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Barenboïm e o tabu Wagner

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Há três meses, o maestro Daniel Barenboïm (israelense) executou (em Israel) um trecho da ópera ’Tristão e Isolda’, de Wagner (músico-símbolo do nazismo), o que lhe valeu a execração pública. Um escritor (palestino) sai em defesa de Barenboïm e da arte

Edward W. Said - (01/10/2001)

A tempestade desencadeada em Israel pelo concerto, realizado no dia 7 de julho de 2001, pelo notável pianista e regente Daniel Barenboïm, durante o qual executou um fragmento para orquestra de uma ópera de Richard Wagner, merece toda a nossa atenção. Esse bom amigo, devo esclarecer de saída, tornou-se desde então objeto de uma avalanche de críticas, de insultos e de censuras escandalizadas. Isso porque Richard Wagner (1813-1883) era, ao mesmo tempo, um grande compositor e um notório anti-semita (e por esse motivo, profundamente repugnante). E porque, bem depois de sua morte, foi o músico preferido de Hitler, tendo sido, de uma maneira geral e não sem razão, associado ao regime nazista e ao terrível destino de milhões de judeus e de outros povos “inferiores” exterminados por esse regime.

Várias décadas após sua morte, Richard Wagner, um notório anti-semita, tornou-se o músico preferido de Hitler. Sua música foi proibida em Israel

Se, às vezes, é tocada nas rádios e se gravações se encontram à venda no país, de fato, a apresentação pública da música de Wagner é proibida em Israel. Para inúmeros judeus israelenses, essa música - rica, de extraordinária complexidade, e que influenciou enormemente o universo musical - acabou, de certo modo, simbolizando os horrores do anti-semitismo alemão.

Um gênio intragável

É preciso deixar claro que muitos europeus não-judeus rejeitam Wagner por razões semelhantes, sobretudo nos países que sofreram a ocupação nazista durante a II Guerra Mundial. O caráter grandiloqüente, “germânico” (adjetivo excessivamente empregado) e tão imperioso de sua obra, composta exclusivamente por óperas, o apego ao passado, aos mitos, às tradições e às realizações germânicas, sua prosa incansável, prolixa e pomposa sobre as raças inferiores e os heróis sublimes (e germânicos), fazem de Wagner um personagem difícil de aceitar e, mais ainda, de gostar ou de admirar.

Entretanto, é inegável que ele foi, incontestavelmente, um gênio, no que se refere ao teatro e à música. Revolucionou a concepção de ópera, transformou completamente o sistema tonal e criou dez grandes obras-primas, dez óperas que figuram no pináculo da música ocidental. O desafio que lança, não só aos judeus israelenses, mas a todos, é o seguinte: como admirar e interpretar sua música, dissociando-a de seus escritos odiosos e da utilização que deles fizeram os nazistas.

Uma proposta ousada

Como Daniel Barenboïm muitas vezes enfatizou, nenhuma das óperas de Wagner contém elementos diretamente anti-semitas. Para falar sem rodeios, se Wagner expressava em seus panfletos o ódio pelos judeus, estes - enquanto judeus, ou personagens judeus - não se encontram, de modo algum, em sua obra musical. Inúmeros críticos descobriram vestígios de anti-semitismo em algumas personagens que Wagner trata com desprezo e escárnio nas óperas; mas trata-se, aqui, de imputações, e não de provas de anti-semitismo. Se é inegável a semelhança entre Beckmesser - personagem insignificante de Die Meistersinger von Nürenberg, única ópera cômica de Wagner - e as caricaturas que geralmente se faziam dos judeus na época, não é menos verdadeiro que Beckmesser representa, na ópera, um cristão alemão e não, é claro, um judeu. Em seu espírito, Wagner fazia uma distinção entre os judeus na realidade e os judeus em sua música: prolixo em seus escritos, não falava sobre eles em sua obra musical.

