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COLÔMBIA

A guerra suja do Sur de Bolívar

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Constituído em 1964, o ELN fez do Sur de Bolívar, há cerca de vinte anos, uma de suas trincheiras. Ano após ano, a guerrilha implanta a resistência nesse emaranhado de selvas e de montanhas, onde os militares negociam com os potentados da coca

Maurice Lemoine - (01/10/2001)

É doloroso vê-los sumir por ali adentro. Angustiante. Mas haveria outra opção? Um brilho de emoção nos olhos da mulher: “Nós lhes desejamos boa sorte. E lhes dizemos para tomarem cuidado com os explosivos.” Lá dentro: a mina. E na mina, seus homens, maridos ou companheiros. Chegaram um dia nessa serrania de San Lucas, no alto da espinha dorsal das montanhas da região Sur de Bolívar, em busca da fortuna, do ouro, de um plante, como se diz aqui. Vieram de zonas rurais ingratas ou de cidades não-hospitaleiras, “das cidades em que os ricos têm escolas para educar cachorros e onde o pobre, se come de manhã, não almoça ao meio-dia; se come ao meio-dia, não tem mais nada para jantar”.

A mina. O socavón, essa infame cavidade não mais alta, em alguns lugares, do que um homem ajoelhado, afundando centenas de metros nas entranhas da escuridão. Nem luz nem sistema de arejamento. Apenas o halo de tochas elétricas fixadas por um elástico em volta da testa. Nenhum esteio. A água que pinga, e impregna, agita-se em volta dos tornozelos, maré escura em que, às vezes, é preciso quase rastejar. O poço surge dos abismos, mergulha verticalmente e, no fundo dele, um robusto minerador nos enterra, depois de nos ter descido pela extremidade de uma corda, usando apenas a força de seus braços.

Convivendo com a guerrilha

A mina. O socavón, infame cavidade não mais alta do que um homem ajoelhado, afundando centenas de metros. Nem luz nem sistema de arejamento

Do coração das trevas, com suas unhas, eles extraem a riqueza do país. Um trabalho árduo. Brutal. “Quem tem sorte, tira 20, 50, 100 gramas de ouro. Mas mesmo que consiga, um dia, um milhão de pesos (cerca de 920 reais), vai levar mais três ou quatro meses para achar outro filão”.

Flutuando acima das nuvens, Minavieja parece-se com dezenas de lugarejos empoleirados nos picos da serranía e genericamente conhecidos pelo nome de las minas. Vielas de lama, cabanas de tábuas cobertas com plásticos, duas ou três lojinhas, barulho de feira das cantinas, ronco do gerador de eletricidade, sinucas à noite no meio do barulho das bolas e das tampinhas das garrafas de cerveja que se abrem. Entre a roupa que seca, exércitos de pelados, sim, exércitos de crianças. A escolinha insalubre construída eles próprios, com suas mãos, pelos moradores. Uma professora, remunerada pelo governo e a quem os pais dão um complemento de salário para que não morra de fome. Uma outra professora, inteiramente remunerada pela comunidade. Nenhuma estrada. Mesmo a Igreja católica se esquece de vir aqui batizar as crianças!

No entanto... No entanto, de um desses lugarejos sai um grito sincero, um grito quase insano: “Sou feliz aqui. Vivemos melhor do que lá, onde estávamos! Que o governo nos deixe em paz..” Com um gesto discreto, a mulher cumprimenta um homem de uniforme com uma metralhadora soviética kalachnikov nas costas. É um guerrilheiro.

Prisioneiros em liberdade

Sem qualquer ajuda do Estado, as comunidades se organizaram para construir o pouco que ali existe. Antes, seus habitantes podiam descer para as aldeias San Pablo, Santa Rosa, Montecristo – as cabeceras municipais – que, ao longo do rio Magdalena, circundam a serranía. Isso não acontece mais. Sobretudo se for dirigente, membro da junta de ação comunitária, sindicalista, militante do que quer que seja.

A escolinha insalubre construída pelos moradores. Uma professora, remunerada pelo governo, a quem os pais dão uma ajuda para que não morra de fome

O presidente da Federação agromineira do Sur de Bolívar, José Cediel, há vinte meses não põe os pés fora da zona. Motivo pelo qual ainda está vivo. “Nenhum dirigente pode sair. Ele é assassinado. Somos prisioneiros em liberdade.” Um homem com unhas negras e quebradas resmunga que eles são, sobretudo, camponeses apanhados numa armadilha entre dois fogos. Um pouco mais longe, dois mineradores cruzam com o comandante “Pablo”, chefe do destacamento do Exército de Libertação Nacional (ELN), instalado perto de Minagallo. “Como vai, Pablito?”

