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A cultura como fator da realpolitik

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A globalização insere-se no contexto contraditório de Estados-nação e processos político-econômicos supra-nacionais. Homogeneização e diferenciação caminham juntas. Mas que forma assumem a convergência da tradição cultural e as novas tecnologias?

Constantin Von Barloewen - (01/11/2001)

Os Estados nacionais perdem ainda sua soberania em razão da virtualização da economia mundial, que parece já não ter uma referência central

Desde o fim do conflito Leste-Oeste, assiste-se, de um lado, à globalização da comunicação e das finanças e, de outro, a uma fragmentação e a uma atomização de políticas através dos conflitos que irrompem no mundo inteiro. Quase se pode falar de uma “etnicização” das relações políticas e econômicas internacionais. Os Estados nacionais perdem ainda sua soberania em razão da virtualização da economia mundial, que parece já não ter uma referência central. Carl Friedrich von Weizsäcker falou de uma “política interna mundial”.

Ela giraria, cada vez mais, em torno de um problema de Arquimedes: a relação com o outro, as relações entre a representação de si e do outro. As identidades modernas tornam-se mais dissociadas e, finalmente, mais díspares. Com uma freqüência cada vez maior, os conflitos mundiais eclodem por razões culturais e religiosas e o antagonismo Leste/Oeste não mais determina as identidades. Atualmente, a globalização cultural insere-se no contexto contraditório dos Estados-nação, de um lado, e dos processos econômicos, político-tecnológicos supra-nacionais, de outro. De fato, homogeneização e diferenciação caminham juntas. Mas que forma assumem a convergência da tradição cultural e as novas tecnologias?

Sem um pólo de universalidade coerente

Os grandes atores ocidentais da política e da economia internacionais pressionam maciçamente o resto do mundo para impor a modernização tal como a entendem. Ora, as sociedades e as culturas que sofrem tais pressões entram em conflito consigo mesmas. São particularmente visadas as culturas do islã, bem como aquelas tradicionais do Cáucaso, as culturas antigas da África e as de alguns países da América Latina ou da Ásia. Testemunhamos um conflito político e econômico virulento sobre a natureza da ordem e da identidade públicas. A revolta contra a modernidade ocidental e a manipulação política do conceito de identidade desemboca em conflitos fundamentalistas, como na Argélia ou no Afeganistão, no Sudão, na Índia e no Paquistão. As tendências fundamentalistas são essencialmente antimodernas. Contudo, a tomada de consciência das diferenças culturais pode desembocar também na reivindicação de um diálogo intercultural como base de qualquer nova ordem política. Daqui por diante, tudo está fora de controle.

Os grandes atores ocidentais da política e da economia internacionais pressionam o resto do mundo para impor a modernização tal como a entendem

Como poderá o mundo se adaptar a essa multiplicação de identidades? Por enquanto, ao invés de desembocar numa “unificação cultural”, a globalização provocou uma padronização técnica, uma uniformização sem verdadeira unidade. A cultura atual já não é a cultura de um lugar, mas a cultura de um momento.

A profunda crise estrutural dos países em via de desenvolvimento mostra o quanto é dolorosa a transição para a modernidade. Vivemos o tempo da politização das diferenças culturais como forma extrema das tendências fundamentalistas. A consciência da cultura transforma-se em trampolim para antagonismos políticos com a busca individual exacerbada da identidade, busca em que os movimentos mais radicais levam vantagem. A civilização mundial perdeu o pólo da universalidade coerente, substituído pelas inúmeras universalidades que lutam por sua hegemonia.

As lógicas do pensamento e da ação

As crises econômicas dos últimos anos - particularmente as de 1997 e de 1998 na Ásia, no Brasil e na Rússia - não levaram a nenhuma autocrítica séria por parte dos especuladores globais do mercado de capitais, tampouco a uma profunda rediscussão do sistema. Contudo, uma coisa torna-se evidente: o liberalismo da economia mundial não pode mais ser considerado um dogma infalível. Já não pode ser transposto para os sistemas econômicos do mundo sem o conhecimento da história cultural e religiosa de cada país. Os valores culturais assumem, de repente, uma importância primordial para os fluxos dos capitais internacionais. De modo realista, disso se deveria concluir que todos os fatores determinantes para a economia e a política devem ser levados em conta no cálculo dos fatores de risco e no ajuste das estratégias de segurança - e, portanto, a cultura e a religião. Trata-se, atualmente, de pôr em condições de funcionamento um sistema de alerta, e o ex-presidente alemão, Roman Herzog, falou até num “imperativo político de segurança pública”.