É preciso deixar claro que muitos europeus não-judeus rejeitam Wagner por razões semelhantes, sobretudo nos países que sofreram a ocupação nazista

Seja como for, as obras de Wagner, por consenso, nunca haviam sido apresentadas em Israel antes do dia 7 de julho de 2001. Além da Orquestra Sinfônica de Chicago, Daniel Barenboïm dirige a Berliner Staatoper (Ópera de Berlim), que realizou três concertos consecutivos em Jerusalém. Inicialmente ele havia programado, para o dia 7 de julho, um espetáculo que incluía o primeiro ato da ópera Die Walküre. A pedido do diretor do Festival de Israel, que o havia convidado e à orquestra alemã, Daniel Barenboïm substituiu o referido ato por obras de Schumann e de Stravinsky. No final do concerto, Barenboïm propôs ao público apresentar, como bis, um curto fragmento de Tristan und Isolde. Provocou um debate contraditório entre as pessoas do auditório e anunciou, finalmente, que tocaria o fragmento, sugerindo, aos que se sentissem chocados com o fato, que deixassem a sala, o que alguns fizeram. A obra de Wagner foi bem recebida por um auditório de 2.800 israelenses que ficaram encantados e, tenho certeza, foi extremamente bem interpretada.

Uma vida de iconoclasta

Entretanto, os ataques contra Barenboïm não cessaram desde então. No dia 25 de julho de 2001, a imprensa informava que a Comissão do Knesset (Parlamento) responsável pela Cultura e pela Educação “convocava os órgãos culturais de Israel a boicotarem o maestro (...) por haver tocado a música do compositor preferido de Hitler por ocasião da mais importante manifestação cultural de Israel, enquanto ele não se desculpar”. O músico, que sempre se considerou israelense apesar de haver passado os primeiros anos da infância na Argentina, tornou-se objeto de ataques maldosos por parte do Ministério da Cultura e de outras sumidades.

Ele cresceu em Israel, freqüentou a escola hebraica e tem um passaporte israelense além do passaporte argentino. Figura central da vida musical do país durante anos, sempre foi considerado um grande trunfo cultural de Israel, mesmo se, desde o fim da adolescência, viveu a maior parte do tempo na Europa e nos Estados Unidos. Por circunstâncias que se devem a razões profissionais: foi quase sempre fora de Israel que lhe apareceram perspectivas importantes. Ter dirigido e tocado em Berlim, Paris, Londres, Viena, Salzburgo, Beirute, Nova York, Chicago, Buenos Aires e em outros lugares, sempre ocultou o fato de que ele residisse num lugar preciso. Em certa medida, como veremos, essa vida cosmopolita, até iconoclasta, é uma das causas da grande cólera que se abate sobre ele desde o incidente Wagner.

Um talento reconhecido por todos

O caráter grandiloqüente, “germânico”, imperioso e racista de sua obra faz de Wagner um personagem difícil de aceitar e, mais ainda, de admirar

O personagem, contudo, é complexo, o que também explica a tempestade que provocou. Todas as sociedades são constituídas, majoritariamente, por cidadãos médios – pessoas que seguem caminhos já abertos – e por um pequeno número que, em virtude dos talentos que possuem e de uma inclinação à independência, não são nada medianos e questionam a maioria ordinariamente dócil, e até a ofendem. Os problemas sobrevêm quando essa maioria dócil tenta, dentro de sua visão das coisas, reduzir, simplificar e codificar as pessoas complexas que não seguem rotinas e que formam uma minúscula minoria. O choque é inevitável – quando os seres humanos se reúnem em grande número, têm dificuldade para tolerar alguém visivelmente diferente, mais dotado e mais original que eles – e suscita, de modo infalível, a raiva e a irracionalidade entre a maioria. Vejam o que Atenas fez a Sócrates, culpado de ser um gênio que ensinava a juventude a pensar por si mesma e a saber duvidar: ela o condenou à morte. Os judeus de Amsterdã excomungaram Espinosa, cujas idéias estavam acima de suas capacidades de compreensão. Galileu sofreu o castigo da Igreja. Al-Hallaj1 foi crucificado por causa de seus pensamentos visionários. E vem sendo assim há séculos. Barenboïm é um personagem talentoso, absolutamente fora do comum, que transpôs muitas linhas vermelhas e violou muitos dos tabus que amarram a sociedade israelense. Isso merece abordar alguns detalhes.