Eles continuam ali por amor à terra, mas é muito complicado. “Todo o mundo sabe que a guerrilha vive nas montanhas e que vem até aqui. Mas nós jamais empunhamos um fuzil.” O mesmo se diz muito mais ao norte – ao norte do Sur de Bolívar! –, em Micoahumado. “Não se pode negar a presença da guerrilha no pueblo, isso seria idiota, todo o mundo a vê. Isso não faz de nós uma aldeia de guerrilheiros.”

Negando vínculos óbvios

Na saída de todas as cabeceras municipais, estão espalhadas as barricadas das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) – grupos paramilitares. Esses paracos controlam os comerciantes. Sob o pretexto de prejudicar a guerrilha – que tem seus próprios canais de aprovisionamento – limitam o transporte das mercadorias, proíbem a passagem de pilhas elétricas, botas, combustível, alimentos e medicamentos, impondo um boicote que deixa os habitantes civis dos lugarejos desamparados. “Nós nos endividamos para comprar, e eles confiscam a mercadoria”, suspira um comerciante de Minacaribe que os paramilitares quase arruinaram. “Você corre o risco permanentemente de perder seu dinheiro, quando não a vida.”

Oficialmente “fora da lei”, os grupos de paracos prendem e assassinam a dois passos do destacamento militar de Morales; em San Pablo, a vinte minutos dos destacamentos dos batalhões 47 e Nueva Granada; em Santa Rosa, a meia hora do batalhão Guanes; em Monterrey, San Blas, Simití, “onde são vistos abertamente, com os soldados”... Sem falar de Barrancabermeja, um pouco mais ao sul, porto fluvial e capital petrolífera da Colômbia. Uma cidade entregue à sanha dos assassinos, ao mesmo tempo que ali estão instalados os 5 mil homens dos batalhões 45 e Nueva Granada, das Forças especiais e da polícia. Eles não têm o menor vínculo, repete o governo continuamente, como se recita um Pai-Nosso, mas vivem juntos e se permitem torturar os moradores crucificados.

Um “acordo com os produtores”

Com um gesto discreto, a mulher cumprimenta um homem de uniforme com uma metralhadora soviética kalachnikov nas costas. É um guerrilheiro

Em Micoahumado, há uma lista das vítimas. A mais recente foi Alma Rosa Paramillo, advogada, delegada do Programa de Desenvolvimento e Paz da região de Magdalena Medio, interpelada em Morales no final de junho e cortada em pedaços, viva, por meio de uma moto-serra. Seria possível fazer uma montanha com os cadáveres de todos os que foram torturados até a morte, durante anos. Tanto no Sur de Bolívar quanto em todo o Magdalena Medio1. Vítimas da loucura assassina da guerrilha e das AUC, explicam em Bogotá, onde a palavra paramilitar – que, sem dúvida, diz muito bem o que quer dizer – aos poucos desaparece do vocabulário. Pelo menos, em alguns meios de comunicação.

Constituído em 1964, no departamento vizinho de Santander, o ELN fez do Sur de Bolívar, há cerca de vinte anos, uma de suas trincheiras2. Onde fica o front? Não há. A guerra é feita de surpresas, emboscadas, choques repentinos. De trochas em cerros3, é preciso marchar eternamente até se exaurir. Ano após ano, a guerrilha implanta a resistência nesse emaranhado de selvas e de montanhas, nessas terras em que os militares negociam com os potentados.

