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A vida pregressa de Ariel Sharon

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Sharon simplesmente decidiu aproveitar uma oportunidade “de ouro”, quando os olhos do mundo inteiro estavam fixos em Nova York e em Washington, para fazer “reinar a ordem” em Jenine: 13 mortos e cerca de 200 feridos, alguns em estado grave

Amnon Kapeliouk - (01/11/2001)

Tanques e helicópteros de combate participaram da catastrófica operação: uma selvageria de 220 horas que aterrorizou os 45 mil habitantes da cidade

Oito horas após os atentados terroristas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, o primeiro-ministro israelense, general Ariel Sharon, mandava seus soldados e seus tanques invadir Jenine, uma cidade palestina autônoma que fica no norte da Cisjordânia, para fazer “reinar a ordem”. Nenhum acontecimento justificava tal expedição, que violava uma soberania palestina já muito enfraquecida pelas sucessivas incursões israelenses na zona A (autônoma). Sharon simplesmente decidiu aproveitar essa oportunidade “de ouro”, quando os olhos do mundo inteiro estavam fixos em Nova York e em Washington, para “surpreender os terroristas”.

Durante nove dias, o exército israelense fez o que quis em Jenine. Treze pessoas foram mortas e cerca de 200 ficaram feridas - dentre as quais, algumas dezenas de modo grave - nessa operação. Os tiros danificaram quatrocentos edifícios e destruíram várias dezenas. Uma das ruas dá a impressão de ter sido literalmente bombardeada. Tanques e helicópteros de combate Apache participaram dessa catastrófica operação: uma selvageria de 220 horas que aterrorizou os 45 mil habitantes da cidade.

O mesmo Sharon de sempre

Quando de sua eleição como chefe de governo, havia quem esperasse ver um “novo Sharon”, mais moderado, menos agressivo. Bobagem: era o Sharon de sempre

O general Sharon ignora a resistência à ocupação e à repressão: conduz uma “guerra contra o terrorismo”. Por isso põe em prática as execuções sumárias (mais de cinqüenta em um ano de Intifada>), a destruição de casas e dos campos, a derrubada de dezenas de milhares de árvores, principalmente oliveiras, e o confisco das terras palestinas. Destruições de um lado, construções do outro: as das colônias israelenses criadas nos territórios ocupados. O bloqueio das cidades e das aldeias palestinas provoca um desemprego sem precedentes, que atinge 50% da mão-de-obra. Numerosas mulheres palestinas tiveram de dar à luz no chão, perto de barreiras israelenses cujos soldados se mostraram inflexíveis - dois bebês morreram ao nascer.

Agindo assim, Sharon continua, sem interrupção, uma vida inteiramente dedicada ao combate aos árabes. Das incursões além-fronteiras na década de 50, à frente da unidade militar 101 – de sinistra reputação – à sua política atual como primeiro-ministro, seu método não mudou: resume-se ao uso da força e da destruição e tem por base o desprezo pela vida de seus adversários árabes. Quando de sua eleição como chefe de governo, em fevereiro de 2000, havia quem esperasse ver um “novo Sharon”, mais moderado, menos agressivo. Desejo ingênuo: à frente do país estava o mesmo Sharon que se conhecia desde as operações de represália de há quase cinqüenta anos.

Uma “competência” exorbitante

Uma de seus primeiros feitos foi em Qibya, na Cisjordânia, em outubro de 1953: com 600 quilos de explosivos, explodiu 45 casas com os moradores dentro

Uma das primeiras dessas operações ocorreu na cidadezinha palestina de Qibya, na Cisjordânia, em outubro de 1953. Em represália a um ataque sangrento realizado por um grupo de palestinos infiltrados em Israel, o Estado-Maior exigira-lhe que explodisse algumas casas do vilarejo, afugentando os moradores. O jovem “Arik” Sharon preferiu outro plano: seus soldados levaram 600 quilos de explosivos e explodiram 45 casas com os moradores dentro. Sessenta e nove pessoas, a metade formada por mulheres e crianças, morreram sob os escombros. O número de feridos chegou a várias dezenas.

