiasmo. Historiadora por formação e representante do grupo folclórico “Afro-Cuba”, Barrera desempenha, principalmente, o papel de ponte entre os meios escolares e artísticos. “Somos cinqüenta trabalhadores, nesta Casa aberta a todos, das crianças aos aposentados”, enfatiza. “No fim do ano passado, Fidel [Castro] e Abel Prieto, o ministro da Cultura, decidiram criar quinze institutos, em todo o território nacional, para formar milhares de instrutores de arte. Cinco anos de formação específica (dança, teatro, música) e formação ‘integral’. O mesmo compromisso por parte das escolas de arte, atualmente presentes em todas as províncias.”

Criados em 1960, os primeiros centros de instrutores de arte funcionaram até meados da década de 80. Depois decaíram. Quem se forma nesses centros, foge, procurando carreiras mais lucrativas. O movimento se agravou - a mesma coisa iria ocorrer com professores, engenheiros, médicos – no início da década de 90, quando o turismo, que se tornou a locomotiva da economia, levou à criação de um duplo circuito monetário: em dólares, para os estrangeiros e cubanos privilegiados; em pesos, para os cubanos comuns, ou seja, a maioria.

As dificuldades do “período especial”

Um animador cultural ganha, atualmente, cerca de 200 pesos por mês (menos de 23 reais). Não exatamente miséria, mas a falta de dinheiro, sim, constante. Para os mais idealistas, foi duro o choque com a realidade dos preços, com o valor de mercado das coisas. “Até 1990, dávamos de presente livros artesanais que fabricávamos e que imprimíamos numa tiragem de duzentos exemplares”, suspira Agustina Ponce, diretora da Ediciones Vigía. “Em 1990, foi preciso entrar numa lógica comercial. Um sofrimento. Não havíamos sido criados com tal finalidade.” Nascida em 1958 de pais intensamente comprometidos com a Revolução, ela mesma membro do Partido Comunista Cubano (PCC), Ponce adaptou-se, pouco a pouco, à passagem de uma economia de Estado para as variantes de uma economia de mercado. A editora Vigia vende uma boa parte de sua produção em dólares para comprar material, papel reciclado, sobretudo. “Contamos também, felizmente, com gestos de solidariedade, vindos dos Estados Unidos, do Canadá, da França, da Espanha, de amigos cubanos daqui ou de outros lugares. Tinta, pincéis, crepom etc.”, acrescenta Ponce, antes de detalhar os dois projetos que lhe são mais caros: consolidar os ateliês abertos aos jovens para iniciá-los no trabalho com papel e na técnica do desenho; e aumentar a quantidade de edições bilíngües.

Entre 1990 e 1994, durante o período mais crítico, o Produto Interno Bruto caiu quase 38%, afetando gravemente o nível de vida da população

Em 1989, o setor editorial estatal produzia mais de 4 mil títulos, cinqüenta a sessenta milhões de exemplares, incluindo os livros escolares. No entanto, a leitura sendo a paixão dos cubanos, a oferta nunca atendia a demanda. De uma só vez, em 1993-1994, quando todos os bens de consumo corrente se tornaram escassos, quando os cortes de energia elétrica passaram a durar oito horas por dia, quando não se encontrava combustível, a produção caiu ao nível de 1959. “Muitos pensavam: é o naufrágio”, exclama Roberto Fernández Retamar, poeta, ensaísta, diretor da revista Casa de las Américas, Prêmio Nacional de Literatura de 1989. “Tenho 70 anos. A revista é minha vida. Eu não estava ‘no’ barco, eu era o barco. Pois bem, conseguimos superar a crise. Proeza do povo, não apenas do governo. E, no domínio do espírito, tiramos de nossas costas uma pedra tumular. Os vínculos com o Conselho de Assistência Econômica Mútua [CAEM1] não eram só econômicos, mas culturais. Entre 1971 e 1976, depois da morte do Che, a revolução demonstrou sectarismo. Nessa época, um escritor da importância de José Lezama Lima é maldito! Havíamos mudado de rumo há muito tempo, mas o fato de ficarmos sozinhos acabou por nos libertar. E depois, subvencionar os livros do modo como fazíamos era um artifício destinado à ruína...”