Inútil lembrar que, musicalmente falando, Barenboïm é excepcional. Possui todos os dons possíveis e imagináveis que fazem um grande solista e um grande regente – uma memória perfeita, uma competência, e mesmo uma inteligência técnica notável, a capacidade de tocar o público e, principalmente, um imenso amor pelo que faz. Nada do que diz respeito à música está fora de seu alcance ou lhe é demasiado difícil. Demonstra, em tudo o que faz, um domínio aparentemente sem esforço - talento que lhe reconhecem todos os músicos vivos hoje.

A quintessência do mal e do anti-semitismo

Mas as coisas não são tão simples. Tendo passado os primeiros anos de sua vida na Argentina, onde se fala espanhol, e depois em Israel, onde se fala hebraico, possui as duas nacionalidades sem possuir, de fato, nenhuma. A partir do fim da adolescência, não viveu realmente em Israel, preferindo a atmosfera cosmopolita e cultural dos Estados Unidos e da Europa onde, atualmente, ocupa dois cargos que estão entre os de maior prestígio do mundo musical: regente da que, sem dúvida, é a melhor orquestra norte-americana, e diretor de uma das mais antigas e admiráveis companhias do mundo. Isso, continuando sua carreira de pianista. Se pôde levar esse tipo de vida itinerante e ver seus méritos tão reconhecidos, não foi, é evidente, por se dobrar constantemente às normas de pessoas comuns mas, muito pelo contrário, por saber ir além das conveniências e transpor as barreiras.

O trecho da ópera de Wagner foi bem recebido por um auditório de 2.800 israelenses que ficaram encantados e, naturalmente, foi muito bem interpretado

Isso é verdadeiro com relação a qualquer pessoa fora do comum, que tem necessidade de viver acima das conveniências da sociedade burguesa. Poucas realizações artísticas e científicas importantes aparecem quando se vive no âmbito estreito que presumivelmente deve regular a vida social e política.

E as coisas se complicam mais ainda. Sua vida é tão rica e ele viaja tanto, sem contar seus dons lingüísticos (fala fluentemente sete línguas), que Barenboïm, de certa forma, se sente em casa em qualquer lugar e em lugar nenhum. O que quer dizer que passa em Israel apenas alguns dias por ano, permanecendo em contato por telefone e pela imprensa. E não viveu somente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, mas também na Alemanha onde, atualmente, passa a maior parte de seu tempo. Pode-se imaginar que, para muitos judeus, que ainda consideram a Alemanha a quintessência do mal e do anti-semitismo, a pílula seja dura de engolir, em especial porque sua música predileta, enquanto intérprete, pertence ao repertório austro-alemão clássico, cujo cerne são as óperas de Wagner (nisso, Barenboïm segue as pegadas de Wilhelm Furtwangler, o maior regente alemão do século XX e outra figura política muito complexa).