Rixas, vinganças, armadilhas... Matam-se com facão e fuzil. “Por 20 ou 30 gramas de ouro, você é assassinado em qualquer canto da floresta.” Quando surgiu nesse purgatório abandonado pelo Estado, o ELN estabeleceu uma série de normas de coabitação entre indivíduos e comunidades. Pôs fim, inclusive, a uma guerra entre costeños (habitantes do litoral) e cachaços (habitantes do interior). “Hoje, não há mais assaltos nas estradas”, sorri o comandante Pablo, à mesa tomando um tinto (café). “Se um ato repreensível afeta um lugarejo, a organização social da comunidade intervém. Quando é mais delicado, vêm-nos procurar. Resolvemos os poucos casos de quebra de contratos implícitos em torno das minas, de roubos de terras, de incidentes devido à embriaguez...” “Se o delito é grave – um assassinato, por exemplo – eles executam o culpado”, completa um pouco mais tarde um camponês, não muito escandalizado. O preço dessa tranqüilidade, por ele reconhecida, é que o ELN recebe um imposto (o ELN prefere a expressão “acordo com os produtores”) sobre as atividades de mineração. Em compensação, não se permite tocar no dinheiro da coca.

A sombra do Plano Colômbia

O presidente da Federação agromineira do Sur de Bolívar, José Cediel, há vinte meses não põe os pés fora da zona. Motivo pelo qual ainda está vivo

E, no entanto, como existe coca! Na década de 80, Pablo Escobar propôs mil preciosos fuzis aos insurrectos em troca da permissão de instalar uma pista de aviação. O ELN recusou. “Nunca tivemos e jamais teremos contato com o narcotráfico”, proclama firmemente o comandante Nicolás Rodríguez Bautista – vulgo “Gabino” –, principal dirigente do ELN, entrevistado em julho “em algum lugar no Sur de Bolívar”. “Concordamos com os que o consideram um flagelo da humanidade. Não me refiro ao governo e à sua dupla moral: todas as instituições do Estado estão gangrenadas pelo dinheiro sujo. Mas, nós preferimos continuar pobres do que entrar nessa!”

Essa posição, diametralmente oposta à das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) – que, após muitas hesitações, decidiram pragmaticamente receber um imposto sobre a coca (o que não as torna um cartel da droga) –, no entanto, não delega ao poder o direito de reprimir os camponeses. Embora desaprove a presença dessa planta do diabo e incite a sua erradicação (como o fazem 200 famílias do município de Morales), o ELN não proíbe as “culturas ilícitas”, consciente da miséria social que constitui seu adubo. “Já temos o exército e os paramilitares como inimigos, não vamos acrescentar os camponeses!”, fala, rindo um jovem guerrilheiro da costa de Pueblogato.

Pois a sombra do Plano Colômbia também paira sobre a área. Os aviões despejam produtos químicos sobre tudo o que pareça vegetação4. Cuspiram seu veneno “ali”, destruindo as bananeiras, “acolá”, matando as culturas de subsistência, e “ali também”... “Ah, aqui não, o ELN estava na montanha, os aviões foram recebidos com uma rajada de balas!”, dizem, às gargalhadas, na divisa de Canelos e Pueblogato.

“Gestos humanitários”

Nessa armadilha colombiana, aparentemente tudo é errado, inextricável, totalmente ilógico. Prisioneiros de sua condição miserável, os camponeses transformam a coca em pasta-base (primeira etapa da fabricação da cocaína). Procissões de mulas descem a mercadoria para San Pablo, Santa Rosa etc., onde os intermediários a vendem aos paracos. Inimigos jurados e assassinos de seus fornecedores. Que o ELN protege, apesar de suas posições de princípio! Ele próprio foi atacado pelos narcoparamilitares, estreitamente ligados à polícia e ao exército, que, com os dólares de Washington, lutam até a morte com as FARC, sob o pretexto de acabar com... o narcotráfico.

Dois mineradores cruzam com o comandante “Pablo”, chefe do destacamento do Exército de Libertação Nacional, próximo a Minagallo. “Como vai, Pablito?”

Como saber o que se passa nas cabeças, quando o silêncio se torna princípio elementar de sobrevivência? A justificativa tímida de uma mulher, em Micoahumado: “As relações não são afetivas. Os guerrilheiros chegam, nos cumprimentam, pedem um copo d’água. Nós damos, é um gesto humanitário”. A sinceridade de um pastor presbiteriano nas profundezas gélidas das minas: “As Santas Escrituras nos ensinam que devemos respeitar todas as leis. Então, respeitamos as da guerrilha. Se tivéssemos armas, talvez fizéssemos outra coisa, mas são eles que têm as armas.” A revolta pouco dissimulada, no calor sufocante de uma vereda: “Todo o mundo sabe onde está a subversão, o que ela faz, por onde se desloca. Por que os paramilitares não a atacam? Que lutem entre si e nos deixem em paz”.

