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HISTÓRIA/GUERRA DE 14-18

Uma memória de luto

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O sentido conferido à morte no campo de honra, procurando torná-la tolerável e convertendo-a em um símbolo, obscureceu-se à medida que aumentou a distância em relação ao evento. Essa morte, atualmente, é vista cada vez mais como uma perda irreparável

Carine Trevisan - (01/11/2001)

Em 25 de maio de 2000, quase um século depois de sua morte, foi exumado, na França, o cadáver de um soldado canadense, morto em abril de 1917, e finalmente, enviado de volta a seu país. Nada se sabe desse soldado: nem o nome, nem a idade, nem a origem. Known unto God (conhecido apenas Deus), ele foi escolhido para a suprema das homenagens militares: representar todos os canadenses mortos na França durante a Grande Guerra, mortos sem sepultura. Diante do caixão desse corpo deixado no anonimato definitivo, uma vez que foi denominado “Soldado Desconhecido”, sucedem-se os discursos: discursos de comemoração, discursos de exaltação, discursos de consolação: “Eles não envelhecerão como nós, que sobrevivemos... Nós nos lembraremos deles.”

80 anos depois, parece que a memória da primeira guerra de massas, catástrofe inaugural do século, está dominada por um luto velado, porém insistente

Oitenta anos depois, parece que a memória da primeira guerra de massas, catástrofe inaugural do século, está dominada pelo luto. Um luto velado, porém insistente, uma vez que as razões do massacre e os valores em nome dos quais se lutou – questionados, inclusive, durante a guerra – perderam progressivamente qualquer significado para as gerações futuras. O sentido conferido à morte no campo de honra, que procurava torná-la tolerável convertendo-a simbolicamente – morre-se “pela’” França, “pela” liberdade, “para” defender a civilização contra a barbárie, até “para” que não haja mais guerras – obscureceu-se à medida que aumentou a distância temporal em relação ao evento. Essa morte, atualmente, é vista cada vez mais como uma perda irreparável.

A “mais nobre” civilização

Desde os anos de guerra e de pós-guerra, apesar do imenso esforço coletivo para prestar honras póstumas a mortos que, na maioria dos casos, foram privados de funerais – porque quase sempre mortos em condições atrozes – e para consolar os vivos, alguns sobreviventes e enlutados, diz-se que a dor de uma perda é dificilmente apaziguada. O luto da guerra não foi negado, ao contrário, ocupou bastante a cena – nos monumentos e nos cultos aos mortos – mas a dor não se tornou mais tolerável por ser o destino comum. Atormentado por uma perda que é sua, dificilmente compartilhável, o enlutado de 1914 nunca encontrou uma compensação no discurso de glorificação da morte em combate ou na idealização do combatente, cujos fundamentos foram destruídos pelas condições da guerra industrial.

O luto da guerra não foi negado, ao contrário, ocupou bastante a cena, mas a dor não se tornou mais tolerável por ser o destino comum

Em Ceux de 14 (Os de 14), Maurice Genevoix concebe o combatente muito mais como um animal de combate, ou melhor, um ser reduzido ao estado de autômato que faz a oferenda de seu “sofrimento obscuro”, do que como um francês a quem seu país pediu que o defendesse. Ao destacar a vitimização do soldado – numa guerra em que praticamente não se vê quem se mata, mas constantemente os que tombam a seu lado – ou, inversamente, ao enfatizar a nova brutalidade de seres que jamais se acreditaria “serem capazes disso, por participarem da mais nobre civilização1”, esta guerra veio abalar os princípios do discurso patriótico de consolação que, para transformar a morte em algo pensável e admirável, encobre o horror. Roland Dorgelès, ao evocar a cerimônia de escolha do corpo do soldado desconhecido francês, em 1920, fala da amplitude do trabalho de camuflagem e edulcoração da violência: “Ontem foi trazido o corpo massacrado de um soldado; amanhã, partirá um herói legendário2”.