Não foi, de modo algum, um caso isolado: as operações conduzidas por Sharon por detrás das linhas do armistício com os países árabes terminavam, em geral, com um número muito alto de perdas do lado do adversário - muito mais do que o Estado-Maior ou o governo lhe haviam ordenado. Em fevereiro de 1955, o ataque que dirigiu contra um campo militar egípcio, em Gaza, provocou a morte de trinta e oito solados egípcios, quase todos caídos numa emboscada armada por soldados de Sharon. Foi depois dessa afronta que o presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, decidiu concluir uma importante transação de armas com o bloco soviético. Em dezembro do mesmo ano, um ataque contra as posições sírias, bem perto do lago de Tiberíades, resultou na morte de 56 soldados sírios. O primeiro-ministro à época, David Ben Gurion, um célebre “falcão”, ficou preocupado com os resultados “bons demais” do jovem e ardente oficial. O coronel Moshe Dayan explica-lhe: “O placar de Arik conta-se por dezenas de mortos. Ele nunca terminou uma operação com menos de várias dezenas de mortos nas fileiras do inimigo1.”

Destruição e devastação

Em 1955, o primeiro-ministro, David Ben Gurion, um célebre “falcão”, ficou preocupado com os resultados “bons demais” do jovem e ardente oficial

No início da década de 1970, o general Sharon, comandante do setor sul do país, dirige a luta contra os fedayin na faixa de Gaza, ocupada por Israel desde 1967. Prepara uma lista de mais de cem palestinos “procurados” e os “liquida” sumariamente, um após outro. Na mesma época, expulsa manu militari, de modo cruel e sem ordem superior, milhares de beduínos da região de Rafah, ao sul da faixa de Gaza; suas casas foram arrasadas, seus poços tapados. Aliás, em Israel, alastrou-se uma onda de protestos contra essa “política imoral” que priva dos direitos elementares uma população sob ocupação.

No final de abril de 1982, em conformidade com o tratado de paz egípcio-israelense, termina a evacuação do Sinai. O último ato é escrito por Sharon, num papel à Nero (mas sem música…): a destruição completa da cidade de Yamit, construída durante a ocupação israelense da península. Decidindo (sozinho) que o Egito não merecia possuir essa bela cidade, o ministro da Defesa ordena sua destruição. Alguns meses mais tarde, a guerra do Líbano (desencadeada em junho de 1982) permitiria compreender melhor o fio vermelho que une a destruição de Qibya à de Yamit e à devastação provocada pelo mesmo Sharon na capital libanesa - cidade onde se encontravam, logicamente, os quartéis-generais dos fedayin, mas também centenas de milhares de cidadãos, homens, mulheres, crianças que nada tinham a ver com esse conflito.

Até Reagan protestou

A invasão do Líbano e o cerco de Beirute (1982), com bombardeios diários à capital, custaram a vida de mais de 15 mil civis, libaneses e palestinos

“A guerra do Líbano”, escrevem os jornalistas israelenses Zeev Schif (Haaretz) e Ehud Yaari (da televisão israelense), “nasceu no espírito tumultuado de um certo homem, resoluto e sem limites, que arrastou toda uma nação na busca vã de objetivos em parte imaginários; era uma guerra fundada em ilusões, seu percurso semeado de tramóias e seu fim inevitável estava cheio de decepções […]. Usando uma linguagem incisiva, seria possível afirmar que, durante a preparação dessa guerra e durante seus primeiros meses, aconteceu em Israel uma espécie de golpe de Estado de um tipo pouco comum […]. Ao invés de se apoderar de instituições que são o centro das decisões de Estado ou de dissolvê-las – como fazem os golpistas comuns – Sharon elaborou uma fórmula que lhe permitiu apoderar-se do processo de tomada de decisões. Privou as instituições democráticas de seu poder de controle e de supervisão e enfraqueceu os entraves que fazem parte do sistema do poder2.”