Subserviência e bajulação

De um ponto de vista estético, para um músico clássico, trata-se de uma boa escolha, e mesmo de uma escolha inevitável: concentra-se nas principais obras de Mozart, Haydn, Beethoven, Brahms, Schumann, Brückner, Mahler, Wagner, Richard Strauss, sem contar, evidentemente, muitos outros compositores dos repertórios francês, russo e espanhol, nos quais é exímio. Mas a música da Áustria e da Alemanha permanece como centro do repertório; uma música que, por vezes, constituiu enorme problema para alguns filósofos e artistas judeus, sobretudo após a II Guerra Mundial. Arthur Rubinstein, o grande pianista, amigo e mentor de Barenboïm, disse mais ou menos o seguinte: que jamais iria tocar na Alemanha porque, explicou, como judeu, era-lhe difícil passar uma temporada num país que massacrou tantas pessoas de seu povo. E o fato de Barenboïm morar em Berlim, no coração da ex-capital do III Reich, considerada por muitos judeus como portadora, ainda hoje, dos estigmas do antigo mal, lançou, então, a perturbação no espírito de muitos de seus admiradores israelenses.

Em se falando de artistas, dizer que é necessário dar provas de abertura de espírito, que a arte e a política são coisas distintas, é, de fato, um absurdo desmentido exatamente pela maioria dos artistas e dos músicos que mais admiramos. Todos os grandes compositores interessaram-se pela política, de uma maneira ou de outra, e defenderam idéias políticas fortes, algumas parecendo hoje pouco defensáveis, como a adulação do jovem Beethoven por Napoleão, em quem via um grande conquistador, ou a adesão de Debussy à direita nacionalista francesa. Haydn, para citar outro exemplo, foi um empregado subserviente de seu aristocrata mecenas, o príncipe Esterhazy; e até o maior de todos os gênios, Johann Sebastian Bach, que sempre tinha seu lugar de bajulador à mesa de um arcebispo ou na corte de um duque.

A essência da alma alemã

No dia 25 de julho de 2001, uma Comissão parlamentar “convocava os órgãos culturais de Israel a boicotarem” Daniel Barenboïm

Não damos muita importância a essas realidades porque pertencem a um passado relativamente distante. Nenhuma delas nos choca tanto quanto um dos panfletos racistas de Thomas Carlyle, publicado na década de 18602. Mas dois outros fatores devem ser igualmente considerados. Primeiro, a música é uma forma artística diferente da linguagem verbal: as notas não têm sentido estável, ao contrário de palavras como “gato”, ou “cavalo”. Além disso, a música é, quase sempre, transnacional; vai além das fronteiras de um país, de uma nacionalidade ou de uma língua. Não é preciso saber alemão para apreciar Mozart; tampouco é necessário ser francês para ler uma partitura de Berlioz. Deve-se conhecer música: essa técnica extremamente especializada que se adquire à custa de uma laboriosa atenção, que não tem grande relação com assuntos como história ou literatura, ainda que, em minha opinião, seja necessário conhecer o contexto e as tradições em que se insere uma obra musical para se poder, verdadeiramente, compreendê-la e interpretá-la. De certa maneira, a música se parece com a álgebra, embora não por completo, como mostra o caso de Wagner.

Se fosse o caso de um compositor menor, ou de um músico que compusesse suas obras num meio hermético, ou ao menos sem provocar agitação, as contradições de Wagner teriam sido aceitas e toleradas de modo um pouco mais fácil. Porém, Wagner era incrivelmente loquaz: suas declarações, seus projetos, sua música, enchiam a Europa, espalhando-se com ímpeto numa mesma correnteza, sempre exagerados, tentando, como nenhum outro músico, submergir o público. No centro de todas as suas obras, ele reina extraordinariamente egocêntrico, narcíseo, com o ego encarnando, a seus olhos, a essência da alma alemã, seu destino e seus privilégios.

Uma ópera particular em Bayreuth

Evidentemente, não posso discutir aqui a obra de Wagner, mas parece-me importante salientar que o músico procurava a polêmica, a atenção. Sua própria causa, que se confundia com a da Alemanha, e que ele concebia nos termos revolucionários mais extremos, está presente em todas as suas obras. Sua música iria ser uma música nova, uma arte nova, uma estética nova; iria encarnar a tradição de Beethoven e de Goethe e transcendê-los numa nova síntese universal. Na história da arte, ninguém atraiu a atenção como Wagner, nem suscitou tantos escritos e comentários.