Novos horizontes editoriais

Sem ter que se submeter aos ajustes estruturais impostos a tantos outros países, sem abrir sua economia local ao risco de ser invadida pelos produtos do poderoso vizinho, Cuba encontrou os meios de sobreviver e reativar sua economia. Mesmo que só tenha podido reduzir, e não terminar, as penúrias de todos os tipos que afetam a população, um novo ciclo de crescimento permitiu que o PIB aumentasse 5,6% em 2000, índice inferior apenas ao bom resultado de 1999 (+ 6,2%)2.

Paralelamente a essa melhoria, assiste-se, há alguns anos, a uma lenta recuperação da produção editorial, embora uma instituição da importância de Letras cubanas, especializada em prosa narrativa, poesia e ensaio, tenha proposto somente 78 títulos em 2000. Para outros, o desastre terminou, no fim das contas, com um novo salto. As edições José Marti, por exemplo, durante muito tempo dedicadas às obras políticas e à divulgação da obra de José Marti3, perdem muito dinheiro e ficam em situação bastante difícil em 1992. De 120 a 130 livros publicados, cai-se para 20. Depois, as edições se transformaram, continuando suas publicações em línguas estrangeiras. “A necessidade abriu-nos horizontes”, avalia Cecilia Infante, diretora desde 1993. “Nós nos voltamos para co-edições e co-produções com editoras estrangeiras, sobretudo da Europa e da América Latina. Publicamos mais livros de literatura, poesia, novelas, romances. Todas as nossas obras são vendidas em dólar, quer se trate de exportação ou de mercado interno. Ficamos contentes ao ver os turistas partirem levando embaixo do braço um guia de excelente apresentação - Conheça Cuba - ou um estudo sobre essa glória que é o bar La Bodeguita del Médio.”

Abundância de escritores

O turismo levou à criação de um duplo circuito monetário: em dólares, para estrangeiros e privilegiados; e em pesos, para os cubanos comuns

Nem todos são tão otimistas. É o caso dos dois estudantes sentados na escadaria do Capitólio, no centro de Havana. Iván queria dar a sua amiga, como presente de aniversário, A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. O romance foi pedido. Mas não foi comprado: custa 15 dólares!

As livrarias que vendem em dólares surgiram há cinco anos e, nos últimos dois anos, desenvolveram-se muito. “Na Moderna Poesia, por exemplo, você encontra os melhores livros das melhores editoras”, ressalta Ada. “Às vezes, no interior de uma mesma livraria, existem dois setores: um de venda em pesos e um de venda em moneda cruda (dólar). Neste último, tudo causa inveja: a qualidade do papel, a impressão, os autores, os assuntos. E também os discos, os cartões postais, os cartazes. Em pesos, você tem que se contentar com velhos livros, gênero Fidel e a religião: Conversas com Frei Betto4, ou com os clássicos do marxismo, ou com as obras completas de José Marti. É irritante.”

Do Capitólio entra-se no turbulento bairro de Havana Velha - praças, igrejas, passeios, fortificações, palácios, janelas e portas com grades trabalhadas, fachadas de diversos estilos. Instalado na Plaza de Armas, o Instituto do Livro. “A população, e principalmente a juventude, lê nitidamente menos que antes”, lamenta o poeta Adel Morales, vice-presidente do Instituto e diretor da revista La Letra del Escriba. “Uma geração inteira cresceu com uma importante insuficiência de livros, o que demorará para se recuperar. Numa década, não é somente a vida econômica que empobreceu, mas a vida cultural. Mas, ao mesmo tempo, há uma abundância de escritores.”