A crueldade da morte horrenda

Apesar do esforço feito em 1914, mais do que antes, para glorificar e até santificar a morte em combate, apesar da construção do monumento – que pode ser considerada a chave ritual da casa dos mortos e sinal de que o luto acabou – as lágrimas de pesar íntimo permanecem e conduzem à indagação da possibilidade de um controle coletivo da perda na guerra de massas. As margens do espaço oficial da comemoração e os rituais sociais do luto foram, na década de 20, povoadas por enlutados surdos aos discursos cívicos que tentavam justificar o injustificável e controlar a emoção: “Sequem suas lágrimas; os mortos merecem mais do que lágrimas e chorá-los por muito tempo seria supor que morreram em vão, renegar os ideais pelos quais combateram”; era esse o mote dos discursos.

Atormentado por uma perda que é sua, o enlutado de 1914 nunca encontrou compensação no discurso glorificando a morte ou na idealização do combatente

Ora, não é fácil estancar a selvageria dessa guerra e a violência a que foram expostos os corpos, “reduzir” o traumatismo que foi a ultrapassagem de um limiar de violência – o que o historiador George L. Mosse denominou, acertadamente, a “brutalização” do conflito3 – quando, pela primeira vez, a dignidade do humano, a própria morte, foi roubada. Rostos rasgados, gargantas cortadas, corpos literalmente pulverizados, profanação de cadáveres, às vezes utilizados como uma matéria qualquer (escudos, marcos de orientação nas trincheiras). Ao eufemismo, à boa dicção ou à abstração desencarnadora da morte no discurso de exaltação e funcionando como a transubstanciação da carne em verbo, corresponde a preocupação – em vários depoimentos – da precisão anatômica, a crueldade das imagens de uma morte horrenda e de cadáveres privados das atenções habituais, cadáveres desaparecendo no inominável, dejetos repugnantes, mas que ainda assim, são vestígios de homens. É a última imagem do morto, muitas vezes torturado, que fica impressa fortemente nos textos e memórias dos sobreviventes, imagem que nunca se apaga inteiramente.

A dádiva do soldado desconhecido

A invenção do soldado desconhecido é, nesse sentido, particularmente eloqüente. Era necessário um corpo para dar aos enlutados que não reencontraram seus mortos uma sepultura em que pudessem ser recolhidos, porém este corpo, escolhido entre oito corpos exumados nos campos de batalha, enterrado sob o Arco do Triunfo em 28 de fevereiro de 1921, é antes de tudo uma abstração. Não é mais uma carne, é um signo do qual se espera que ocupe o lugar de todos os corpos não identificados, mas também que imortalize a “valentia francesa” do soldado vencedor, a abnegação e o heroísmo.

Quanto ao enlutado, ele necessita salvar o seu “morto”, reapropriar-se de quem lhe foi retirado pelo Estado e, em seguida, pulverizado pela guerra. Ao protestar contra o que considera um rapto cívico, recusando-se a reconhecer os seus nos despojos sem nome reunidos nas grandes catacumbas, recusando a dádiva do corpo anônimo do soldado desconhecido, ele cria formas e práticas na tentativa de superar a experiência da perda e da ausência. À opulência do memorial militar opõem-se os frágeis relicários privados, onde são conservados restos de objetos, espécies de ersatz do corpo desaparecido ou enterrado em algum lugar distante, nos cemitérios usualmente considerados casernas post mortem. À tentativa coletiva de pôr fim ao luto – “Vocês, que tantas vezes vimos errantes […], procurando o nome, o vestígio de seus bem-amados,[...] visitem a catacumba. Eis a tumba que provavelmente contém algo dele”, declara monsenhor Ginisty por ocasião da inauguração da primeira parte do monumento de Douaumont em 1927 – corresponde a insistência teimosa, às vezes louca, que leva as famílias a procurarem os corpos e suas improváveis sepulturas.

