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CINEMA

Um olhar sobre o Afeganistão

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Moshen Makhmalbaf, cineasta iraniano, introduziu-se clandestinamente no Afeganistão. Kandahar é fruto do que viu e aprendeu. Usando a câmera como um gravador, ele nos conduz, entre ruínas e poeira, ao coração da miséria e do medo

Philippe Lafosse - (01/11/2001)

Um médico fala a uma criança, que repete suas palavras. Uma voz de mulher responde, descrevendo seus sintomas ao menino, que os retransmite ao homem

Última lição: garotinhas aprendem a evitar as minas.São seus últimos momentos antes de entrar no Afeganistão, país onde não terão mais acesso à educação e onde deverão evitar pegar bonecas do chão. Perto delas, a câmera capta sua presença, sua escuta atenta, depois filma os grupos de homens, mulheres e crianças antes de sua partida para uma terra atualmente sem imagens. Imóveis e mudos, eles posam. Última tomada, testemunhando sua existência. Uma existência, todavia sem rosto, para as mulheres obrigadas a desaparecer sob seus tchadri – as “cabeças pretas”, como são chamadas.

Em uma escola afegã que forma religiosos, prosternados diante do Corão, meninos aprendem a veneração das armas (faca, kalachnikov...).

Em sua casa, um médico dá consulta. Fala a uma criança postada diante dele, que repete suas palavras. Uma voz de mulher responde. Atrás de um pano estendido onde foi feito um furo, a mulher – só se descobriria mais tarde – descreve seus sintomas ao menino, que os transmite ao homem, que se dirige por sua vez ao menino para se comunicar com a doente. É através do furo que o médico examina uma garganta, um olho... e decide-se por um remédio sumário.

Violência árida, como a paisagem

Quando a ajuda internacional lança algumas próteses, inválidos correm para elas, claudicando numa dança que diz tudo sobre a desgraça deste país

O homem é, na realidade, um norte-americano, vindo para lutar contra os soviéticos e para procurar Deus. Desde que os russos foram embora, ainda não encontrou Deus e exibe desde então uma barba falsa, para não ser incomodado. Sem comentário. Nos Estados Unidos, ele não era médico. Tornou-se médico aqui porque o pouco que ele sabe já é muito para as necessidades de uma população desesperada, faminta, sobrevivendo na miséria mais total, e porque é cuidando dos outros, diz ele, que espera encontrar Deus.

Em volta de um acampamento da Cruz Vermelha, homens se comprimem. Perderam um dos membros e mostram seus cotos às enfermeiras, rogando por ajuda, esperando conseguir uma prótese por sorte. Quando a ajuda internacional lança algumas, eles correm para elas, claudicando numa dança que, na verdade, diz tudo sobre a desgraça deste país. Do céu, só caem algumas próteses macabras.

Árida como as paisagens, a violência está por toda parte, sobre os corpos, nos gestos, nas palavras e nos silêncios. Vêem-se as causas e as conseqüências, as feridas inesquecíveis. Ela é visível e invisível. Está em tudo, toma todas as formas. É o Afeganistão do povo, o Afeganistão dos enganos e das vítimas.

Adivinhando uma luz na obscuridade

A violência está por toda parte, visível e invisível. Está em tudo, todas as formas. É o Afeganistão do povo, o Afeganistão dos enganos e das vítimas

Nesses momentos, Nafas (a “respiração”) os descobre à medida que seu périplo avança, vindo da fronteira iraniana: jornalista afegã, refugiada no Canadá durante a guerra deflagrada pela milícia taliban, volta ao seu país para salvar sua irmã, que ficou em Kandahar, cidade santa do Sul, de quem recebeu uma carta informando sobre sua intenção de se suicidar. Tudo o que vê, Nafas grava na sua “caixa preta”, um gravadorzinho.

Depois de ouvir uma mulher exilada no Canadá, Moshen Makhmalbaf, cineasta iraniano – diretor, por exemplo, de Salam Cinema e Gabbeh1 e roteirista de La pomme e Le tableau noir – introduziu-se clandestinamente no Afeganistão. Kandahar2 é o fruto do que ele viu e aprendeu, um filme de ficção que tira sua força da simplicidade da narração e do seu ponto de vista documental. Com sua própria “caixa preta”, ele nos conduz, entre ruínas e poeira, ao coração da miséria e do medo.

Quando uma mulher levanta seu tchador, o sol, passando através do tecido de trama larga, imprime uma grade sobre seus olhos. Olhar de prisioneira. Ainda mais deserdadas, oprimidas e abandonadas que o resto da população, as mulheres são as primeiras vítimas. “Se cada pessoa acendesse a luz de sua vela, o sol seria inútil”, dita Nafas ao gravador. Sobriamente, Moshen Makhmalbaf tenta dar uma imagem àquelas que já não as têm desde a chegada do taliban, esse “exército da ignorância”. E devagar, como protegendo uma chama da intempérie, ele consegue nos fazer adivinhar a luz na obscuridade, uma luz que talvez não seja só do sol. Esquecida pela Humanidade, lá está uma luz a nos olhar.
(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - N.T.: Já exibido no Brasil.
2 - Em exibição, nos cinemas de São Paulo, desde 16 de novembro de 2001.




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