Nu, diante do espelho

Para os cubanos mais idealistas, foi duro o choque com a realidade dos preços, com o valor de mercado de qualquer coisa

Contrariamente ao que se passa entre seus vizinhos do Caribe, da América Central e do Sul, em Cuba a cultura faz parte da vida quotidiana. A estréia de um filme reúne multidões, ir ao teatro é freqüente, não faltam informações sobre as manifestações culturais. Sem falar da prática da música, parte integrante do modo de ser do cubano. O mesmo número de interessados pode se amontoar tanto para um concerto de música popular quanto para uma partida de beisebol. “Nesse contexto, o livro ocupou, até 1990, um lugar de primeira opção. Quando a crise eclodiu, o golpe foi brutal na relação entre o autor e seu público”, explica Leonardo Padura5, em sua casa de Mantillas, um subúrbio popular afastado do centro da Capital. “Entretanto, essa crise foi benéfica. Pela primeira vez, desde a vitória da Revolução, estabeleceu-se uma distância entre o escritor e os aparelhos de Estado. Estes controlavam toda a indústria cultural. Uma vez paralisadas as editoras, foi necessário voltar-se para outras, a fim de se publicarem os livros. O escritor ganhou um espaço de liberdade, conquistando um lugar no exterior. Tomemos a França. Até 1988, falar de escritores cubanos significava citar dois nomes de exilados: Severo Sarduy e Guillermo Cabrera Infante. Agora, a paleta inclui os que vivem em Cuba e os que vivem fora. Reflexão válida para todos os artistas. A divisão ‘interior/fora’ chegava ao absurdo. Se é muito difícil, em matéria política, na cultura o debate existe e é marcado por dois fenômenos recentes: o reconhecimento de que a literatura cubana é ‘uma’, para além das posições e do lugar de residência; e o fato de que o Estado perdeu o controle direto sobre os resultados da criação”.

Nas duas primeiras décadas da revolução, a política cultural havia “incitado” os artistas a seguirem a via de um certo “realismo socialista”. Quando o país, há dez anos, se encontra “nu diante do espelho e se vê tal como é”, para usar a expressão do escritor Reynaldo Gonzalez, aparecem temas que eram tabus: o exílio, abordado como um drama humano, e não mais como um assunto estritamente político, a marginalidade, o racismo, a delinqüência, a corrupção, o homossexualismo.

Plano de “massificação” da cultura

Não mais autores tabus, não mais temas tabus (com a exceção não desprezível de qualquer rediscussão sobre o regime, sobre seus dirigentes – a começar por “Fidel” - e de suas evoluções, na ausência de qualquer tipo de mídia fora do controle do poder). Isso ficou muito evidente na última Feira do Livro, em abril de 2001 (200 mil visitantes, 1.400 títulos apresentados, 500 mil exemplares vendidos). O dramaturgo e romancista Antón Arrufat, cuja peça Os Sete contra Tebas o havia condenado a um relativo isolamento na década de 60, foi objeto de todos os elogios. Ignorado durante décadas por suas opiniões políticas e pela decisão de deixar a ilha, o grande poeta Gastón Baquero (1914-1997) foi finalmente publicado pelas editoras cubanas, “legalizado” de certo modo.

Em 1989, o setor editorial estatal produzia mais de 4 mil títulos, de 50 a 60 milhões de exemplares. Em 1993-1994, a produção caiu ao nível de 1959

