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Uma guinada para o autoritarismo

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Quase todos os países da União Européia, depois dos choques de Göteborg, parecem caminhar para uma criminalização sistemática dos movimentos sociais, com a mesma posição que antes adotavam com relação aos imigrantes

Salvatore Pallida - (01/10/2001)

O plano para a segurança da reunião foi elaborado pelos governos de centro-esquerda e pelas polícias e serviços secretos das outras seis potências

Para reconstruir de modo rigoroso os acontecimentos ocorridos em Gênova, no fim de julho, quando da reunião do G-8, inúmeras informações ainda são inacessíveis. Já se pode, no entanto, analisar o que se passou não como o desencadeamento súbito e imprevisível da brutalidade policial, mas como o epílogo de um encadeamento cujo prólogo foi, além da violência em Seattle (dezembro de 1999) e Göteborg (junho de 2001) – a generalização das práticas de segurança pública adotadas pelos governos europeus, tanto de direita como de centro-esquerda. Como observa o grupo Statewatch1, quase todos os países da União Européia, depois de Göteborg, parecem caminhar para uma criminalização sistemática dos movimentos sociais, com a mesma posição adotada anteriormente em relação aos imigrantes.

O plano para a segurança da reunião do G-8 em Gênova foi elaborado, originariamente, pelos governos de centro-esquerda de Massimo D’Alema, e depois de Giuliano Amato, com a colaboração das polícias e serviços secretos das outras seis potências ocidentais. O mesmo se deu com sua aplicação: a supressão dos direitos constitucionais e a militarização da cidade foram organizadas durante semanas, incluindo centenas de investigações, o afastamento de moradores “indesejáveis” e o apelo aos habitantes da cidade para se fecharem em suas casas ou viajarem de férias. Várias semanas antes da reunião de cúpula, dezenas de agentes dos serviços secretos italianos e estrangeiros começaram a se instalar na cidade, enquanto muitos policiais uniformizados não hesitavam em declarar: “Desta vez vamos bater pra valer nos vermelhos.”

Uma “guerra de segurança pública”

Várias semanas antes da reunião de cúpula, dezenas de agentes dos serviços secretos italianos e estrangeiros começaram a se instalar na cidade

Uma etapa importantíssima ocorreu em 17 de março de 2000, em Nápoles, quando a polícia do governo Amato atacou, com uma brutalidade espantosa, cerca de trinta mil manifestantes, absolutamente pacíficos, reunidos contra o “Global Forum” 2. Mas, na realidade, e há vários anos, em nome da “tolerância zero”, inúmeros policiais, em sua prática quotidiana, davam vazão à violência e ao racismo contra os ciganos, os imigrantes e os marginais. Mais recentes, nas prisões, são os abusos do Grupo Operacional Móvel (GOM): este corpo especial da polícia penitenciária foi formado, no governo de D’Alema, pelo ministro comunista Oliviero Diliberto3, o qual, simultaneamente, demitiu o ex-diretor das prisões, Alessandro Margara, tido como preocupado demais com os direitos dos presos, para pôr em prática a orientação do poder quanto à segurança pública. Ora, em Gênova, seriam agentes do GOM que iriam espancar boa parte das pessoas presas.

De fato, a centro-esquerda adotou, há muito tempo, uma linha absurda, em matéria de segurança. A Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) começou por deixar que a direita assumisse a direção do maior sindicato de polícia para, em seguida, criar um novo pequeno sindicato, e isso quando a prioridade seria juntar os democratas dispersos em vinte e três sindicatos. Por sua vez, a esquerda no poder buscou apenas “fazer melhor que a direita”, para conquistar a confiança da polícia, dos serviços secretos e dos exércitos dos países aliados da Otan, especialmente depois da guerra do Kosovo. Estabeleceu-se, assim, um verdadeiro continuum entre “guerra de segurança pública” no quotidiano e “guerra humanitária”.

Apoio dos fascistas e de Bush

Há vários anos, em nome da “tolerância zero”, os policiais vinham dando vazão à violência e ao racismo contra os ciganos, os imigrantes e os marginais

Mas, a exemplo da democracia-cristã, a centro-esquerda acabou por beneficiar as especificidades da polícia e dos serviços secretos sem gozar de qualquer autoridade política sobre esse universo. Aumentou o poder e a autonomia dos carabiniere4, por exemplo, e, de modo mais geral, cada polícia procurou mostrar sua força para ter o mesmo peso que as demais. E o último ato da centro-esquerda antes das eleições – o “pacote-segurança” 5 - preparou a vitória da “tolerância zero” sob a direita no poder.