Ouvindo a opinião do outro

É evidente que com o passar do tempo a avaliação da situação se complica de maneira singular. Pois esse robusto cinqüentão que, diante de testemunhas, lançou um barulhento “vamos acabar com esse conflito, não temos nada a ver com isso”, poucas horas depois, na intimidade de uma cerveja, exprime seu pensamento de um maneira mais precisa: “Hombre, o que acontece é que a guerrilha não é perfeita, mas chega sempre com a mão amiga. Não pratica nenhuma violência contra nós.” Esse minerador, tão veemente quando pensava estar entre dois fogos, entra em contradição na manhã seguinte: “A tranqüilidade, a harmonia foram obtidas graças aos guerrilheiros. Enquanto os paracos nos massacram, os compañeros nos orientam, compreendem a situação social em que vivemos.” Quanto àquele que evocava “os grupos fora da lei”, com repugnância, dois dias depois lançou tranqüilamente: “Na guerrilha, você encontra soldados pobres, proletários, eles trabalham pelo bem comum. Eles ajudam nossas aldeias desorientadas a sobreviverem, nós lhes devemos muito.”

Mesmo o pastor presbiteriano, com aparência tão severa, mostra jogo de cintura: “Quando não estamos de acordo com uma de suas decisões, nos reunimos e dizemos. Não vamos fazer isso! Isso já aconteceu. Eles nos explicam suas razões, nós lhes expomos as nossas e, muitas vezes, chegamos a um acordo, eles respeitam nossas opiniões.” Do lado do ELN, o comandante Pablo faz uma análise serena: “Por medo, muitos evitam nos expor sua posição. Na verdade, somente os que são muito próximos de nós o fazem. Os evangélicos também, pois têm uma grande força interior. E outros, não obrigatoriamente simpatizantes, mas que nos conhecem bem. Sua sabedoria e sua capacidade de resistência ajudam a que não tenhamos uma posição hegemônica nessas comunidades. Eles têm sua própria maneira de ver, devemos estar a seu serviço, sempre dissemos isso.” Aceite-se ou não essa opinião como palavra do Evangelho, um fato incontestável salta aos olhos quando se atravessa o Sur de Bolívar em toda sua extensão: há quase sempre uma ternura no ar quando a guerrilha passa. “Se eu sentisse que estava isolado do povo, voltava para casa”, diz, cansado de longas jornadas em mulas e em caminhonetes ao sul das minas sob um sol escaldante, o comandante do destacamento de San Juan.

A tática dos seqüestros

Oficialmente “fora da lei”, os grupos de paracos (paramilitares) prendem e assassinam a dois passos do destacamento militar de Morales; em San Pablo

Mas a Colômbia não agüenta mais. Em 1998, o ELN tornou público seu projeto para acabar com o conflito: a organização de uma Convenção Nacional. Para ser sólida, a paz deve ser fruto de um acordo entre toda a sociedade. Ao chegar ao poder supremo, Andrés Pastrana esquece a proposta. Ele é presidente dos colombianos, chefe do governo, dono do circo pelos próximos quatro anos, a negociação deve passar por ele, não pelo povo. Preferindo se voltar para as FARC, organização consolidada, pragmática, e dialogar com elas “de Estado para Estado” 5, desdenha o ELN, que se considera militarmente enfraquecido.

Os elenos reagem. À sua maneira. Organização de quadros políticos armados, mais que um exército revolucionário, sua força baseia-se mais em suas raízes populares do que em sua capacidade de combate. Não têm a capacidade militar das FARC, que destroçaram o exército em Las Delicias e em Mitú. No dia 12 de abril de 1999, um comando seqüestrou um Fokker da Avianca, entre Bucaramanga e Bogotá, e manteve seus 41 ocupantes em cativeiro, no Sur de Bolívar. No dia 29 de maio, 150 fiéis que assistiam a uma missa, na igreja La Maria de Cali, foram seqüestrados.