Na opinião de muita gente, foi o atual ministro Abel Prieto que, trazendo uma baforada de ar fresco, desempenhou o papel de catalisador entre as mudanças ocorridas e a política cultural do Estado6 . “Constatando o fosso que se aprofunda entre o nível de instrução e o nível cultural, acompanhado dos valores éticos que o estruturam”, explica o ministro, “lançamos um plano de ‘massificação’ da cultura. A palavra é horrível, eu sei. Trata-se, na prática, de medidas em favor de uma cultura integral e geral: programas de televisão chamados ‘Universidade para Todos’, em que são ensinadas as mais diversas disciplinas, desde línguas estrangeiras até a abordagem de obras de arte, passando pela geografia, pela gramática espanhola, pela história de Cuba e pela história universal, por religiões comparadas etc.” Programas que vão ao ar de manhã cedo, e são repetidos durante o dia, de modo a permitir que o maior número de pessoas os possa acompanhar. “A isso se acrescenta a atuação em campo, donde a formação dos instrutores de arte, o trabalho cultural no seio da comunidade. A cultura, neste momento, é a pedra angular do desenvolvimento social deste país.”

A prática da solidariedade

Da Plaza de Marte, em Santiago de Cuba, pode-se tomar um desses caminhões cobertos com encerado - passageiros em pé, amontoados, pobreza dos transportes - para ir ao verdejante bairro de Vista Alegre. Fica aí a prestigiosa Casa do Caribe, que é dirigida pelo intelectual e escritor Joel James Figarola, membro do Conselho Nacional da UNEAC7. Este Conselho se reúne com Fidel Castro a cada seis meses. A última reunião, recorda Joel James, foi dedicada à marginalidade – crescente, não só devido ao desemprego e à pobreza, mas também em razão da falta de perspectivas sentida por muitos jovens cubanos - e aos meios para combatê-la. Segundo nosso interlocutor, o melhor seria combater a marginalidade com os valores que ela veicula: o significado da coragem e da amizade, o respeito pela família e particularmente pela mãe, a prática dos sistemas mágico-religiosos, os quais não constituem unicamente crenças e, sim, um culto prestado à beleza e à vida. E a prática da solidariedade, poderia acrescentar a artista Caridad Ramos.

Escultora excepcionalmente talentosa, Caridad Ramos já tem atrás de si, aos 45 anos, uma obra considerável que vai de esculturas gigantescas, como os monumentos a Célia Sánchez (Parque Lênin, Havana, 1985) e ao Che (Holguín, 1988), a uma produção mais intimista. Em sua última exposição, Ambivalências, realizada em maio de 2001, detém-se sobre o lugar dominante do homem em uma sociedade “sempre governada pelos homens”, a dupla moral, a solidão das mulheres na busca de sua sexualidade. Nascida em uma família de camponeses pobres, recorda: “Era preciso repartir o pouco que havia. A solidariedade era vital para nós. Graças à Revolução, tive a oportunidade que minha mãe não teve: estudar.”

O turismo como resistência

Paralelamente à melhoria que se verifica na área econômica, assiste-se, já há alguns anos, a uma lenta recuperação da produção editorial

Caridad Ramos é responsável pelo “Projeto Andorinha” que, concebido em 1995, reúne em seus ateliês de música, de artes plásticas, de representação teatral e de marionetes, cerca de 85 pessoas, entre crianças e adultos, formados por sete instrutores de arte. Poucos recursos, mas muito entusiasmo. Há espaço tanto para as inovações quanto para a defesa do repertório tradicional. “Por mais duro que tenha sido, esse ‘período especial’ ajudou-nos”, considera Caridad Ramos. “Os vínculos com a URSS eram sufocantes. Vivíamos agarrados a uma vantagem decorrente de uma situação de proteção, a uma dependência. Muitas vezes, a superproteção esmaga. Leva à preguiça. Agora nós escavamos com mais profundidade do que antes, em busca de nossa identidade.”