Portanto, se os nazistas puderam se apropriar dele, não esqueçamos que outros músicos viram em Wagner um herói e um grande gênio, compreendendo que suas realizações iriam mudar o rumo da música ocidental. Em vida, teve uma ópera particular, quase um santuário, que mandou construir para apresentar seu trabalho na pequena cidade de Bayreuth, onde todo ano se realiza um festival exclusivamente dedicado às suas obras. Bayreuth e a família Wagner eram caros a Hitler e, para complicar mais as coisas, o neto de Richard Wagner, Wolfgang, ainda dirige o festival de verão, onde Barenboïm se apresenta, regularmente, há duas décadas.

Compreendendo e conhecendo o Outro

Surgem problemas quando uma maioria dócil tenta reduzir, simplificar e codificar pessoas complexas, que não seguem rotinas e são uma minúscula minoria

Mas isso não é tudo. Barenboïm é um artista que derruba obstáculos, transpõe linhas proibidas e entra em território tabu. Sem pretender arvorar-se em personalidade política, nunca escondeu sua oposição à ocupação dos territórios palestinos por Israel e foi o primeiro israelense, no início de 1999, a propor dar um concerto gratuito na Universidade de Bir Zeit, na Cisjordânia. Nos três últimos anos (os dois primeiros em Weimar e o último em Chicago), reuniu jovens músicos israelenses e árabes a fim de tocarem juntos – um empreendimento audacioso que tenta ir além da política e do conflito e criar uma aliança na arte não política da interpretação musical.

É fascinado pelo Outro e recusa enfaticamente a irracionalidade inerente à atitude que consiste em dizer que é melhor não conhecer do que conhecer. Como ele, penso que a ignorância não poderia ser uma boa estratégia política para um povo e que, portanto, cada um à sua maneira deve compreender e conhecer o Outro proibido. Poucas pessoas pensam assim, porém, a meu ver – e um número cada vez maior de pessoas se junta a mim – é a única posição intelectualmente coerente. Isso não significa, entretanto, que seja necessário relaxar a defesa da justiça nem a solidariedade para com os oprimidos, abandonar sua identidade ou afastar-se da realidade política. Mas significa que ser cidadão passa pela razão, pela compreensão e pela análise intelectual, e não pela organização e pelo estímulo de paixões coletivas como as que parecem dominar os radicais. Há muito tempo defendo tais idéias, e talvez seja essa a razão pela qual, apesar de nossas divergências, Barenboïm e eu continuamos amigos.

A tirania da maioria

A recusa total, a condenação puramente irrefletida, a denúncia global de um fenômeno tão complexo quanto Wagner é uma coisa irracional e, no fundo, inaceitável; da mesma forma que é estúpida e contraproducente, de nosso lado árabe, a política que, há anos, consiste em utilizar expressões como “entidade sionista”, e em se recusar totalmente a compreender e a analisar Israel e os israelenses, sob o pretexto de que não se pode reconhecer sua existência porque causaram a nakba (catástrofe) palestina. A história tem sua dinâmica própria e, se não quisermos que os judeus israelenses invoquem o Holocausto para justificar as abomináveis violações dos direitos humanos que cometem contra o povo palestino, deveremos, também nós, superar a imbecilidade de dizer que o Holocausto nunca aconteceu e que os israelenses - homens, mulheres e crianças - estão condenados à nossa eterna hostilidade.

O choque é inevitável. Veja-se o que Atenas fez a Sócrates; os judeus de Amsterdã, a Espinosa; a Igreja, a Galileu... Ou Al-Hallaj, que foi crucificado

Na história, não há nada imobilizado no tempo; nada que escape à mudança; nada que esteja além da razão, da compreensão, da análise e da influência. Os políticos e os demagogos profissionais podem dizer todas as bobagens que quiserem e fazer como acharem melhor. Mas, entre os intelectuais, os artistas e os cidadãos livres, é necessário que sempre haja lugar para a diferença de opinião, para outras idéias, meios de questionar a tirania da maioria e, ao mesmo tempo, e o que é ainda mais importante, para fazer avançarem a liberdade e as luzes humanas.