Voltemos à primavera de 2001. Em nome de cerca de mil ONGs e de sindicatos, o Genoa Social Fórum (GSF) manifesta, repetidamente, sua vontade de negociar com o governo o desenvolvimento de suas propostas durante o G-8. Mas o governo Amato e os dirigentes das polícias recusam qualquer encontro. É verdade que, à época, a vitória eleitoral da direita é tida como certa e que a gestão política da segurança aparece, mais que nunca, como inexistente. Nesse contexto, a instalação do governo Berlusconi-Fini-Bossi, resultado das eleições legislativas de 13 de maio de 2001, ofereceu uma oportunidade extraordinariamente favorável à componente autoritária dos serviços secretos e das polícias, apoiada, no âmbito interno, pelos “pós-fascistas” que, desde então, participam do poder em Roma, e fortalecida, no âmbito externo, pela tendência política de George Walker Bush.

Uma cartilha contra a violência

A esquerda no poder buscou “fazer melhor que a direita”, para ganhar a confiança da polícia, dos serviços secretos e dos exércitos dos países da Otan

Depois dos confrontos em Göteborg, os meios de comunicação alimentam o pânico, inserindo no cenário a ameaça representada pelos “vândalos”, mas nunca lembrando as centenas de provocadores - policiais e membros de grupos fascistas - que se preparam para o G-8. No entanto, alguns dias antes da reunião, e para surpresa geral, o novo ministro do Interior, Claudio Scajola, assume um tom paternalista: afirma, perante o Parlamento, que o governo garantirá a segurança do G-8, dos genoveses e dos manifestantes. Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores, Renato Ruggiero, declara que os “objetivos” do GSF são os mesmos que os do governo e dos outros países do G-8! E o próprio Berlusconi encontra-se com o arcebispo de Gênova, assegurando-lhe que compreende sua solidariedade para com o GSF… O governo chegaria a prometer três bilhões de liras (cerca de 3,8 milhões de reais) para a recepção dos manifestantes.

De um lado, por exemplo, Scajola e o chefe da polícia recebem por três vezes uma delegação do GSF que segue uma posição moderada; e de outro, dentro das polícias, circulam mensagens belicistas preparando as forças da ordem para bater com força, sem o menor escrúpulo. O cúmulo é que, nesse mesmo momento, a hierarquia policial comunica à imprensa que distribuiu, a todos os agentes, um guia ensinando-os a evitar a violência inútil e, sobretudo, a distinguir os manifestantes pacíficos dos “vândalos”…

Uma cidade deserta

O último ato da centro-esquerda antes das eleições – o “pacote-segurança” - preparou a vitória da “tolerância zero” sob a direita (Berlusconi) no poder

No dia 18 de julho, sem qualquer explicação, o governo renega todas as suas promessas: os acordos de Schengen são suspensos e centenas de cidadãos dos países da União Européia são brutalmente bloqueados nas fronteiras; um navio, proveniente da Grécia, foi proibido de atracar. Fecham-se as estações ferroviárias de Gênova e diminui-se a velocidade dos trens que trazem manifestantes: estes levarão um tempo quatro vezes maior que o habitual para chegar à cidade. Paralelamente, as autoridades locais assinalam, por escrito, a presença e a localização exata dos Black Blocs6. Os próprios dirigentes do GSF indicam com precisão, aos altos escalões da polícia, a chegada de grupos fascistas. Mas as forças de repressão não intervêm contra uns nem contra outros, enquanto controlam várias vezes os acampamentos dos jovens dos centros sociais e dos tutte bianche7”. Entretanto, na quinta-feira, dia 19, a manifestação pelos direitos dos migrantes transcorre pacificamente, ainda que tenha sido obrigada a seguir, nessa cidade militarizada, um trajeto que passa diante da delegacia de polícia e sob o quartel-general dos carabiniere!

Gênova tornou-se, então, um lugar surrealista: uma cidade deserta, sem transporte público nem tráfego privado; policiais por toda parte; longas filas de contêineres colocados ao longo das futuras manifestações... Só se ouvia o barulho infernal dos inúmeros helicópteros e as sirenas totalmente inúteis das viaturas, dos caminhões e das motos das várias polícias. Nunca uma cidade italiana fora tão minuciosamente controlada, nem mesmo durante a II Guerra Mundial. E nunca se vira uma tal concentração de policiais uniformizados e à paisana numa cidade transformada em deserto.

O ataque aos tutte bianche

A vitória de Berlusconi ofereceu uma oportunidade extraordinariamente favorável à componente autoritária dos serviços secretos e das polícias

Às 11 horas do dia 20 de julho, algumas dezenas de provocadores começaram um quebra-quebra impunemente, muito longe da zona vermelha8 - e no entanto, são facilmente localizáveis e domináveis por um dispositivo policial assim tão gigantesco9. Em contrapartida, este atacou brutalmente os manifestantes, mesmo os mais pacíficos, em vários bairros da cidade.