Surrealismo à la Locômbia

Se o objetivo da operação era chamar a atenção, teve êxito! Choveram condenações e excomunhões. Surgiram todas os ressentimentos da “sociedade civil” com relação a esses “terroristas”. Pois, é claro, ao assassinar assassinos, a guerrilha torna-se culpada por grandes erros. Sérias derrapagens, quando sabota as infra-estruturas6. Sem esquecer que ela exaspera e gera uma angústia indescritível devido à sua prática de seqüestros em troca de resgates. Suspira, sem cinismo, o comandante “Gabino”: “Eu sei. Para assumir os altos custos da guerra, recorremos a esses ‘confiscos econômicos’, que consideramos uma espécie de imposto. Sempre reconhecemos que não é um método muito... elegante. Dissemos ao governo, à comunidade internacional: tentamos evitar isso. Estamos dispostos a discutir. Por exemplo: o governo recebe impostos, mas não representa a sociedade colombiana. Representa os poderosos. Nós, igualmente colombianos, igualmente patriotas, somos uma força, uma espécie de governo alternativo. Podemos negociar os impostos. Se o Estado nos reverter uma parte, paramos com os seqüestros.”

A proposta parece surrealista, mesmo pronunciada na Locômbia7. Um Estado subvencionando sua oposição armada! O negócio continua evidentemente no ponto morto. E “Gabino”, que nada tem de um romântico arrebatado, continua: “Uma guerra é um monstro, gera brutalidades sem limites. Mas temos um projeto de transformação social, queremos uma redistribuição da riqueza e muita gente nos apóia. A verdadeira lógica humanista é parar o conflito e atacar as causas que o geraram.”

As manifestações “espontâneas”

Embora desaprove a presença da coca e incite a sua erradicação, o ELN não proíbe as “culturas ilícitas”, consciente da miséria social que as incentiva

Pressões do ELN, ações armadas de todos os gêneros, a idéia de uma zona de encontro (zona de encuentro) para organizar a Convenção Nacional acabou se impondo. Fala-se no Sur de Bolívar. A extrema-direita fica furiosa. Por uma razão evidente: os paramilitares de Carlos Castaño tiram 5 toneladas de pasta-base por mês. Participam também da conspiração os belicistas da política e do dinheiro, possuídos por seu egoísmo, ensebados em seus interesses. E o alto comando militar.

O alto comando mais ou menos interiorizou sua retirada no sul, onde as FARC conseguiram uma zona desmilitarizada de 42 mil quilômetros quadrados, na região de Caguán. Mas recuar no norte, na parte povoada do país que afirma controlar, seria recolocar em questão toda a doutrina militar. Recuaram as tropas de choque (que são conhecidas por não respeitarem os direitos humanos). Abandonando a zona fria de Nudo de Paramillo (Cordobá), Carlos Castaño e seu estado-maior fixam acampamento na serranía de San Lucas, em Pozo Azul, entre San Pablo e Santa Rosa. Defende-se o chefe dos paracos diante dos micros e das câmeras complacentes: “Em um ano, teria tirado a guerrilha da serrania. Colocaria minha rede na Teta de San Lucas [o mais alto pico, a duas horas de Minavieja].”

O ex-comandante-em-chefe do exército, Harold Bedoya, e o ex-governador da Antioquia, Alvaro Uribe Velez (candidato da extrema-direita às eleições presidenciais de 2002), junto com o ministro do Interior da época, Humberto Martinez, desenvolvem, nas aldeias submetidas à lei dos paramilitares, dois movimentos que se opõem à “zona de encontro”: Asocipaz e No al Despeje. Amplamente transmitidas pelos meios de comunicação, múltiplas manifestações “espontâneas” de habitantes – que, em sua maioria, desfilavam com uma pistola encostada à têmpora – passariam a clamar incessantemente sua oposição ao estabelecimento do espaço de negociações. Enquanto mais longe, sem interessar a ninguém, uma maioria de mineradores e de camponeses o exigem...

Massacre em La Guarapera

Toda a região se enche de luzes, de fumaça, de explosões. Saindo de suas bases situadas ao longo do rio, os paramilitares lançam uma ofensiva contra as comunidades. Apesar de tudo, o governo confirma, no dia 24 de abril de 2000, a criação da “zona de encontro” nos municípios de San Pablo, Cantagallo (Sur de Bolívar) e Yondo (Antioquia): uma área de 4.727 quilômetros quadrados, com a presença de uma comissão de observação nacional e internacional. No dia 25 de julho seguinte, enquanto guerrilha e o governo se encontravam em Genebra, os representantes do ELN abandonam brutalmente a mesa de negociações: acabam de saber que houve um ataque de 200 paramilitares contra o acampamento de “Gabino”. Durante várias horas, ele não dá sinal de vida. Situado na serrania, próximo de El Diamante e de Vallecito, esse acampamento provisório tinha servido, poucos dias antes, para um encontro entre elenos, o Alto Comissariado pela Paz e participantes da “sociedade civil”, para acertar os últimos detalhes da reunião em Genebra. Somente o exército sabia o lugar certo...

