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Demitidas e iludidas

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Por uma curiosa, mas clássica, reversão da relação entre causa e efeito, a responsabilidade pela perda do emprego era devolvida às mulheres demitidas. Um emprego “se merece”, ele depende da “empregabilidade”. Conseguiriam elas merecê-lo?

Noëlle Burgi - (01/10/2001)

No “percurso” de desempregada-em-busca-de-trabalho, o pior foi, ainda é e continuará sendo, a visão moralista que denigre a realidade de seres humanos

“Ah! Desde a maneira da gente se comportar na frente de alguém, à maneira de falar... E o que a gente pensava? Mas nós tínhamos que ir para lá! Consideram-nos umas idiotas! Analfabetas!” É assim que se expressam as demitidas da Levi Strauss aos seus interlocutores, os “intermediários” das políticas de emprego encarregados de “ajudá-las” a encontrar um trabalho1. Eles tentam, obstinadamente, corrigir seu comportamento. Acham que estão falando com seres desqualificados – sonhadores, na melhor das hipóteses, mas normalmente uns preguiçosos que se aproveitam da generosidade do serviço público.

Nesse “percurso” de desempregada-em-busca-de-trabalho, como no de tantas outras pessoas sem qualificação ou “competência” reconhecida, o pior foi, ainda é e corre o risco de continuar sendo por muito tempo, a visão moralista, denegrindo a própria realidade de seres humanos capazes e desejosos de reinventar sua vida, de se projetar no futuro, de matar a “sede de aprender” e de investir, mas com dignidade, em outro trabalho. “Queremos fazer outra coisa”, dizem elas, “mas não há como conseguir. Queremos sair da rotina, mas eles sempre nos põem de volta na confecção. Muito pelo contrário,... o que nós queríamos era virar a página.” Quando lembram a distância entre suas aspirações e as interferências oficias, vivem uma verdadeira negação de justiça, em que a autoridade instituída opõe uma suspeita: os desempregados negam a realidade.

Cursos de formação são “caros”

Passado o primeiro momento de angústia, o que as mulheres demitidas pretendiam era imaginar algumas saídas e possíveis orientações

Desde os primeiros dias que se seguiram à sua demissão, as mulheres que tinham aderido à convenção de conversão foram confrontadas a esse jogo de espelhos. Contratada para realizar a recolocação, a Essel – uma empresa particular, bastante conhecida pelas associações de desempregados da região Norte-Pas-de-Calais por sua ineficiência – instalou-se na fábrica fechada, obrigando as demitidas a retornarem ao local de trabalho para ouvirem coisas do tipo: “Esta já não é a sua máquina, já não é a sua fábrica! É preciso virar a página. Olhar em frente!” Exatamente, passado o primeiro momento de angústia, o que elas pretendiam era imaginar algumas saídas e possíveis orientações. Nem pensar em confecções, esse setor em vias de extinção de onde acabavam de ser “jogadas”, mas talvez flores, cantinas escolares, deficientes, restaurantes, moda, um curso de conserto de roupas, renovar móveis, trabalho com couro, cozinhar, cuidar de crianças... Quanto maior o leque de possíveis opções, maiores seriam as oportunidades.

Não, respondem as instituições, esses projetos não convêm. Querem uma formação qualificada? Mas na idade delas, não dá mais! Os cursos de formação custam muito caro e ninguém garante que depois encontrariam emprego! Na melhor das hipóteses, poderiam tirar carteira de habilitação de motorista para caminhões de carga (ainda têm idade para esse trabalho...) ou fazer um estágio como motorista.

Resignar-se ou morrer

“Na idade delas, não dá mais! Os cursos de formação custam muito caro e ninguém garante que depois encontrariam emprego”, respondem as instituições

Não querem voltar para a confecção? A Essel se obstinava em mandá-las de volta. Queriam um trabalho decente? Todas tinham o mesmo curriculum, não encontrariam nada! Poderiam fazer trabalhos temporários, com uma pequena esperança de um dia serem contratadas. Ou então, alguma coisa de meio-período, num raio de 50 quilômetros, com horários flexíveis, um ou vários empregadores e salário mínimo – e às vezes até menos. “Bem, é isso aí”, explicavam “é assim, não tem jeito. Agora, vocês têm que aceitar o que está sendo proposto! Além do mais, normalmente, podemos mandar você até para mais longe! E você nem vai poder reclamar!”