Figura central da vida intelectual e cultural, organizador do Festival do Novo Cinema Latino-americano, Alfredo Guevara vai mais longe. Para ele, o colapso da URSS trouxe, ao mesmo tempo, um desastre - no que se refere ao curto prazo - e uma luz - a possibilidade de repensar o mundo e a inserção de Cuba nesse mundo. “Creio que a maior proeza da Revolução talvez não tenha sido a guerrilha, ou sua vitória”, afirma ele, “mas o fato de elaborar um plano de desenvolvimento alternativo em um ano. Evidentemente, os pilares sobre os quais se apoiar haviam sido colocados: biologia, informática, turismo. O recurso ao turismo nada tem de original para um país em desenvolvimento. Mas cuidamos para que seu impulso - abertura comportando muitos aspectos negativos - se fizesse de forma calculada e gradual. Pequena ilha ao lado de um gigante que sempre a quis engolir, resistimos até agora com petróleo e com armas. Hoje, nós o fazemos com o turismo.”

Hotéis de luxo, para estrangeiros

“Às vezes, no interior de uma mesma livraria, existem dois setores: um de venda em pesos e um de venda em moneda cruda (dólar)”, explica uma cubana

Opinião arriscada. Esse turismo em grande escala não é alheio ao desenvolvimento de uma prostituição ora tolerada, ora reprimida, tragédia humana que se converteu em símbolo da erosão dos valores da Revolução. A transição econômica, pondo entre parênteses os objetivos igualitários e provocando um crescimento das desigualdades, coloca o país diante de um real perigo de fratura social. Apesar dos sucessos da retomada econômica, avalia-se que pelo menos 15% da população vivem abaixo do limiar de pobreza. “Nós estamos conscientes disso”, admite Alfredo Guevara. “É por isso que dezenas de milhares de jovens cubanos trabalham passo a passo nos bairros marginalizados, levando-lhes alimentos do corpo e do espírito.”

Em 2000, passaram uma temporada na ilha 1.750.000 turistas - são esperados dois milhões em 2001 - freqüentemente ávidos, em sua maioria, de aproveitar do mais fácil: mulatas, palmeiras e maracas. Como evitar que esse turismo de massa, sob o pretexto de “arrecadar dólares”, puxe a cultura para baixo? Em 1998, o Ministério da Cultura e o Ministério do Turismo firmaram um acordo tendo, como primeira preocupação, inserir o turista no melhor da cultura local.

Varadero, ponto alto do turismo cubano... Ao longo da faixa de areia banhada pelo Oceano Atlântico, as praias espalham-se junto aos hotéis. Somente os estrangeiros desfrutam delas. Os empregados são cubanos, camareiras e carregadores, geralmente ex-professores ou ex-engenheiros. Chocante. Mesmo se o mal, como afirmam os círculos do poder, é transitório... Cinco estrelas, pertencente à cadeia espanhola Meliá, o luxuoso Palace Varadero Meliá foi inaugurado por Fidel Castro no dia 14 de dezembro de 1991. Sua clientela: espanhóis, canadenses, alemães, franceses, portugueses, argentinos etc. Acima da porta do diretor, o cubano Nelson Hernández Sosa, há um retrato do Che. Na parede, uma máxima de José Martí: “A grandeza dos homens não se mede pelo que alcançam, mas pelo que ardentemente desejam alcançar.”

Com a consciência, não com o feijão

Contrariamente ao que se passa entre seus vizinhos do Caribe, da América Central e do Sul, em Cuba a cultura faz parte da vida quotidiana

“Nós realçamos, junto a nossos clientes, a riqueza e a diversidade de nossa cultura, em suas mais altas manifestações”, declara Hernández. “Se Alicia Alonso, a estrela do Balé Nacional de Cuba, foi difícil de convencer – mas, finalmente veio – a Orquestra Sinfônica de Matanzas não se fez de rogada. A cultura e a educação é que enobrecem um povo e, aliás, atraem um turismo mais curioso de espírito do que se poderia imaginar.”