Os narcoparamilitares, ligados aos militares, lutam contra as FARC, com os dólares de Washington, sob o pretexto de acabar com... o narcotráfico

Vallecito e El Paraíso foram completamente destruídos e El Diamante, parcialmente. Os moradores sobreviveram (veremos como). E testemunham: “Podiam ver-se as insígnias dos batalhões Guanes e Heroes de Majagual sob as braçadeiras da AUC!” Uma outra coluna faz uma ofensiva contra Minacaribe e Minagallo. Desemboca em um pico sem vegetação em La Guarapera. Enterrado em algumas modestas trincheiras, o ELN resiste. Uma tempestade de chumbo, o combate durou o dia inteiro. Derrotados, os paramilitares recuaram para Minavieja. “Eram uns 300, mas só uns 40 paracos”, fala, irritado, um mineiro com as mãos negras e rudes. E prossegue: “Os outros eram militares do batalhão Guanes. Muitos foram reconhecidos. Assassinaram José Manuel Quiroz à queima-roupa, na frente das crianças. Em seguida, no cemitério, eles o esquartejaram, obrigando toda a população, na ponta do fuzil, a ver.” Utilizada por seus seqüestradores como escudo humano, para evitar que a guerrilha intervenha, a população fica brava. “Se você fica, te matam. Se foge, também matam.”

Uma operação bem articulada

As pessoas vão embora, como podem, pela floresta, escondendo-se à noite. Um helicóptero civil abastece os atacantes com víveres e munições. Mas quando, no final de 56 dias, a população foi abandonando pouco a pouco os locais, eles se tornaram vulneráveis e bateram, finalmente, em retirada, na direção de La Torreja, foi um helicóptero militar que os tirou do perigo. Assim como em Simití, San Blas, Monterrey e Pozo Azul, viu-se os modernos Black Hawk e a aviação apoiando as AUC.

Dezembro de 2000, Havana (Cuba). Os comandantes, dirigidos por “Gabino”, dão os ajustes finais à regulamentação da “zona de encontro”, na presença de uma delegação governamental dirigida pelo Alto Comissário para a Paz, Camilo Gómez. O poder começa a bloquear a ação dos paramilitares. A 5 de fevereiro, dia em que o ex-general Bedoya e o chefe dos paracos da zona, “Gustavo”, organizam uma enésima manifestação em San Pablo, o exército desencadeia a Operação Bolivar: 3.500 homens “para combater os paramilitares e destruir os laboratórios de produção de cocaína”. Devidamente avisados, os interessados abandonaram o maior laboratório da zona, situado a quinze quilômetros da base militar de Santa Rosa. Dali, toda semana, um helicóptero (tão transparente quanto indetectável) transportava a cocaína até a Caucásia, principal centro de estocagem de Carlos Castaño.

Escorraçando os paracos

Um fato incontestável salta aos olhos quando se atravessa o Sur de Bolívar em sua extensão: há quase sempre uma ternura no ar quando a guerrilha passa

Durante os dois meses de duração da operação, o exército não dá um tiro contra os paramilitares e não recupera uma grama de cocaína. Em compensação, dia 10 de fevereiro, a aviação metralha os arredores de Caño Frio para dispersar um manifestação de cerca de mil camponeses que apóiam a “zona de encontro”. Nas semanas seguintes, vários choques opõem as tropas, “guiadas por paramilitares conhecidos de todo mundo”, a destacamentos da guerrilha. Ataques repetidos, assassinatos (em Machuca), roubos e massacres de gado deixam os moradores arrasados.

O exército recua no dia 10 de abril. Nesse mesmo dia, tendo sido o terreno cuidadosamente preparado, 800 homens das AUC lançam-se ao ataque. Combatem nas zonas de San Pablo, Simití, Santa Rosa, Morales, Arenal e Montecristo. El Paraíso, El Diamante e Vallecito novamente são reduzidas a cinzas. “Se a guerrilha não estivesse presente em lugares estratégicos, estaríamos todos mortos!”, conta uma vítima.

