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O negacionismo dos manga

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A ofensiva revisionista nos quadrinhos inscreve-se num contexto mais geral. A direita japonesa sempre contestou a visão “culpabilizante” do passado e rejeitou a idéia de agressão, negando as atrocidades cometidas pelo exército imperial

Philippe Pons - (01/10/2001)

Uma onda “revisionista” vem varrendo o Japão nos últimos dez anos, negando com veemência a versão da história nacional que destaca as responsabilidades do país na “guerra da Grande Ásia” (1930-1945). Um expansionismo que começou com a anexação de Taiwan, em 1885, e da Coréia, em 1910, continuando com a criação do Estado-fantoche de Mandchukuo, em 19311.

Contando com a repercussão em uma parte da imprensa, o revisionismo procura se impor no mercado dos manuais escolares, depois de ter invadido o das histórias em quadrinhos (manga), um dos principais meios de comunicação de massa.

O “novo orgulhismo”

Com o apoio de uma parte da imprensa, o revisionismo procura se impor no mercado dos manuais escolares, após ter invadido as histórias em quadrinhos

Essa ofensiva do revisionismo nos quadrinhos inscreve-se num contexto mais geral. A direita japonesa sempre contestou a visão “culpabilizante” do passado e rejeitou a idéia de agressão, negando – ou minimizando – as atrocidades cometidas pelo exército imperial. Ela conseguiu, inclusive, desde meados da década de 50, reintroduzir um controle sobre o conteúdo dos manuais escolares pelo Ministério da Educação, para se opor ao sindicato dos professores (de esquerda).

A batalha pelo conteúdo dos manuais – da qual um exemplo dos que se opõem à “censura” é o professor Saburo Ienaga, que acabou por ter seus argumentos parcialmente reconhecidos pela Corte Suprema em 1997 (32 anos após ter entrado com um recurso na Justiça!) – continua. Depois de uma primeira tentativa dos “revisionistas” de entrarem nesse lucrativo mercado, uma segunda também foi rechaçada: em agosto, praticamente por unanimidade, as 547 comissões educacionais encarregadas de selecionar os manuais do ensino secundário para as circunscrições regionais por que são responsáveis rejeitaram o manual revisionista. 2.

Por outro lado, o revisionismo entrou com força total nos quadrinhos, com Yoshinori Kobayashi, cujas revistas evocam um “novo orgulhismo” (shin gomanizumu), neologismo recorrente em suas publicações, que têm grande sucesso (leia, nesta edição, o artigo “A ‘receita’ do manga revisionista”, de Philippe Pons).

Os grandes clássicos pacifistas

Kobayashi não é o único que utiliza os manga como instrumento para suas mensagens políticas. Do manga proletário (da década de 20 e do pós-guerra, destinado aos trabalhadores e aos oprimidos) ao manga contestador da década de 60 (época das grandes lutas sociais contra o tratado de segurança nipo-americano, e depois, das revoltas estudantis, que propunham uma visão da história nacional em termos de luta de classes), as histórias em quadrinhos japonesas conheceram seus períodos de “engajamento”.

As revistas de Yoshinori Kobayashi evocam um “novo orgulhismo” (shin gomanizumu), neologismo recorrente em suas publicações, que têm grande sucesso

O gênero sofreu um certo abalo com o refluxo ideológico da década de 70, mas os quadrinhos continuaram sendo o veículo para a narrativa de belas páginas da história, como é o caso da monumental obra – por seu volume e por sua qualidade – de Natsuo Sekikawa e Jiro Taniguchi, A Época de Botchan (Botchan no jidai), que pinta os retratos das grandes figuras do início do século como se fossem personagens familiares.

A II Guerra Mundial chega aos quadrinhos na década de 60 com os grandes clássicos pacifistas: Tocado pela Chuva Negra (Kuroi ame ni utarete) e Gen de Pés Descalços (Hadashi no Gen), de Keiji Nakazawa, e Diário de Fuga (Hai no ki), de Shigeru Mizuki.

Uma “ofensa” a Taiwan

No início da década de 90, alguns manga “flertaram” com assuntos espinhosos (tais como o estatuto das forças de autodefesa, em Frota Silenciosa – Chinmoku no kantai), de Kaiji Kawaguchi, onde um comandante japonês declara o submarino que dirige território independente. Mas é com Yoshinori Kobayashi que o revisionismo ganha terreno, com a publicação, a partir de 1995, do Manifesto por um Novo Orgulhismo, na revista bimensal Sapio.