A invasão do Líbano e o cerco de Beirute (junho-agosto de 1982) custaram a vida de mais de 15 mil civis, libaneses e palestinos. Todos os dias, os aviões atacavam a capital. No início de agosto, os bombardeios intensificaram-se a tal ponto que o presidente Ronald Reagan protestou junto a Menahem Begin contra o que classificou como “atos inadmissíveis”. O primeiro-ministro israelense tomou, então, uma iniciativa sem precedentes: retirou de seu ministro da Defesa o poder de mandar a força aérea bombardear Beirute.

Responsabilizado pelo massacre

Em setembro de 1982, foi a vez dos campos de refugiados de Sabra e Chatila: mais de mil mortos palestinos, em sua maioria mulheres, crianças e velhos

Em meados de setembro de 1982, duas semanas após a partida dos combatentes da Organização de Libertação da Palestina (OLP) da capital libanesa, Sharon e seus soldados ocupam-na, violando suas próprias promessas. Vinte e quatro horas mais tarde, os falangistas - uma milícia maronita de extrema-direita, aliada do Estado hebreu - entram, diante dos olhos e com a ajuda do exército israelense, bem como com a bênção de Sharon, nos campos palestinos de Sabra e de Chatila, ao sul da cidade. Os assassinos começam, então, a massacrar sistematicamente a população. Quanto aos soldados do general Sharon, estavam ao redor dos dois campos. Do QG israelense se avistava o cenário do massacre, um dos mais horríveis dos anais do conflito árabe-israelense3. Duas horas depois do início da matança, relatórios terríveis chegam ao comando israelense. Mas ninguém se mexe. A carnificina só pára quarenta horas mais tarde, com um balanço horroroso: mais de mil mortos, em sua maioria mulheres, crianças e pessoas idosas. Centenas de outros habitantes dos campos foram seqüestrados pelos atacantes: vinte anos depois, continuam “desaparecidos”.

Uma comissão de inquérito israelense concluiu que o general Sharon foi pessoalmente responsável pelo massacre e recomendou que fosse destituído de suas atribuições de ministro da Defesa4. Assim, ele teve que abandonar esse cargo, tão cobiçado pelos militares.

As dúvidas de Ben Gurion

Philip Habib, o mediador norte-americano que organizado a retirada da OLP de Beirute, ficou furioso. “Sharon é um assassino, movido pelo ódio aos palestinos. Dei a Arafat garantias de que os palestinos [permanecendo em Beirute] não seriam tocados, mas Sharon não as cumpriu. Uma promessa desse homem não vale nada5.”

Sharon apresenta esse traço de caráter ao longo de toda a sua carreira militar e política. Mesmo David Ben Gurion, que admirava esse jovem e ousado militar, tinha dúvidas se “Arik” chegaria um dia a falar a verdade…
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler, de Uzi Benziman, Sharon ne s’arrête pas au (feu) rouge (em hebraico), Editions Adam, Tel Aviv, 1985, p.62.
2 - Ler, de Zeev Schif e Ehud Yaari, Guerre trompeuse (em hebraico), Editions Schocken, Tel Aviv, 1984, p. 380.
3 - Ler, de Amnon Kapeliouk, Sabra et Chatila – inquérito sobre um massacre, ed. Seuil, Paris, dezembro de 1982.
4 - “Uma responsabilidade - escrevia a Comissão Kahane - deve ser imputada ao ministro da Defesa por haver negligenciado o perigo de atos de vingança e de massacre por parte dos falangistas contra a população dos campos de refugiados e por não ter levado em consideração o perigo quando decidiu fazer os falangistas entrarem nos campos. Além disso, uma responsabilidade deve ser imputada ao ministro da Defesa por não haver ordenado as medidas apropriadas a fim de prevenir ou reduzir o perigo de massacre como condição para a entrada dos falangistas nos campos. Essas faltas constituem um não-cumprimento da missão de que o ministro da Defesa estava encarregado.”
5 - Ler, de Patrick Seale, Assad (tradução em hebraico), Editions Maarakhot (Tsahal, Ministério da Defesa de Israel), Tel Aviv, 1993, p. 383.




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