Perto de cada um dos lugarejos desse imenso Sur de Bolívar, encontra-se um destacamento de uns vinte guerrilheiros. Quando surge a tempestade de várias centenas de paramilitares, torna-se impossível resistir. Os elenos atrasam os atacantes, protegem a fuga de centenas de camponeses que correm pela montanha, dão-lhes assistência e os organizam. Em seguida, a guerrilha se reagrupa, junta novamente suas unidades de elite, lhes inflige duras perdas e os paracos batem em retirada. Os moradores recuperam suas veredas.

Entram em cena as FARC

E tem mais. Em sua pressa de ter uma vitória definitiva a qualquer preço, Carlos Castaño e seus mentores militares fizeram uma aposta. Certas de serem capazes de romper facilmente qualquer resistência, suas forças mercenárias estabelecem bases de várias centenas de homens nas trincheiras montanhosas dos insurrectos. Perdendo a mobilidade, e apesar dos helicópteros que os abastecem, eles se entregam à luta. E descobrem que os elenos não são simplesmente rebeldes que conduzem uma guerrilha rotineira: sabem combater, e duramente. Além disso, sendo a questão séria, recebem reforços...

Pressões do ELN, ações armadas de todos os gêneros, a idéia de uma zona de encuentro para organizar uma Convenção Nacional acabou se impondo

Segundo o comandante Pastor Alape, chefe dos 1.000 homens do bloco Magdalena Medio das FARC, “apesar de algumas divergências políticas e ideológicas, meus homens se colocaram ao lado do ELN”. Uma virada: as duas organizações guerrilheiras não costumam manter as melhores relações. Forças especiais conjuntas, sob ordens dos comandantes Pastor Alape (FARC) e “Gallero” (ELN) derrotam os paracos em San Lorenzo. Outras forças conjuntas destroem a base de No Te Pases-Patio Bonito. O ELN atinge Pozo Azul, Buenavista, Cañabraval, La Punta...

“Ausência de vontade de paz”

Em Vallecito, o comandante Marcos, esquelético chefe de uma unidade de elite do ELN, afirmou: “Após três anos de combates, a grande vítima dessa loucura é a população. Perdemos recursos, na guerra isso é normal, e cerca de 60 combatentes, o que também é normal. Mas nossa força está intacta e todos os comandantes estão vivos.”

Derrota militar dos paracos, que foram submetidos a enormes perdas, particularmente de inúmeros oficiais caídos em combate. Atravessando uma gravíssima crise – cuja prova é o abandono, por Carlos Castaño de seu posto de comandante-em-chefe –, recompõem suas forças reagrupadas entre San Blas e Monterrey. Mas, paradoxalmente, oferecem a seus financiadores uma vitória política. Como falar de paz em uma região tão conflituosa, em que a população recusa a zona de encuentro e em que, além disso, as FARC conduziram operações marcantes? “O ELN deve esquecer, de uma vez por todas, o Sur de Bolívar como zona desmilitarizada para a realização de uma Convenção Nacional”, afirma o general Tapias, comandante-em-chefe do exército. Como um eco, o presidente Pastrana, enquanto assistia à parada militar no dia 8 de agosto, anuncia a suspensão de qualquer contato com a guerrilha “devido à ausência de vontade dessa organização de avançar no processo de paz”.
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - A zona conhecida como Magdalena Medio (Médio Magdalena) abrange, ao longo do rio, oito departamentos. Em aliança com narcotraficantes, grandes proprietários, militares e membros da classe política, apareceram ali os grupos paramilitares no início da década de 1980.
2 - Segunda guerrilha em matéria de importância, o ELN reúne mais ou menos 5 mil combatentes. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC – EP) têm entre 16 mil e 18 mil.
3 - N.T.: Trocha: trilha ruim. Cerro: colina.
4 - Ler, de Maurice Lemoine, “Culturas ilícitas, narcotráfico e Plano Colômbia”, Le Monde Diplomatique, janeiro de 2000.
5 - Ler, de Maurice Lemoine “Uma nação, dois Estados”, Le Monde diplomatique, fevereiro de 2000.
6 - No dia 18 de outubro de 1998, a sabotagem do oleoduto Caño Limón-Coveñas provocou uma explosão que causou uma centena de mortes e dezenas de feridos.
7 - N.T.: Trocadilho com loco: louco




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