Os fantasmas da ascendência

Maurice Genevoix concebe o combatente muito mais como um animal de combate do que como um francês a quem seu país pediu que o defendesse

A Grande Guerra é uma boa representação do desastre matricial: reconhece-se ser ínfima a diferença que pôde separar, nos conflitos posteriores, o cadáver de guerra de um dejeto eliminado, como se faz com o lixo, e repetição apavorante, ao longo do século, da figura da mulher enlouquecida por não poder reencontrar o corpo de seu filho, irmão ou amante. Por isso foi chocante o dispositivo adotado na cerimônia de maio de 2000. O túmulo do desconhecido, localizado na parte inferior do monumento de Vimy, erigido no ponto mais alto do pico de Vimy, onde morreram, em abril de 1917, mais de dez mil soldados. Sobre os muros que cercam o colossal monumento de luto – que se apóia numa base de onze mil toneladas de concreto reforçado por centenas de toneladas de aço, ornamentado com estátuas para as quais foi importado um carregamento do Adriático de seis mil toneladas de pedra calcária – estão gravados os nomes de 11.285 canadenses mortos na França, cujas sepulturas são desconhecidas... A opulência do memorial e da cerimônia de comemoração parece estar na razão inversa daquilo que falta: corpos identificados, enterrados de acordo com certos rituais.

Se o luto persiste, se os mortos que repousam nos imensos cemitérios do front da Grande Guerra nos parecem estranhamente próximos, não é apenas porque duas ou três gerações nos separam – e, testemunhas de uma história passada, eles ainda são dos nossos – mas também por que retornam, de formas inesperadas, para atormentar nosso presente, nossos discursos e nossas fábulas. Prova disso está não só no sucesso de um filme como La Vie et rien d’autre, de Bertrand Tavernier, como também na importância que esta guerra assume nessa nova forma de autobiografia que é o “o relato de filiação4”, que toma a forma de busca, ou pesquisa, sobre a ascendência, sobre os membros fantasmas, onde a pergunta sobre a identidade é perpassada por uma interrogação sobre a transmissão: qual é minha herança? Que fantasmas me visitam? Como pensar os laços de filiação num século em que eles foram maltratados pela história?

Dar voz aos “silêncios da história”

Não é fácil estancar a selvageria da guerra e a violência a que foram expostos os corpos, quando, pela primeira vez, a dignidade do humano foi roubada

Leiam-se os textos de Claude Simon – atormentados pelo corpo ausente do pai, desaparecido desde 1914 –, de Jean Rouaud – onde a morte na guerra é considerada a origem obscura dos sucessivos lutos que se irão abater sobre a família do narrador –, de Pierre Bergounioux, que diz dessa guerra: “Eu estava lá, através daqueles que sinto que me habitam5”. No prolongamento de um belíssimo texto de Albert Camus, Le Premier homme, cuja redação foi interrompida pela morte do autor em 1960 e publicada apenas em 1994, estes órfãos ou descendentes de órfãos confrontam-se, nos seus relatos, com a amputação de uma parte das raízes de suas identidades.

Esses textos dedicam-se, por exemplo, a restituir um corpo e um rosto singulares àqueles que a história engoliu, a salvá-los da contabilidade gélida dos grandes números, a retirá-los da grande massa de mortos. Ao túmulo anônimo do pai de Claude Simon, à obscuridade do destino do pai de Camus – convocado como zuavo (infantaria argelina), ele submerge, a partir de 1914, em uma “tragédia incompreensível”, longe de sua pátria da carne, a Argélia – corresponde o livro assinado em nome do filho, que testemunha em nome do pai mudo. Janine Altounian, armênia, filha, de certa forma, do milagre – seu pai foi um dos poucos sobreviventes do genocídio de 1915 – descreve de forma iluminada o trabalho de elaboração que deve fazer um descendente ao procurar circunscrever a violência sofrida por seus ascendentes, quando foram vítimas de uma catástrofe coletiva que quase sempre os enlouquece para sempre6. “É preciso dar voz aos silêncios da história”, escrevia Michelet, “essas terríveis pausas em que ela se cala e que são exatamente seus aspectos mais trágicos7.”

