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O novo “grande jogo”

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A atual guerra alterou a lógica da competição estratégica na Ásia central. O comércio do petróleo e os projetos de oleodutos perderam parte da sua importância, enquanto as bases aéreas, os serviços de informações e o poder militar viram a sua aumentar

Vicken Cheterian - (01/11/2001)

Os tradicionais parceiros do Ocidente colocam-lhe problemas sérios: os EUA já não podem contar com o apoio cego da Arábia Saudita e do Paquistão

Nos últimos dez anos, produziu-se na Ásia central um novo “grande jogo” que tinha por objetivo preencher o vazio deixado pelo colapso da União Soviética. Deslocando suas forças militares para as antigas bases do Exército Vermelho no Uzbequistão, os Estados Unidos confirmam o crescimento de sua influência desde o fim da guerra fria. Mas a intervenção norte-americana nessa região implica negociações complicadas com um certo número de países de interesses políticos divergentes, o que poderia vir a representar um custo político a Washington.

Desde 1991, os Estados Unidos vêm se esforçando para fazer refluir a influência russa para fora da Ásia central e do Cáucaso, apesar de uma influência iraniana existente, reduzida ao mínimo. Por outro lado, incentivam o Turquemenistão e o Uzbequistão a cooperarem com o Paquistão, e a Transcaucásia com a Turquia. Um outro dado fundamental: a utilização dos oleodutos e gasodutos que transportam a energia do Mar Cáspio como um trunfo estratégico para o controle dos países que recentemente se tornaram independentes.

O que ganha a Rússia?

Mas a atual guerra alterou a lógica dessa competição estratégica. O comércio do petróleo e os projetos de oleodutos1 perdem parte da sua importância, enquanto as bases aéreas, os serviços de informações e o poder militar vêem a sua aumentar. Além disso, os tradicionais parceiros do Ocidente colocam-lhe problemas sérios. Os Estados Unidos já não podem, por exemplo, contar completamente com Islamabad e Riad, seus aliados de longa data. Embora tanto um quanto o outro deixem ao bel prazer da U.S. Air Force o uso de suas bases aéreas, eles não permitem – pelo menos, oficialmente – que estas sirvam de trampolim para os aviões que bombardeiam o Afeganistão. Por essa razão, o governo norte-americano teve que negociar com Moscou para ter o direito a realizar operações militares a partir do território do Uzbequistão, um enclave russo. E sua pretensão de combater a milícia taliban tendo a Aliança do Norte como intermediária aumenta a importância logística do Tadjiquistão, retaguarda da coalizão anti-taliban.

Por seu lado, o Estado-Maior militar russo não vê com bons olhos a presença disfarçada de tropas norte-americanas – principalmente no Uzbequistão

O Estado-Maior militar russo não vê com bons olhos a presença disfarçada de tropas norte-americanas: “Não vejo qualquer motivo para a presença militar da Otan nos países da Ásia central”, declarou Sergei Ivanov, ministro russo da Defesa, dois dias após os atentados em território norte-americano2. Mas essa posição foi desmentida pelo presidente Vladimir Putin, que afirmou estar pronto para colaborar com Washington. O problema estaria no preço a pagar para convencer os dirigentes russos. O que ganharia Moscou em troca de sua participação na coalizão “anti-terror”? Seu ingresso de entrada no “clube ocidental”, como vem prometendo Washington? Uma aproximação com a União Européia, em troca do abandono de suas ex-repúblicas do Leste europeu? Uma entrada para a Otan? (Leia, nesta edição, os artigos de Paul Marie de La Gorce e de Nina Bachkatov.)

Os trunfos da Turquia

No dia 4 de outubro, a guerra latente entre a Geórgia e a Abkhásia reacendeu-se. Segundo fontes russas, guerrilheiros da Geórgia, apoiados por combatentes chechenos, tomaram de assalto aldeias abkhases. Sob pressão da Geórgia, Vladimir Putin declarou-se pronto a retirar da Abkhásia as tropas russas encarregadas de manter a paz. Significaria isso um prenúncio de uma retirada russa da Comunidade dos Estados Independentes – como se teme em Moscou – ou uma reorganização do contingente russo estacionado na Geórgia, a “porta do Cáucaso”?

A Turquia anuncia claramente sua solidariedade com Washington. A base aérea de Incirlik, utilizada pelos aviões norte-americanos para patrulharem o espaço aéreo do Iraque, serve para os bombardeios do Afeganistão. Além do mais, o governo turco conta com tropas de elite à disposição para operações no interior do país. Para uma Turquia economicamente frágil e que se encontra numa posição ambígua desde o fim da guerra fria, esta guerra oferece ocasião de mostrar, ao Ocidente, méritos que a Rússia, desde o último dia 11 de setembro, vem amplamente escondendo. No entanto – como os russos –, os turcos não desejam ver os Estados Unidos ampliarem a guerra a outros países, e principalmente ao Iraque.

As preocupações chinesas

A incerteza ocidental quanto ao papel desempenhado pela Arábia Saudita e o Paquistão e a dúvida que paira sobre sua fidelidade a Washington fazem com que o Irã, situado entre esses dois países e gozando de uma situação geopolítica excepcional, venha sendo cada vez mais cortejado por Washington e Londres. Principalmente porque os movimentos fundamentalistas sunitas tomaram o lugar do Hezbollah libanês, enquanto principal inimigo de Washington. Ora, o Estado iraniano teme a instalação de tropas, a longo prazo, em sua fronteira Norte. E pretende aumentar o seu potencial militar nos próximos anos: por isso, a assinatura, com Moscou, de contratos de compra de armas avaliados em mais de 300 milhões de dólares por ano.

Também para a Índia e o Paquistão, a desestabilização do Afeganistão abre novas perspectivas. Ambos consideram a importância política afegã sob o ângulo do conflito que os opõe, em Caxemira. No passado, por ocasião dos conflitos por territórios entre os governos de Cabul e Islamabad, o governo indiano botou lenha na fogueira, obrigando as forças paquistanesas a agirem divididas em duas frentes. Não faltam provas da persistência desse conflito – da explosão de um carro-bomba em Srinagar, no dia 1º de outubro, ao bombardeio indiano de tropas paquistanesas ao longo da linha de controle, em 15 de outubro, justamente quando o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, visitava a região...

O equilíbrio na Caxemira também diz respeito à China, que vem há longo tempo dando apoio ao exército paquistanês, em oposição à Índia. No entanto, Pequim não deixa de se preocupar com a crescente militância dos oito milhões de uigures que vivem na parte ocidental da província de Sinkiang e com suas relações tanto com o fundamentalismo islâmico quanto com o tráfico de drogas – que se processa através de redes afegãs e paquistanesas. Os dirigentes chineses tentaram intensificar seus vínculos bilaterais com o taliban e, no dia dos atentados aéreos nos Estados Unidos, uma delegação chinesa de alto escalão encontrava-se no Paquistão para discutir a cooperação econômica com o Afeganistão. Por outro lado, Pequim também receia a crescente colaboração entre norte-americanos e uzbeques, principalmente se esta se tornar permanente.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Ler, de Olivier Roy, “Avec les talibans, la charia plus le gazoduc”, Le Monde diplomatique, novembro de 1996.
2 - Agência France Presse, Moscou, 14 de setembro de 2001.




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