A revolta contra a modernidade ocidental e a manipulação política do conceito de identidade desemboca em conflitos fundamentalistas

Devemos, então, nos colocar uma questão elementar: por que esse desenvolvimento é possível na Europa ou na América do Norte e é impossível no Quênia, na Arábia Saudita ou no Brasil? Para responder a isso, é preciso compreender cada fator que contribui para o desenvolvimento do Estado e de sua economia sob uma forma holística1 . As análises financeiras se ressentirão disso. Subestimada até o presente pela realpolitik, a história cultural revela-se indispensável para compreender as verdadeiras lógicas do pensamento e da ação de uma sociedade e de sua economia - o movimento interno. É surpreendente, e ao mesmo tempo perigoso, que os especuladores globais aprendam tão pouco com as crises. Em vez de mudança nas estruturas do sistema e consideração dos fatores culturais e religiosos, só se fizeram reformas de fachada.

Cultura e desenvolvimento econômico

Por que se deve mudar de paradigmas, respeitando-se a política e a economia? Com que esclarecimento contribui a conscientização da dimensão cultural e antropológica da economia e da política? A vida humana tem uma particularidade: manifesta-se sob uma extraordinária diversidade de formas. Em antropologia, convencionou-se chamar de “cultura” essa diversidade de modos de vida.

Ter êxito numa política econômica de desenvolvimento a longo prazo pressupõe apreender os parâmetros culturais dominantes e deles deduzir “elementos de planejamento” operacionais. Com freqüência cada vez maior, os dirigentes políticos e econômicos constatam que projetos de política de desenvolvimento tecnicamente “corretos” não preenchem todos os seus objetivos ou são ineficazes. Somente as análises especializadas do ambiente cultural podem assegurar o êxito de um projeto de desenvolvimento econômico. Trata-se de compreender as diferentes culturas através dos valores que lhes são próprios. Os especialistas em economia devem considerar que cada realidade é também uma realidade cultural tal como se expressa nos pensamentos e nos atos, inclusive nas ações econômicas. Na Rússia, os economistas ocidentais tiveram que constatar, após anos de implantação da economia de mercado capitalista, que o país não estava preparado para receber essa terapia de choque em virtude, principalmente, do peso das tradições endógenas. Há uma relação de causa e efeito entre a cultura e o grau de desenvolvimento econômico.

O novo, o futuro e a tomada de decisões

A civilização mundial perdeu o pólo da universalidade coerente, substituído pelas inúmeras universalidades que lutam por sua hegemonia

Se a economia decorre das tradições culturais e religiosas, não se pode esperar dela uma racionalidade universal. Isso vale também para as análises em termos de “países-risco” e para as decisões relativas a investimentos. Por isso a contribuição da antropologia. Por que a taxa de poupança é de 50% em Cingapura e de apenas 9% no México? Qual é a influência da tradição asiático-confuciana em relação à cultura católica? As lógicas do pensamento e da ação são específicas do espaço e do tempo. Para se poder prever os riscos de investimentos internacionais, seria desejável dispor de um atlas geo-cultural. Da orientação de uma cultura para a contemplação ou, ao contrário, para a ação, dependerão sua capacidade de invenção, seu gosto de empreender e de investir, ou suas capacidades tecnológicas. É decisivo saber se a tecnologia é compatível com a cultura e a religião, se as novas tecnologias devem ser introduzidas na América Latina, impregnada por uma forte cultura transcendental desde a escolástica católica do século XVI, com sua ética do trabalho, na Índia, com sua crença na reencarnação, que tem repercussões sobre a organização do trabalho, no Japão, com sua tradição do xintoísmo e seu princípio do consenso na tomada de decisão, ou na cultura norte-americana calvinista, com sua herança puritana do “destino manifesto”, isto é, o sucesso material aqui na terra e a recompensa no além.

É que a história do pensamento reflete o sistema de valores de uma cultura que influi sobre o conjunto da sociedade. Cada sistema econômico tem um “capital cultural” que lhe é próprio. Uma política de desenvolvimento é mais que uma simples transferência de tecnologias. A aplicação dos critérios das sociedades industriais nos países emergentes leva, com freqüência, a erros. Trata-se de considerar fatores culturais primordiais: as estruturas religiosas, a representação de Deus, os mitos, o culto dos antepassados na África (da Nigéria até Madagascar), a relação do homem com a natureza, com o sobrenatural e com a morte, a atitude em relação ao meio-ambiente como condição para um comportamento ecológico, a relação com o tempo, com o solo e com a propriedade, o reconhecimento da autoridade e do poder, a aspiração ao lucro, ao crescimento e ao desempenho, a atitude em relação a tudo o que é novo, o sentido do futuro, a capacidade de formar elites, os modos de tomada de decisões.

A história cultural do ser humano

Se a economia decorre das tradições culturais e religiosas, não se pode esperar dela uma racionalidade universal. Por isso a contribuição da antropologia

A cultura não é só folclore e ornamentação; representa uma força decisiva para o desenvolvimento. Como a tecnologia não é neutra, deve adaptar-se para impedir a destruição da identidade cultural e até da instituição estatal. A homogeneização técnica acaba por padronizar e uniformizar todos os setores da vida e ameaça a diversidade das culturas que são o resultado de uma história.