Por uma curiosa, mas clássica, reversão da relação entre causa e efeito, a responsabilidade pela perda do emprego lhes era devolvida. Um emprego “se merece”, ele depende da “empregabilidade”. Conseguiriam elas merecê-lo? De tanto se olhar nesse espelho – um espelho social deformante, que já não reflete a humanidade do ser – muitas delas deixaram de acreditar em si próprias, nas suas capacidades. Resignar-se ou morrer: eis, em suma, a condição em que elas foram, ou continuam sendo, acuadas. Elas e todos aqueles seres inúteis, jovens ou adultos, homens ou mulheres, que as instituições consideram “em dificuldade”.

“Remoendo a impotência”

Todas tinham o mesmo curriculum, não encontrariam nada! Podiam fazer trabalhos temporários, ou alguma coisa de meio-período, num raio de 50 quilômetros

A resignação significa antes de tudo fechar-se dentro de si. Não ver, não saber, não ouvir. Não levantar a cabeça, evitar o olhar dos outros. O “buraco negro”. Enquanto, no horizonte, nenhum movimento social estruturado oferece uma maneira de despertar a esperança de uma dignidade perdida, os laços sociais se dissolvem, a desesperança e o egoísmo substituem o desejo, o sentimento de culpa toma a palavra, a violência contra os outros, mas principalmente contra si mesmo, tomando o lugar da violência da situação vivida. Eis por que a grande massa de desempregados não se mobiliza.

O sofrimento acompanhando a impossibilidade de dizer: “Como seria bom se...” é tanto maior quando se acrescenta, em profundidade, a experiência da perda de trabalho, no sentido colocado por Yves Clot quando analisa a “função psicológica” do trabalho2.

O trabalho leva a sair de si próprio para fazer uma obra útil e, ao fazê-lo, insere-se em uma temporalidade impessoal, essencial ao equilíbrio individual. Introduz uma distância com relação a si próprio, sem a qual rapidamente submergimos numa temporalidade estritamente subjetiva, incapaz de ligar passado, presente e futuro, de viver o presente em si e de se projetar no futuro. Quando a perda do trabalho também priva o indivíduo dessa função psicológica, ela leva à “ociosidade”, isto é, a uma “uma atividade passiva” que consiste em “remoer sua impotência com altos custos subjetivos”.

As novas técnicas de management

O sofrimento que acompanha a impossibilidade de dizer “Como seria bom se...” é tanto maior quando se acrescenta a experiência da perda de trabalho

Surge um sentimento de atrofia da existência, de diminuição do ser, que se manifesta na vida cotidiana pela impressão de que não se tem tempo. Não temos tempo porque não temos outros tempos, ou ainda porque a perda de trabalho (mas também, no outro extremo, sua intensificação excessiva) não nos permite transformá-lo em um meio de viver outras temporalidades e experiências. Enquanto as desempregadas da Levi’s trabalhavam e se organizavam; enquanto acreditavam iminente a perspectiva de um emprego, elas tinham tempo. “Enquanto que agora”, explica uma delas, “esperamos. Esperamos e não temos tempo. Atrasamos nossos serviços de casa. É isso aí.” “As coisas fecham-se”, dizem elas ainda, ao mesmo tempo em que os intermediários lhes fecham o horizonte das possibilidades.

As pessoas desempregadas, por menos que as escutemos e por pouco que lhes façamos algumas perguntas, sabem perfeitamente falar e dar nome a esse sofrimento. Mas as instituições não têm tempo. Graças as técnicas de management, a gestão do desemprego tornou-se um negócio rentável cuja principal finalidade é alcançar objetivos quantificados. Isso fica bem claro na Agência nacional para o emprego(ANPE), onde é dada prioridade à tarefa de baixar as estatísticas sobre o desemprego e onde a profissão de “conselheiro para o emprego” mudou radicalmente3. É como diz um agente da ANPE: “Atualmente, a direção exige produção. Produzir números, sob a forma de serviços prestados ou diagnosticados. Os diagnósticos são feitos a partir de entrevistas. E nessas entrevistas há, sob a forma de diagnóstico, um acompanhamento longo, individualizado, coletivo, colocado à disposição de serviços externos etc. Então, um bom agente é o que, com sua cota de absenteísmo, preenche suas cotas de entrevistas, faz corretamente o que lhe ensinaram a fazer com a “máquina” da informática. Portanto, é isso: ‘Eu recebo, faço o diagnóstico, proponho alguma coisa, coloco os dados no computador, marco a próxima entrevista e é bom que as coisas andem porque já tenho dois outros esperando’.”