A renovação historiográfica de 14-18

A invenção do soldado desconhecido é eloqüente. Era necessário um corpo para dar aos enlutados uma sepultura em que pudessem recolher seus mortos

Da volta a suas origens catastróficas e sangrentas, no final do século, podem agora ser dadas razões históricas: o colapso do bloco comunista, a queda do Muro de Berlim e a recomposição do mapa da Europa herdada de 1918, o sentimento, com a destruição de Sarajevo, da repetição sinistra do incidente – o assassinato do arquiduque Francisco-Ferdinando da Áustria –, estopim da primeira guerra. Também é possível explicar esse interesse por meio da difícil e complexa gênese de uma memória da Grande Guerra. Tudo se passa como se, na década de 30, o pós-guerra terminasse numa pré-guerra e não houvesse o prazo necessário para a elaboração da memória. E, após a II Guerra, o trabalho de memória foi interrompido e abafado pelo confronto com o impensável horror do genocídio dos judeus.

Refeita das conseqüências, a Grande Guerra permite questionar a inscrição psíquica de um acontecimento de violência inaudita em uma memória transgeracional. Essa violência manifesta-se de forma mais acentuada ao remeter à problemática da perda e à nova experiência da barbárie. Não causa surpresa que os trabalhos que inauguraram a renovação historiográfica de 14-18 – especialmente, os de Antoine Prost – e estabeleceram os fundamentos de uma história cultural da Grande Guerra representada, entre outras, pelas obras de historiadores que dirigem o Historial da Grande Guerra de Péronne, inaugurado em 1992 – referem-se aos monumentos aos mortos ou ao inferno inconcebível deste “lugar de memória” predileto que é Verdun.

Uma terra de ferros e cadáveres

À tentativa coletiva de pôr fim ao luto corresponde a insistência teimosa que leva as famílias a procurarem os corpos e suas improváveis sepulturas

É sob esse mesmo prisma que o historiador norte-americano Jay Winter aborda a guerra, em seu belo estudo Lugares de memória, lugares de luto, A Grande Guerra na História Cultural da Europa (Sites of memory, sites of mourning, The Great War in European Cultural History)8, ou ainda Stéphane Audoin-Rouzeau, nos recentes cinco relatos de luto de guerra, que tornam sensível a difícil aceitação da morte em combate, apesar do “consentimento” inicial à guerra9. Esta guerra, nesse caso, representa a cena inaugural: não apenas por ter sido berço do século que herdou sua inconcebível barbárie, mas também pelos textos teóricos que começaram a pensar o luto – o artigo fundador, de Freud, “Luto e melancolia”, aparece em 1916.

A destruição da terra é um lugar-comum no relato de guerra, o atentado à paisagem em toda sua amplitude, nas cenas de ataque com gás, onde a natureza não tem qualquer familiaridade. O importante, contudo, é menos a desfiguração da paisagem, que logo chocaria um olhar esteta, e mais a esterilização de uma terra impregnada de ferros e cadáveres. Os ossos abandonados já não são, neste caso, o germe simbólico de uma existência futura. A representação barrésienne10 da terra como fundação, lugar de “enraizamento”, fica fortemente ameaçada. Ao contrário, durante a guerra, no seu estado instável, que parece perpetuamente lamacento, ela torna-se voraz, devoradora, submergindo os corpos vivos. A descoberta recente de enormes reservas de obuses datando de 14-18 – que ameaçavam a população de uma aldeia inteira, obrigada a deixá-la – confere aparência de uma profecia sombria ao que poderia parecer, na década de 20, um fato de uma imaginação melancólica ou mórbida.

