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EDITORIAL

Os alvos da guerra

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À primeira vista a desproporção entre as forças dos dois adversários lembra a de um abismo. Trata-se, inclusive, de uma situação militar inédita, pois esta é a primeira vez que um império não declara guerra a um país, mas a um homem...

Ignacio Ramonet - (01/11/2001)

No momento em que os Estados Unidos se aventuram no primeiro conflito do século XXI, como seria possível evitar a pergunta: quais os objetivos desta guerra? Um primeiro objetivo foi anunciado no dia imediatamente seguinte aos horrorosos atentados de 11 de setembro: destruir a rede Al-Qaida e capturar, “vivo ou morto”, Osama bin Laden, responsável pelos crimes – 6 mil mortos – que causa alguma pode justificar. Esse projeto, fácil de formular, não é tão simples de conseguir. No entanto, à primeira vista a desproporção entre as forças dos dois adversários lembra a de um abismo. Trata-se, inclusive, de uma situação militar inédita, pois esta é a primeira vez que um império não declara guerra a um país, mas a um homem...

Abundam exemplos de grandes potências que se mostram incapazes de derrotar adversários mais fracos. Nem sempre é o mais forte que leva vantagem

Utilizando-se de seus esmagadores meios militares, Washington lançou todas as suas forças nesta batalha e deveria sair vitoriosa. No entanto, abundam exemplos de grandes potências que se mostram incapazes de derrotar adversários mais fracos. A história militar ensina que, num conflito assimétrico, nem sempre é o mais forte que leva vantagem. “Um exército como o IRA (Exército Republicano Irlandês)”, lembra o historiador Eric Hobsbawm, “mostrou-se capaz de desafiar o exército britânico durante trinta anos; é verdade que o IRA não comandou a batalha, mas nem por isso foi vencido1.”

Uma guerra sem garantias

Como a maioria das forças armadas existentes, as norte-americanas são preparadas para combater outros Estados, e não para enfrentar um “inimigo invisível”. Porém, no século que se está iniciando, as guerras entre países tendem a tornar-se anacrônicas. A esmagadora vitória na guerra do Golfo, em 1991, revela-se enganadora. “Nossa ofensiva no Golfo foi vitoriosa”, admite Anthony Zinni, general dos fuzileiros navais, “porque tivemos a sorte de encontrar o único vilão do mundo suficientemente imbecil para aceitar um enfrentamento com os Estados Unidos num combate simétrico2.” O mesmo poderia ser dito com relação a Slobodan Milosevic, por ocasião da guerra do Kosovo, em 1999.

Os conflitos do novo tipo são mais fáceis de começar do que de terminar: o uso maciço de meios militares nem sempre permite alcançar os objetivos

Os conflitos desse novo tipo são mais fáceis de começar do que de terminar. E o uso de meios militares, ainda que maciço, nem sempre permite alcançar os objetivos desejados. Basta lembrar a derrota na Somália, em 1994. Ao atacar o Afeganistão, sob o pretexto concebível de que esse país protege Bin Laden, o governo norte-americano tem consciência, portanto, de que dá início à fase mais fácil do conflito. E que avançará, com perdas relativamente baixas, durante as próximas semanas. Mas essa vitória contra um dos regimes mais detestáveis do planeta não garantirá o sucesso do principal objetivo desta guerra: a captura de Osama bin Laden.

Ex-terroristas ilustres

O segundo objetivo parece demasiado ambicioso: acabar com o “terrorismo internacional”. Em primeiro lugar porque o próprio termo “terrorismo” é vago. Nos dois últimos séculos, foi utilizado para designar, indistintamente, qualquer grupo que recorra à violência, com ou sem razão, para tentar mudar a ordem política. A experiência demonstra que, em certos casos, essa violência é necessária. “Todos os meios são legítimos, quando se luta contra tiranos”, já dizia, em 1792, Gracchus Babeuf. Inúmeros ex-“terroristas” tornaram-se respeitáveis homens de Estado. Para não citar os da Resistência francesa, por exemplo, Menahem Begin, ex-dirigente do Irgun, que foi primeiro-ministro de Israel; Abdellaziz Bouteflika, ex-fellagha (guerrilheiro), hoje presidente da Argélia; e Nelson Mandela, ex-dirigente da ANC, que foi presidente da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz.

A guerra e a propaganda de hoje pode levar a crer que o único terrorismo que existe é o islâmico. O que é evidentemente falso. No próprio momento em que ocorre este conflito, outros “terrorismos” estão agindo, mais ou menos por toda parte no mundo não-muçulmano. Há o IRA e os unionistas na Irlanda do Norte, há o ETA na Espanha, há as FARC e os paramilitares na Colômbia, há os Tigres tâmil no Sri Lanka etc.

Uma doutrina do terrorismo

Inúmeros ex-“terroristas” tornaram-se respeitáveis homens de Estado: Menahem Begin, de Israel, o argelino Abdellaziz Bouteflika, Nelson Mandela...

Enquanto princípio de ação, o terrorismo foi reivindicado, consideradas as circunstâncias, por quase todas as famílias políticas. O primeiro teórico político a propor, em 1848, uma doutrina do terrorismo, foi o alemão Karl Heinzen, no ensaio Der Mord (o assassinato), no qual ele avalia que qualquer meio é válido para acelerar a chegada da democracia! Democrata radical, Heinzen diz: “Se for o caso de detonar a metade de um continente e deslanchar um banho de sangue para destruir os bárbaros, ninguém deve ter escrúpulos de consciência. Quem não sacrificar alegremente sua vida pela satisfação de exterminar um milhão de bárbaros, não é um verdadeiro republicano3.”

Pelo absurdo, esse exemplo demonstra que mesmo os melhores fins não justificam os meios. Os cidadãos têm tudo a temer de uma República – leiga ou religiosa – nascida de um banho de sangue. E como não temer que essa caçada obcecada aos “terroristas”, anunciada pelos Estados Unidos como objetivo final desta guerra, não provoque perigosas derrapagens e atentados às liberdades fundamentais?
(Trad.: Jô Amado)

1 - La Repubblica, Roma, 18 de setembro de 2001.
2 - El Mundo, Madri, 29 de setembro de 2001. 3 ’-Citado por Jean-Claude Buisson em Le Siècle rebelle. Dictionnaire de la contestation au Xxe siècle, ed. Larousse, Paris, 1999.




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