Por ocasião do 150° aniversário do Royal Anthropological Institute de Londres, o antropólogo britânico Ernest Gellner disse, acertadamente: “Onde os cientistas políticos e os economistas não avançam em sua análise, os antropólogos são chamados para encontrarem as respostas aos problemas urgentes. Isso pressupõe, evidentemente, que a antropologia assuma o estudo da humanidade em seu conjunto, e não apenas o das ‘outras culturas’.”

O atual nível do nosso conhecimento permite-nos compreender o ser humano como resultado de uma evolução ao mesmo tempo genética e cultural, fazendo aparecer um paradoxo: se a cultura resulta da ação humana, é igualmente verdadeiro que a ação humana resulta da cultura; se os genes condicionam as capacidades mentais do homem, estas canalizam suas aquisições culturais. A história cultural do ser humano, tal como se expressa através de comportamentos simbólicos, como a linguagem, a capacidade de invenção técnica e a troca de relações entre comunidades, remonta a 20 mil ou 25 mil anos, quando o paleolítico superior se consolidava. Foi uma época de difusão acelerada, de invenções rápidas e de grande desempenho artístico, em que o fator cultural, por sua vez, reforçou a evolução puramente genética.

Identidade cultural e religiosa

Como a tecnologia não é neutra, deve adaptar-se para impedir a destruição da identidade cultural e até da instituição estatal

Impõe-se uma lição, antes de tudo para o século XXI: as alianças políticas e as cooperações econômicas devem ser precedidas de um diálogo entre as culturas e as religiões. Tal recomendação, com o objetivo de assegurar a paz, já foi feita por analistas previdentes, como Georges Dumezil e Claude Lévi-Strauss, ou ainda pelo economista Amartya Sen2. Isso se revela mais difícil que nunca. O Ocidente deve participar desse esforço, porque o direito de decisão já não pode ser delegado a um único Estado.

Dessa forma, o diálogo intercultural, ou melhor, intracultural, torna-se o problema existencial da futura realpolitik. É indispensável repensar a relação no universo múltiplo das culturas. Um equilíbrio fundado unicamente sobre a estratégia militar não será suficiente para garantir uma paz duradoura. É necessário também um desarmamento das culturas. Durante sua longa história de evolução, o ser humano não se tornou apenas parte integrante de um Estado: antes de tudo, ele pertence, como membro, a uma cultura e a uma religião. E é aí que se encontra a chave para qualquer solução perene de polilogia das culturas.

Uma coisa parece clara: a globalização econômica e material não leva, definitivamente, à união pacífica da humanidade, como se nos quis fazer acreditar, mas, antes, a uma uniformização perigosa. Devemos mudar de rumo. A universalidade de uma cultura não se expressa através de sua reivindicação de absoluto, e sim, através de sua abertura para o mundo. Minha própria cultura está sempre confrontada com a dos outros, o outro sendo também eu-mesmo.

As premissas de uma interculturalidade

As alianças políticas e as cooperações econômicas devem ser precedidas de um diálogo entre as culturas e as religiões

A representação simultânea de todas as culturas e países do mundo a que assistimos é um fenômeno inédito na história da humanidade, e deve ser levado em consideração na ordem mundial. A civilização do século XXI não deve ter um caráter dogmático, mas aspirar ao diálogo. Não deve ser centralizadora, e sim, intercultural, em todos os aspectos da vida.

Finalmente, coloca-se a questão da relação entre a unidade e a diversidade na civilização planetária futura. As Nações Unidas não são apenas mais de 180 países, mas também, e principalmente, vários milhares de tradições culturais e religiosas. O internacionalismo da economia mundial só pode ter sucesso a longo prazo se enfrentarmos a história no contexto dessa “instantaneidade absoluta”, que já não se concentra em um lugar, mas em um tempo que nos devora a todos.

O século mostrará se estamos à altura dessa tarefa política e se podemos traduzir em atos a idéia de que a especificidade de uma cultura só pode desabrochar no encontro com outras culturas. Veremos talvez as premissas de uma interculturalidade, garantia da paz e da sobrevivência do homem. O encontro entre culturas e religiões, bem como a relação entre tecnologia e cultura, não são fenômenos sociais novos. Mas na civilização mundial do século XXI, impõem-se como urgência política em cada parte do globo geo-estrategicamente importante.

A história da evolução abre-se para uma perspectiva de futuro, pois, para além de todas as religiões e de todas as culturas do mundo, escondem-se, afinal de contas, elementos comuns a todos os seres humanos.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - N.R: Que leva do conhecimento do particular para o conhecimento do todo.
2 - Ler, de Amartya Sen, “O trunfo da liberdade”, Le Monde diplomatique, setembro de 2000.




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