Num dos caminhos que levam ao restaurante, uma banca de objetos de chifre de vaca, mantido por Roberto Pérez Viscaino, morador de Matanzas. Mal acabara de se casar quando começou o ‘período especial’, o que dificultou sua vocação de pintor. Há dez anos, trabalhando oito horas por dia como empregado no hotel, ele pinta à noite. Sua sogra, que emigrou em 1994 com os balseros, vive e trabalha em Las Vegas. Garçonete numa casa de jogos. Depois de ter pensado em se exilar, Roberto decidiu permanecer. “É claro que se enfrenta um monte de dificuldades, mas façamos as contas”, reflete ele. “Somos uma ilha pequena, com um vizinho furibundo. Visitei o Brasil. Vi a violência, o analfabetismo, a fome, as crianças de rua. Quando se compara, você se diz que, afinal de contas, aqui não se está tão mal assim. Há segurança. Você não teme por sua vida, por seus filhos. Evidentemente, eu gostaria de viajar. Para isso, preciso de uma carta-convite, e tenho muita esperança. Minha obra foi premiada no Japão, na Índia. Estou mais interessado em torná-la conhecida do que em ganhar dinheiro.”

Depois que a recuperação econômica começou a dar seus frutos, o discurso dos dirigentes endureceu-se e o momento não é mais de abertura política. Diante do modelo neoliberal, Cuba se orgulha de haver superado as recentes dificuldades, “não com feijão, nem com grãos, nem com calorias, mas com a consciência, com a disposição para superar os problemas, com o patriotismo”, e reivindica mais que nunca a construção de um socialismo “de qualidade superior” àquele do passado.

FMI reconhece progresso social

Nas duas primeiras décadas da revolução, a política cultural oficial havia “incitado” os artistas a seguirem a via de um certo “realismo socialista”

Quando do Forum Social Mundial de Porto Alegre8, uma delegação cubana, calorosamente recebida, convocou para uma “globalização da resistência”. Será que a “ditadura castrista”, encontraria (inclusive, na Europa) um capital de simpatia? O contexto internacional é favorável a isso. Sem dúvida, esse clima incentiva, no interior da ilha, a uma monótona repetição ideológica, tão pesada e sufocante que leva a imaginar como será recebida: intermináveis “mesas-redondas informativas” onde, todas as noites, na televisão, em um ou outro dos dois canais estatais, jornalistas e dirigentes políticos se revezam na responsabilidade de analisar a atualidade, antes que jornais e rádios colham seus comentários para fechamento de edição. Grandes atos das Tribunas Abertas, organizadas a cada semana em uma província, e para onde se dirigem, querendo ou não, centenas de milhares de cubanos a fim de, por exemplo, denunciarem as manobras norte-americanas na ilha de Vieques, na costa de Porto-Rico.

Porém, ao lado do que os gozadores chamam com humor de repeteco, de sonsonete ou de cantilena (a lengalenga, o eterno refrão), para além dos incontestáveis limites à democracia, ninguém pode negar a efervescência cultural de que também são provas revistas com uma surpreendente liberdade de tom, como Temas, que surgiu em 1995 e é dirigida por Rafael Hernández, ou a excelente La gaceta de Cuba, dirigida por Norberto Codina. “Eu continuo a apostar no socialismo em Cuba”, nos diz Aida Bahr que, há três anos, preside os destinos das Edições Oriente, em Santiago de Cuba. “Nosso país, não sem dificuldades, tenta adaptar sua economia à economia de mercado. Se nos deixarem terminar tranqüilos essa reestruturação, Cuba terá em mãos os melhores trunfos para seguir em frente: um povo instruído - o maior investimento foi feito aí, no humano, no capital humano -, uma indústria biotecnológica promissora, uma ciência médica de ponta. Não temos nenhum motivo para dar uma virada de 180 graus e cair nas desgraças dos países vizinhos.”

A declaração não convencerá a todos. Mas, no dia 30 de abril de 2001, quando de sua reunião de trabalho com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o próprio Banco Mundial reconheceu que Cuba, excluídos dos empréstimos aos quais têm acesso os países em desenvolvimento, possui melhores indicadores sociais do que a maioria deles9.
(Trad.: Iraci D. Poleti)




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