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CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES

Muçulmanos, cidadãos do mundo

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Em parte, o Ocidente é responsável, mas não podemos negar nossa responsabilidade na escalada de um islamismo política e socialmente totalitário, organizado com base em grupos armados que fazem uma interpretação unilateral dos textos sagrados

Hicham Ben Abdallah El Alaoui - (01/10/2001)

A existência de uma rede capaz de tamanha violência em nome do Islã obriga-nos a esclarecer a nossa posição com relação ao “fundamentalismo islâmico”

O mundo mudou, depois dos atentados de 11 de setembro. Se os culpados ainda não tiverem sido identificados com segurança, muito provavelmente fazem parte de uma rede transnacional de fundamentalistas islâmicos. Que essa rede seja dirigida pela figura quase mítica de Osama bin Laden ou por qualquer outro, esses atentados nos obrigam a examinarmos suas conseqüências globais para os países árabes-muçulmanos e para o mundo.

Os odiosos ataques alimentam-se, no mundo árabe-muçulmano, da raiva e da humilhação dos povos abandonados por uma ordem mundial que os marginaliza. A existência de uma rede capaz de tamanha violência em nome do Islã obriga-nos – a nós, muçulmanos – a esclarecer a nossa posição com relação ao “fundamentalismo islâmico”. Em parte, o Ocidente é responsável, mas não podemos nos esquivar de nossa própria responsabilidade. Refiro-me à escalada de um islamismo política e socialmente totalitário, organizado com base em grupos armados, que fazem uma interpretação unilateral dos textos sagrados.

Elites distantes do povo

A maioria dos muçulmanos quer viver sua religião em paz, lado a lado com seus vizinhos de confissões diferentes, usufruindo das novas possibilidades que lhe oferece o mundo contemporâneo. Não procuram, de forma alguma, obrigar os cidadãos de um país – muçulmanos ou não-muçulmanos – a adotar um modo de vida único. Assim como não pretendem travar uma guerra contra o mundo para propagar sua religião. Essas tensões entre um modo aberto e um modo totalitário de viver sua religião não dizem respeito exclusivamente aos muçulmanos. Nos Estados Unidos, existe uma corrente de fundamentalistas cristãos que usa uma linguagem digna de Osama bin Laden. Em nome das reivindicações religiosas de um “Grande Israel”, os colonos judeus extremistas também estão dispostos a levar o mundo à guerra.

A influência dos movimentos islâmicos radicais sobre as massas deserdadas das sociedades muçulmanas tem por efeito isolar ainda mais as elites muçulmanas cosmopolitas. Elites que vivem confortavelmente, sob regimes que continuam a tolerar as desigualdades e a pobreza maciça. Regimes que começaram por se utilizar dos movimentos fundamentalistas como contra-peso, para reprimir outras formas de oposição.

Um desafio aos muçulmanos

Nos próprios Estados Unidos, existe uma corrente de fundamentalistas cristãos que usa uma linguagem digna de Osama bin Laden

O sucesso dos fundamentalistas prova que os muçulmanos amantes da liberdade não souberam defender sua causa com eloqüência suficiente, assim como mostra a urgência do trabalho por ser feito. Na modernidade de um mundo multi-étnico, multi-cultural e multi-confessional, cada muçulmano tem por obrigação defender com fervor um Islã tolerante. Isso significa que também devemos defender a justiça social, as instituições políticas democráticas e as relações internacionais que respeitem a dignidade e a soberania de todas as nações.

Esses compromissos exigem muita coragem política. Sem a qual não conseguiremos impedir que o Islã caia nas mãos de assassinos, que o deturpam. Nada existe de contraditório em ser, ao mesmo tempo, muçulmano, defensor dos oprimidos, dos palestinos, e cidadão do mundo moderno. Devemos lutar por essas idéias em nossos respectivos círculos sociais e aceitar o desafio. Os acontecimentos de 11 de setembro vieram lembrar-nos da urgência dessa tarefa. Foi a nós, muçulmanos, que os autores dos ataques lançaram um desafio. Temos que enfrentá-lo.

Os perigos que decorrem desses acontecimentos são extremamente graves. Não se trata de uma ação terrorista comum, como as que são perpetradas pelo IRA, pelo ETA ou pelos palestinos, durante a década de 70, por exemplo – ou mesmo como os recentes “atentados-suicidas”, no Oriente Médio. Essas ações tinham por objetivo chamar a atenção para uma ofensa, ou vingar uma ação específica. Constituem sempre um apelo à reparação de algo que é entendido como uma injustiça. E a responsabilidade por elas é reivindicada para lhes dar um sentido político.

Uma insurreição geral dos muçulmanos

Em nome das reivindicações religiosas de um “Grande Israel”, os colonos judeus extremistas também estão dispostos a levar o mundo à guerra

Os atentados de 11 de setembro não estão vinculados a qualquer situação precisa. Não têm por objetivo principal compensar um erro específico. Inscrevem-se numa estratégia apoiada em uma convicção religiosa, cujo objetivo é empreender uma guerra global contra o “Ocidente”, levando um “mundo muçulmano” à vitória.