Yoshinori Kobayashi, 48 anos, já era conhecido. Devia sua fama a uma carreira de contestador: no início da década de 90, denunciou o Estado no caso do sangue contaminado que infectou os hemofílicos, e a seita Aum shinri kyo, responsável pelo atentado com gás sarin no metrô de Tóquio, em março de 1995. Foi em meados da década de 90 que se juntou à corrente revisionista que surgira em torno da Escola para uma Visão Liberal da História, dirigida por Nobukatsu Fujioka, professor de Pedagogia da Universidade de Tóquio. Também participa da Associação pela Renovação dos Manuais de História, criada em 1997 em torno de Kanji Nishio, especialista em estudos alemães famoso por sua xenofobia anti-ocidental. Comentarista muito popular de televisão, Kobayashi adora provocações, defendendo suas posições com a lábia de um camelô.

Do manga proletário, da década de 20, ao manga contestador da década de 60, as histórias em quadrinhos japonesas conheceram períodos de “engajamento”

Após a guerra do Pacífico, Kobayashi escolheu Taiwan como tema de sua série do “novo orgulhismo”. Traduzida para o chinês em fevereiro, sua última revista, Sobre Taiwan (Taiwan ron) custou-lhe ser declarado personna non grata na ilha, durante algumas semanas. O elogio que faz à colonização de Taiwan pelo Japão (1895-1945) foi considerado uma “ofensa” pelas autoridades de Taipé.

Exaltação da civilização superior

O sucesso dos quadrinhos de Kobayashi, assim como o dos livros de seus amigos revisionistas, como O que nos Ensinam os Manuais de História (Kyokasho ga oshienai rekishi), de Nobukatsu Fujioka, explica-se por várias razões. Em primeiro lugar, uma consolidação da direita nacionalista que, desde o final da guerra fria, já não hesita em pôr as manguinhas de fora. Com políticos e intelectuais entre seus quadros, ela é sustentada por uma parte do empresariado e por seitas religiosas, e ainda tem bastante espaço em jornais como Sankei.

Na retaguarda, paralelamente à reabilitação do passado – destinado a restaurar junto às gerações jovens um “sentido da Nação” que teriam perdido –, e à exaltação da superioridade da civilização japonesa, surgem questões muito além das polêmicas sobre a história: particularmente a revisão da constituição, e em especial o seu Artigo 9, que proíbe o Japão de recorrer à guerra e impede sua participação em um sistema de defesa regional coletiva.

A falta de uma contraposição

A II Guerra Mundial chegou às histórias em quadrinhos na década de 60 com os grandes clássicos pacifistas de Keiji Nakazawa e de Shigeru Mizuki

O revisionismo aproveita-se de um vago clima de insegurança provocado por uma crise econômica cujo custo social apenas começa a se fazer sentir. Uma parte de uma opinião pública fragilizada é receptiva à sua mensagem: uma reabilitação do passado, permitindo um retorno aos valores tradicionais de um “lindo Japão”, e a resistência, simultaneamente, à globalização, afirmando uma especificidade cultural que sempre foi, desde a abertura do Japão no século XIX, o discurso salvador.

Como bons populistas, os revisionistas sabem responder à atração dos japoneses pela história “contada”: o romance histórico é um dos grandes filões da literatura popular, como prova o enorme sucesso de Ryutaro Shiba (falecido em 1996), um talentoso explorador da memória nacional3. Sem jamais atingir, nem de longe, a qualidade dos grandes romances históricos, os quadrinhos de Kobayashi abundam de pequenas historinhas que deliciam um enorme público.

O que atualmente falta no Japão – cujos historiadores exploraram as páginas mais sinistras do passado nacional – é uma história destinada ao grande público, capaz de se contrapor a um negacionismo que tende a manter sua influência no mercado dos meios de comunicação.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Estado-vassalo criado pelo Japão na Manchúria (norte da China), que colocou à sua frente o ex-imperador chinês Pu-yi.
2 - Ler, de Arnaud Nanta, “L’actualité du révisionnisme historique au Japon”, revista Ebisu nº 26, primavera-verão de 2001, publicada pela Maison franco-japonaise (www.mfj.gr.jp)
3 - Seu livro Só o Último Xogum (Seul le dernier Shogun) foi publicado em francês, pela editora Philippe Picquier.




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