Parâmetros de feiúra e de infâmia

Dificilmente se pode afastar essa idéia como sendo de origem “ocidental” e não podendo, portanto, se aplicar a árabes ou a muçulmanos, tampouco às sociedades e tradições judias. Trata-se de um valor universal que se encontra em todas as tradições que conheço. Em todas as sociedades, existem conflitos que opõem justiça e injustiça, saber e ignorância, liberdade e opressão. Não se trata de tomar esse ou aquele partido porque nos dizem para fazê-lo e, sim, de escolher cuidadosamente e chegar a opiniões que levem em conta todos os aspectos da situação. O objetivo da educação não é acumular fatos nem saber de cor a “boa” resposta, mas ensinar a pensar de maneira crítica por si-mesmo e a compreender a significação das coisas por si-mesmo.

No caso de Wagner e de Barenboïm, a solução mais rasteira consistiria em rotular o maestro de oportunista ou de aventureiro indiferente. É igualmente simplista dizer que Wagner era um ser pavoroso, com idéias reacionárias e que, por conseqüência, sua música, por mais maravilhosa que seja, é insuportável porque infestada do mesmo veneno que sua prosa. E como se poderia provar isso? Quantos escritores, músicos, poetas, pintores sobrariam, se sua arte fosse julgada tomando-se como parâmetro sua atitude moral? E quem decidiria sobre os parâmetros de feiúra ou de infâmia aceitáveis na produção de um artista?

Censura à poesia palestina

Pode-se imaginar que, para muitos judeus, que ainda consideram a Alemanha a quintessência do mal e do anti-semitismo, a pílula seja dura de engolir

Uma vez que se começa a censurar, não há limites teóricos. Penso, ao contrário, que incumbe ao espírito poder analisar um fenômeno complexo como a questão de Wagner em Israel (ou, para tomar outro exemplo, apresentado num célebre ensaio pelo brilhante romancista nigeriano Chinua Achebe, a questão de como deve ser lido Au cœur des ténèbres, de Joseph Conrad, para um africano nos dias de hoje) e levar em conta o mal e a arte.

Um espírito maduro deveria conseguir apreender conjuntamente dois fatos contraditórios: o primeiro, que Wagner era um grande artista; o segundo, que Wagner era um ser humano odioso. Infelizmente, um fato não existe sem o outro. Isso significa que não se deve ouvir Wagner? De modo algum, embora seja evidente que não se deve, absolutamente, infligir a música de Wagner àqueles que ainda ficam perturbados com a associação entre ele e o Holocausto. Entretanto, destacaria que é necessário dar provas de abertura diante da arte. O que não quer dizer que não seja preciso julgar moralmente os artistas culpados de práticas imorais e funestas, e sim, que a obra de um artista não pode ser julgada e condenada unicamente com base nisso.

Notemos um último ponto e uma outra analogia com a situação árabe. Durante o apaixonado debate do ano passado, no Knesset, sobre a questão de saber se os estudantes de segundo grau deveriam ou não ter a opção de ler Mahmoud Darwish, muitos de nós vimos, na violência com a qual a idéia foi atacada, o indício da estreiteza de espírito do sionismo ortodoxo. Lamentando que fosse possível se opor à idéia de que jovens israelenses aproveitassem a leitura de um grande autor palestino, muitas pessoas ressaltaram que não se podia esconder eternamente a história e a realidade, e que semelhante censura não cabia nos programas escolares.

