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ERA DA GUERRA ASSIMÉTRICA

Dinheiro ou bombas?

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O efeito dos atentados foi a expressão de um pensamento obtuso: “agressão contra o estilo de vida, devida ao ódio à nossa prosperidade e à nossa paz”

Saskia Sassen - (01/10/2001)

Pouco importa, neste caso, se os Estados Unidos contabilizam cinqüenta milhões de pobres e uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo!...

Acontecimento especialmente desestabilizador para a primeira potência global, os ataques perpetrados contra Nova York e Washington parecem não ter abalado as análises dos dirigentes e comentaristas norte-americanos sobre a situação do mundo global em que estamos mergulhados. O efeito foi muito mais, ao menos no primeiro momento, a expressão de um pensamento obtuso. O que se ouviu nos primeiros dias foram: “agressões contra nosso estilo de vida, devidas ao ódio à nossa prosperidade e à nossa paz” – pouco importa, neste caso, se os Estados Unidos contabilizam cinqüenta milhões de pobres e uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo! – como se o problema se restringisse a uma simples “inveja” de um hemisfério Sul que cobiçasse o modo de vida ocidental.

Ninguém formulou a hipótese de existir, nesse Sul, um profundo sentimento de injustiça que nada tem a ver com “inveja”; ninguém sugeriu a possibilidade de que “nosso modo de vida” tenha por conseqüência o aumento da fome, do desmatamento e do fardo da dívida no Sul global; nem que os objetos dessa cólera fossem as poderosas empresas e os governos do Norte global, muito mais do que nosso “modo de vida”.

Um fator crucial da pobreza

É evidente que a devastação sócio-econômica não é a única responsável pelo ato político extremo que é o terrorismo, pois deve haver uma motivação específica que alguns fundamentalistas islâmicos encontram no choque contra o Ocidente, mas que as milícias da Bósnia ou as gangues das cidades devastadas dos Estados Unidos encontraram em outros alvos. De qualquer forma, é indiscutível que o crescimento das desigualdades mundiais é uma das causas profundas dessa exasperação. A armadilha da dívida está acionada sobre muitos países, incapazes de mobilizar recursos necessários para o seu desenvolvimento, e constitui um dos elementos essenciais de uma paisagem em que a raiva e o desespero se ampliam.

De qualquer forma, é indiscutível que o crescimento das desigualdades mundiais é uma das causas profundas dessa exasperação no hemisfério Sul

Para muitos desses países, a dívida não é um fenômeno novo, e a maioria dos próprios países ricos também está endividada. Contudo, a década de 90 marcou uma virada na história da dívida, transformando-a em fator crucial da pobreza do Sul global, que agora se encontra estruturalmente impossibilitado de resolvê-la. Se o montante em questão representa uma pequena fração dos 83 trilhões de dólares correspondentes ao mercado global de capitais, não deixa de ser um fator preponderante na situação político-econômica do Sul.

A receita do desastre

Por não se tratar de empresas endividadas, mas de países, a armadilha da dívida acaba por aprisionar também os países ricos: traduz-se, efetivamente, pela explosão do tráfico ilegal de seres humanos1 , de drogas, de armas; pela reincidência de doenças que acreditávamos estarem sob controle; pela destruição programada de um ecossistema cada vez mais frágil... Hiper-endividados, uns cinqüenta países estão impossibilitados de sair dessa situação. Não se trata mais de falar em pagamento da dívida, mas de uma nova condição estrutural, que implica inovações, para que esses países possam continuar pelo menos a sobreviver. A organização da dívida, seu serviço e a maneira como se insere na economia dos países endividados demonstram que a maioria destes jamais estará em condições de pagá-la integralmente, nas atuais circunstâncias. Na maioria dos países mais endividados, a proporção serviço da dívida/Produto Nacional Bruto excede, e muito, os níveis já considerados como inadministráveis quando da crise da década de 80 na América Latina; na África, esse número é atualmente de 123%! O Fundo Monetário Internacional exige a esses países que destinem ao serviço da dívida pelo menos de 20% a 25% de suas receitas com exportação... A título de comparação: quando os aliados, em 1953, reduziram a dívida de guerra alemã em 80%, o nível de reembolso exigido era avaliado em 3% a 5% das exportações – uma taxa comparável ao que foi exigido, após a queda do Muro, dos países da Europa central.

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O Fundo Monetário Internacional exige aos países pobres que destinem ao serviço da dívida pelo menos de 20% a 25% de suas receitas com exportação...

São muitas as opções que permitiriam tirar esses países da arapuca. De saída, é preciso salientar que a necessidade de importação de bens ocidentais lhes impõe o uso de divisas fortes. Uma possibilidade seria um mecanismo que lhes permitisse regulamentar as compras com suas próprias divisas. Da mesma forma, os déficits comerciais de um país em vias de desenvolvimento são inevitáveis: entre 93 países com rendas baixas ou médias, apenas 11 conseguiram, em 2000, superávits comerciais. Esses países precisam exportar mais, como prova a decisão da Organização da Unidade Africana, em fevereiro de 2001, de criar uma Agência Comercial de Seguros africana. E, finalmente, a maioria dos países do Sul global é fortemente dependente das importações de petróleo, alimentos e bens manufaturados. Para isso recorrem a empréstimos, o que os endivida e, automaticamente, provoca a queda de suas moedas e aumento de suas dívidas (calculadas em moedas fortes) de forma inversamente proporcional. Os países desenvolvidos, sem correr esse risco monetário, obtêm empréstimos a taxas de juros menores. Essa é a receita do desastre.

Mobilização contra a guerra

O que o mundo precisa não é de um credor destinado, em última instância, a socorrer os investidores, mas de um credor que permita, em primeira instância, os países do Sul financiarem, com suas próprias divisas, os investimentos necessários em matéria de desenvolvimento. Isso tornaria os governos pobres menos dependentes dos organismos de empréstimos privados – que pedem divisas fortes, exigem bônus suplementares e não aceitam moedas fracas.

O que o mundo precisa não é de um credor para socorrer investidores, mas que permita os países financiarem o desenvolvimento com suas próprias divisas

Com uma certa ironia, um amigo resumia a situação da seguinte maneira: “Ao invés de afogar o Afeganistão em bombas, não seria melhor lutar contra o terrorismo lançando uma chuva de dólares?” O dinheiro e as bombas – duas linguagens universais. Diante da perspectiva da guerra e da escalada da violência resultante, tanto no exterior, quanto no interior do país, esboça-se neste momento, nos Estados Unidos, um movimento que parece tomar consciência de que o desafio principal não é a vingança. Em Nova York, como em outras cidades, já ocorreram muitas manifestações contra a guerra. Nos programas radiofônicos das estações livres, ouvem-se muitos jovens, de diversas preferências partidárias, expressarem o medo de um contra-golpe terrorista caso o país entre em guerra. Nos lugares de memória improvisados nas praças, e próximo às estações de bombeiros, milhares de mensagens foram depositadas, quase todas se opondo à guerra – e isto, apesar do dilúvio patriótico e do slogan “Eles não conseguirão destruir nosso modo de vida”.

A interconexão crescente do mundo confere um novo significado às antigas assimetrias, criando outras, novas. O crescimento da dívida, da pobreza e da doença no Sul global começa a atingir também o coração dos países ricos. Se recusamos a linguagem da razão humanitária, deixemos ao menos que nosso próprio interesse no guie nessa crise em direção a uma renovação da reflexão e da ação.
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Saskia Sassen, “Mas por que emigram?”, Le Monde diplomatique, novembro de 2000.




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