Lógicas e competências divergentes

Paralelamente, numerosos e complexos dispositivos para tratar o desemprego foram criados nos últimos vinte anos, desde medidas gerais para diminuir o custo do trabalho para um patamar próximo ao salário mínimo4, até inúmeras medidas específicas, essencialmente de ajuda ao emprego, consideradas um serviço público prioritário e destinadas a várias categorias de pessoas. Por exemplo: jovens, adultos, trabalhadores idosos, pais ou mães separados, deficientes físicos, os que não têm sequer uma renda mínima etc. Distribuindo fundos às empresas (que se aproveitam bastante da ajuda inesperada) para estimulá-las a contratar trabalhadores não-qualificados5, esses dispositivos só raramente permitem aos mais vulneráveis sair de um período marcado por uma série de rupturas e situações caóticas, quando alternam estágios, desemprego, biscates, renda mínima etc. Em compensação, contribuíram amplamente para flexibilização do mercado de trabalho, para reforçar as tendências à degradação da qualidade dos empregos e para legitimar o emprego de meio-período com salário mínimo como referência para os que enfrentam maiores dificuldades. Pior ainda (se é que se pode dizer assim): mais do que uma conseqüência da visão eminentemente gestionária das políticas sociais, eles tornaram-se seu próprio objetivo.

“As coisas fecham-se”, dizem ainda as entrevistadas, ao mesmo tempo em que os intermediários lhes fecham o horizonte das possibilidades

Os objetivos da gestão ocuparam um lugar de tal forma central na elaboração e concretização das políticas que acabaram por se sobrepor a qualquer outra consideração. Mesmo deixando de lado as freqüentes atitudes de descrédito e moralizantes que abundam entre os assistentes sociais, isto torna extremamente difícil, e muitas vezes impossível, o surgimento de iniciativas originais cuja a finalidade não seria atender a uma exigência pública, mas elaborar um projeto que respondesse melhor às necessidades das pessoas que têm compromisso com isso. Esta dificuldade aumentou porque as políticas de emprego e de proteção social – cujos grandes princípios são definidos a nível europeu e nacional – são aplicadas em todos os tipos de territórios ditos de “proximidade” (cidades, regiões metropolitanas, províncias, regiões administrativas, bolsões de emprego, zonas rurais) Elas supõem o reencontro e a cooperação de múltiplos atores no local, mas, inegavelmente preocupados pelo interesse geral, estes têm projetos, lógicas e competências divergentes. E também, na ausência de um entendimento sobre o conteúdo, a forma – o dispositivo, a percentagem da renda mínima, os jovens, as mulheres “tratados” – torna-se o único ponto de convergência das parcerias da mesa de discussão e dos novos especialistas da pobreza.

Retomando a palavra

É uma vivência marcante, e é quase um milagre que possa haver ainda seres capazes de reunir a energia necessária para romper os obstáculos levantados por essa poderosa e presunçosa máquina político-administrativa. Um milagre, por exemplo, que umas vinte das demitidas da Levi’s tenham tido a imensa coragem de superar seus medos e tentarem a aventura de um estágio para aprender a redigir textos. Que elas tenham feito tudo, sabendo que se arriscavam, depois de dois meses, a voltar a cair no buraco negro. Que, apoiadas pela força de sua inteligência, tenham sabido aprender pelo prazer de aprender e se dedicar sem limites à elaboração de uma peça de teatro, 501 Blues, montada por Bruno Lajara. E tudo isso quando poucas delas, na verdade apenas cinco, iriam seguir em frente e se tornarem atrizes.

Elas já não são as demitidas da Levi’s humilhadas e socialmente programadas para um destino inelutável. Deverão, com certeza, aprender e desempenhar outros papéis, mas já retomaram a palavra.
(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Este texto se baseia em uma pesquisa feita na região Norte-Pas-de-Calais junto a umas cinqüenta pessoas em situação vulnerável ou muito vulnerável. As empregadas da Levi’s que compõem nossa amostra são todas mulheres. A pesquisa foi feita no contexto de um projeto europeu quadrienal. Ler, de Catherine Lévy (coordenação), Minima sociaux et condition salariale: ume comparaison européenne “vue d’en bas” (projeto de pesquisa, laboratório Georges-Friedmann).
2 - Ler, de Yves Clot, La fonction psychologique du travail, ed. PUF, Paris,1999.
3 - Ler, de Noëlle Burgi, “Moderniser l’Etat, moderniser l’emploi. Assujettir”, ed. Raison Présente, Paris, outono de 2001.
4 - Salário mínimo interprofissional para o crescimento.
5 - Embora as estratégias dos patrões sejam muito variadas, as pesquisas tendem a concluir que as ajudas têm pouca influência sobre a política de contratações (eles contratam trabalhadores que iriam contratar de qualquer maneira). Ler, por exemplo, o artigo de Laurence Lizé, em Les intermédiaires des politiques publiques de l’emploi, (coord. Didier Gélot e Patrick Nivolle), ed. La Documentation française, Paris, 2000, p.15-48.




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