O poder surdo de desestabilizar

Descobertas de despojos macabros e de uma máquina mortífera ainda potencialmente ativa constroem um passado-presente e perturbam a distância temporal

Quando as personagens de um velho romance da década de 20, Baltus le Lorrain, descobrem Verdun, a “região dos mortos”, é enfocado o esgotamento quase definitivo da vida vegetal: “Havia lá, praticamente, uma proibição de vida às raízes e às sementes. Para além do cercado, que corria de forma incerta e denteada, na imensa paisagem, a modelagem da terra sem árvores, sem colheita, sem pasto, era visível. Que desastre a haveria tornado tão estéril? 11” Esta terra não somente está morta, como está envenenada, nada mais há a colher a não ser ferragens e ossos. Não produz mais nada vivo, parece pôr no mundo, apenas, os mortos. Em Le Réveil des morts, de Roland Dorgelès (1923), é um camponês que, trabalhando a terra, faz com que os mortos apareçam, parecendo nascidos – mortos-vivos – da terra. A terra no front continuará, durante todo o século, a “dar” mortos. Órfão de 14, Paul Ricoeur conta que não soube durante muito tempo se seu pai estava morto de fato – os filhos só receberam um comunicado de desaparecimento. E só em 1932 foi encontrado seu corpo, “revolvendo um campo12”.

Estas descobertas, de despojos macabros e de uma máquina mortífera ainda potencialmente ativa, constroem uma espécie de passado-presente e perturbam a medida da distância temporal. Esta guerra, que pode parecer pré-histórica – diante do terrível progresso na sofisticação e no poder de fogo dos meios de destruição desenvolvidos ao longo do século XX – guarda nessas inesperadas recorrências seu surdo poder de desestabilizar. Os arqueólogos das regiões do Norte e da Picardia, por exemplo, encarregados de examinar o traçado das auto-estradas e dos trens-bala, exumam constantemente os vestígios da I Guerra – munições e materiais militares, e também “sepulturas” de homens. A descoberta de vestígios não se dá apenas por acaso. Sabe-se do incrível interesse suscitado pela escavação, em 1991, de uma ossada onde se encontrava o corpo de Alain-Fournier, desaparecido em 191413. Dedicada à exploração de um passado longínquo, a arqueologia, entra aqui em um campo que também não é mais o da história – como campo do passado –, mas da memória. O que o pesquisador traz à luz não é mais um morto indiferente, mas talvez um morto próximo, que não o remete a um universo longínquo e estranho, mas conhecido, quase familiar.
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Sigmund Freud, “Considérations actuelles sur la guerre et la mort” (1915), Essais de psychanalyse, ed. Payot, Paris, 1981.
2 - Bleu Horizon. Pages de la Grande Guerre, ed. Albin Michel, Paris, 1949.
3 - De la Grande Guerre au totalitarisme. La brutalisation des sociétés européennes (1990), ed. Hachette, Paris, 1999.
4 - Ler, de Dominique Viart, “Filiations littéraires”, Ecritures contemporaines 2, ed. Minard, Paris, 1999.
5 - Le Magazine littéraire n. 378, julho-agosto de 1999.
6 - “Ouvrez-moi seulement les chemins d’Arménie”. Um génocide aux déserts de l’inconscient, ed. Les Belles Lettres, Paris, 1990.
7 - “L’héroïsme de l’esprit”, Oeuvres complètes IV, ed. Flammarion, Paris, 1974.
8 - Editado pela Cambridge University Press, Cambridge, 1995.
9 - Cinq deuils de guerre. 1914-1918, ed. Noêsis, Paris, 2001.
10 - Escritor e político, Maurice Barrès (1862-1923) encarna um nacionalismo que o levou, por exemplo, a defender o exército durante o famoso affaire Dreyfus.
11 - Ler, de René Bazin, Baltus et Lorrain, ed. Calmann-Lévy, Paris, 1926.
12 - La Critique et la Conviction, entrevista com François Azouvi e Marc Delaunay, ed. Calmann-Lévy, Paris, 1995.
13 - Ler 14-18 aujourd’hui, ed. Noêsis, Paris, 1999.




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