Na parte da tarde, foi a vez da manifestação, autorizada, dos tutte bianche. As forças da ordem tinham conhecimento de que algumas dezenas deles pretendiam penetrar simbolicamente na “zona vermelha”, com o risco de se deixarem prender pacificamente e a esperança de logo serem soltos. Ora, elas atacam os manifestantes que caminham pacificamente, sem nenhum tipo de arma e muito longe da zona interditada. Quase todos eles tentam fugir da violência policial: apenas uma centena de jovens tenta devolver as bombas de gás lacrimogêneo, atirar pedras e todos os tipos de objetos que encontram no local. Nenhum agente de polícia correu o risco de ser morto ou de sofrer violências comparáveis às desencadeadas contra os manifestantes. Em nenhum momento, os manifestantes tentaram se apoderar de armas pertencentes a policiais, ou a outrem, e nenhum Black Bloc atacou diretamente as forças da ordem.

“Nenhum citadino sofreu danos...”

Só se ouvia o barulho infernal dos inúmeros helicópteros e as sirenas totalmente inúteis das viaturas, dos caminhões e das motos das várias polícias

Foi nesse contexto que um jovem carabinieri auxiliar, de dentro de uma caminhonete, matou com sua pistola o jovem Carlo Giuliani… Presente “por acaso”, com outros deputados de seu partido, ao quartel-general dos carabiniere, o vice-presidente do Conselho, o pós-fascista Gianfranco Fini, alegou, imediatamente, o argumento da “legítima defesa”. Assim como todos os seus colegas do governo, ele justificaria o encarniçamento das forças de polícia contra manifestantes absolutamente pacíficos. Mais grave ainda, a polícia violou as normas democráticas mais elementares. Não só as pessoas presas não podiam se comunicar com ninguém, mas sofreram verdadeiras torturas. Maltrataram, e até espancaram, advogados, jornalistas, médicos e mesmo parlamentares próximos do movimento. Policiais e carabiniere, que com freqüência apregoam seu credo fascista, consideraram-se autorizados, por um governo que os acoberta integralmente, a cometer qualquer abuso.

No dia 21, a brutal agressão contra o cortejo de trezentos mil manifestantes pacíficos chocou mais ainda pelo fato de que os manifestantes não reagiram. A polícia chegou a atirar, a partir de barcos no mar e de helicópteros, granadas de gás lacrimogêneo. Militantes presos desapareceram. Apogeu dessa repressão, digna de uma ditadura latino-americana: os carabiniere fazem um raid contra a sede do GSF e contra a escola, situada do lado oposto, que o município pôs à disposição para alojar manifestantes. Decidida no mais alto nível pela polícia, essa operação - a mais brutal e mais desastrada de todas - teve diversos objetivos: provar que os Black Blocs e o GSF são uma única e mesma coisa; justificar a violência e os abusos; e, finalmente, mostrar à direita no poder que ela pode confiar na hierarquia policial nomeada pelo centro-esquerda. Para seu chefe, as forças de repressão fizeram bem o seu trabalho, o G-8 pôde transcorrer sem problemas e “nenhum citadino sofreu danos10”. Carlo Giuliani e as centenas de manifestantes feridos ou torturados não estão, evidentemente, entre os citadinos…

O principal resultado político dessa “gestão” do G-8 se evidenciaria no dia 23, por ocasião do encontro, em Roma, entre Berlusconi e Bush. Enquanto, na semana anterior, o presidente do Conselho italiano se comprometera a permanecer fiel às posições dos outros países da União Européia, de repente ele subscreveu integralmente as propostas do presidente norte-americano, em primeiro lugar em matéria do escudo antimísseis. Mas a linha autoritária adotada em Gênova coincide também com a estratégia norte-americana de repressão aos novos movimentos sociais, em ruptura com os períodos de gestão negociada e pacífica e com as concessões às reivindicações sociais. Cada vez mais, o império do liberalismo globalizado tem medo e se torna, como dizia Foucault, um poder que é, ao mesmo tempo, estúpido e capaz de matar11.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ver Statewatch report on EU plan to criminalise protests (www.statewatch.org).
2 - Ler Zona Rossa, ed. Derive & Approdi, Roma, junho de 2001.
3 - Trata-se de um ministro do grupo comunista ortodoxo de Armando Cossutta, dissidência do Partido da Refundação Comunista.
4 - N.T.: Os carabiniere italianos são policiais uniformizados – mas não, polícia militar.
5 - Conjunto de medidas visando a fortalecer a repressão penal e os poderes da polícia, tais como a criminalização dos migrantes e dos marginais.
6 - Nome que se dão os partidários, em sua maioria anarquistas, de manifestações violentas e cujas teses, bem como a ausência de organização centralizada, os tornam particularmente manipuláveis, como se viu em Gênova.
7 - Nome que se dão os militantes pacifistas do movimento italiano anti-globalização: desfilam com o rosto e as mãos pintados de branco.
8 - Zona central de Gênova totalmente interditada, exceto aos seus moradores, estritamente controlados.
9 - Para uma documentação detalhada com imagens e textos, ver o site do GSF (www.genoa-g8.org) e www.indymedia.org
10 - Entrevista ao canal de televisão RAI-1, no dia 23 de julho.
11 - Ler Les Anormaux, cours au Collège de France 1974-1975, ed. Le Seuil, Paris, 1999.




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