O grupúsculo responsável pelos ataques sabe que não irá desfechar esse tipo de conflito a menos que consiga provocar, entre uma parcela considerável de muçulmanos, a raiva e a determinação absolutas que motivam os poucos milhares de membros do seu movimento. Daí, a recusa, lógica, em reivindicar os atentados. A finalidade é provocar um conflito mais amplo. Os autores dos ataques querem que seja difícil saber exatamente a quem condenar e a quem contra-atacar; que seja difícil evitar represálias contra um amplo conjunto de alvos muçulmanos, na esperança de que essas represálias cegas aticem a raiva de todos os muçulmanos.

Conseguiriam, então, provocar o mais cego dos contra-ataques, cujas vítimas seriam os muçulmanos. Se conseguirem esse objetivo, terão vencido uma batalha decisiva e irão se preparar para levar adiante, de forma ainda mais forte, a batalha seguinte. A insurreição generalizada do mundo muçulmano – sua única esperança de vitória – ficará mais perto.

O perigo nuclear iminente

A influência dos movimentos islâmicos radicais sobre as massas deserdadas das sociedades muçulmanas tem por efeito isolar ainda mais as elites

Devemos encontrar imediatamente os autores desses ataques, que de há muito vêm falando em guerra santa e que, também há muito tempo, consideramos simplesmente como marginais. Atraíram sobre si a atenção do mundo inteiro, obrigando-nos a compreender a sua determinação. Quem conheça o mundo muçulmano não terá dificuldade em imaginar uma insurreição dessa natureza – senão na escala apocalíptica pretendida pelos piratas, pelo menos em escala regional ou nacional.

Como seria possível que alguns milhares de indivíduos fabriquem sua versão de um “choque de civilizações” que ninguém deseja? Basta examinar as possíveis conseqüências das represálias norte-americanas para constatar que os piratas do ar talvez tenham resposta para essa pergunta.

Os Estados Unidos revidarão a esses atentados com o uso da força, não apenas por vingança, mas porque os atentados não irão terminar se não forem cortados pela raiz. Mas, devido aos argumentos citados, é difícil identificar a raiz. Pois, trata-se de uma rede pequena, bastante difusa e escondida, cujos membros circulam entre uma massa de pessoas que partilham de suas frustrações. O conflito poderia fugir do controle de todo mundo. Um ataque norte-americano contra o Afeganistão significaria um desafio ao Paquistão. E ninguém gostaria de ver instalar-se um regime islâmico do tipo Taliban num país que tem armas nucleares. Como reagiria a Índia, outra potência nuclear? E a China? Como reagiriam os russos na Chechênia – e em todo o Cáucaso?

Uma reavaliação da estratégia

Os próximos acontecimentos irão refletir sobre as comunidades muçulmanas dos Bálcãs, assim como as da Europa Ocidental, de implantação mais recente. Se os Estados Unidos não obtiverem resultados rapidamente, e à altura do drama, correm o risco de optar por uma perigosa escalada. Se atacarem o Iraque, o conflito se ampliará e então a desordem não poupará país algum.

É por isso que a estratégia norte-americana mais eficaz consiste em atacar um alvo preciso. Paralelamente, os norte-americanos deverão resistir à tentação de pressionar os governos árabes para que persigam injustamente correntes islâmicas pacíficas, o que provocaria um círculo vicioso, no plano nacional, que deve ser evitado. Um isolamento dos culpados, a dissuasão de novos recrutamentos e o impedimento de uma insurreição somente serão possíveis através de uma abordagem conjunta.

Essa estratégia necessita de uma reavaliação fundamental da política norte-americana com relação às sociedades árabes e muçulmanas. Em primeiro lugar, os Estados Unidos deverão exigir o fim da ocupação, por Israel, dos territórios palestinos e aceitar o direito destes a um Estado independente cuja capital seja Jerusalém, cidade sagrada para todos os muçulmanos.

A globalização da violência

Um ataque norte-americano ao Afeganistão significaria um desafio ao Paquistão. E como reagiria a Índia, outra potência nuclear? E a China?

Essa revisão da política norte-americana é uma condição indispensável a qualquer “vitória”, nesta “guerra de novo tipo”. Pedidos de paciência e promessas de tratar do problema da Palestina depois de resolver o do terrorismo já perderam a credibilidade. Essa carta já foi usada demais: a última vez foi durante a guerra do Golfo, há dez anos, e os resultados continuam sendo aguardados. É em função do que os Estados Unidos decidirem fazer, ou deixar de fazer, a respeito desse assunto que centenas de milhões de muçulmanos – e muitos europeus – tomarão uma posição, de imediato, com relação a eles.

Os Estados Unidos também devem avaliar a sua responsabilidade na criação de um “terrorismo” que se voltou contra eles. Foram eles que incentivaram esse “terrorismo”, criando redes para seus próprios fins e apoiando regimes repressivos que aterrorizam seus próprios povos. Irão eles fazer uma avaliação crítica desse recurso a fanáticos – como é o caso em inúmeros países árabes – para servir seus propósitos?

A violência foi globalizada. Os conflitos, as injustiças e as vítimas de “lá longe” batem à nossa porta. Quem fala em política internacional, fala em política local, e os dirigentes terão que responder por seus atos perante o mundo inteiro. A pobreza, a desigualdade, a repressão e a arrogância são problemas que devem ser resolvidos. A devastação causada pela globalização neoliberal se faz sentir tanto em Wall Street como nos vilarejos da Ásia central. Trata-se de problemas de segurança global. E, desta vez, ninguém tem o direito de errar.
(Trad.: Jô Amado)




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