A campanha “anti-normalização”

A música de Wagner suscita um problema parecido, se bem que a associação de sua música e de suas idéias a fatos terríveis represente, inegavelmente, um verdadeiro trauma para aqueles que pensam que os nazistas se apropriaram de um compositor feito sob medida. Mas, em se tratando de um artista da envergadura de Wagner, não era possível ignorar eternamente sua existência. Se Barenboïm não tivesse apresentado sua música em Israel, no dia 7 de julho de 2001, cedo ou tarde algum outro o teria feito. Uma realidade complexa sempre acaba escapando do lacre. Trata-se, pois, de se compreender o fenômeno Wagner, e não de se reconhecer ou não sua existência.

No início de 1999, Daniel Barenboïm propôs dar um concerto gratuito na Universidade (palestina) de Bir Zeit, na Cisjordânia

No contexto árabe, a campanha contra a “normalização” com Israel, um problema urgente, de uma atualidade inteiramente distinta – Israel pratica métodos de punição coletiva e assassinatos cotidianos contra todo um povo cujo território ocupa ilegalmente há 34 anos – não deixa de permitir uma associação com os tabus israelenses que atingem a poesia palestina e Wagner. O problema decorre do fato de que os governos árabes mantêm relações econômicas e políticas com Israel, enquanto certos grupos tentam proibir qualquer contato com os israelenses. Proibir a normalização não é coerente, pois a opressão do povo palestino por Israel – razão de ser de tal proibição – não diminuiu em conseqüência dessa campanha: quantos lares palestinos escaparam da demolição graças às medidas antinormalização? Quantas universidades palestinas tiveram condições de assegurar ensino aos estudantes graças à antinormalização? Nenhuma, infelizmente! E é por isso que eu disse que, para um intelectual egípcio, é preferível ir à Palestina por solidariedade, ensinar, dar uma conferência ou oferecer ajuda médica, do que ficar em casa e impedir que outros o façam. A antinormalização radical não é uma arma eficaz nas mãos de quem não tem poder: seu valor simbólico é pequeno e seu efeito real é apenas passivo e negativo.

Espírito crítico e libertador

Para serem eficazes, as armas dos fracos – como na Índia, na América do Sul, no Vietnã, na Malásia e em outros lugares – são sempre ativas, e até agressivas. Trata-se de colocar o opressor poderoso numa posição de desconforto e de vulnerabilidade, moralmente e politicamente, ao mesmo tempo. Os atentados-suicidas não produzem esse efeito, tampouco a antinormalização que, no caso da luta de libertação na África do Sul, tomou a forma de um dispositivo que incluía o boicote a professores universitários estrangeiros.

Eis porque penso que devemos tentar penetrar a consciência israelense por todos os meios de que dispomos. Dirigir-se ou escrever a públicos israelenses quebra seu tabu em relação a nós. O medo de ser interpelado justamente sobre o que sua memória coletiva apagou está na origem, exatamente, do debate sobre a literatura palestina. O sionismo tentou excluir os não-judeus e, na realidade, boicotando indiferentemente até o próprio nome de “Israel”, nós o ajudamos muito mais do que o detivemos. Num contexto distinto, é por isso que, se feriu profundamente inúmeras pessoas que ainda sofrem os traumas do genocídio anti-semita, a interpretação de um fragmento de Wagner por Barenboïm teve como efeito salutar permitir que o luto vencesse uma etapa, a da própria vida, que deve ser vivida, que deve continuar e que não se pode imobilizar no passado.

Talvez eu não tenha abordado todas as nuanças dessa problemática complexa, mas o essencial a destacar é que a vida não pode ser governada por tabus e proibições que afetem o espírito crítico e a experiência libertadora. Essas medidas merecem tratadas com a maior prioridade, sempre. Não saber e não querer saber não nos abrirão o caminho do presente.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Propagador de uma doutrina sufista inspirada, Al-Hallaj proclamou sua união com Deus; foi executado, acusado de blasfêmia, em Bagdá, em 922.
2 - Historiador e crítico britânico (1795-1881).




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